Recordes esportivos: os atletas de hoje são melhores?
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- Enhanced Games em Las VegasExperimento bizarro em Las Vegas · Mito do doping milagroso · Prêmio de 1 milhão de dólares por recorde · Queda de recorde na natação (50m livres) · Seleção de atletas e risco de banimento
- Influência do contexto históricoTalento atemporal vs. contexto · Fisiologia e treinamento distintos · Impacto social de Pelé · Garrincha e a performance da época
- Recordes esportivos internacionaisEvolução do corpo e técnica · Peneira e especialização de biotipos · Impacto do equipamento (maiô de poliuretano) · Parada para hidratação no futebol
- Luta e superaçãoLógica da hiperespecialização · Impacto dos ultraprocessados · Engenharia da palatabilidade · Circuitos de recompensa do cérebro
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Visões do Futuro com Álvaro Machado Dias.
Vamos falar de futebol, Álvaro. Boa tarde.
Muito boa tarde.
Bom, mês de Copa, a gente, claro, tem falado bastante sobre isso. E o Álvaro vai— ele, a pergunta que ele põe é: os craques hoje são melhores do que os os craques de antigamente, ou eles só correm mais? E eu fiz uma piadinha aqui na abertura do nosso Estúdio CBN dizendo que alguns nem isso fazem, viu, Álvaro? Hoje em dia não correm, não. Mas vamos lá, a gente acompanha, né, competição a competição e a Copa do Mundo entre elas, recordes esportivos sendo batidos.
O que é que explica? Ou melhor, antes disso, vamos falar sobre a evolução do jogo, né, já que eu falei dos recordes batidos. Recordes batidos querem dizer uma evolução do jogo? Do outro lado, o espectador está cada vez mais sedentário no sofá? Tem até transmissão que é feita do sofá hoje em dia, veja que coisa.
Tá certo, é o seguinte, olha só, quando a gente pega esses esportes individuais, a gente vê que realmente houve aí uma disparada nos recordes em muitos deles. O que que isso tá medindo, né? Isso tá medindo uma transformação do corpo ou está medindo uma transformação da técnica? A gente sabe que o genoma humano, né, do ponto de vista assim, portanto, do DNA, ele não muda em poucas décadas. O que tá mudando é todo o resto. Então, como que a gente entende isso, né?
Então, pegar o atletismo, natação e outros esportes, inclusive métricas no futebol de corrida e tudo mais, explosão. Bom, Eu acho que a gente tem dois fatores aqui. Um fator é a peneira, tá? Conforme essas, as diferentes atividades esportivas vão se profissionalizando, os biotipos vão também se tornando muito mais bem definidos. Então, por exemplo, o nadador de elite hoje, ele é mais alto do que ele era no passado. Isso não tem dúvida, tá?
O braço, os braços na média são mais longos, tá? O tronco é mais comprido. Tudo isso já foi medido, tá? Diferença de 50 anos atrás é muito grande. Quer dizer, a peneira mudou. E isso se aplica aos outros esportes: o boxeador, o corredor, corredores de maratona, corredores de 100 metros, e assim por diante. Tem um estudo muito bacana do Kevin Norton sobre isso, tá, mostrando como esses corpos foram sendo especializados aí nessa peneira, tá.
Então, por exemplo, ele fala sobre o arremessador de pesos que engordou, o pivô do basquete que esticou. Tudo isso conta bastante, importante. Agora, tem uma outra coisa que é técnica e que não é simplesmente a maneira como as pessoas fazem a atividade. Então, por exemplo, até 2010, por um período, pode ser usado na natação maiô de poliuretano. Quando esse maiô foi banido em 2010, uma enxurrada de recordes que tava acontecendo parou na hora.
Quer dizer, tinha ali um ganho baseado no equipamento, mais do que simplesmente na técnica de nadar. Então eu acho que essa é a leitura que a gente tem que ter, é um funil específico que vai definindo perfis e também uma técnica que não envolve simplesmente como treinar e assim por diante, mas muitas vezes o próprio equipamento, o chão e assim por diante. Aliás, a parada para hidratação na Copa do Mundo, ela traz esse fator, né, muda alguma coisa porque é uma priorização maior da estratégia.
