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A grande retirada: o amor brasileiro não está acabando em briga, está acabando em silêncio

15 de junho de 202613min
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Carol Tilkian apresenta dados obtidos em pesquisa inédita realizada por ela e Camila Holpert, que ouviu mais de 1000 brasileiros para entender as delícias e as dores conjugais. Quando o amor acaba? Ouça para entender.

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Participantes neste episódio3
C

Carol Tilkian

HostPsicanalista
F

Co-host
N

Nadedja

Co-host
Assuntos5
  • Presença ausente nas relaçõesFalta de escuta e diálogo · Excesso de silêncio · Presença ausente · Tratamento de silêncio · Sobrecarga de tarefas · Apagamento emocional · Medo de não ser bom o suficiente · Estrutura e conveniência vs. conexão
  • A importância da presença e do diálogoTempo de qualidade · Ouvir os desabafos · Perguntar como ajudar · Sentir-se visto, percebido e amado
  • Diferenças de gênero na percepção do silêncioMulheres: falta de escuta e parceria · Homens: falta de sexo · Interpretação do silêncio
  • Respeito e alteridade nas relaçõesRespeito vs. concordância · Limites e necessidades individuais · Alteridade
  • Manutenção de relações esvaziadasCompulsão à repetição · Medo do desconhecido · Ideal narcísico
Transcrição12 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async

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?Voz B

CDN Amores Possíveis com Carol Tio Guiã. Oi Carol, boa tarde.

CTCarol Tilkian

Boa tarde, Fê. Boa tarde, Nadedja. Boa tarde, ouvintes. Boa tarde, Carol.

?Voz B

Carol, vamos lá. O amor, muitos amores brasileiros terminam não é por causa de traição, quer dizer, às vezes é, né, mas na grande maioria é por causa de, por falta de escuta, por falta de diálogo, por falta do silêncio. Por que isso?

CTCarol Tilkian

Por excesso de silêncio, pelo que eu tô chamando aqui de presença ausente. Inclusive, eu queria até aproveitar essa segunda-feira pós-dia dos namorados para saber dos ouvintes quem se angustiou com esse tipo de presença ausente do companheiro ou companheira que de repente até tava lá, vocês combinaram de jantar, mas daí a pessoa não sai do celular, ou você tá falando algo importante e ela tá olhando o jogo da Copa. Eu fiz uma pesquisa junto com a Camila Rupert, que é também psicanalista, pesquisadora, a gente utilizou a plataforma On The Go, que é uma plataforma de pesquisa quantitativa.

Conversamos com mais de 1000 brasileiros para entender como o brasileiro vive o amor hoje, quais são os nossos desejos, os nossos medos, as nossas alegrias. E é angustiante perceber que a nova e mais cruel e danosa violência para as relações É a presença ausente, essa sensação de não ser ouvido, de que a pessoa tá lá, mas ela nem se implica para ter uma DR com você. É como se o vínculo fosse se erodindo assim, é uma ausência silenciosa.

Então, trazendo números, a gente tem hoje um a cada quatro brasileiros diz que o principal problema das relações é a falta de escuta. E o tratamento de silêncio já atinge 1 a cada 6 brasileiros, que é quando de repente a pessoa fecha a cara e não fala nada para você. E você fala: "Aconteceu alguma coisa?" "Não, não, tá tudo bem." Ou não responde as suas mensagens. E aí a pessoa tá fisicamente presente, mas se retirou da conexão.

E o que que eu percebo, né, e também isso ficou muito claro com outros dados da pesquisa, eu quero trazer ao longo aí dessas próximas semanas vários dados inéditos, mas hoje a gente tem pessoas e casais muito sobrecarregados. Então hoje a gente virou, e acho que eu já trouxe isso aqui, né, viramos ótimas microempresas, mas a gente tá esquecendo de ser casal. Então o excesso de tarefas também é algo que atrapalha e corrói o vínculo.

