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Copa do Mundo: estamos vivendo um ufanismo pragmático?

24 de junho de 202615min
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Michel Alcoforado fala sobre o desânimo de torcedores do Brasil durante a Copa do Mundo.

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Participantes neste episódio3
F

Fernando

HostJornalista
T

Tati

HostApresentadora
M

Michel Alcoforado

ConvidadoAnalista
Assuntos3
  • Ufanismo pragmático na CopaDesânimo de torcedores brasileiros · Pesquisa Ipsos sobre relação com a Copa · Conexão com a seleção brasileira · Ufanismo pragmático · Impacto do horário dos jogos · Festa junina
  • Acessórios e símbolosDefinição de nação · Símbolos nacionais · Atualização de símbolos · Camisa da seleção brasileira · Profissionalização do futebol · Invasão das apostas esportivas · Jogador home office
  • Patriotismo e identidade nacionalFutebol como soft power brasileiro · Pelé como embaixador do Brasil · Fernanda Torres · Ancelotti como técnico da seleção · Deslocamento do ufanismo para outras áreas · Oscar (filmes)
Transcrição33 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async

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MAMichel Alcoforado

Para onde vamos com Michel Alcoforado.

?Voz C

Oi, Michel, boa tarde.

MAMichel Alcoforado

Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando.

?Voz D

Boa tarde, Michel.

?Voz C

A gente tinha anunciado um assunto aqui sobre o qual o Michel ia falar, mas mudamos tudo. Ele mudou de ideia e a gente adorou. Meio agora para que ele possa falar sobre a seleção brasileira, uma opinião, uma análise baseada em dados. Então deixemos o espetáculo do emagrecimento para semana que vem, né, Michel?

MAMichel Alcoforado

Deixamos. É, deixa que essa pauta você sabe que ela vai durar bem. A gente não pode perder a oportunidade de falar de futebol às vésperas aí do jogo contra a Escócia. Eu achei vocês belíssimos hoje, hein? Vocês deviam manter o look. 365 dias por ano.

?Voz C

É o nosso Brasil core.

MAMichel Alcoforado

Mas vocês estão acreditando?

?Voz C

Sim, que vai vencer hoje?

MAMichel Alcoforado

É, não, hoje não. A Copa?

?Voz C

Não, não, a Copa eu realmente acho que não.

?Voz D

Mas sigamos assim, só que é uma semifinal, talvez umas quartas de final.

MAMichel Alcoforado

Animados ou desanimados?

?Voz D

Animados. Para a gente ficar animado precisa de tão pouco, Michel, tão pouco.

MAMichel Alcoforado

Olha que maravilha, acabou de sair uma pesquisa feita pela Ipsos, que é um instituto global que faz pesquisas mundo afora, e eles estavam interessados em entender como é que os brasileiros estavam se relacionando com o tema da Copa agora, em 2026. E aí o dado é interessante, que eu acho que reflete um pouco a forma como nós, eu, você e Tati, e todo mundo que tá ouvindo a gente, tem se relacionado com esse assunto. Primeiro, eles mostram que 46% dos brasileiros Estão chegando à Copa agora um pouquinho desanimados com o torneio.

Sabe aquela bandeira que tu ficou com preguiça de tirar de dentro do armário? Aquela camisa que tava meio suja da última Copa, quando você guardou com raiva no armário, nem se preocupou em lavar? Aquele negócio todo que a gente tinha guardado e tá com preguiça de colocar na rua de novo? É mais ou menos assim que 46% dos brasileiros estão se sentindo agora. Desanimados. E só 18% tão acreditando piamente que apesar dos pesares, apesar de todas as análises, apesar de todas as perspectivas bastante preocupantes em relação ao futuro da seleção, vai dar bom e a gente no final dessa Copa vai levar mais uma taça pra casa.

