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‘Linhas tortas’: a crônica latino-americana de Juan Cristóbal e perfil de Mariana Callejas

01 de outubro de 20268min
0:00 / 8:58
José Godoy recomenda “Linhas tortas”, do autor chileno Juan Cristóbal Peña. Na obra, por meio da crônica latinno-americana, o autor faz um perfil da escritora Mariana Callejas, colaboradora do regime Pinochet. Ouça para saber mais!

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Participantes neste episódio3
J

José Godoy

HostJornalista
F

Fernando

Co-hostJornalista
T

Tatiana

Co-host
Assuntos4
  • A história impactante de Mariana Callejas e a ditadura Pinochetcasamento com Michael Tollen·atentados contra Carlos Prates e Orlando Letelier·casa de família e centro de tortura
  • A crônica latino-americana como gênero literário e jornalísticodiferença da crônica brasileira·jornalismo literário nos EUA·não ficção narrativa
  • A vida dupla de Mariana Callejas como escritora e cúmplice da ditaduraoficinas literárias na casa·participação em torturas·conivência com o marido assassino
  • A representação da história de Mariana Callejas na literatura chilenaRoberto Bolaño em Noturno no Chile·Nona Fernández e a peça teatral·ficcionalização de eventos reais
Transcrição25 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Clube do Livro CBN com José Godói.

?Voz B

Pois é, boa tarde.

JGJosé Godoy

Oi, Tatiana, boa tarde. Boa tarde, Fernando. Parabéns para vocês.

?Voz B

Para você também.

?Voz A

Eu sei que você tá aqui faz tempo também.

?Voz B

Não, Zé chegou, não tinha nem ido embora ainda, chegou faz um tempão. Quanto tempo, Zé?

JGJosé Godoy

20 anos, 20 anos CBN.

?Voz B

Ô louco!

JGJosé Godoy

Pois é, né?

?Voz A

Quando começou com plaquinha, né?

JGJosé Godoy

Quando começou, estamos com aquela plaquinha lá de móveis, né?

?Voz B

Móveis e utensílios faz parte do mobiliário da rádio, tipo isso. Clube do Livro CBN, toda quinta-feira o Zé Godoy tá aqui com a gente para trazer uma boa dica para o seu fim de semana. Tudo bem, fim de semana de eleição, mas até a semana que vem dá tempo para ler Linhas Tortas, do chileno Juan Cristóbal Peña. Do que se trata, Zé?

JGJosé Godoy

Tati, eu trouxe o livro do Peña, além dele ser um livraço assim, para falar um pouco, acho, de um gênero muito importante aqui na América Latina. A gente acha que não identifica isso de uma forma muito clara, acho que ainda no mercado brasileiro, mas a gente tem tido recentemente publicação de vários livros nesse formato. Tô falando da crônica latino-americana. A crônica, né, nesse contexto hispânico aqui das Américas, ela é diferente da crônica que a gente conhece brasileira, né, esse gênero tão peculiar, né, que nasce para esses escritores escrevendo para os jornais aqui no Brasil.

A crônica no contexto latino-americano, ela tá mais próxima do que nos Estados Unidos chama de jornalismo literário, né, ou uma não ficção narrativa. Tem vários nomes que se dá para esse tipo de literatura. E o Juan Cristóbal Peña acho um dos ótimos expoentes desse gênero hoje. É um chileno, tem diversos livros. Esse é o primeiro que sai no Brasil. E é um livro assim, uma história assim impactante sobre um caso real da época do Pinochet no Chile, que ele reconstrói aqui detalhadamente, contando a história da Mariana Callejas, que foi uma escritora chilena.

Ela se casou com o americano Michael Tollen, que esteve à frente de dois dos atentados mais importantes perpetrados pela ditadura Pinochet fora do Chile, né? Um em Buenos Aires, o atentado contra o militar Carlos Prates, e depois em Washington, capital dos Estados Unidos, contra o Orlando Letelier. Ele é o cara que tava à frente desses casos. Mas a história, a grande história que ele conta, e é uma história que para quem acompanha de perto a literatura chilena vai, vai perceber semelhanças.

Tanto Roberto Bolanho, né, o maior escritor chileno das últimas décadas, No Noturno no Chile, como a Nona Fernández, que é uma autora gigantesca no Chile, já tinham contado parte dessa história, que é a história desse casal que tem uma casa, uma casa de classe média alta num subúrbio de Santiago, que ao mesmo tempo é uma casa de família onde ela como escritora fazia oficinas literárias, recebia escritores, editores para conversas, servia comida para os filhos.

