Episódios de Comentaristas

A psicologia por trás da torcida

18 de junho de 202612min
0:00 / 12:23
Em clima de Copa do Mundo, Álvaro Machado Dias aborda uma reflexão temática: o que acontece na cabeça de uma pessoa pra ela passar a sofrer e vibrar por um resultado que ela não decide e não influencia em nada? Qual é a ciência por trás da torcida? Ouça para entender!

Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices

Participantes neste episódio3
Á

Álvaro Machado Dias

HostEspecialista
F

Fernando

Co-hostJornalista
S

Speaker D

Convidado
Assuntos5
  • Impacto da torcida no jogoVantagem de jogar em casa · Influência no juiz · Pandemia e estádios vazios · Impacto na moral dos jogadores · Desgaste da viagem e apito enviesado
  • Análise do comportamento da torcidaIdentidade e anexação do time · Robert Cialdini · Estudos de testosterona em torcedores
  • Torcida e sentimento do torcedorTorcedor pouco identificado e o afastamento · Torcedor altamente identificado e a fusão · Ponte Preta · Sacrifício pessoal e conexão
  • Divisão de emoçõesSentimento gregário como atalho mental · Eric Tafel · Divisão em grupos 'nós' e 'eles' · Futebol como camisa para o sentimento gregário
  • História da torcida organizadaInglaterra industrial e a tarde de sábado livre · Rádio e nacionalização da torcida · Eric Hobsbawm · Nacionalismo em escala de bolso
Transcrição14 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async

— Anúncios inseridos dinamicamente —

FFernando

Álvaro, boa tarde, bem-vindo.

ÁMÁlvaro Machado Dias

Muitíssimo boa tarde.

FFernando

Torcer, esse é o assunto de hoje. Antes de ser lealdade, isso eu não sabia, é uma contorção do corpo. A palavra vem do gesto de retorcer as mãos diante do que não se E hoje a gente vai investigar um pouco o que que a mente, o que que a ciência tem a dizer sobre essa paixão que parece, digamos assim, irracional, que move muitos países. Álvaro, começa pelo começo. O que que acontece na cabeça de uma pessoa para ela passar a sofrer, a vibrar por um resultado que ela não decide, ela sequer influencia em nada? Álvaro.

ÁMÁlvaro Machado Dias

Pois é, a chave é que o cérebro do torcedor ele não distingue direito a vitória do time da vitória própria, porque em algum momento o sujeito passa a anexar aquele time à definição de quem ele é. Esse é o segredo, é uma questão de identidade. Tem um pesquisador do assunto muito bacana chamado Robert Cialdini, que ele mostrou isso de uma maneira simples. Olha só, pegou times universitários, tá, que é sempre assim, né, esses estudos estudos de cognição são feitos na universidade, que é mais fácil.

Na segunda-feira, depois de uma vitória, que foi verificado quantitativamente, o número de estudantes que aparece vestindo a camisa do time dispara, e todo mundo fala: nós ganhamos e tal. Depois da derrota, o número decai, as pessoas guardam a camisa. Isso é óbvio. Mas olha a sutileza aí, esses mesmos alunos falam: Eles perderam, na terceira pessoa, mais ou menos como quem se afasta de um parente que envergonha. E eu acho que isso daí traduz algo que não tá só no nível do comportamento.

Então o Cialdini fez um outro estudo, ele mediu a testosterona de torcedores masculinos antes e depois dos jogos decisivos. E o que que ele encontrou? Ele encontrou esse hormônio subindo em quem viu o seu time vencer. E despencando em quem viu o time perder, na mesma faixa, ou seja, o mesmo gradiente de subida e descida desse hormônio ligado à agressividade, à exaltação, à imposição da força e tudo mais, de quem disputou a partida de verdade.

Quer dizer, a pessoa pode não influenciar o resultado lá do seu sofá, mas o resultado influencia a bioquímica dela como se ela tivesse em campo. E sofrer por estranhos, né, esse processo tão fantástico. No final das contas, é o preço que a gente paga por transformar em identidade uma comunidade. Tá aí a razão porque isso acontece.

