A dor de se sentir inadequado: o desafio da adolescência atual
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Carol Tilkian
Fernando Andrade
- Inadequação na adolescênciaImpacto das redes sociais · Saúde mental dos adolescentes · Comparação social · Bullying e suas consequências · Papel dos pais na autoestima
CDN Amores Possíveis, com Carol Gilguian. Oi, Carol, boa tarde. Boa tarde, Nando, boa tarde, Nadedia, boa tarde, ouvintes. Boa tarde, Carol.
A gente vai falar hoje, Carol, sobre os jovens, sobre os adolescentes. Nós vamos falar para os pais desses jovens e também desses adolescentes, daqueles que se sentem inadequados. O que significa isso, se sentir inadequado, primeiramente? Se sentir inadequado é se sentir...
fora do padrão do que esses adolescentes, esses jovens, ou que nós imaginamos que a gente deve ser.
sentir que a gente sente de um jeito errado, então ou eu estou sentindo demais ou de menos, então desautorizar as nossas emoções. Será que eu estou com muito medo? Que eu estou muito sensível? Que eu fiquei com muitos ciúmes? E também tem algo de uma ordem da inadequação em relação com as posturas.
Eu deveria ser um menino que chega mais nas meninas? Ou eu deveria ser uma menina que transa casualmente e não está nem aí para isso? Não fica incomodada quando isso não vira uma relação? É sempre uma régua que vem de fora.
E hoje a gente tem jovens que têm essas réguas amplificadas pelo digital e tem uma pesquisa que o IBGE divulgou agora recentemente, que é a Pense 2024, é uma pesquisa nacional da saúde escolar. E ela mostra o quanto essa geração de jovens é a geração mais solitária, mais insegura, mais...
com uma maior sensação de inadequação e de insuficiência. É claro que esse atravessamento da comparação e do digital afeta todos nós, mas eu quero conversar aqui hoje com os pais para a gente pensar como a gente pode ajudar a reconstruir o amor próprio e a autoestima.
dessas crianças e adolescentes que está tão fragilizada. Então, até queria perguntar para você, Fê, que tem dois filhos adolescentes, e perguntar para os ouvintes como vocês veem os seus filhos em relação à autoestima, autoconfiança, e como vocês endereçam esses temas de amor próprio, pertencimento.
Antes de te dar a palavra, eu queria só trazer alguns dados que eu acho que são bem preocupantes, que segundo essa pesquisa, hoje três em cada dez adolescentes se sentem tristes sempre ou quase sempre. Um a cada cinco pensam repetidamente que a vida não vale a pena.
Quase metade das meninas, 43%, relatam vontade de se machucar de propósito. E aí a gente tem visto um aumento exponencial do cutting. A satisfação com o próprio corpo caiu de 66,5% em 2019 para 58%.
agora nesse último dado. E o dado que fez me trazer essa pauta aqui com urgência é que um terço dos adolescentes sente que os pais simplesmente não entendem o que eles estão vivendo.
Não, é muito difícil. Quero trazer a palavra para você. Não sei nem descrever. É muito difícil para me descrever como pai, mas eu acho que o maior desafio de um pai hoje é a adolescência. Bom, eu estou nessa, é por isso. Mas, assim, o que eu mais penso hoje é nisso aqui
em ouvir, em abrir a escuta, eu nunca mais vou me satisfazer com uma resposta do tipo está tudo bem. Jamais. Então não me venha com essa que está tudo bem, não me venha com essa que está tudo bem. E aí vai um pouco da insistência de perguntar, mas o que está bem? Quero saber mais, quero saber mais, mas o que não foi legal? Quero saber mais, quero saber mais, e aí sim cutucar, cutucar, cutucar, porque nunca na primeira pergunta a resposta vai ser clara.
E aí tem um monte de coisa que a gente pode discutir, mas é a partir daí, assim, sabe? Não dá, não dá para não perguntar, não dá para não intervir, não dá para deixar sozinho.
Até porque são dois ambientes. Aliás, são mais de dois ambientes. Eu tenho o ambiente escolar, eu tenho a rua, eu tenho o clube, eu tenho a família. São vários. Ao mesmo tempo, cada um com uma reação. Mas é isso. Não ter preguiça de perguntar. A minha função, Carol, é perguntar no jornalismo. Eu estou fazendo o mesmo com os adolescentes em casa. Mas vamos lá. Eu quero te ouvir.
É maravilhoso você falar isso, Fê. E isso me veio... Me remeteu ao trabalho do Rodrigo Bressan, que é um psiquiatra e neurocientista que eu admiro muito, que tem desenvolvido um trabalho lindo sobre saúde mental na adolescência. E ele tem uma campanha que é Pergunte Duas Vezes, que é exatamente isso que você traz. Porque, em geral, os pais tendem a perguntar a família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família família
E aí os filhos falam que está tudo bem e a conversa acaba. É importante ter exatamente esse movimento que você está trazendo, do perguntar, perguntar, perguntar. E acho que tem um outro movimento muito importante dos pais fazerem, que é validar, ao invés de querer resolver. Porque muitas vezes, na melhor das intenções, o que esses pais vão fazer? Imagina!
se o jovem fala ninguém gosta de mim eu não sou bom o suficiente ou na escola ninguém olha pra mim o pai vai falar isso não é verdade, isso é incrível olha como você tem amigas é claro que a intenção é proteger mas o efeito disso no adolescente é o oposto que é o que eu trago muito um conceito que eu trago muito aqui do Ferenzi que é o desmentido e aí
Na tentativa de você fazer o seu filho ou sua filha olharem o copo meio cheio, você está fazendo com que a experiência subjetiva desse adolescente não encontre reconhecimento.