Afinal de contas, os técnicos podem reinstruir os times naquele momento. É por aí que eu acho que a gente vai vendo essas definições.
Nós vimos recentemente, Álvaro, um campeonato em Las Vegas que liberava totalmente, até estimulava o doping. E aí muita gente esperava uma quebra massiva de recordes, só que quase nada caiu. Aliás, ao contrário, teve gente que não tinha doping que venceu. Conta mais, como é que se explica isso?
Pois é, esse foi um dos campeonatos mais curiosos e, na minha opinião, bizarros, tá, dos últimos tempos. É algo que assim, do ponto de vista societário, Não foi uma boa ideia, tá bom, mas enfim, deu bastante publicidade e dinheiro para os organizadores. Acho que nada além disso. E vale a reflexão, esses foram os Enhanced Games, tá, Enhanced, de aumentados, tá. Foram um bom experimento, na minha opinião, contra o mito do doping milagroso, tá.
Mas aqui a gente tem que colocar um asterisco antes de começar. Por quê? Porque pensa bem, você vai juntar atletas dopados, tá, dentro de uma lógica em que não há nenhuma regra, e oferecer, como no caso, um 1 milhão de dólares por recorde mundial. Aí o que que aconteceu? Foi visto que só o recorde numa prova caiu, que foi os 50 metros livres na natação, justamente por causa do tal do maior tecnológico que eu mencionei, que foi proibido em 2010.
Quer dizer, não foi nada do atleta, foi a tecnologia sozinha, né, mais do que a farmacologia é responsável pelo tal do recorde que não vale nada. Mas qual que é o ponto? Os melhores do mundo não entraram Quer dizer, de novo, o fator de seleção dos atletas contou muito. Porque quem está no auge e quer disputar, por exemplo, a Olimpíada de 2028, não vai chegar perto de uma roubada dessas, né? Sob pena de banimento. Então acho que a gente tem que considerar esse ponto.
Agora, olhando do ponto de vista dos atletas, o que se revela aqui? Que cada vez mais essa modificação puramente farmacológica, ela perde importância, né? Ela é proibida, mas mesmo que não fosse, ela perde importância frente às outras técnicas que foram avançando ao longo do tempo. Então a gente está num momento diferente do momento do Ben Johnson, né, daquela explosão de corrida que chocou o mundo e chocou mais ainda quando se revelou que ele estava sob efeito de doping. Então acho que é por aí que a gente entende essa história.
Bom, considerando o sedentarismo crescente de parte da população, Álvaro, você diria que é o mesmo motor social que fabrica o sedentário e o super-atleta?
Essa é uma boa pergunta. Eu acho que por um lado sim, tá? Eu acho que há uma combinação aqui de fatores que é comum. Então, por quê? Porque a lógica do super-atleta é essa da especialização extrema, né? Achar o corpo certo, isolar, otimizar, terceirizar o resto. E essa lógica, quando a gente aplica para a sociedade como um todo, ela curiosamente produz o sedentário. Por quê? Porque se você tá hiperespecializado para trabalhar, para pegar seu carro, para fazer essas atividades que estão assim simplesmente no domínio cognitivo e das ações físicas muito restritas, muito pequenas, né, você passa o dia, por exemplo, dirigindo, ou você eventualmente passa o dia na frente do computador, naturalmente todo o resto se torna desimportante.
Isso é um detalhe que conta, tá? O super atleta justamente tem que abrir mão de tudo aquilo que não faz parte do escopo da sua atividade, né, da sua especialização. E é exatamente Basicamente isso que a gente faz é essa falta de um leque grande de atividades e opções que favorece o sedentarismo, tá? Porque afinal de contas ele não é importante para nossa vida no trânsito das grandes cidades e também nos escritórios. Só que a gente tem que considerar um segundo motor, tá?