?Voz D

Isso vem de onde, Álvaro? Torcer por um time é até um pouco parecido, talvez, com torcer por uma cidade, uma nação, uma ideia. Quando que a gente começa a se organizar assim em grupos que se reconhecem pela camisa?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Pois é, essas coisas estão todas conectadas mesmo, você tem toda razão. Isso vem de um atalho mental muito antigo, anterior a qualquer uma dessas formas de adesão, né, seja a cidade, a nação, ao time, que é o sentimento gregário. Olha que interessante, tem um outro estudo de um sujeito chamado Eric Tafel, que ele dividiu pessoas, alunos novamente, em dois grupos por sorteio, tá, uma coisa completamente aleatória. Tinha uma outra versão que ele dividia simplesmente porque as pessoas gostavam mais de um pintor, depois por músico, ou seja, coisas que não têm nada a ver com comportamento mais profundo.

E o que que ele viu? Que imediatamente, assim que as pessoas eram organizadas em dois grupos, elas já começavam a favorecer aqueles que são do próprio grupo em relação aos de fora, sem rivalidade, sem história, sem biografia, sem nada em jogo além dessa fronteira que tinha acabado inventada. Ou seja, essa predisposição para rachar, né, o grupo coeso em nós e eles é anterior a qualquer assunto. O futebol só deu uma camisa para isso.

Então a base tá aí nesse sentimento gregário que tá lá na origem da nossa espécie. Mas vale a pena também a gente registrar do ponto de vista do futebol, de onde que vem essa coisa toda. Ela vem no final do século 19, especificamente na Inglaterra industrial, porque esse é um momento em que o operário ganha a tarde do sábado livre, tá? Pensa ali na jornada 6 por 1. Então esse é o momento que o sujeito tá saindo do trabalho e tem um trem barato para seguir justamente o clube da fábrica ou da paróquia, assim vai.

E esse time justamente vira uma forma de pertencimento, uma forma gregária de participação. Aí, no segundo momento, o rádio nacionaliza isso tudo. Então, no começo do século 20, a explosão do rádio cria essa febre dos times nacionais, e a Copa do Mundo tá muito relacionada a isso. Tem um historiador importante chamado Eric Hobsbawm que dizia que a comunidade que a gente projeta na nossa cabeça, que a gente acha que nos representa, Ela ganha concretude quando ela encolhe para 11 sujeitos que têm ali nome, sobrenome e uma vestimenta em comum. Ou seja, torcer esse nacionalismo em escala de bolso, vem daí.

FFernando

Álvaro, nem todo mundo torce do mesmo jeito. Tem gente que some quando o time perde, tem quem ama mais justamente quando o time afunda. A ciência consegue separar esses perfis?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Sim, é aquela história do Cialdini, né, do estudo que ele fez. A ciência consegue separar isso. E tem a ver com o quanto a identidade individual tá fundida à identidade do time. Então, por exemplo, pensa num torcedor pouco identificado, tá? Esse torcedor, ele se afasta no momento do fracasso. Isso aí a gente já viu há pouco. Agora, o contrário é muito interessante. O torcedor altamente identificado, ele faz o contrário. A derrota, ela não afasta, ela solda o sujeito àquela identidade, né?

Acontece um ali uma fusão em que a fronteira entre o eu e o grupo desaparece. Tem vários experimentos com torcedores que fundidos à identidade de um time, né, e gerar um time pequeno. É isso que explica os— meu padrasto, por exemplo, abrindo parênteses, era um grande torcedor da Ponte Preta, amava Ponte Preta. Eu não acredito que a Ponte Preta tenha um histórico de tanto sucesso assim, mas talvez isso hoje eu compreenda que reforça, tenha reforçado justamente esse amor, essa aderência.

Ou seja, tem algo de sacrifício pessoal, como quando a gente, por exemplo, se sacrifica por alguém. Olha que interessante, sabia que a gente sente maior conexão com as pessoas em relação às quais a gente se sacrifica do que em relação às pessoas que se sacrificam pela gente? É mais ou menos por aí também. Então eu acho que o torcedor que se funde ao time, ele tá casado não com uma tabela de classificação, histórico de sucesso, mas justamente com uma sensação de que a gente tá juntos na alegria e joga tudo na tristeza.