E no sótão era uma, era um centro de tortura, mais um dos centros de tortura clandestino criados pela ditadura de Pinochet. E essa vida dupla completamente louca, né, dessa família é o que ele conta assim. E é muito impactante o relato porque é efetivamente uma vida dupla. Não é que ela fosse uma escritora de mentira só para acobertar o que tava acontecendo no sótão da casa. Ela era uma pessoa que tinha uma carreira como escritora, publicava, era lida, circulava nos, circulava, né, no mercado literário local, tinha grandes aspirações como artista, e que ao mesmo tempo era totalmente conivente, era participante desse tipo, desse horror, né, que eram as torturas.

Ela tá presente na Argentina e no em Washington quando acontece os atentados. Ou seja, uma pessoa totalmente assim, era uma cúmplice assim total, né, do marido que era um assassino. E é isso que ela vai, que ele vai contar, e vai contar com essa, com esse talento literário que esse gênero traz para o jornalismo aqui na América Latina, né. Acho que a grande aspiração desses autores e jornalistas que enveredaram aí pelo, pela crônica, né, por esse jornalismo literário hispano-americano, é realmente transformar grandes reportagens em textos com qualidade literária.

Ou seja, você lê isso como um grande romance, só que nesse caso nada é ficção, tudo aconteceu.

?Voz B

Muito legal, muito legal. Crônica legal demais, né?

?Voz A

Mas dois extremos malucos, né? Cultura com literatura de um lado e tortura do outro.

?Voz B

É, e ditadura.

JGJosé Godoy

Não, é completamente, é uma história muito, muito absurda assim. Ela mesma, ela Ela tem assim que ele entrevista, né, o Juan Cristóbal conversa, faz entrevistas com ela, ela já no final da vida. E ela conta, por exemplo, que os filhos que eram pequenos começavam a reclamar que a comida tava ficando, tava muito ruim na casa deles, porque tava ficando muito ruim porque eles estavam, a casa tava cheia de gente presa lá em cima com torturadores trabalhando.

E aí tinha gente que tava cozinhando para um batalhão de pessoas. E aí ele e a família, né, o dia a dia da família, ia para escola, saía e tal. Estavam se alimentando daquela comida, que era uma comida absurdamente ruim assim, não era mais uma comida feita em casa por uma mãe para os filhos, né? Então assim, é um nível de horror assim, ao mesmo tempo de a capacidade da pessoa lidar com esses dois mundos assim, parece que não se abalar, é um troço muito impressionante assim.

O Penn, ele tem uma coisa legal que ele não moraliza a questão, né? Porque eu acho que esse é um ponto importante assim, ele vai mostrando assim, sabe? É um livro muito sobre deixar ela falar. E a gente ouve muito a voz dessa mulher. E não que a gente tenta entender o que se passou, mas a gente ouve o que ela fez, como ela viveu e como ela achava que ela tinha que viver naquele momento.

?Voz A

Você citou o Bolanh, o Roberto Bolanh. Qual a relação dele com— ele também escreveu sobre isso?

JGJosé Godoy

Sim, O Noturno do Chile é inspirado, né? Ele vai usar, ele vai ficcionalizar a história, mas lá é um padre que é torturado, também é ligado à tortura no Chile, né? Mas ali também tem a casa, uma casa assim de família onde você tem essa própria função, né, de ser casa e ao mesmo tempo centro de tortura. Isso tudo tá muito presente. E a história do salão literário que tinha na casa dela também é super forte no Chile, né. A Nona Fernandes tem uma peça a respeito assim, que também é outra loucura, né.

Imagina uma série de autores discutindo textos enquanto no andar de cima a gente tava sendo torturado, né.

?Voz B

Sim, muito bom, Zé. Repete, por favor, para ajudar o nosso ouvinte, o título do livro, o autor. A editora, o tradutor, a tradutora.

JGJosé Godoy

Eu falei hoje do Juan Cristóbal Peña, Linhas Tortas, um perfil de Mariana Callejas. A edição é da Manjuba, selo de não ficção da Editora Mundarel, ótimo selo nesse gênero. E a tradução é do Bruno Cobalcini Matos.

?Voz B

Muito bem. Clube do Livro com Zé Godói, toda quinta no nosso estúdio CBN, ao vivo nesse horário, ou a hora que você quiser nas plataformas digitais da CBN. Obrigada, Zé. Até a semana que vem. Bom voto pra gente no fim de semana.

JGJosé Godoy

Pra todos, abração.

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