E aí isso se intensifica, porque esse adolescente vai se sentir mais inadequado e agora acompanhado de uma dúvida por si mesmo, porque não tem espaço. Ele começa a desconfiar do próprio sofrimento. A gente tem agora muitos jovens que não passaram nas faculdades, por exemplo. E aí você ouve dos pais.
Imagina, mas olha aqui, um monte de gente aqui da família demorou para passar na faculdade, hoje tem carreiras boas, você não pode se comparar com aquele seu primo porque ele é muito inteligente. É uma fala na melhor das intenções, mas o que esse adolescente está ouvindo? Que ele não é tão inteligente quanto o tal do primo.
que o não ter passado faz com que a vida seja medíocre por alguns anos. Então, essa tentativa desse olhar positivo está gerando um efeito reverso. E a gente precisa lembrar que hoje esse olhar do outro se tornou infinito.
E a gente está vivendo uma exigência em excesso, até desses próprios pais que vêm com falas motivadoras. O não fica assim vira uma nova exigência. Então hoje, o Biosho Rã já traz que a gente vive nessa sociedade da performance e hoje mais do que a sociedade que proíbe é o imperativo...
da produtividade. Você pode tudo, seja autêntico, seja a sua melhor versão. E aí o fracasso é vivido como uma falha, como essa incapacidade. E aqui, trazendo dados, hoje, 72% das meninas e aí
entre 16 e 17 anos, foram expostas a conteúdos sensíveis online. Automutilação, dietas extremas, padrões de beleza impossíveis e conteúdo sobre suicídio. Para os meninos, o conteúdo é o outro, mas a lógica é a mesma. Tem um documentário recente do Netflix que é Por Dentro da Machosfera.
Tem a série Adolescência, que a gente já falou aqui, e o quanto essas figuras de influenciadores Red Pill estão ensinando adolescentes que sentiam covardia, que fraqueza é algo da ordem do feminino, e o quanto eles estão aprendendo a ser misóginos e a reprimir o falar dos sentimentos para pertencer.
esse olhar do outro vai se tornando infinito. E eu acho que tem algo também que é muito sintomático dessa geração, é que o bullying não termina quando o sinal toca. Porque acho que nós vivemos um bullying que terminava quando você saía da escola. Hoje ele continua nas redes. Ele continua nas redes. Recentemente, duas escolas de elite aqui de São Paulo...
tiveram situações onde meninos pegaram fotos das meninas e usando esses aplicativos como o Grock e outras ferramentas de IA, fizeram fotos dessas meninas em corpos nus. E ainda, e aí trazendo dados, hoje 4 em cada 10 adolescentes já sofreram bullying, as meninas são mais afetadas, então 15,2%.
dessas meninas já sofreram bullying. E é uma humilhação que se replica infinitamente. É uma vergonha que vai estar no WhatsApp, que não será esquecida. É uma humilhação que faz com que esse estado de psiquismo se sinta para sempre inadequado. E faz com que esses adolescentes queiram cada vez mais se moldar para pertencer.
O que a gente quer é ser desejado, é ser visto, é ser validado. E aí, muitas vezes, de novo, o pai elogia para trazer esse olhar positivo, mas ele tem que poder só testemunhar. Porque acho que ou o pai vai para um lugar do extremo do controle excessivo, então não pode nada, não pode usar as redes, não pode sair.
ou vai para um excesso de autonomia, ou ainda para esse positivismo. E acho que o... Fala, fala. Eu tenho brigado pelo diálogo, pela discussão, e, do mesmo tempo que eu me abro, eu também insisto que eles se abram, que eles conversem comigo. Mas eu vejo no entorno...
dessa geração um silêncio enorme. Os pais que não falam, que não insistem na conversa, e as crianças que se isolam, os adolescentes que se isolam e também não falam. O silêncio machuca demais nessa época. O que causa o silêncio numa atmosfera como essa que você está descrevendo? O silêncio amplifica essa sensação de inadequação.
uma sensação de desamparo, e faz com que esses adolescentes busquem a fala a partir desses supostos ideais. Seja o menino ou a menina que são vistos como líderes e populares na escola, seja o influenciador Red Pill, seja o TikTok que romantiza a magreza extrema, ou faz com que você...
se corte. Então, esse aumento do cutting, por exemplo, é uma tentativa dessas meninas de trazerem para o corpo o que não está sendo dito em palavra. É a dor física que não encontra espaço na verbalização. Os meninos, muitas vezes, trazem para a agressividade física o que está sendo silenciado. Então, de novo, são duas formas de trazer para o corpo o que a palavra...