?Voz D

Agora, faz diferença torcer para o resultado do jogo, Álvaro? E torcer de longe, gritar de longe, move alguma coisa? Ou é só quando o corpo tá lá dentro do estádio, em cima do jogo?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Pois é, gritar de longe não faz a menor diferença, tá? Gritar sozinho na sala não move um milímetro dessa história. É uma pura cartaz particular e nada mais. Você pode achar que sua fézinha tá funcionando, mas até em relação a isso existem Vários estudos que mostram nenhum impacto, tá? Eu sei, por mais que a gente queira que tenha, mas não tem nenhum. Agora, curiosamente, faz bastante diferença no estádio. E essa diferença, ela não ocorre de uma maneira tão óbvia assim, tá?

Então assim, a gente sabe, primeiramente tem que pensar isso, né, Déjá, que existe uma quantificação da diferença, tá? Então, como é que é a história? É, quem joga em casa, né, em geral tem cerca de 60% dos pontos disputados. Ou seja, pensa em todos os times, portanto imagina que você tem uma regularidade aqui, então você tem uma vantagem 60 a 40 para quem tá em casa. É mais ou menos por aí. Por que isso acontece? A vantagem passa principalmente por uma coisa que não tem nada a ver diretamente com o comportamento do torcedor impulsionando seus jogadores.

Ela passa pela cabeça do juiz. Eu tenho um estudo muito bacana que eu tava revisando para hoje, em que árbitros avaliaram o mesmo lance em vídeo, vários árbitros, vários lances, e uns tinham som da torcida. Em outras ocasiões, a mesma situação tava simplesmente muda. Que que foi visto? Uma diferença de 15% a menos nas faltas marcadas contra o mandante, intimidados, sabe, sem perceber por isso. Olha que coisa engraçada! O juiz, portanto, ele fica mais receoso.

Isso é muito bacana. E a pandemia, Fernando, eu acho que ela entregou o experimento perfeito para a gente testar essa hipótese, porque campeonatos inteiros rolaram em estádios vazios. E o que que o Neville mostrou? Que cruzando milhares desses jogos, vontagem de casa, ela encolhe de forma marcante, e o viés começa a evaporar justamente nos cartões. Quer dizer, sem plateia, o juiz parou de punir mais o visitante. Agora, isso significa que não tem impacto nenhum sobre a moral dos jogadores?

Não, tem sim, tá? É só que ele não é um impacto tão grande. Novamente, isso medido do ponto de vista de testosterona é relevante. Só que quando a gente vai medir do ponto de vista de performance, não, a diferença não é estatisticamente relevante, importante, vamos dizer assim, significativa, como se diz na ciência. Do outro lado, existe esse mito, né, que a moral do visitante desaba, né, sob as vaias e tal. Isso é mais lenda do que dado, tá?

O que machuca de fato quem joga fora não é esse lance da desaprovação, do desabono, é realmente o desgaste da viagem e o apito assimétrico, vamos dizer assim, enviesado. Tá aí, não é questão de colapso psicológico. De qualquer maneira, faz diferença sim. Quem vai no estádio sempre dá um empurrãozinho, como eu tô mostrando aqui. Em suma, gritando no estádio você não pode não levantar a perna do atacante, mas você realmente pressiona e impacta o resultado.

Aí, se vocês me permitirem, eu queria fechar, já que a gente tá num momento tão bacana, pedindo para subir "Para Frente Brasil", o hino de 70, que praticamente fundou o jeito brasileiro de transformar a Copa em paixão e também nossa maneira de vibrar junto. Vai Brasil!

FFernando

Álvaro, mais uma vez obrigado pela conversa aqui hoje e a gente volta a se falar na semana que vem. Grande abraço e bons jogos, boa Copa!

ÁMÁlvaro Machado Dias

Muito obrigado, Fernando, muito obrigado, Nadedja, muito obrigado —meu Deus!

— Anúncios inseridos dinamicamente —