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Acordo entre Irã e EUA? Implicações e o que significa para resoluções imediatas

19 de junho de 202612min
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A especialista Bruna Santos avalia o cenário entre Estados Unidos e Irã, além de abordar como foram os encontros no G7. Como está o panorama da geopolítica global? Ouça!

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Participantes neste episódio3
S

Speaker C

Host
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Speaker D

Host
B

Bruna Santos

ConvidadoDiretora no Inter-American Dialogue
Assuntos3
  • PCC e Comando Vermelho TerrorismoCooperação FBI e Polícia Federal · Sanções econômicas · Apoio material · Jair Bolsonaro · PCC · Comando Vermelho
  • Acordo EUA-IrãImplicações do acordo · Resoluções imediatas · Estreito de Hormuz · Programa nuclear iraniano · Donald Trump · China · Rússia
  • Sistema internacional e geopolíticaEncontros no G7 · Retirada dos EUA do Oriente Médio
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BSBruna Santos

Bruna Santos, boa tarde para você, bem-vinda.

?Voz C

Boa tarde, gente, tudo bem?

BSBruna Santos

Tudo bem. Melhorou o clima de Copa aí em Washington?

?Voz C

Melhorou um pouco, acho que passou.

BSBruna Santos

Os Estados Unidos vão entrar em campo daqui a pouco.

?Voz C

Pois é, pois é, estamos no aguardo. Mas eu tava aqui falando com a Jana antes da produção. Minha aposta para hoje à noite é 2 a 1, gente. Vocês, qual é? Como é que tá o bolão?

BSBruna Santos

4 a 0 aqui.

?Voz D

Eu não vou falar porque o bolão tá aberto e eu tô bem no bolão e eu não quero que me copiem. Então eu só vou falar a partir da hora do jogo.

?Voz C

Pessoal, tadinho dele. Bruna, vamos lá, vamos trocar zap.

BSBruna Santos

Nós tivemos o acordo, ou acordo, ou memorando de intenções entre Irã e Estados Unidos. Quero saber das implicações, o que que significa isso para alguma resolução imediata. O que que a gente pode tirar disso tudo?

?Voz C

Então, o acordo, ele interrompe esse documento, né? Eu tô evitando chamar de acordo porque realmente, na verdade, é só uma troca de intenções. O acordo vai acontecer a partir do prazo de 60 dias, começando do momento que ele foi assinado. Ele não O Irã consolida uma vitória americana, ele dá ali, ele administra uma derrota estratégica, é assim que eu vejo. A parte imediata ela é relativamente clara, as operações militares devem parar, o Irã permite durante 60 dias pelo menos a passagem de navios comerciais pelo Estreito de Hormuz sem a cobrança de taxas e isso claro explica a reação dos mercados, a queda do preço do petróleo e esse acordo arranjo provisório, ele oferece para o Trump politicamente uma vitória importante, porque é o alívio no preço da gasolina antes das eleições legislativas de novembro.

A gente já vinha falando aqui sobre o quão pressionado ele tava. E a gente percebe agora, olhando para a figura completa, que esse arranjo provisório, ele tem, ele pode sim virar um arranjo permanente, porque o Trump, ele não tem incentivos políticos ou econômicos para voltar para essa guerra, para atacar o Irã, mesmo que o Irã não cumpra uma das suas promessas, entre aspas, ali no memorando. O Irã, ele claro, saiu com regime preservado, saiu com mais recursos, saiu com nova capacidade de pressão sobre Hormuz, enquanto os Estados Unidos saíram desgastados militarmente, gastaram muita munição ali, e muito inclinados a reduzir a sua presença no Oriente Médio.

Acho que esse é um ponto importante. Ele pode, esse movimento todo, para mim ele sinaliza um início de uma retirada mais ampla dos Estados Unidos da região, deixando maior espaço para China e para Rússia nesse contexto. Tem umas ironias políticas que estão acontecendo por aqui que eu acho bacana a gente lembrar assim: o Trump sempre foi um grande crítico do acordo que o Obama fez com o Irã, em que o Obama destravou ali 50 bilhões de dólares ao Irã, e ele acaba de assinar um memorando que libera não só o dobro desses recursos, libera 100 bilhões, mas abre aí a possibilidade da criação de um fundo privado que é quase que do tamanho do PIB do país, assim, é praticamente um Plano Marshall para o Irã, que são 300 bilhões de dólares.

