Saturação afetiva: ‘limite de sentir sem se partir’
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- Saturação afetivaMecanismo de sobrevivência do cérebro · Processamento de tragédia em escala industrial · Defesa emocional · Anestesia emocional · Indignação constante vs. engajamento · Erosão social · Ativismo de timeline · Limite de sentir sem se partir
- Notícias chocantes e a raiz do problemaAtaque, guerra, escândalo, corrupção · Estado de saturação afetiva · Fechamento emocional para o vizinho e para a guerra distante · Política nacional · Era da notificação
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Refletir para viver com Rosandro Klinger. Mais uma semana foi de notícia pesada vindo de todo canto. Ataque, guerra, escândalo, corrupção, tragédia ao redor do mundo. E aqui não é diferente. O brasileiro está no estado que eu venho chamando de saturação afetiva. A pessoa abre o celular, lê 3 manchetes de horror, fecha o aplicativo e vai almoçar como se nada tivesse acontecido. Parece frieza, mas não é. Se trata de uma defesa emocional.
O cérebro humano não foi feito para processar tragédia em escala industrial. Durante a maior parte da história, o sofrimento que chegava aos nossos ouvidos era o do vizinho, talvez da aldeia mais próxima, ou seja, do que cabia no alcance da voz. Hoje chega o do mundo inteiro, em tempo real, sem filtro ou pausa, empilhado entre uma publicidade e um meme. Quando o sofrimento ultrapassa a capacidade de processamento, O sistema nervoso faz o único que sabe: desliga.
Não é escolha moral, é apenas um mecanismo de sobrevivência. A grande questão é que o desligamento não tem endereço específico. A pessoa se anestesia para o Oriente Médio e termina anestesiada para o vizinho. Fecha o coração para a guerra distante e, sem perceber, fecha também para a conversa do filho no jantar. Isso sem falar do flaflu que virou a política nacional nos últimos anos. Esse é o preço silencioso da era da notificação.
A indignação constante não é engajamento, mas sim erosão social. O ativismo de timeline que grita todo dia sobre tudo acaba gritando sobre nada, porque perdeu a capacidade de distinguir o urgente do barulhento. Sentir menos não significa que você virou uma pessoa pior. Significa que chegou no limite do que qualquer ser humano consegue sentir sem se partir. O antídoto é escolher onde colocar a atenção que ainda resta.