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Ego, individualismo e a dificuldade de construir o "nós" nos relacionamentos

14 de junho de 20269min
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Rossandro Klinjey afirma que muitos relacionamentos terminam não por grandes traições, mas pela incapacidade de ceder e conciliar individualidade e vida a dois

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Participantes neste episódio2
N

Nadege

Host
R

Rossandro Klinjey

ConvidadoPsicólogo
Assuntos4
  • Gestão do EgoDificuldade de ceder e conciliar individualidade e vida a dois · Ego como inimigo da vida a dois · Abertura mão de coisas individuais para o relacionamento · Individualismo e a dificuldade de construir o 'nós' · Sabedoria de ceder versus covardia
  • Abordagens coletivas versus individuaisO 'Y' como símbolo do equilíbrio relacional · A necessidade de respirar junto e respirar só · Ceder por amor e harmonia versus ceder por medo · Não anular a individualidade em nome do relacionamento
  • O amor como ação e a importância do auto-cuidadoDiferença entre amor próprio e auto-amor narcisista · Impacto do narcisismo nas relações · Adoecimento causado pelo excesso de auto-amor
  • Respeito à Individualidade e DiferençasSociedade sem individualidade versus sociedade do excesso de individualidade · A criação de 'reizinhos do ego' na família · O pêndulo histórico entre a falta de amor próprio e o amor próprio exacerbado
Transcrição13 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async

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RKRossandro Klinjey

Boa tarde, Nadedja. Vamos falar com nossos ouvintes hoje num relembrando o dia 12, Dia dos Namorados.

?Voz B

Acabou de passar o Dia dos Namorados. Relação sempre dá muito o que pensar, muito o que discutir, e a vida a dois é uma parte muito importante, né, da existência individual, em sociedade. E também tem dores, né, Rossandro?

RKRossandro Klinjey

Tem sim. E uma das grandes dores da vida a dois que muita gente fica pensando: será que é uma traição? Será que é falta de dinheiro? Será que é a gestão do cotidiano com muitos filhos? E não, na verdade a maior dificuldade das pessoas é entender que a vida a dois exige que você entenda que parte do eu precisa ceder para o nós. Então na verdade o maior inimigo da vida a dois é o ego. O ego que quer um relacionamento, mas não quer entender que para estar num relacionamento eu preciso abrir mão de coisas que são individuais.

A gente tem uma questão hoje muito clara assim, é que cada um virou chefe de sua própria existência, o CEO particular da própria vida, e ninguém ensinou a parte chata, que é o seguinte: e quando é nós, quem vai ser o CEO? Tem que ter um dono do rolê? Será que funciona assim? Algumas pessoas pensam que sim, né? Algumas pessoas até pregam isso, mas vamos ver do cotidiano. É um nós, é um nós que depois vai incluir mais gente quando nasce filhos, é um grande nós com seus nós que precisam ser desatados.

Então ninguém ensina a gente, muita gente ensina a gente a se amar, a se priorizar, a cuidar da sua própria autoestima. Pouca gente fala sobre e cuidar do outro e descer do trono e descer do salto do alto do eu para que a gente construa uma relação. Porque é o seguinte, na verdade, o que a gente está vendo aqui É que ceder, esperar, engolir para você não perder a relação, mesmo tendo razão, são coisas que a gente precisaria aprender antes, até na escola, sabia?

Muitos casamentos até viáveis acabam, relações viáveis acabam por completa inabilidade emocional de ceder. E olha, não tô falando aqui de covardia. Quem cede por medo está adiando a própria capacidade que tem que construir. Estou falando de sabedoria, que é uma coisa rara hoje em dia. Admitir uma coisa difícil está certo. Às vezes é o prêmio de consolação para quem fica só. Eu tô com a razão, mas tô só porque eu nunca tive oportunidade de ceder.

Então, quando você tem dois egos na mesa de negociação, cada um tá disputando como se fosse com um monte de bancas de advogados, cada cláusula, cada amanhecer do dia, cada discussão. Isso vai desgastando a relação. Tem relações que acabam Não porque houve um evento grande, uma traição, alguma coisa gigante, não. Foi um pequeno conjunto de coisas que foi minando esse nós. Ou esse nós nunca foi construído. Porque você entrou na relação, você quer, por exemplo, até ceder alguma coisa, você quer estar na relação.

A gente vive hoje a geração que tem dificuldade da renúncia. Entender que sim, ok, eu topo dividir até o controle remoto, mas não as minhas próprias angústias. "Como é que eu vou estar com você numa relação se eu não sei o que você sente, o que você pensa?" Lembrando, inclusive, que parte da dificuldade vem do próprio fato de que esse nosso ego individual traz com ele experiências familiares que criam uma experiência única de amar e ser amado.

