Episódios de Comentaristas

Envelhecer: uma decisão ou uma inevitabilidade?

12 de junho de 202610min
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Michel Alcoforado analisa o livro ‘A (difícil) decisão de envelhecer: reflexões sobre longevidade, cuidado e bem-estar social’, do pesquisador e professor da USP Jorge Félix. O especialista traz uma reflexão sobre o que é envelhecer e como essa experiência é moldada pela sociedade atual. Ouça.

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Participantes neste episódio2
S

Speaker C

Host
M

Michel Alcoforado

ConvidadoAnalista
Assuntos3
  • Envelhecimento PopulacionalAgeismo · Estereótipos sobre a velhice · Longevidade e mercado consumidor · Preconceitos na terceira idade
  • Preocupações Sociais dos BrasileirosDimensão social do envelhecimento · Individualização do tema do envelhecimento · Debate previdenciário · Mercado do cuidado
  • Envelhecimento e LongevidadeEnvelhecimento como problema social e cultural · Jorge Félix · Editora da Unicamp
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MAMichel Alcoforado

Para onde vamos com Michel Alcoforado?

?Voz C

Eu gravei a conversa com Michel um pouquinho antes do estúdio começar. Michel Alcoforado com a gente agora. Oi, Michel, bem-vindo!

MAMichel Alcoforado

Boa tarde, Fernando, tudo bem?

?Voz C

Tudo bem. Michel Coforado hoje com mais um livro. Hoje nós vamos falar sobre A Difícil Decisão de Envelhecer, de Jorge Félix. Que livro é esse, Michel?

MAMichel Alcoforado

Então, esse livro inaugura, ou diria melhor, né, ele reforça um debate que é super importante na sociedade brasileira, mas que tá reforçando aqui não só a importância do assunto, mas também a necessidade da gente discutir o tema do envelhecimento no Brasil. O Jorge Félix, ele é jornalista de formação, trabalhou um tempão na imprensa, Mas depois ele fez mestrado e doutorado em sociologia e se transformou em um dos nomes mais importantes do debate da gerontologia e dos processos de envelhecimento na sociedade brasileira.

Essa carreira dupla de ter frequentado as redações dos jornais e ao mesmo tempo ter investido muito esforço na sua formação universitária deu a ele uma capacidade difícil de encontrar nos meios acadêmicos. Ele fala de coisa muito complexa de um jeito fácil, sem perder a qualidade do argumento. E ele acaba de publicar esse livro, publicado pela Editora da Unicamp agora nesse finalzinho, agora mês passado, mas que revela a importância da gente debater esse assunto, que é o assunto do envelhecimento.

O nome do livro já é uma ironia por si só, se chama A Difícil Decisão de Envelhecer: Reflexões sobre Longevidade, Cuidado e Bem-Estar Social. Eu acho o título irônico porque a difícil decisão já é uma provocação. Porque obviamente, né, não é muito uma decisão envelhecer, mas a forma como a gente está sendo convencido diante desse assunto é quase como se fosse uma escolha, né? As pessoas estão perguntando a todo momento, quando você sai para trabalhar, quando você vai no médico, quando você vai na academia, quando você decide não fazer a dieta num dia e exagera: que tipo de envelhecimento você quer ter e que tipo de velho você quer ser?

Como se isso fosse uma escolha também, você entrar ou não na velhice. E essa ironia, ela tá muito pautada numa distinção que ele trabalha muito bem em outros tantos textos, inclusive nos seus livros anteriores, que é uma visão de que apesar do envelhecimento ter uma dimensão biológica que é inquestionável, a gente ao longo da vida, desde a hora que nasce até o nosso último suspiro, estamos imersos num ciclo de envelhecimento, a gente olha pra isso e precisa pensar isso como um problema social, como um problema cultural e como um problema complexo e que tem atravessado de forma muito importante diversas sociedades no mundo.

O Félix chama atenção que a gente nunca viveu ciclos tão importantes de envelhecimento acelerado em diversas gerações do planeta, mas a gente nunca lidou com populações idosas tão grande como a gente está vivendo agora. Olhando para o cenário brasileiro, isso revela uma dimensão importante da nossa complexidade. Até 2050, 1 em cada 4 brasileiros vão ter mais de 60 anos. E quando a gente olha para esse tema, os eixos de debate sobre esse assunto em geral têm colocado peso sobre o indivíduo, como você está envelhecendo e o problema é só seu.

E o Jorge Félix, como bom sociólogo que é, ele traz a dimensão social desse debate como um todo.

?Voz C

Ou seja, envelhecer não é um problema individual só.

MAMichel Alcoforado

Envelhecer não é um problema individual. Por quê? Porque é assim que os agentes econômicos e boa parte do debate público tá organizado. Porque quando a gente fala de velhice no Brasil, agora então, às vésperas da eleição, certamente o debate previdenciário vai se impor, né? Uma sociedade mais envelhecida, os modelos previdenciários que a gente tinha no passado, teoricamente, segundo os economistas, não dão conta de pagar aposentadoria de todo mundo.

