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Espriella, da extrema da direita, é novo presidente da Colômbia

26 de junho de 202611min
0:00 / 11:43
Bruna Santos comenta o resultado das eleições na Colômbia, que oficializaram Abelardo de la Espriella, candidato da extrema direita, como novo presidente do país. Ouça o comentário.

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Participantes neste episódio2
T

Tati

HostApresentadora
B

Bruna Santos

ComentaristaDiretora no Inter-American Dialogue
Assuntos4
  • Influência de Donald Trump nas eleições brasileirasAtivo tóxico para a direita brasileira · Limite da soberania no combate ao crime · Risco da falsa proteção em relação às tarifas · Interferência americana na realidade brasileira · Tradição de autonomia brasileira
  • Geopolítica e eleições na América LatinaAmérica Latina como quintal dos EUA · Engajamento hostil dos EUA · Mobilização de eleitores colombianos nos EUA · Pêndulo político acelerado na América Latina · Centralidade da segurança pública nas eleições · Aumento da produção de cocaína
  • Eleicoes ColombiaAbelardo de la Espriella · Extrema direita · Recepção em Washington · Isolamento ideológico de Lula
  • Conflito de InteressesAgentes privados transmitindo narrativas · Financiamento de campanha · Disfarce de influência de governo · Convergência de interesses
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?Voz C

Estão na Colômbia, gente, a Belardo de la Espriella Foi declarado oficialmente o novo presidente. E como é que esse resultado foi recebido em Washington? Se dizia, se ouvi muito dizer que Lula tá ficando isolado ideologicamente na América do Sul porque mais um presidente de direita ou extrema-direita foi eleito. Como é que essa eleição repercutiu por aí, Bruna?

BSBruna Santos

Pois é, Tati, eu acho curioso dizer isso, né, que essa guinada à direita da América Latina, porque se a gente for olhar uma boa parte, metade da população, se a gente contar o México, também ainda está sob governos de centro-esquerda, vamos dizer assim, né? Então assim, dois grandes países ainda estão liderados pela centro-esquerda. Vamos ver o que acontece no Brasil. Mas assim, para Washington, claro que a vitória do De La Esprieja foi recebida como mais um passo na direção de uma América Latina mais alinhada ideologicamente com o Trump.

Uma coisa que sempre me surpreendeu muito aqui, desde que eu mudei, é que quando virou o governo, né, do governo Biden, Trump, as minhas interações com as pessoas se tornou muito mais comum as pessoas realmente usarem aquele jargão de chamar América Latina de quintal. Eles realmente usam essa expressão. Eles usam assim de forma muito, que cringe, né, como dizem, de forma muito natural, sem nenhuma vergonha. Então acho que para eles é mais um passo nesse caminho, que é o quê para mim?

Acho que a região ela passou por muitos anos por uma espécie de uma negligência pacífica dos Estados Unidos. Os Estados Unidos não aparecia, mas também não intervinha, né? E hoje a gente saiu dessa negligência pacífica por uma forma de engajamento muito mais hostil e muito mais direta. No caso da Colômbia, o que que o Trump na prática fez? Assim, ele endossou o candidato, mas também parlamentares republicanos, especialmente parlamentares da Flórida, viajaram para Colômbia para endossar, para ajudar a mobilizar.

E outra coisa que eles fizeram que eu achei que é curiosa também, que eu acho que numa eleição apertada acabou pesando, foi a mobilização dos colombianos que moram nos Estados Unidos e que tradicionalmente têm um voto mais conservador e muitas vezes se abstêm de votar. Então eles clamaram muito para que essas pessoas fossem, né, para as urnas para apoiar o governo de direita. Mas tem uma coisa que eu acho que é importante da gente notar, que é esse pêndulo na América Latina, que a gente fala do pêndulo sempre oscilando entre direita e esquerda.

Muitos analistas falam desse pêndulo também indo sempre em oposição ao anterior, a ideia do anti-incumbente ser a tendência da América Latina. Mas para mim o mais interessante dessa eleição na Colômbia e a eleição peruana e as demais eleições na América Latina são duas coisas, duas tendências. Duas coisas: uma é o tanto que esse pêndulo está acelerado, assim, eu acho que antigamente ele era mais lento, eu acho que agora a gente está vivendo um mundo em que a gente está hiperconectado, então a impaciência do leitor ficou muito mais evidente.

E a outra coisa é, claro, a centralidade da segurança pública. A gente sabe que 70% das eleições da América Latina esse ano foram vencidas por pessoas que estavam com a segurança pública como centro da campanha. Seja incumbente, seja não incumbente. Isso, claro, tá relacionado a uma explosão da criminalidade na região. A gente viu um aumento da produção de cocaína na América do Sul na última década, um aumento muito significativo, que obviamente se desdobrou em mais ações criminosas, no crime mais perto da sociedade.

Mas eu preciso dizer que eu acho que o Trump infla o papel dele nessas eleições. Eu acho que quando você conversa com pessoas que estavam conduzindo pesquisas na Colômbia, todos eles dizem que o peso dos fatores locais foi muito maior do que o peso do Trump.

?Voz C

O que não quer dizer que o peso local não tenha tido influência de fora, né?

BSBruna Santos

Exato. E não quer dizer isso que eu falei, eu acho que é importante numa eleição apertada como foi na Colômbia você mobilizar quem tá morando fora de ir votar acaba tendo um resultado importante, né.

