Acordo entre Irã e EUA: 'palavra-chave para entender esse acordo é ceticismo"
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Fernando
Filipe Figueiredo
- Acordo Irã-EUACeticismo · Memorando de entendimento · Estreito de Ormuz · Programa nuclear iraniano · Agência Internacional de Energia Atômica · Paquistão · China · Khamenei
- Pressão dos EUA sobre Israel e LíbanoHezbollah · Benjamin Netanyahu · Israel Katz · Eleições em Israel · Processos por corrupção · Falhas de inteligência no 7 de outubro
- Disputa de Narrativas Irã-EUAEstreito de Hormuz · Fundos iranianos congelados · Reconstrução de infraestrutura civil iraniana
- Relação Trump-NetanyahuDonald Trump · Benjamin Netanyahu
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Felipe Figueiredo com a gente toda segunda-feira aqui no estúdio CBN.
Oi, Felipe, bem-vindo e boa tarde para você.
Olá, Fernando, boa tarde a todos nossos ouvintes aqui da CBN.
Felipe, temos um acordo, um acordo que foi anunciado pelo presidente Donald Trump, foi confirmado por autoridades iranianas. Teremos um cessar-fogo de 60 dias, depois disso veremos negociações, aí vão tentar buscar um acordo mais estruturado, uma paz mais definitiva. E temos agora líderes mundiais que estão otimistas que tem um alívio no mercado financeiro. Iranianos com alívio, digamos assim, mais cauteloso, e um ceticismo de libaneses, já que Israel, tanto o ministro da Defesa Israel Katz quanto o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, são contra a retirada das tropas israelenses do território libanês.
Os ataques inclusive do Hezbollah hoje, do Hezbollah contra Israel, de Israel contra Hezbollah no Líbano, diminuíram intensidade nessa segunda-feira. Isso é fato. Felipe, qual que é o cenário que a gente tem agora? Que acordo é esse?
Vamos lá, Fernando. A palavra-chave você já utilizou, a palavra-chave é ceticismo. O que nós tivemos foi um anúncio de um memorando de entendimento, que é uma espécie de combinamos de combinar, né? É um termo muito comum tanto na política externa quanto também em algumas atividades empresariais. E como você já colocou, esse acordo ele busca estabelecer as bases para um futuro acordo definitivo mais duradouro. Esse primeiro acordo, esse memorando de entendimento, ele é centrado especialmente na questão do Estreito de Ormuz, enquanto as negociações posteriores serão centradas no programa nuclear iraniano, que é algo muito mais delicado, delicado inclusive porque envolve outros atores, necessita o envolvimento de outros atores, como a Agência Internacional de Energia Atômica, e necessita de alguma operação de logística envolvendo um material delicado, que é o material radioativo enriquecido iraniano.
Por um lado, nós temos alguns sinais positivos de que esse primeiro acordo, esse memorando de entendimento, vai sim vigorar, realmente foi elaborado. Na minha análise, são dois deles os principais. Um são as declarações e o enorme apoio do primeiro-ministro paquistanês. O Paquistão, que foi um dos grandes mediadores dessa situação toda, que é um grande aliado da China. E a postura do governo paquistanês nesse momento é de ver que existe sim uma oportunidade, e estão insistindo nessa oportunidade, inclusive organizando uma cerimônia de assinatura na Suíça nesta sexta-feira.
Outro sinal positivo que eu vejo, Fernando, é o fato de que o Irã anunciou o calendário das celebrações, das cerimônias, melhor dizendo, oficiais de funeral de estado do supremo líder Khamenei, que foi morto no dia 28 de fevereiro. Essas cerimônias não ocorreriam em um cenário de conflito, não ocorreriam sem um cenário inclusive que o Irã possa vender como uma vitória. Mas aí a gente chega no ponto, né, que eu imagino que você vai querer perguntar, nosso ouvinte quer saber, que são os pontos de discórdia, inclusive nesse momento.
Vamos a eles então, Felipe.
Que é o seguinte, Fernando, primeiro, até o momento, né, estamos falando com nosso ouvinte nessa segunda-feira, até o momento o texto desse memorando de entendimento não foi publicado. E isso permite choques de narrativas, que são Irã e Estados Unidos falando coisas diferentes sobre a mesma negociação, cada um buscando sair mais fortalecido perante a opinião pública, perante a sua imagem internacional. Então, para dar dois exemplos, o Donald Trump disse que o Estreito de Hormuz será aberto sem pré-condições.
E o Irã disse que o Estreito de Hormuz estará sujeito aos seus arranjos. Em outras palavras, eles estão disputando se o Irã e, indiretamente, o Omã vão poder impor medidas burocráticas administrativas na passagem do estreito, que estão sendo popularmente chamadas de cobrança de pedágio. Por quê? Por que eu digo medidas administrativas? Porque, para o nosso ouvinte, não vai ser como o pedágio que ele paga quando ele pega uma estrada no Brasil.
Em que você para, paga e segue. Não, vai ser uma coisa um pouco mais disfarçada, uma coisa um pouco mais indireta. Então, olha só, para passar aqui você precisa desse seguro obrigatório, né, dando um exemplo. Esse seguro obrigatório vai custar ali alguns milhões de dólares, dependendo do tamanho do navio. Outra divergência pública, Fernando, é o fato de que o Irã, segundo a mídia iraniana, Os Estados Unidos vão liberar fundos iranianos congelados na ordem de dezenas de bilhões de dólares, e os Estados Unidos também teriam concordado em pagar reparações para a reconstrução de infraestrutura civil iraniana.