não dá conta. E aí, ao pensar em palavra, eu acho muito importante, para além do perguntar, os pais poderem falar sobre erros, sobre arrependimentos. Porque muitas vezes, o pai e a mãe que conseguem falar do próprio corpo com ternura, falar também da inadequação desse corpo, da mulher que está envelhecendo,
E dos muitos conflitos que vêm, esse pai poder falar de momentos onde ele se sentiu impotente, onde ele foi demitido, onde ele se sentiu menos visto porque o irmão era mais forte, onde ele se sentiu fracassado porque esse casamento acabou e hoje eles são pais separados. Isso são modelos muito mais construtivos.
do que os pais que só dividem a jornada do que deu certo, ou o ponto da superação. Poder oferecer também dúvidas para esses adolescentes, e não só soluções, e não só saídas, é de um potencial acolhedor enorme, porque a gente pode voltar a se reconhecer e ainda só saídas nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido nascido n
a partir da dor e não a partir da superação. É importante também poder desmontar no cotidiano a tirania do ideal. Não perguntar só sobre as provas, as festas. Poder questionar os padrões, poder falar sobre o que não importa. Que vídeo você viu que te fez dar risada? Quais são as coisas que...
que você gosta. Me conta uma bobagem, que você vai achar uma bobagem. Eu sempre pergunto assim, qual foi a pior treta no dia de hoje? O que deu errado hoje? Aí ela vai ficar pensando, porque é legal, é legal de compartilhar, e que não é legal. Vamos trazer uns ouvintes aqui, Carol?
Tem alguma coisa? Tem vários. Vamos lá, você primeiro. A Márcia Gomes falou aqui no YouTube que não só na adolescência, a gente tem muito uma ideia de fazer um super humano, tem que ser um super estudante, um super tudo, em vez de dar suporte para a pessoa ser o que ela tem potencial de ser. E aí, especificamente sobre os adolescentes, ela fala, a gente joga muito para as ocupações.
E entope o tempo com aula, com celular, com distração, com tarefa e não com diálogo, não com conversa. Achei super pertinente isso que ela falou. Tem mais o Vinícius. Meu filho estudou numa escola particular com 2 mil alunos, 3 negros. Ele sente uma baita angústia quando ele fala que nunca sofreu bullying ou injúria. Olha que importante, né? Poder dar voz para o...
para o que aconteceu, né? E o... Ele sente angústia é também a gente poder... não querer comparar as dores, né? Poder dividir uma dor que talvez não seja a mesma que o seu filho ou sua filha estão passando, sem colocar elas numa régua de importância. Poder dividir as impotências, as complicações.
sem também desautorizar, isso é maior ou menor do que o... da menina que teve a foto exposta, do aluno negro, da minha irmã que passou por algo muito difícil e a gente discutiu aqui dentro da família. E eu acho, até queria dividir algo que aconteceu comigo, como um exemplo dessa adulta tentando construir.
Isso, a Anadédia falou da performance, o quanto a gente... Eu tenho uma filhada, até quero mandar um beijo ao vivo para ela, depois vou mandar a coluna para ela ouvir, que não passou em algumas faculdades e passou em outras, em cidades diferentes, e estava angustiada para decidir onde ir. E as pessoas todas trazendo esse olhar da performance.
qual faculdade tem o melhor ranking, e ela se sentindo pior porque não tinha passado em tantas faculdades quanto a prima. E o que eu pude trazer para ela é, para além do lugar onde você quer estudar, que vida é que você quer ter? Como é que você se imagina nessa cidade? Faz diferença o clima? Faz diferença as pessoas que você conhece? Não é só sobre a nota.
porque eu sinto que cada vez mais a gente está cobrando a performance uns dos outros, seja no peso da balança, seja no ranking da faculdade, seja no tamanho do bíceps, tanto que toda essa machosfera, muitos deles captam esses meninos falando em você ficar maior no seu corpo e ter mais grana, que a gente possa trazer outros parâmetros.
aonde você vai se sentir mais confortável, com quem você dá mais risada, como você se imagina mais feliz. É tão importante mostrar para esses adolescentes que isso importa e falar disso na nossa vida também. Poder estar junto sem performar, sem que seja um grande programa de família, porque às vezes você está sendo pai ou mãe separado e aí você quer fazer um programão. Não, que possa ser...
Uma bobagem juntos, um só compartilhar uma música, um cozinhar de uma receita que a gente quis fazer agora, uma sensação de inadequação. Vamos dividir coisas que a gente acha que a gente é complicado também? Sem relativizar, isso não é tão complicado? Isso é de um acolhimento mais curativo.
que ajuda a gente a se sentir menos sozinho, menos inadequado, e menos tendo que resolver os nossos conflitos para poder ser alguém digno de ser amado. Acolhimento curativo, adorei. Carol, muitíssimo obrigado pela conversa de hoje e até segunda-feira que vem. Uma boa semana, um beijo.