?Voz E

Agora, Bruna, nós nessa semana nós vimos o presidente Donald Trump compartilhando um texto dizendo que a eleição brasileira agora em outubro é o próximo grande foco político dele na América Latina. Segundo ele, é uma vitória da direita no Brasil fortaleceria os interesses de Washington. Que leitura dá para fazer dessa, desse texto?

BSBruna Santos

Então, como eu falei, eu acho que ele tá inflando a sua influência, mas no caso do Brasil, eu acho que essa, que o apoio do Trump é mais um ativo tóxico para direita brasileira do que qualquer outra coisa. Eu vou explicar por quê. Assim, eu acho que a influência externa o apoio do Trump, ele vem com alguns grandes problemas. Eu acho que ele pode mobilizar aquele sujeito mais ideológico, ferrenho, né, que tá apoiando o candidato de direita, filho do ex-presidente.

Mas ao mesmo tempo, eu acho que o eleitor médio, ele se assusta, porque você acaba importando alguns grandes problemas. Primeiro, o limite da soberania no combate ao crime. Segundo, o risco da falsa proteção em relação às tarifas. O que que eu quero dizer com isso? Você traz a ideia de que os Estados Unidos podem apoiar no combate ao crime organizado no Brasil. Aí, logo após isso, você clama, partes aí, né, influentes da campanha do candidato Flávio Bolsonaro, diz que o Brasil deveria pedir mais bombas para combater o crime organizado, que é um pedido insano para vamos dizer, o mínimo assim.

Mas a gente vê ao mesmo tempo que a população brasileira, que no início apoiava a classificação, mudou de lado. Hoje vê, mais de 50% da população vê a designação como um problema, como uma interferência dos americanos dentro da realidade brasileira. E aí o Brasil não tá sozinho nisso, a gente viu a mesma coisa acontecer no Equador. O Equador certa feita passou, teve que passar por um plebiscito, onde o presidente fez um plebiscito para entender se deveria ou não levar novamente bases militares americanas para o Equador.

O Equador estava passando por uma crise de segurança pública seríssima e o plebiscito foi veementemente contra. Então assim, acho que esse é um problema. O outro é o que eu chamo de risco da falsa proteção. O que que eu quero dizer com isso? Ser amigo do Trump hoje, ser parecido com Trump, endossado pelo Trump, não compra nenhum tipo de seguro contra o trumpismo. Eu acho que você vai lá tirar foto, manda carta, recebe carta, pode melhorar o acesso, pode melhorar a sua percepção dentro de um determinado grupo, mas a política externa do Trump continua guiada por uma lógica unilateral, uma lógica baseada em tarifas e uma lógica onde todo cálculo é feito com base na política doméstica americana.

E aí eu acho que isso é uma chave que mudou muito. Se você pega, por exemplo, O Milei foi lá, o Trump disse que apoiaria ele, daria um empréstimo de 40 bilhões se ele conseguisse ganhar a eleição legislativa, ele ganhou, virou, mas mesmo sendo um dos governos mais próximos do Trump, que ele chama de "meu favorito", a Argentina não escapou da lógica tarifária. Em 2025, o Trump colocou 25% no aço e no alumínio, E não deu a exceção da tarifa base de 10% no pacote das tarifas recíprocas para o Millet.

Então assim, acho que a direita brasileira pode querer transformar o Trump num cabo eleitoral, mas na verdade vai virar um grande risco e ele vai acabar virando um passivo eleitoral, porque o brasileiro ele tem uma tradição de autonomia muito mais forte do que uma tradição de intervenção.

?Voz C

E eu tô te ouvindo e tô pensando aqui, quando a gente fala sobre a influência do Trump parece que o presidente dos Estados Unidos passa a mão no telefone fala com as pessoas. E eu tô pensando numa influência que é transmitida, gerada, alimentada por outros agentes, tenham eles conexões com o governo ou não, né? Agentes que transmitem ideias, narrativas, propostas alinhadas ao que diz o presidente dos Estados Unidos. E óbvio, eventualmente dinheiro, né, financiamento de campanha.

Desses candidatos, dessas candidaturas ideologicamente alinhadas, né? Faz sentido, Bruna?

BSBruna Santos

Faz, faz todo sentido. Acho que tudo isso pode acontecer, mas não caracterizaria uma influência direta do governo americano, né? Seria daí feita por meio de agentes privados, que já que o governo americano não pode doar para uma campanha, aí entra numa esfera privada, que daí é uma escolha de—

?Voz C

que pode ser um disfarce de influência de governo também, como temos visto aí tanto nos últimos anos.

BSBruna Santos

Eu acho que disfarce, Tati, e muitas vezes eu acho que existe uma convergência de interesses, né? Eu acho que é fácil você olhar e dizer, bom, é um disfarce ou não, independente do Trump ter dito para essas empresas apoiarem ou não, há uma convergência de interesse. Eu acho que isso é um ponto. Mas em linhas gerais, a influência direta dele, do sujeito, que é um pouco o que a campanha da direita brasileira tem feito, de ir lá bater na porta, pedir foto, pedir designação, etc., eu acho que isso vai acabar sendo um tiro saindo pela culatra.

Mas a convergência de interesses em outras esferas é algo da esfera privada, tudo pode acontecer. Eu acho menos, é menos fácil da gente rastrear, né?

?Voz C

Muito bem. Bruna Santos conosco diretamente de Washington toda sexta-feira no nosso CBN Pelo Mundo. Obrigada, Bruna, um beijo. Até semana que vem.

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