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Entre o sonho digital e a crise da vida adulta

19 de junho de 202613min
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Michel Alcoforado analisa os dilemas enfrentados pela geração dos millennials, que cresceu entre o mundo analógico e a revolução digital.

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Participantes neste episódio2
M

Michel Alcoforado

HostAnalista
N

Nadedja

Convidado
Assuntos4
  • Crise de meia-idade dos MillennialsDilemas da geração millennial · Transição do analógico para o digital · Expectativas vs. Realidade na vida adulta · Desilusão e exaustão geracional · Kélia Miranda
  • Rituais e CerimôniasRedefinição da adultez · Perda de marcadores tradicionais · Apego ao ideal de juventude · Crise de identidade aos 40 anos
  • Empatia e SolidariedadeDiferenças entre gerações · Dificuldade de troca com pais · Mudanças no mundo do trabalho e afetos
  • Futuro do trabalho e tecnologiaExpectativas tecnológicas frustradas · Impacto da digitalização no trabalho · Home office e avaliação remota
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?Voz C

Boa tarde, Nadedja, tudo bem?

MAMichel Alcoforado

Tudo bem, você?

?Voz C

Tudo bem também.

MAMichel Alcoforado

Hoje vamos falar sobre Bug nos Millennials, um livro que tá bombando, né, da Kela Miranda.

?Voz C

É, exatamente. A Kela Miranda, para quem não conhece, é uma figura importante dentro das redes sociais, não só pelos vídeos e pelo pensamento que leva para as redes sociais, mas sobretudo pela forma como olha para o mundo e tem gerado muita identificação nesse público. Que é o foco do seu livro mais recente, Bug dos Milênios, publicado pela Editora Record agora, agorinha, nesse 2026. O livro é engraçado e é interessante porque ela vai justamente discutir os dramas que atravessam essa geração que nasceu entre os anos de 1980 e os anos de 1995, que são comumente chamados de milênios.

E ela faz uma brincadeira com aquele momento de terror que a gente viveu na virada do século 20 para o século 21, quando todo mundo acreditava que o sistema digital do mundo ia entrar, ia bancarrota só por conta de uma dificuldade operacional que o sistema tinha. E a gente dizia, ou tinha muita preocupação com o tal do bug do milênio. Você, Nadedja, não tem, não lembra, mas é todos os veículos de comunicação, você lembra? Então todos os veículos de comunicação, a sociedade brasileira Europa, os Estados Unidos, parou muito aflito para tentar pensar o que seria do mundo se a gente não tivesse mais acesso aos softwares, aos computadores, por conta do tal do bug do milênio.

Ela usa essa imagem para pensar um momento duríssimo que os milênios que estão aí entre 35 e 40 anos, né, vem enfrentando agora na chegada da fase adulta. E esse processo está orientado por algumas dificuldades que atravessaram a relação dessa geração com o mundo. Só pra ficar claro, geração aqui é importantíssimo da gente levar em consideração, porque quando você nasce num determinado período histórico, isso de algum modo vai condicionar uma certa visão de mundo que você vai ter e uma forma de lidar com os problemas cotidianos ou de pensar futuro.

E essa geração que tem mais ou menos essa idade vive um drama que é o seguinte: eles nasceram num mundo completamente analógico, eles sabem o que é fita cassete, eles tiveram videocassete em casa, eles Tinham que ficar acompanhando a rádio para poder gravar a música preferida e poder escutar depois. Eles nasceram no mundo do telefone fixo em casa. Então, um mundo muito marcado por tecnologias analógicas, mas amadureceram e cresceram num mundo fortemente digitalizado.

E qual é o principal drama que atravessa essa geração? O primeiro ponto é que essa virada do século, ela foi permeada por uma visão muito positiva sobre o que seria o futuro. A gente foi treinado a acreditar que por conta dos diplomas e do investimento em educação das gerações anteriores, automaticamente o teu lugar ao sol, o teu cargo de chefia estava garantido. A gente foi acostumado a acreditar que a tecnologia permitiu o acesso e democratizar o acesso a bens que eram completamente escassos e exclusivos para um grupo restrito de pessoas.