Então, às vezes, o outro tá amando de um jeito, com atitudes, cuidando, zelando, e o outro quer escutar. E aí o outro que fala, mas não faz gestos concretos, o outro não sente que tá amado. Já tem gente que quer toque. Então é preciso conversa, é preciso sair desse auto-amor patológico que muita gente prega hoje, quase narcísico, das pessoas. Autoestima é uma coisa, esse auto-amor narcisista que muita gente vive pregando hoje é uma outra coisa.

Ele adoece tanto quanto a falta do amor próprio. A diferença é que uma pessoa que se desama muito, ela praticamente afeta só a si mesma, e o narcisista afeta todo mundo ao redor. Então, quando nós pensamos no grande desafio da vida 2, eu queria justamente lembrar que muita gente não tava no Dia dos Namorados postando uma foto com alguém porque não suporta estar no nós. Claro, tirando o fato que a gente sempre sabe, né, Nadege, que muitas daquelas fotos são fakes porque a relação tá acabada, mas, ou então tá desgastada, ou então infantilizada. Mas no Dia dos Namorados todo mundo posta foto de que tá um casal feliz.

?Voz B

É verdade, e isso me faz pensar em várias coisas, viu, Sandro? Porque é muito bom que a gente fale tanto hoje sobre saúde mental, sobre limites, sobre comunicação, mas ao mesmo tempo os relacionamentos estão muito frágeis. E aí a gente se pergunta, né, o quanto conhecimento ajuda ou quanto talvez possa atrapalhar, porque a gente tá nessa era que você mesmo disse, né, defender o próprio limite, a própria necessidade, o próprio esse espaço virou uma virtude. E aí, como é que fica a vida 2?

RKRossandro Klinjey

Pois é, porque justamente, claro, a gente sai de uma sociedade em que as pessoas não tinham individualidade, em que as relações familiares eram complexas porque não havia espaço para o eu de uma forma saudável, né? Assim, havia pai e mãe e as crianças não tinham muita identidade porque eles viviam só à mercê dessa relação. Depois foi se criando uma relação em que as famílias começaram a ouvir as crianças. Isso é muito saudável, só que a gente começou a ouvir tanto as crianças que deixou de se ouvir os adultos, e as crianças se tornaram reizinhos e reizinhas do ego na própria casa, criando uma geração de pessoas insuportáveis, intolerantes, que chegam na escola humilhando professores.

É tema para muita conversa. E a gente foi para o outro oposto, o pêndulo histórico, né, Nadege? A gente sai de um ponto em que a gente não tinha muita coisa falando sobre o amor próprio e vai para um ponto extremo em que o amor próprio passa a ser tão decantado como um valor que aí você adoece, porque você vai para um ponto em que não há nenhuma, digamos assim, respeito ao fato de que o amor próprio inclui amar o outro. Porque só se amar a mim é um amor solitário e eu vou se tornar uma pessoa que machuca as pessoas.

Então, no fundo, no fundo, para uma relação funcionar é uma busca de equilíbrio. Eu nem posso me anular por causa do outro, nem posso viver em função só de mim. Tem uma letra do alfabeto que ela é muito Simbólica, o Y. O Y tem um tronco comum que seria o casamento, ou seja, a relação a dois, ou seja, coisas que nós abrimos mão, fazemos juntos, construímos juntos, cedemos para estarmos juntos. E lá em cima no Y, a separação da individualidade, ou seja, você tem uma parte que você tá respirando junto e uma outra parte que você respira só.

Então nem dá para estar numa relação que você quer respirar só, nem muito menos colado o tempo inteiro sem nunca ter espaço, individualidade. Esse equilíbrio em muitas coisas tem faltado para muita gente.

?Voz B

Pra não confundir também, né, Rossandro, ceder por amor e pela harmonia com ceder por medo de perder a pessoa, de ficar só.

RKRossandro Klinjey

Exato, claro, com certeza. Não posso, em nome de uma relação, acabar com minha individualidade. É um equilíbrio. Porque também, quando você acaba com sua individualidade, acredito que não tem um relacionamento. Aquilo não é um relacionamento, né? É um monólogo em uma pessoa que tá mandando tudo, que tá destruindo a outra, e você cedendo por carência, por desamor, porque se acostumou com o caos. Aí é tema para a gente falar sobre relacionamentos tóxicos.

Inclusive é o tema de um livro que eu vou lançar na Bienal, que tá chegando aí daqui a pouco. Eu vou divulgar o nome para galera acompanhar, mas é um pouco sobre isso.

?Voz B

Oba, bom saber! Obrigada, Rossandro, pela conversa hoje. Sempre ótimo te ouvir.

RKRossandro Klinjey

Até a próxima! Beijo, Nadézia! Boa semana!

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