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A masculinidade do algoritmo: como a internet transformou risco em identidade

10 de junho de 202612min
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Mercados de previsão, plataformas onde usuários apostam dinheiro em eventos que vão de jogos de futebol a guerras e eleições, se tornaram uma indústria bilionária. O fenômeno atrai principalmente homens jovens e apresenta uma transformação mais profunda: a aposta deixou de ser apenas entretenimento ou investimento e passou a funcionar como uma forma de construir identidade, pertencimento e status em uma geração masculina cada vez mais perdida entre expectativas tradicionais e novas formas de ser homem.

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Participantes neste episódio3
F

Fernando Andrade

HostJornalista
M

Michel Alcoforado

ConvidadoAnalista
N

Nadedja Calado

Convidado
Assuntos5
  • Mercado da masculinidadeMercados de previsão · Masculinidade · Identidade masculina · Competição masculina · Gaslighting · Khaoshi · Polymarket · Luana Lopes Lara
  • Masculinidade tóxica e fragilidadeMasculinidade tóxica · Sofrimento individual e social · Onipotência masculina · Dificuldade em compartilhar fragilidades · Taxas de homicídio e suicídio
  • Crise de identidade e propósito pessoalConstrução de identidade · Status e reputação · O homem que sabe
  • Financiarização da EconomiaFinanciarização do futuro · Incerteza sobre o amanhã
  • Fraude e desonestidade em herançaFraudes em apostas · Acreditar em atalhos para o sucesso · Gamificação da vida
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FAFernando Andrade

Para onde vamos com Michel Alcoforado. Oi Michel, boa tarde, bem-vindo.

MAMichel Alcoforado

Boa tarde, Fernando Andrade. Hoje estamos bem acompanhados, né?

FAFernando Andrade

Sim, Nadedja Calado com a gente.

NCNadedja Calado

Olá, boa tarde!

MAMichel Alcoforado

Oi, Nadete, feliz de te ver de novo também.

FAFernando Andrade

Michel, vamos lá, a gente vai falar hoje sobre a relação das apostas, todo tipo de aposta, com a masculinidade. Se eu aposto, Michel, se eu ganho, eu performo melhor, eu vejo aquilo que ninguém viu.

MAMichel Alcoforado

Então tá na moda, tá na moda. É, que loucura! Tem que— loucura, que loucura! É aquele famoso jeito de parecer inteligente, você O mais burro de todos. Conta mais. Olha aqui, isso é, você sabe que o mercado de apostas no Brasil, né, já dominou todos os debates, já tá no Congresso Nacional um projeto pensando um jeito de regulamentar de uma forma mais séria a publicidade de bets. E é um assunto que não importa o cenário onde a gente tá, todo mundo de algum modo já se viu diante de alguém que faz uso desses aplicativos de aposta ou aposta ou já ouviu alguém que se ferrou apostando.

O que eu queria trazer aqui é um outro tipo de aposta que tá super na moda também, que é uma aposta de eventos futuros. E isso tá muito pautado em duas plataformas inglesas, uma inglesa e outra norte-americana, que têm dominado a maneira como os homens estão pensando a própria masculinidade. Essas duas apostas, elas estão diferentes um pouquinho do Tigrim ou aí dessas outras plataformas de bet que a gente tá acostumado, mas elas têm mais ou menos a mesma lógica.

Como é que elas funcionam? As pessoas se comprometem com dinheiro a decidir se algo, ou pelo menos a prever se algo vai ou não vai acontecer. Então o modelo de aposta não é só do jogo de futebol, não é só se a roletinha do aplicativo vai parar no jeito que você imaginava. Ela é voltada a eventos do nosso cotidiano. Então eles perguntam assim, estabelecem lá um conjunto de apostas: "Você acha que a inflação do Brasil vai ficar abaixo do 4% ou não vai?" E aí o pessoal vai lá, coloca um dinheiro dizendo: "Ah, eu acho que vai ficar acima de 4%." "Ah, que dia que você acha que a guerra dos Estados Unidos com o Irã vai acontecer?" "Vai parar?" E aí você vai lá, coloca um dinheiro dizendo: "Eu acho que é dia 17 de julho de 2027." Sei lá.

Dentro desse modelo, você tem um mercado que tá se estruturando em torno disso, que já tem até nome. Se chama bolsa de apostas de eventos futuros. As pessoas se comprometem diante de fatos do cotidiano, da história, da política, da economia, ou mesmo os eventos mais básicos do dia a dia, tentando estabelecer quem vai saber mais sobre aquilo que vai acontecer na manhã.