A gente foi acostumado a acreditar que o mundo do trabalho ia se transformar, que a família ia mudar, que os relacionamentos iam mudar para melhor por conta da entrada da tecnologia. E o que aconteceu no final? Eu sempre brinco que não deu em nada disso, né? Muita gente deixou de apostar num relacionamento mais tradicional achando que ia se divertir nos aplicativos de encontro e agora não tá pegando ninguém. Ou muita gente achou que podia ter uma empresa ou um trabalho freelancer e agora está enfrentando dificuldades porque não apostou numa carreira mais tradicional.

E muita gente apostou no mundo novo que ia se abrir a partir da tecnologia e agora não está tendo esse mundo realizado no seu dia a dia. E aí, a Akela Miranda vai mostrar que essa experiência dos millennials, que são esses jovens adultos e esses jovens, esses adultos mais em processo de amadurecimento, estão enfrentando diante da vida É de uma certa desilusão, é de uma vida marcada por uma certa exaustão e, ao mesmo tempo, por um esvaziamento de sentido.

Então, não está fácil ser adulto, os boletos não param de chegar e essa não foi a história que venderam para a gente antes. Então, o livro é permeado por crônicas e histórias que, de um jeito muito bem-humorado, que é comum da Carla Miranda, ela vai permeando esses dramas que atravessam essa geração e mostrando como a gente pode rir mesmo quando a gente está achando tudo meio sem graça.

MAMichel Alcoforado

É fantástico, ela é sensacional, Michel. E eu fico pensando muito em como muita coisa a gente é orientado pelos pais. Eu costumo dizer que eu sou Zillennial, porque eu nasci em 96, eu estou bem ali na transição, mas acho que por ser brasileira a gente está um pouco atrás ali. Tem as questões da demora tecnológica para chegar aqui. Eu me sinto um pouco mais Millennial. E eu acho que como a gente é um pouco, a gente foi muito orientado ali pela, pelo, ou os millennials mais velhos ou pelos boomers e tal, eles se orientam muito pela lógica de como era a coisa nos tempos deles.

E era realmente muito diferente. Então, por exemplo, você vai ser jornalista, então tá bom, então você vai sair da faculdade, você vai colocar uma roupa bem bonita, você imprime o seu currículo e você vai bater lá na porta do Alicamel. E aí você vai se apresentar para ele, ele vai ver que você é muito legal, esforçada, e você vai ser âncora do Jornal Nacional. E é assim que funciona. Para muita gente era meio assim mesmo que se conseguia as coisas antigamente. É muito difícil explicar que não é assim hoje.

?Voz C

É, e aí você traz dois elementos que são fundamentais para trazer esse mal-estar dessa geração. E os mais jovens visem, vivem também a mesma coisa, né? Como você colocou bem, a chamada geração Z. Qual é o drama? O primeiro é que há uma ruptura na solidariedade intergeracional. Por quê? Porque os nossos pais viveram em mundos tão diferentes dos nossos que não tem tanto assim, né, como a gente trocar com eles como eles puderam trocar com seus pais.

Então, de maneira clara aqui, o meu pai e a minha mãe entraram no mundo dos afetos de um jeito muito distinto do que quem tá aí nos aplicativos de encontro precisando encontrar o date da noite. Era um outro mundo. Então você não tem muita abertura com seu pai, com a sua mãe, para poder chegar em casa e perguntar: olha, "O contatinho me deu ghosting, o que eu faço?" Sua mãe e seu pai não vão entender o que é isso, né? Ou pelo menos, se vão entender, porque também estão dentro dos aplicativos de encontro, vão fazer isso a partir de outras referências.

Um outro ponto importante é no mundo do trabalho, como você colocou muito bem, né? Antigamente, não só a gente conquistava o emprego de um jeito diferente, mas a gente também mantinha o vínculo com o trabalho de outra forma distinta. Então, quem já se aposentou há bastante tempo não sabe, por exemplo, o que é um grupo do Zap do trabalho e como é que seu chefe te avalia, te dá feedback, pede alguma coisa, checa alguma coisa 24 horas ali, dependendo do seu regime de trabalho, pelo celular.