Os Estados Unidos nega categoricamente qualquer pagamento de indenização, e os Estados Unidos também nega que os bens iranianos congelados serão liberados nesse momento. Eles afirmam que serão liberados depois, na outra negociação. Então essas são as imagens públicas, é uma disputa de imagem, de narrativas, e que cada um busca sair por cima, cada um busca se fortalecer. Até nós termos o documento, né, oficial ou liberado ou obtido por meios de imprensa, né, é muito difícil conseguir fazer uma avaliação objetiva desses termos.
Porque aí entra um outro problema, para encerrar essa resposta, que nós já conversamos aqui meses atrás. É uma guerra cuja solução, cujo acordo final, depende de um equilíbrio muito delicado, porque ninguém pode sair como perdedor dessa guerra. Então isso também está, né, sendo visto nessas narrativas públicas sobre esse acordo.
Agora, Felipe, queria te ouvir mais sobre a situação de Israel, de Benjamin Netanyahu, e dos ataques entre Hezbollah e Israel. Isso também na balança pesa muito, né? E a gente não vê uma iniciativa tão contundente de Israel de parar com os ataques contra o Hezbollah no Líbano, né?
Pois bem, Fernando, o governo iraniano afirma que o acordo significa a paz em todos os frontes. Em outras palavras, né, o governo iraniano desde o início buscou utilizar as suas milícias no Iraque e a situação no Líbano, onde o Irã e o Hezbollah são aliados, e Israel ocupa território libanês e recentemente inclusive atacou a capital, Beirute, como uma maneira, né, de— então esses são os outros, outros, os outros frontes ou teatros de operação na visão do Irã.
O Irã busca então essa visão de que se trata de uma guerra só, porque sabe que isso fortalece inclusive a sua posição de negociação, uma negociação em conjunto. Israel não fez parte das conversas. Israel não fez parte das negociações. Mesmo as conversas no Líbano foram realizadas pelos Estados Unidos. Inclusive, recentemente foi repercutido na imprensa israelense que autoridades dos Estados Unidos tiveram diálogo direto com autoridades do Hezbollah.
Além de o governo israelense não ser parte das negociações, o governo israelense não se interessa por um acordo no Líbano nesse momento. A justificativa perante o público é de que seria uma grande oportunidade para acabar com o Hezbollah. Mas mais do que isso, é muito importante lembrarmos ao ouvinte que nós temos hoje um governo israelense que tem muito apoio em vários setores da sociedade, tem muito apoio dentro do aparato de Estado israelense.
É bom também deixar isso claro. Mas nós temos um governo israelense, e aí eu falo não apenas de Benjamin Netanyahu, mas especialmente Benjamin Netanyahu, que dependem da guerra, dependem da manutenção do conflito. Primeiro em relação à Palestina, depois ocuparam territórios no sul da Síria, E agora ocupam territórios no sul do Líbano. Por quê? Porque esse ano nós teremos eleições em Israel. Além de nós termos eleições em Israel, Benjamin Netanyahu é alvo de processos por corrupção e tráfico de influência.
E além disso, Benjamin Netanyahu sabe que— e aí isso inclui outros elementos de seu governo— essas pessoas sabem que assim que a poeira baixar nós provavelmente veremos a instauração de uma espécie de comissão parlamentar de inquérito para investigar as eventuais falhas de inteligência do 7 de outubro. Veja, nós não, dificilmente teremos uma investigação dentro de Israel sobre crimes de guerra, crimes contra a humanidade, muito menos as acusações de genocídio no âmbito tanto da Corte Internacional de Justiça quanto Tribunal Penal Internacional, mas a investigação das falhas de segurança no 7 de outubro.
Então, a manutenção da crise permite a manutenção dos estados de emergência e da censura militar. Consequentemente, adiam esses problemas políticos para Benjamin Netanyahu e diversos integrantes do seu gabinete. Então, além de Israel não ser parte das negociações, o governo israelense não tem interesse eventual nessa paz em todos os frontes. E esse acaba sendo um dos possíveis riscos para essas negociações, porque como o ministro da Defesa Israel Katz deixou muito claro num post nas suas redes sociais, o governo israelense se dará o direito de atacar o Líbano, e incluindo Beirute, caso ache necessário, caso ache que será uma oportunidade proveitosa de atacar supostamente alvos do Hezbollah.
Então isso pode eventualmente comprometer. E para encerrar essa resposta, que ficou um pouco longa, Fernando, é bom lembrar para o nosso ouvinte que recentemente vários veículos de imprensa noticiaram que Donald Trump teria, ao telefone, chamado Benjamin Netanyahu de maluco, que se não fosse por Trump ele estaria na prisão. E que aí ele não disse ao telefone com Netanyahu, ele disse publicamente que Israel tem que aceitar um acordo negociado pelos Estados Unidos e que os Estados Unidos call all the shots, ou seja, o Donald Trump que manda.
Então essa é uma relação que hoje também está tensa e que eventualmente pode comprometer todo esse processo de negociação.
Perfeito. Felipe Figueiredo, muito obrigado mais uma vez pela conversa aqui no CBN Pelo Mundo. Uma boa semana e até segunda-feira que vem.
Eu que agradeço, Fernando, a você, a todos os nossos ouvintes. Um abraço e até semana que vem.
Valeu, obrigado.