E aí o dado que mais chama atenção nesse relatório foi que 1 em cada 4 brasileiros se sentem conectados à seleção. Só um em cada quatro, ou seja, 25% da população brasileira tá achando que vale a pena a gente parar tudo que tá fazendo para se conectar com o jogo e com a Copa e com a seleção da forma como a gente fazia no passado. Esse dado é interessante, que os analistas vão chamar atenção para um novo fenômeno que tem pautado a relação dos brasileiros com a seleção e com os jogos da Copa do Mundo, que é o que eles estão chamando de ufanismo pragmático.

O fanismo é aquele sentimento que a gente sente em relação à nação em momentos onde você tem orgulho, mas orgulho demais de fazer parte de um determinado grupo. E em geral, na história da sociedade brasileira, a gente devotava esse momento para 4 em 4 anos, quando você tinha os Jogos da Copa do Mundo, que todo mundo tinha muito orgulho de dizer que era brasileiro. Agora esse fanismo tá um pouco diferente. Ele precisa ser bom para você.

Não é mais aquele sentimento doido, cego, onde a gente tava pelo pelo Brasil na Copa do Mundo, independente de qualquer coisa. Precisa tá pelo Brasil desde que seja bom para você. Então, por exemplo, hoje jogo 7 da noite, não é tão bom assim, tá? Porque o trabalho deve ter liberado às 5, é mais ou menos a hora que boa parte dos brasileiros aí que tem uma rotina mais estruturada de trabalho tá saindo do trabalho, não muda muito.

Agora, bom é jogo às 2 da tarde, aí você fica muito doido pelo Brasil, porque você tem a chance de nessa vai ser liberada. Aí você fala: Brasil, tô contigo! Nesse caso de hoje, menos ufanista do que a gente, então, é todos esses estados do Nordeste que já tem feriado. Então a pessoa que tá nesse dia pensando: ah, já era feriado, não mudou nada na minha vida, para que que eu vou me preocupar em sair da minha festa junina para assistir jogo da Copa do Mundo?

Então essas pessoas estão menos ufanistas. Ah, me deu a possibilidade de sair com os meus amigos e me conectar com eles Numa quinta-feira à tarde, que era um dia que eu ia ter que estar sentado no escritório. Aí você vira a bazuca pra caramba de novo. Então, essa ideia de uma Copa do Mundo que me sirva é o que tá revelando esse jeito novo dos brasileiros se conectarem com o assunto e com esse tema. O que é muito interessante porque é novo.

E é novo sobretudo porque isso dá novas formas, dá novas formas da gente pensar A nossa relação com a própria ideia de nação. Nação é um conceito que a gente repete pra caramba. A gente é nacionalista, o Brasil precisa ser mais nacionalista, a gente faz parte da nação brasileira. Ou o teu time, né? Você olha: "Ah, eu sou da nação corintiana, da nação palmeirense", ou por aí vai. Nação é um conceito que a gente, quando para pra olhar, fala: "Caramba, o que faz uma nação?" E nação nada mais é do que um grupo de pessoas que acreditam, porque têm mais ou menos a mesma história, fazem parte de uma mesma comunidade.

E vez ou outra, essa nação precisa estar pautada num conjunto de símbolos que a gente se reconhece. Pode ser a camisa da seleção, pode ser a bandeira do Brasil, pode ser o hino do Brasil, ou pode ser uma música da seleção brasileira que faz parte da nossa história, que a gente, quando ouve aquilo, automaticamente se conecta com os outros. Só que esses símbolos precisam ser atualizados pra continuar funcionando com a gente do jeito que eles funcionavam no passado.

E um dos dramas que a gente tem vivido agora é que tudo aquilo que funcionava pra caramba agora não tem dado jeito de funcionar do mesmo jeito. Então, a camisa da seleção nos últimos anos entrou dentro da disputa política e não tem mais o mesmo significado pra todo mundo. Os jogadores de futebol, a partir do processo intenso de profissionalização, não tem mais aquele senso assim de que você tá fazendo aquilo por garra. A ideia de que dinheiro vale muito mais a pena do que defender o país tem bagunçado a nossa relação com o esporte de uma maneira geral. Não à toa, a gente até tem agora jogador home office, né?

?Voz C

Como a gente ouviu aí essas semanas.