Não sabe, por exemplo, como é que alguém consegue trabalhar no quarto de casa e o home office pode ser uma alternativa para dar conta das suas funções no mundo do trabalho. Então você não tem muito como trocar com a geração anterior. Mas há um outro aspecto fundamental também, que é importante reforçar aqui, é que eu e você fomos criados para existir e frequentar um mundo que mudou radicalmente em poucos anos. Então tudo aquilo que a gente aprendeu, que o pai e a mãe da gente disse que era fundamental para te colocar no mercado de trabalho, hoje já não funciona assim do jeito que funcionava.

Tudo aquilo que a gente aprendeu com a mãe e o pai da gente no campo dos afetos, hoje, o "Fletch", que tua mãe ou teu pai, ou que a gente viu na novela, ou que a gente leu no livro, já não funciona mais ou menos do mesmo jeito. Isso causa uma certa aflição, porque a sensação que os millennials e os ex têm é de que estão completamente inadequados diante do mundo. E essa inadequação, obviamente, ela se traduz num mal-estar gigantesco diante desse mundo que você é obrigado a viver.

Então a sensação é de completo desencaixe sempre, como se tudo aquilo que eu aprendi não me ajuda a navegar desse mundo e eu tô sempre correndo atrás de um novo ensinamento que vai me permitir fazer parte, sendo que essa tarefa é dificílima, né? A gente tem visto isso com muita frequência.

MAMichel Alcoforado

É, e ser millennial agora é motivo de vergonha, né, Michel? Tipo, "Você não tem casa própria, você usa calça skinny, seu cabelo tá dividido do jeito errado, você gosta de Harry Potter." Assim, são zero à esquerda, né?

?Voz C

É, e tem um negócio interessantíssimo no que você tá dizendo também, que a gente já tratou aqui em outros comentários, que essa é a primeira geração que vai se ver diante de uma entrada na fase adulta que não é tão marcada assim pelos rituais de passagem. Quando a gente pensava na geração anterior, Os rituais de passagem para a fase adulta estavam muito marcados pela própria sociedade. Você conseguia um emprego, você casava, você tinha filho, você ia morar e pagar suas próprias contas, e isso de algum modo já te fazia um adulto.

Como a gente, na nossa geração, foi redefinindo o ciclo de vida por completo, esses marcadores são quase opcionais. Você pode ter 40 anos e não ter casado, e não ter filho, e não ter casa própria, e não pagar as próprias contas. E aí, uma pergunta que se dá Até que ponto, em que momento alguém de verdade vira um adulto? Os millennials estão tentando reinventar a adultez, mas sobretudo estão presos ao ideal de juventude, que é claro, né, quando você vai nos principais eventos aqui de música, por exemplo, né, eu brinco sempre que show de música é coisa de gente 40+.

Grandes festivais de música é coisa de gente 40+. O que no passado era coisa de jovem. Então eles estão meio perdidos nesses marcadores. Ao mesmo tempo, tão muito apegados a um padrão de juventude que já não faz mais muito sentido, mas também tão muito desconfortáveis com a ideia de que chegaram na fase adulta. Eu tenho boa parte dos meus amigos, ou entrando nos 40, ou acabaram de passar pros 40, E tô enfrentando uma série de crises, porque olham para a certidão de nascimento, para o documento de identidade, ou para aquele momento que vai colocar, sei lá, né, a data de nascimento na hora que vai comprar alguma coisinha, e aí se dá conta de que já tem 40 anos.

Mas quando olha para a própria vida, para responsabilidade que tem sobre a própria vida, para dinâmica do trabalho, para que conquistou materialmente, para o próprio patrimônio, Acha que não tem uma vida de adulto. E aí estão vivendo uma crise que não é uma crise só, olha, não conquistei o dinheiro ou patrimônio que eu achei que teria com essa idade. É uma crise do que que eu sou, dado que eu não tenho cara de adulto, não vivo vida de adulto, mas ao mesmo tempo a certidão de nascimento, os mais jovens e os mais velhos estão dizendo que eu já sou adulto. Então o drama, o drama é grande mesmo, é enorme.

MAMichel Alcoforado

Vamos tomar um litrão reclamando dos boletos, que é o que tem. O serviço, o livro chama Bug nos Millennials. A autora é a Kélia Miranda e a editora é a Record. Obrigada, viu, Michel, por hoje. Um beijo para você.

?Voz C

Um beijo grande, Nadé. Tchau, tchau. Até segunda.

MAMichel Alcoforado

Até. 3:49.

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