E o que vem acontecendo é muitas vezes as pessoas vão se reenergizar fora da relação. Então você vai fazer um curso, você janta com as suas amigas, você tem a noite do poker, e o casal fica circunscrito nas tarefas da casa, no lavar a louça, na educação dos filhos. E aí você chega em casa exausto, você até senta na mesa para jantar, mas você tem que responder o e-mail no celular, você já tá sem paciência porque você pegou 3 horas de trânsito e você não quer muito ouvir de novo o seu companheiro falando da discussão que ele teve com a mãe.

Só que o perigo do silêncio, e acho que o silêncio é algo muito sintomático dos nossos tempos é que ele opera de uma forma mais profunda que a rejeição, porque ele faz com que a pessoa se sinta inexistente. Ela— o silêncio, essa presença ausente, ela não destrói pelo embate, ela destrói pelo apagamento. E aí, trazendo um outro dado aqui da pesquisa, hoje o maior medo do brasileiro Não é ser traído, não é que o parceiro morra, não é que eles não tenham dinheiro, é não ser bom o suficiente. 1 a cada 3 brasileiros, maior medo das relações amorosas é não ser bom o suficiente.

Quando o outro silencia e ele se distancia e nem me explica por quê, é isso que começa a operar na nossa cabeça. Tá vendo? É algo que eu fiz. "Será que ele conheceu alguém mais interessante? Será que eu tô falando demais? Será que eu tô falando de menos?" E a sensação é que realmente você não é o suficiente, porque aquela pessoa não tá nem colocando energia para brigar com você, porque a briga, a DR, pressupõe um desgaste, o atrito.

O outro se importa. Quando seu companheiro, sua companheira, estão ali no sofá e vocês só estão dividindo quem arruma a mochila da criança, "Quem vai levar? Quem vai buscar? Quem vai pagar o supermercado?" Fica essa sensação de: "Nossa, a gente está aqui pela estrutura, pela conveniência, mas essa pessoa não está me vendo." E aqui eu penso no que essa pessoa não está te vendo, de novo, não porque necessariamente ela é manipuladora.

Acho que, um, estamos esgotados. E aí acho que vale trazer um conceito que eu já trouxe aqui do André Green, que é a mãe morta. A mãe morta não é a mãe que morreu efetivamente, mas é a mulher que está presente fisicamente, mas afetivamente desinvestida. Porque talvez ela esteja deprimida, talvez ela esteja sobrecarregada com muitas tarefas, talvez ela esteja passando por uma crise com o pai. A questão é que aquela criança sente que se até a mãe, que deveria ser a grande fonte de afeto e segurança, não está investida, então eu sou alguém que não sou digno de ser amado.

E a gente está cada vez mais vivendo esse tipo de relação e não está conversando, porque quando a gente fala, né, vê que a falta de escuta é um dos principais problemas, também tem a ver com a falta da conversa, a gente tá sentindo angustiado e não fala: "O que que aconteceu?

?Voz B

Tô chateada." É, o quanto esse silêncio machuca, o quanto machuca. Agora tem uma questão: sabe-se em que faixa etária isso acontece mais? E se acontece mais entre homens e mulheres?

CTCarol Tilkian

Sim, a gente tem uma presença muito similar em todas as faixas etárias. Então é interessante ver que o O ghosting é mais frequente entre os jovens, mas o silêncio não. O tratamento de silêncio é um sintoma cultural, não é geracional. E eu acho que aqui é muito ruim perceber, principalmente casais que moram juntos, seja namorado, seja casados, porque fica essa sensação de que a gente está ali pela estrutura. E aí quando a gente faz o recorte de gênero, é interessante ver como os gêneros interpretam o silêncio de um jeito diferente.