Então tem uma ironia política, claro, que ele cria ali a narrativa dele de que é uma negociação, de que é uma grande estratégia e por aí vai, mas tudo tem um limite. O Partido Republicano, partido dele, tá criticando a valer, assim, o Bill Cassidy, que é um um senador muito importante aqui, disse que esse acordo é o pior erro da política externa em décadas. O chefe das Forças Armadas, do Comitê das Forças Armadas do Senado, também.

Você vê também ali os influenciadores da mídia conservadora dizendo que os Estados Unidos se rendeu. Então, para os republicanos, o que que a gente vê? Tem uma espécie de um suspiro de alívio meio desconfortável, porque ao mesmo tempo que esses falcões olham para o texto e dizem: cara, muito pior do que aquilo que a gente critica, que o Obama fez, os estrategistas eleitorais olham para a mesma situação e veem uma saída para a pressão eleitoral que eles estão sofrendo nas vésperas das eleições legislativas em novembro.

Então, por isso essa reação aí tá um pouco contraditória. Mas tem uma coisa que eu não quero assim desanimar ninguém, mas eu preciso dizer, é que eu não vejo nenhuma possibilidade da manutenção do status quo nuclear desse texto, a partir desse texto. O texto, ele não determina o desmantelamento imediato do programa nuclear iraniano. Ele só registra que o Irã tá ali fazendo promessas, algo que o Irã sempre fez, faz há muitos anos.

Ele não define o que que o Irã deve fazer com aqueles 450 kg de urânio enriquecido que eles têm, que podem se transformar em bombas nucleares. E acima de tudo, eu acho que o acordo, ele deixa, ele deixa muito claro O quanto o Irã descobriu uma vulnerabilidade importante da economia global na qual ele tem controle, que é o Estreito de Hormuz. Então, mesmo que a gente— eles não cobrem, por exemplo, pedágios no estreito, o Irã pode fazer outras coisas.

Ele pode ampliar inspeções, ele pode provocar atrasos, ele pode condicionar a navegação, a coordenação das forças navais iranianas. Então, você— o Irã, ele na prática não precisa fechar o estreito, ele só precisa garantir que daqui para frente Nenhum navio que passe por ali não leva em consideração os interesses iranianos. Esse é um ponto. O outro ponto que eu acho que é curioso é o seguinte: o controle sobre o Estreito de Hormuz, ele em alguma medida reduz o incentivo do Irã para correr em direção à bomba nuclear.

Eu sei que isso é contra-intuitivo, mas até tem um efeito positivo disso. O que que eu quero dizer? O estreito, ele já funciona como uma espécie de seguro estratégico para Teerã, porque ele permite que eles impõem custos enormes à economia mundial sem necessariamente cruzar o limite nuclear. E a bomba, se eles seguirem nessa toada de nuclearização, vamos dizer assim, a bomba também daria esse mesmo poder de dissuasão para o Irã na região, mas com custos muito maiores.

Você tem ali o custo de sanção, o custo de isolamento. Então, para mim, o grande paradoxo é: Hormuz acaba sendo para o Irã uma arma muito mais estratégica, muito mais útil do que a própria bomba. E isso foi, acho que, descoberto e garantido por conta da guerra com os Estados Unidos. O Irã saiu geopoliticamente mais forte dessa história.

?Voz D

E, Bruna, a gente tem pouquíssimo tempo, mas ainda queria te ouvir sobre o estado das coisas entre Estados Unidos e Brasil. Teve a troca de farpas entre Lula e Trump no G7?