Dado que eram os mais jovens que pagavam aposentadoria dos mais velhos. Se os mais velhos vão ganhar uma dimensão maior quem pagará suas aposentadorias. Então, a gente tem pensado muito envelhecimento só a partir de uma questão fiscal. E aí, ao contrário da gente pensar que modelo de sociedade é essa que vai financiar essas aposentadorias, a gente tá virando pra cada um dos velhinhos ou aqueles que vão ser velhinhos do amanhã dizendo: "Como é que você vai se virar depois que se aposentar pra pagar suas contas, o remédio, o cuidado que você vai precisar?" E todo esse processo.

Então, estamos individualizando um tema que é social, né? Que é amplo da sociedade brasileira. Um segundo movimento interessante que o George Ferenczi coloca é que quando a gente tem pensado também em velhice, vem o debate mercantil em termos de como se estrutura uma economia em torno dessa população que é vista como mercado consumidor. Então a gente começa a pensar do mercado do cuidado, do mercado de planos de saúde, do tamanho dos hospitais, de como a gente pode, sei lá, inventar a "idoga" pra terceira idade, um conjunto de profissionais que vão atender esse mercado consumidor.

E aí, de novo, coloca o peso no teu colo, que é como é que você, individualmente, vai bancar por essa estrutura, vai pagar por essa estrutura de cuidado. E aí, o debate que ele traz com uma beleza grande, né, e com uma profundidade importante que os acadêmicos sempre têm, é como é que a gente pensa isso como ponto de vista social. E aí, a solução desse jogo, obviamente, ela é institucional e política. Como vamos pensar a velhice na dimensão dos direitos e na dimensão do cuidado da sociedade brasileira diante desse assunto?

Então, dentro desse ciclo, a grande transformação que esse livro do Félix traz é a gente tentar perceber que os cabelos brancos que estão aparecendo na tua cabeça, ou o cabelo ralo, ou a barba branca, ou a dona lombar, ou todos esses enfrentamentos que todos nós ou estamos passando ou vamos passar, não é só um problema teu. É um problema da sociedade e a gente vai ter que discutir junto como vamos resolver.

?Voz C

Dois temas aqui que eu queria trazer contigo. Bom, primeiro, quando você fala da estrutura do cuidado, eu me lembro de uma conversa aqui na CBN recente em que levantamos a seguinte questão: é, muita gente reclama que, ah, eu gastava muito dinheiro quando meus filhos eram adolescentes, tinha que pagar escola, tal, era muita gente em casa, tal. Você vai gastar muito mais dinheiro com você na sua velhice, não é com— você gasta muito menos com os filhos, pode ter certeza. E outro ponto é sobre o etarismo, ele fala sobre isso.

MAMichel Alcoforado

Então, ele trata de um assunto que eu acho muito maravilhoso, que é um quase uma contradição que a gente tem vivido. Essa mesma sociedade que tá vendendo para você que bom é você viver até 200 anos. Você pode fazer, sei lá, ir para academia todo dia, fortalecer sua massa magra, e aí você vai conseguir dar conta dos trabalhos mais básicos até os 90 anos. Se você manter o colesterol no lugar que tá, mantiver as coisas do jeito que elas precisam estar, você vai ter uma longevidade muito maior.

É a sociedade que tem vendido para nós todos os dias que o bom é ser jovem, bom é ser autônomo sempre, bom é ter independência até o último dia. E tem reforçado estereótipos muito marcados, né, orientados por uma do "ageismo", né, de que você, a partir de um determinado momento, tem determinadas atividades ou pedaços do tecido social que você não tem mais o direito de acessar por conta da idade. Essa contradição entre gente que quer viver demais e um mercado que se estrutura te vendendo a solução ou fórmula para você viver para sempre, e ao mesmo tempo, na medida que você vive muito, você vai sendo estereotipado e tendo a sua subjetividade reduzida, Há um conjunto de preconceitos ou títulos que te diminuem, né, ou brecam a sua possibilidade de viver de uma forma digna.

É uma das contradições do nosso tempo, porque não adianta nada você ficar produtivo até 70 anos, tendo todas as faculdades mentais e cognitivas adequadas ao mundo do trabalho, se as empresas não acharem que você pode trabalhar até 70 anos e te forçarem qualquer aposentadoria perto dos 55. 57, 50 anos, independente da sua vontade, mesmo quando você deseja continuar no mercado de trabalho. Ou mesmo se dá, por exemplo, não adianta nada a gente achar que as pessoas podem viver até 200 anos, 80 anos, 90 anos, se quando esses indivíduos que investiram pesado na própria longevidade, quando vão numa balada, quando entram no aplicativo de encontro, quando frequentam espaço cultural, não são vistos com bons olhos pela mesma sociedade que os estimulou a investir pesado nessa longevidade.

Então essas contradições É algo que ele vem fazendo ao longo desse livro de um jeito muito importante, com uma linguagem fácil, mas também com rigor acadêmico. Não à toa foi publicado pela Editora da Unicamp, que é uma editora universitária e consegue em artigos breves determinar essa junção, que é um equilíbrio difícil de se fazer.

?Voz C

O livro se chama A Difícil Decisão de Envelhecer: Reflexões sobre Longevidade, Cuidado e Bem-Estar Social. Como o Michel disse, editora Unicamp, o autor é o jornalista e pesquisador Jorge Félix. Muito obrigado mais uma vez, Michel, pela participação, pela conversa aqui na CBN. Até segunda-feira.

MAMichel Alcoforado

Até segunda-feira. Tchau, tchau. Bom final de semana.

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