FAFernando Andrade

Só um detalhe, só um detalhe, Michel. Isso é proibido no Brasil?

MAMichel Alcoforado

É, é. Essas duas plataformas é proibido no Brasil. Essas duas plataformas, uma delas mais famosa chama Caucho, que foi inventada inclusive por uma jovem brasileira, que é a Luana Lopes Lara. É, a Luana, se eu não me engano, ela era bailarina e ela constrói uma trajetória de muito sucesso dentro do mundo da dança. Ela vai fazer parte dos estudos dela nos Estados Unidos, no MIT, que é um centro muito importante de tecnologia e inovação ali em Cambridge, no estado de Massachusetts.

E ela se junta com um americano de origem libanesa e inventam essa plataforma chamada Khaoshi, que hoje está valendo mais de 22 bilhões de dólares. Ou seja, Ela é vista como uma mulher brasileira de 29 anos, né, antes dos 30 anos, mais jovem ali, até aquela grana toda que essa plataforma tá dando para ela. E uma outra, uma plataforma também gringa que se chama Polymarket. E como é que elas funcionam? Desse jeito que eu te falei.

Qual é a questão? Antes a gente achava que esse tipo de previsão era coisa de vidente, né? A gente, sei lá, era coisa da mãe de Ná, da Márcia Sensitiva ou do que for. E agora eles estão fazendo uma pesquisa com a base de usuários dessas plataformas e descobriram que não, isso é coisa de homem. E é coisa de homem jovem. 71% dos apostadores nesse tipo de plataforma são homens com menos de 45 anos. E o que isso revela sobre o fenômeno social, sobre a cultura?

Primeiro ponto importante, a gente está falando de financiarização do futuro, né? A gente já não sabe nem o que vai ser o amanhã, que estamos apostando dinheiro para tentar imaginar o que vai ser esse amanhã. Mas eu tenho um segundo aspecto que ele tá diretamente relacionado à questão da masculinidade. Os homens, sobretudo no contexto brasileiro, inventam boa parte da sua identidade, da sua performance, do seu status e da sua reputação junto a outros homens e junto às mulheres na base da competição.

Então é muito comum, né? Não importa a idade, os meninos concorrem aí quem vai ter, quem tem o maior número de carrinhos, "Quem tem mais figurinha?" "Quem?" Depois que eles ficam mais velhos, disputam, sei lá, quem se deu melhor na noite, por aí vai. E a competição é um elemento importante na construção da masculinidade. Quando a gente pega essa plataforma digital e traz, né, pra dentro do dia a dia, obviamente, os homens entram de cabeça, porque faz sentido dentro dos seus mundos, mas, ao mesmo tempo, usam isso pra inventar sua masculinidade.

Então, quem ganha mais, quem se dá bem, tem mais sucesso dentro dessa plataforma, ganha relevância como um papel de homem, né, como uma ideia da maneira como inventa a própria noção de masculinidade. Mas tem um segundo papel interessante também, que tem tudo a ver com o jeito como os homens vêm inventando essa masculinidade, que é a ideia daquele que sabe, né. Os homens no Brasil, em outras partes também, isso é um fenômeno do Ocidente, constroem boa parte da sua identidade pela ideia daqueles que sabem tudo, né, da ideia de que sabem tudo.

Ao ponto disso virar um fenômeno com nome. As mulheres chamam isso de gaslighting, né? Que é quando os homens começam... Eu pensei que era burrice. Burrice é o nome em português, em inglês chama gaslighting. Ah, tá. Que é esse negócio de achar que tem que explicar pras mulheres tudo. Quando você começa a se dar muito bem num tipo de plataforma como esse, você tá dizendo: "Olha, eu não sei só sobre o presente, eu não sei só sobre aquilo que tá acontecendo no jornal." "Eu não sei só sobre os bastidores da política, da economia, da saúde, da vida dos outros e por aí vai, mas eu ainda sei sobre o futuro." E aí você sai, né, nas alturas, se achando supra-sumo.

Então, devagar, devagar aí com o pote, porque não faz muito sentido, né? Você tá querendo sair de inteligente sendo o mais burro de todos.

NCNadedja Calado

Tem um ouvinte aqui que falou: "Ué, proibido? Por que vocês estão divulgando?" Não estamos divulgando, veja bem. O Michel tá falando do fenômeno que leva, né, esse... Mansplaining. E a caixinha nem funciona no Brasil, tanto é proibido que não tem aqui.