Então, as mulheres se queixam mais da falta de escuta e da falta de parceria. A sensação é de que os caras não estão presentes, quando a gente tá falando aqui em relações heterossexuais. O cara tá lá, mas não tá comigo. Tá em casa, mas nem se envolve com as crianças, nem comigo. E aí, de repente, quer transar. E aí, qual é o— Qual é a sensação e a queixa da presença ausente dos homens? A falta de sexo. Então é: "Ah, a mulher tá aqui, mas não quer estar comigo.

Como mulher, a gente tem transado cada vez menos." Então eu acho que é interessante a gente ver que os homens estão nomeando o sintoma e as mulheres estão nomeando a causa. E o que que eu acho importante trazer também, né? Duas coisas. Primeiro: Por que que a gente fica no vazio que nos incomoda? Então, se a relação está esvaziada, por que que a gente não sai? Eu acho que tem algo bem psicanalítico da compulsão à repetição. Então a gente fica lá no doloroso porque o familiar angustia menos do que o conhecido.

Já que a gente tem medo de não bastar, pelo menos ali você sabe que aquela relação mais ou menos funciona. E acho que reclamar da ausência do outro também não faz a gente se implicar que a ausência também é nossa, também exige se expor, suportar a alteridade, discutir. Tem um outro dado da pesquisa que mostra que quase metade das respostas de o que torna uma relação boa hoje, então 47% das respostas sobre o que torna uma relação boa hoje diz Uma relação que tem respeito.

Respeitar é diferente de concordar. E eu vejo isso muito na clínica, casais que nem trazem a conversa para o companheiro ou companheira porque falam: "Ah, ele já não vai mudar de ideia e eu vou me estressar, então prefiro ficar em silêncio mesmo e vida que segue." A gente tem que entender que o respeito não é o outro mudar de ideia porque você está certo. É vocês entenderem que existem limites diferentes, necessidades diferentes, dores individuais e que a gente tem que reconhecer esse espaço, os limites, sem ter que concordar.

Eu acho que enquanto a gente não tiver implicado em respeitar a alteridade e não "me respeite" de uma forma quase que ditatorial e concorde comigo, a gente vai, enquanto a gente seguir exausto, a gente vai continuar silenciando. A gente já tá silenciando, né? Silencia o grupo do WhatsApp, silencia as pessoas no Instagram. Aí você se poupa do conflito e poupa também o seu ideal narcísico, porque você não fica a pessoa que tá sendo carente ou que tá dando xilique ou o cara que não está compreendendo.

Só que para manter esse nosso ideal de "eu", a gente está destruindo relações possíveis. Então não adianta só a gente estar junto em casa se a gente não está efetivamente presente, ouvindo, respeitando, atento. Nossa ouvinte Marta, que tem 56 anos, vivência de vários namorados e de um casamento, A Carol disse que se não tem diálogo, espaço para diálogo, já era. Carol, ela acha que dá um toque uma vez, se não mudar, já era. É, a questão é que tem tido cada vez menos, né?

Queria até saber se os ouvintes têm ficado com preguiça, porque se a gente chega cansado em casa, tem muita coisa para fazer, deixa a discussão para amanhã, deixa a discussão para amanhã, e de repente as pessoas explodem. Então, que a gente possa trazer o incômodo logo que ele aconteceu, não esperar as coisas escalarem, a gente deixar o celular propositalmente no silencioso e destinar um tempo de qualidade com aqueles que a gente ama, poder ouvir ainda que a gente esteja cansado, os desabafos dos outros e poder perguntar, né?

Como você quer que eu te ajude? Como eu posso me fazer presente para você? Porque às vezes a gente também está achando que está se fazendo presente e o outro não está percebendo. Então vale perguntar para o outro: o que faz com que você se sinta vista, percebida, amada?

?Voz B

Belas questões, Carol. Muitíssimo obrigado mais uma vez pela conversa aqui. Uma boa semana para você, Carol, e até segunda-feira que vem.

CTCarol Tilkian

Até segunda-feira que vem, com muita presença.

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CTCarol Tilkian

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