MAMichel Alcoforado

E, sobretudo, um outro debate interessantíssimo que eu acho que marca essa Copa, que é a invasão das bets e dessas maquininhas de apostas dentro de um campo que era o campo da emoção única e exclusivamente, né? A gente gostava do Brasil, e tava pelo Brasil por si só. E aí, as marcas que entravam dentro desse território faziam com jeitinho, era meio que pra impulsionar o trabalho da seleção. Então, uma marca que apoiava a seleção tava ali patrocinando pra seleção brasileira brilhar, ter o melhor médico, o melhor estádio, o melhor treinamento possível.

Quando a gente traz esses outros players, desses 8 novos que a gente tá fazendo, a gente perde mais tempo hoje na rede social discutindo. O papel dessas novas plataformas do que discutindo a nossa relação com o Brasil. Então, nesse momento, tá todo mundo brasileiro pela beirada, assim, sabe? Com muito medo de defender a seleção porque não sabe a nova história que vai aparecer. Com muito medo de defender um jogador porque os jogadores mudam e atualizam suas narrativas com uma velocidade maior do que a gente é capaz de entender.

Com muito medo de defender as cores da bandeira do Brasil ou da camisa da seleção, a partir da tua posição política, isso pode ser um problema. Então tá tudo em dúvida, tá mais todo mundo preocupado se vai dar para sair cedo do trabalho ou ter uma, um refresco no meio da semana do que se o Brasil vai virar ou não vai virar essa Copa e vai trazer essa taça para casa.

?Voz D

Você acha que isso muda de acordo com o trajeto da seleção? Porque se a gente passa de umas oitavas de final, quartas de final, e aí você vai Pô, alguma coisa pode acontecer, né? O que você acha?

MAMichel Alcoforado

Olha, a gente tá meio traumatizado de oitavas e quartas, né? As últimas Copas mostraram pra gente que elas não significam tanto. Eu acredito que aumenta sim, Fernando, não tenho a menor dúvida, porque obviamente aí o Psicologia das Massas é capaz de explicar isso melhor do que eu, porque a gente vai sendo tomado por um sentimento social onde o assunto vai dominando as pautas de forma tão clara que obviamente esses assuntos paralelos vão ficando pro lado ou de lado e você vai se conectando com aquilo que é o core do que é ser brasileiro, querendo ou não, você vai sendo levado lá.

Então obviamente, mas eu diria que precisa mais do que oitavas ou do que quartas de finais. Acho que a gente só vai esquentar mesmo se chegar na semi.

?Voz D

Tá bom, eu gostei, acho que é o limite mesmo, eu também concordo.

?Voz C

E essa impressão que eu tô tendo, pelo menos, de que de volta de novo, de que a camisa amarela da seleção brasileira de volta pertence a todos os brasileiros. É só uma impressão ou é só porque é época de Copa, Michel?

MAMichel Alcoforado

Eu acho que a Copa é, para os antropólogos, a gente diz que é um fato social total. Se tem um conceitozinho aqui só para parecer mais inteligente do que eu sou, mas nada mais é do que a Copa é um tubo de ensaio. Assim, tudo que ao longo de 4 anos a gente demora um tempinho para entender Nesse momento da Copa, você olha no tubo de ensaio e você consegue ver coisas que estariam espaçadas, assim, que a gente demoraria a perceber.

O que eu digo é que a gente, nesse mês de jogos da Copa do Mundo, a gente pensa, fala sobre o Brasil e discute o que é o Brasil e pensa o que é o Brasil com uma forma e com uma força que a gente não faria no passado, em outros momentos, né, que não são de Copa do Mundo, não são momentos de eleição para presidente da República ou coisa do tipo. Então, acho que nós brasileiros estamos nos relacionando com a ideia de nação de um outro modo.