MAMichel Alcoforado

É verdade. Se a gente tivesse divulgando, eu nem voltaria aqui na sexta-feira, porque meu cachê seria tão alto que eu não trabalharia nunca mais, igual alguns outros aí fazem.

NCNadedja Calado

Então a gente tá analisando o fenômeno na previsão, né? Michel Cofurado volta na sexta-feira? Não volta. Você mesmo aposta, você mesmo não volta, você mesmo fica bilionário. Oportunidade aí.

MAMichel Alcoforado

Pois é, isso é o melhor investimento de cachê da história da humanidade, né? Mas não é isso que a gente tá fazendo aqui, não. A gente, como faz as segundas, às quartas, às a gente tá entendendo o fenômeno.

FAFernando Andrade

Num caso como esse, a gente não tá prejudicando ainda mais a saúde de figuras que pensam desse, que agem desse jeito? A gente, os homens são aqueles que se matam mais, não tô adoecendo mais essa geração?

MAMichel Alcoforado

É, inclusive a gente já falou isso aqui, outros comentários, né? Masculinidade precisa de algum modo passar por alguma reinvenção, né? Ou por toda reinvenção, porque não só Não é só a sociedade brasileira que sofre diante de uma ideia de masculinidade que dá em fenômenos sociais que geram sofrimento pras mulheres, né, o número de feminicídios no Brasil só crescem, por aí vai. Mas individualmente também os homens sofrem muito com essa ideia de que precisam ser onipotentes em todas as medidas, né, são aqueles que sabem tudo, que podem tudo, que tão em todos os lugares.

Porque isso traz não só uma dificuldade de compartilhar suas fragilidades e vulnerabilidades, né? Porque não tem espaço pra isso. Porque como é que eu, que sou aquele que sabe tudo, que pode tudo, vou dizer pro outro que não tô podendo tudo, não tô fazendo tudo? Mas acho também que traz um outro dilema, que é viver uma encarnação atormentado pela ideia de que você pode mais do que os humanos podem. E que por conta disso você é mais especial do que os outros.

Isso, obviamente, é uma vida pautada nesse falso eu, que é impossível de se realizar. Porque nós humanos somos falhos, tem um custo psíquico gigantesco. E é ruim pra todo mundo, né? Inclusive, os dados mostram isso. Os homens vivem com as maiores taxas de homicídio e suicídio no cenário brasileiro, muito por conta das competições que estabelecem com outros homens, mas também por conta da dificuldade de lidar com suas próprias fragilidades e com as dificuldades internas.

NCNadedja Calado

É verdade. E aí, além de tudo, aí é um aspecto mais econômico, Michel, mas tenho visto tanta notícia de fraude nesse tipo de coisa. A gente brincou aqui com você mesmo apostando numa coisa que você mesmo controla, mas tem muito, teve aquele caso lá do funcionário do Google, enfim, que teria apostado ali na— não é apostar, é investir, teria investido ali que o nome mais procurado no Google em tal ano seria aquele. Ele acertou, mas ele era funcionário do Google, usou um dado interno. Então, além de tudo, tem uma canalícia.

FAFernando Andrade

Ah não, teve um militar americano também que apostou no dia que Maduro seria capturado, mas o cara participou da operação, foi preso. Que nem a gente fala com o Pascoal, ele é gênio com J.

MAMichel Alcoforado

Mas eu acho, eu acho que tem um aspecto que revela uma outra camada dessa vida doida que a gente tá enfrentando aí todos os dias, que é a ideia de acreditar que a vida tem atalhos, né? Eu brinco sempre que os jogos de videogame, de computador dominaram tanto as nossas vidas e a ideia de que tudo pode ser gamificado, que tem um atalho para você chegar no pote de ouro antes dos outros, que muita gente está acreditando nisso, né?

Eu não diria que há outro caminho para você conquistar sucesso financeiro ou sucesso profissional que não seja fruto ou de muito trabalho ou de herança. Então, dado que boa parte da sociedade brasileira não é herdeiro, dentro desse movimento, tô no gesto de trabalhar, né? Tudo que é um caminho mais fácil e se mostra como uma saída menos custosa para chegar naquilo que você imagina que é aquilo que você merece, aquilo que você precisa, em geral não dá bom não, né? Dá ruim, dá ruim.

FAFernando Andrade

Bom, só tenho uma certeza que a gente volta a se falar na sexta-feira. Isso eu consigo prever.

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