?Voz C

Teve. E eu, assim, A reunião no G7, ela obviamente rolou ali essa troca de farpas, essa troca de críticas diretas e indiretas entre os dois presidentes, mas tem um pano de fundo, dois panos de fundo importantes de comentar e eu quero comentar especificamente um, assim, um é as tarifas, os 25% que vieram aí há mais ou menos duas semanas e a gente também já vinha falando sobre a investigação no Brasil na tal da Seção 301, existem algumas exceções, mas muito provavelmente também aí tem uma janela até o início de julho para fazer as negociações.

Mas tem um outro plano de fundo que é a designação feita pelo governo americano ao PCC e ao Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais. Bom, porque que eu queria muito falar sobre isso assim? Quando aconteceu a designação, foi até numa semana que eu não participei aqui do CBN Pelo Mundo, e foi uma semana em que eu tinha literalmente me reunido com o Ministério Público de São Paulo, com pessoas que trabalham com combate ao PCC no Brasil, e tinha me reunido também com parlamentares americanos e pude discutir com eles esses temas.

E uma coisa que ficou para mim muito clara é que um argumento que tem sido usado no Brasil sobre a possibilidade da designação colocar em prejuízo a cooperação já existente entre o FBI e a Polícia Federal, porque colocaria as agências de inteligência em cena, é um argumento que não tem ainda evidências. Eu conversei com muita gente, conversei com representantes do governo, ex-servidores americanos do Pentágono e nenhum me diz, olhando para o que aconteceu nos casos anteriores do México e da Colômbia, que isso aconteceria.

Então eu acho que tem uma série de riscos que a gente precisa acessar ainda e olhar, e a maioria deles são riscos financeiros. A outra coisa que eu acho importante dizer é: a ideia de designar o PCC e o Comando Vermelho já vinha acontecendo e rolando em Washington há mais de um ano. Eu inclusive achei que a designação demorou. Ela foi de alguma forma engavetada muito pela pressão de empresas brasileiras e do próprio governo, uma coordenação ali para dar uma acalmada nesses ânimos.

Mas o governo americano já havia sinalizado que queria fazer isso. E ela foi desengavetada e colocada para fora graças à visita do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que fez esse pedido à administração Trump. Então, mas o ponto central aí para os ouvintes O que que é essa designação, assim, para entender? É que os Estados Unidos, eles não estão simplesmente dizendo: olha, o PCC e o Comando Vermelho são organizações criminosas, isso todo mundo já sabe.

O que Washington faz é mudar a categoria jurídica pela qual eles passam a enxergar as facções. E aí tem duas engrenagens importantes da gente entender aí. A classificação, ela é feita pelo Departamento de Estado americano, mas quem executa os efeitos práticos dela é o Departamento do Tesouro americano, especialmente através de uma agência que é um escritório que faz a aplicação de sanções econômicas. Então o Estado, ele coloca as organizações na categoria de terrorismo e o Tesouro vai lá e ajuda a transformar essa categoria em bloqueios e restrições financeiras.

E aí tem uma questão bem chave nisso, que é a questão de apoio material. Que que a lei americana diz? A partir de agora, qualquer pessoa ou empresa que estiver conscientemente oferecendo dinheiro, serviço, tecnologia, transporte, até assim apoio apoio indireto a organizações, a uma dessas organizações pode enfrentar não só acusação de lavagem de dinheiro, narcotráfico, mas acusação de financiamento ao terrorismo. Isso é muito drástico.

Aí quando você vai olhar os detalhes, o que que é apoio material, Bruna? Basicamente qualquer coisa. Basicamente assim, até um conselho especializado pode abrir esse precedente. O que que isso Isso aumenta muito a temperatura jurídica, isso cria um risco financeiro para as organizações, para as empresas e para as organizações financeiras brasileiras muito grande e aumenta muito o custo do compliance. Os bancos, eles podem começar a olhar para esse risco com muito mais aversão do que antes.

BSBruna Santos

Perfeito. Tá bom. Bruna, muitíssimo obrigado mais uma vez pela participação aqui no Saber em Pelo Mundo.

?Voz C

Obrigada, gente.

BSBruna Santos

Bom final de semana e até sexta-feira que vem.

?Voz C

Até sexta-feira que vem.

?Voz D

Tchau, tchau.

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