Mas o que eu acho super interessante agora é que olhando para outros campos da vida social do Brasil, a gente está ufanista abessa, né? A gente não pode deixar de lembrar aqui das duas campanhas de Oscar, tanto do Ainda Estou Aqui quanto do filme do Kleber Mendonça, quando todo mundo, tendo assistido ou não, vestiu a camisa do Brasil e disse: "Olha, ai de vocês que falem que esse filme não é tão bom como eu tô achando que é bom, mesmo não tendo assistido." Talvez, eu acho que a nação brasileira tá deslocando a nossa relação de ufanismo pra outros campos que não seja só o esporte.

O que é normal, é do processo histórico. Os brasileiros não ficaram apaixonados por futebol desde sempre. Essa é uma construção que se dá, sobretudo, na segunda metade do século 20. E que tá diretamente conectada à forma como nós vamos inventando o que é a identidade nacional. A relação dos brasileiros com alguns elementos importantes pra cultura nacional, como o samba, como o futebol, é fruto de uma série de governos ou um momento histórico da nação que tava preocupado em entender o que a gente tinha de diferente dos outros.

E aí houve um investimento tanto do Estado, quanto dos governantes, quanto nosso, para fortalecer esses dois espaços como espaço importante do entendimento que era ser brasileiro. Eu arrisco a dizer que a gente tá agora gostando mais de tela de cinema ou de filme, ou de atriz, do que de futebol.

?Voz C

Bota Fernanda Torres nesse time aí, ô Ancelotti.

MAMichel Alcoforado

Eu diria isso. Eu acho que Fernanda Torres tá batendo um bolão maior do que boa parte da seleção.

?Voz C

Afinal de contas, a gente tá falando de soft power, né? Tem várias origens, várias fontes de emulação desse desse poder, o futebol não tem sido uma boa fonte ou uma fonte forte, né?

MAMichel Alcoforado

Isso é um negócio super importante, porque a gente não pode deixar de levar em consideração que essa habilidade que nós brasileiros temos quando saímos do Brasil para qualquer outro lugar e você diz: "Sou brasileiro!" e a pessoa dá um sorriso, ou: "Sou brasileiro!" e a pessoa cita um jogador de futebol, é fruto do trabalho muito importante de invenção do que era o Brasil, que é isso aí, né, que é o soft power, a partir do futebol, assim.

Eu brinco sempre que o fato é saudades do tempo que quando a gente dizia que era brasileiro, as pessoas citavam Pelé, Ronaldo, Ronaldinho e por aí vai, né? E esse Pelé foi talvez o maior embaixador, o maior propagador de um jeito bom do que era ser brasileiro. E não sei se os jogadores têm cumprido esse papel do jeito que eles faziam no passado. Talvez Fernanda Torres cumpra um papel de um jeito mais legal do que os atletas nesse momento.

E acho que é representativo também a sociedade brasileira achar que um gringo pode assumir o controle da seleção brasileira. Se fosse há 10, 15 anos atrás, essa seria uma conversa impensável. Mas o fato da opinião pública não se mobilizar contra o nome do Ancelotti, aí não tem nada a ver com o fato dele ser, ou a origem dele, ou qualquer traço xenofóbico, nada disso, né? É porque esse é um território muito brasileiro. E se a gente começa a achar que tem alguém que pode saber de treinamento ou de organização de time brasileiro melhor do que a gente mesmo, é um sinal de que isso não representa mais aquilo tudo como representava.

?Voz C

Muito bem. Eu teria mais 30 perguntas, porém a Janaína só me olhou agora e falou: "Ah, Michel Alcoforado tá com a gente." Janaína é nossa chefe. Janaína é nossa chefe.

MAMichel Alcoforado

Ela que é a nossa Ancelotti.

?Voz C

Misericórdia, ela respondeu. Misericórdia. Janaína Ancelotti é nossa produtora. Michel Alcoforado, nosso comentarista, que está conosco às segundas, quartas sextas no nosso Pra Onde Vamos em geral sem resposta ou com muitas alternativas de resposta, o que é bom à vez. Valeu, Michel, obrigada. Você quer arriscar o placar?

MAMichel Alcoforado

2 a 1.

?Voz C

Aí, meu, vou ter que dividir com mais uma pessoa. Beijo, Michel, até sexta.

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