Tem uma outra coisa que daí sim é diferente. Qual que é? A comida. Então, um ponto importante é que os ultraprocessados, né, eles foram, eles são baseados numa espécie de uma engenharia da palatabilidade, tá, engenharia do que é para ser gostoso, tá. Então eles são calibrados, né, para furar a barreira de qualquer saciedade, ou seja, você não tá mais com fome, não importa, esse negócio é desenhado para fazer você querer comer mesmo assim.
E esse fator, que claramente não pode fazer parte das dietas dos atletas, também tem um impacto muito grande no sedentarismo e na obesidade, ou seja, Não é só que a pessoa fica em casa sem fazer nada e aí ela come super processados, é que ela come super processados e com isso os circuitos de recompensa do cérebro também são saciados e a motivação para fazer uma atividade qualquer ela decai, do sujeito simplesmente ficar ali no sofá e ponto final.
Então a gente tem que considerar que tem fatores comuns, é, que são a hiperespecialização dentro dos diferentes meios, o do atleta, que é a corrida ou futebol, etc. e tal, e também o do trabalhador de escritório, que é muito especializado em fazer aquilo, mas a gente tem aqui do nosso lado, cadeia mais fraca, né, os super processados, para nos tirar motivação da atividade física.
Para a gente finalizar, Álvaro, é com um desempenho extraordinário, Messi vem sendo cada vez mais comparado ao Pelé. Se o rei, o nosso rei Pelé, estivesse jogando hoje, ele seria melhor do mundo? No fundo, o quanto o talento depende de um ambiente competitivo de cada época?
Olha, eu não sou palpiteiro do futebol, mas eu diria que assim, o Pelé hoje em dia, eu diria que esse é um exercício interessante para a gente pensar se atletas extraordinários e outras pessoas de talento extraordinário são extraordinárias de maneira atemporal, ou se tem algo no contexto que as torna extraordinárias, né? Então a minha visão é que o contexto conta. Então, por exemplo, o Pelé Hoje eu acredito que ele seria extraordinário, mas para ele ser o Pelé, ele teria que ser outro Pelé, porque o talento não é simplesmente algo que brota aí de maneira universal e ponto final.
Ele é algo que tem um contexto. Então, por exemplo, hoje em dia ele precisaria de uma fisiologia, de um treinamento, de um repertório um pouco distintos. Eu acho que é por aí que a gente tem que ler as coisas. Então, por exemplo, o Messi talvez seja o jogador mais completo da atualidade, Mas a comparação com o Pelé é espinhosa para o Messi, no meu ponto de vista, porque a questão toda é que na sua época o impacto do Pelé foi ainda maior.
Então, entende? Quando a gente transpõe como se o contexto não existisse, a gente perde realmente o fenômeno. Quem viu o Pelé, quem assiste as gravações, quem entende inclusive o impacto social do Pelé, né? O Pelé visitou a África do Sul, parou a África do Sul no momento assim terrível, o nível do país. São coisas tão específicas do Pelé que eu acho que elas precisam ser consideradas como algo que não pode, que não pode ser removido da lógica de quem é essa figura.
E um exemplo que para mim é ainda mais relevante para a gente pensar essa questão é o Garrincha. Porque o Garrincha, ele é absolutamente imbatível naquilo que ele foi, mas ele não tem um dado a favor dele, né? Ele tem uma grandeza histórica que não pode ser comparada, medida a partir da performance de hoje em dia, porque ele jeito de performar, por assim dizer, que era muito próprio daquele tempo, da maneira como ele fazia. Ou seja, o recorde e o brilho do atleta não surgem do nada e não são simplesmente atemporais.
Eles são justamente reflexo do quanto essa pessoa é capaz de chocar a sociedade da sua época e criar a diferença.
Muito bem. Álvaro Machado Dias conosco toda quarta-feira em Visões do Futuro. Obrigada, Álvaro. Quer arriscar um palpite para o Brasil hoje?
2 a 1.
Ó, igual eu. A gente vai dividir a grana desse bolão aí, no qual a gente não entrou. Beijo para você, até a semana que vem.
Beijo para vocês, para todo mundo que nos acompanhou. Boa sorte para o Brasil, até!
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