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Como nosso cérebro lida com as lembranças?: 'A memória não guarda tempos e sim marcos'

30 de setembro de 202613min
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Neste Visões do Futuro, Álvaro Machado Dias analisa de que forma as memórias individuais se relacionam com a passagem temporal. Segundo o especialista, o cérebro constantemente demonstra dificuldades em posicionar certos marcos no tempo e, muitas vezes, acaba inventando fatos para complementá-lo. Ouça e entenda.

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Participantes neste episódio3
Á

Álvaro Machado Dias

HostEspecialista
C

Carlos Alberto Sardenberg

Co-hostJornalista
C

Carol

Co-hostApresentadora
Assuntos5
  • A memória humana guarda marcos, não o tempo cronológico dos eventoscérebro inventa fatos para complementar memórias·lembrança do 7 a 1 do Brasil·experimento com o acidente da Challenger
  • A evolução tecnológica e social entre os ciclos eleitorais no Brasilausência do Pix em 2018·fake news e WhatsApp em 2018·lançamento do ChatGPT após a eleição de 2022·chegada do 5G e a migração para o Telegram em 2022
  • A inteligência artificial como tema central das próximas eleições no Brasil e EUAIA lendo programas e comparando candidatos·eleição presidencial dos EUA como referendo sobre IA·posicionamento do Brasil em relação à IA em 2030
  • As eleições como marcos temporais para a memória individual e coletivaeleição de 2018 e a greve dos caminhoneiros·eleição de 2022 no pós-pandemia·reflexões sobre diferentes momentos e sentimentos
  • A tendência de olhar o presente com o viés do passado em ciclos eleitoraisreceios do momento anterior·dinâmicas e problemas diferentes a cada eleição·dificuldade em perceber a própria mudança no tempo real
Transcrição34 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
ÁMÁlvaro Machado Dias

Afternoon glare totally ruined my watch party for the big game. That's when my buddy recommended Blinds.com.

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ÁMÁlvaro Machado Dias

Visões do Futuro com Álvaro Machado Dias.

CCarol

Oi, Álvaro, boa tarde!

ÁMÁlvaro Machado Dias

Tudo bom?

CCarol

Tudo certo. Bom, a gente vai falar de memória, de eleição. Eu adoro votar, né? Eu já falei aqui várias vezes, eu adoro o dia da eleição. E incentivo sempre aqui os nossos ouvintes de qualquer idade a exercerem o seu direito ao voto. A democracia não é algo dado, democracia é algo que a gente precisa praticar, é tipo músculo, tem que ir colocando para uso, para manter, para crescer, para fortalecer. Eu adoro o dia da votação e tem datas que ficam mesmo na nossa memória, né?

Né? Tem gente que lembra do dia, mas não lembra de nada que aconteceu naquela época, por exemplo. Como é que a memória age nesses casos, Álvaro?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Boa pergunta, viu? Olha só, o lance da memória é que ela não guarda tempo, ela guarda marcos, né? O cérebro, ele data a nossa vida mais ou menos tipo como quem tá se orientando numa cidade que não tem placa. Então você olha e fala, ali tá a igreja, ali está Ah, o tal do prédio alto e assim por diante. Então a gente marca muito essas coisas na nossa memória, por isso que a gente lembra, por exemplo, do dia que o Brasil tomou 7 a 1, né?

Quem vai esquecer? E assim por diante. Mas a gente não lembra o que aconteceu em março do ano passado, talvez março deste ano, né? Há sempre esse paradoxo. E isso que é interessante desses momentos de eleição, que para muita gente, como para você e para mim, é um momento importante. E aí a gente acaba fixando isso na memória e pode fazer essas reflexões comparando os diferentes momentos, né, assim, os diferentes marcos, tal como a gente poderia comparar, por exemplo, como a gente estava se sentindo numa Copa do Mundo.

Só que aqui tem um componente que eu acho que é interessante, que é muito mais, vamos dizer assim, muito menos um afeto comum, né, muito mais divergente. E então é legal para a gente pensar isso. E tem uma história, Tati, que eu acho muito bacana, que é a seguinte: tem uns pesquisadores que fizeram o seguinte estudo. Em 86 teve aquele acidente com a Challenger, né, o ônibus espacial. Eu era criancinha, morava nos Estados Unidos.

E aí um professor pediu para os alunos que escrevessem onde eles estavam quando eles souberam. E aí, isso foi naquele ano, e 2 anos depois a mesma pergunta foi feita. E olha que engraçado, os alunos, praticamente todos que já estavam agora em séries mais elevadas, é claro, na escola, responderam com a maior convicção: Só que quando você vai comparar, muitas vezes havia uma divergência entre as respostas. Ou seja, o marco, ele precede a própria identificação do episódio.

Não é só que o marco faz com que a gente lembre tudo, o marco também faz a gente inventar tudo. Tá aí o seu peso, a sua importância na definição da memória. É assim que ela funciona para essas coisas.

CACarlos Alberto Sardenberg

Tem um marco que te marca?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Um marco que me marca, tem muitos.

CACarlos Alberto Sardenberg

Por exemplo, em relação às eleições, né, vamos aproveitar isso.

ÁMÁlvaro Machado Dias

Isso, isso, claro, claro. Eu acho que tem, tem totalmente. Por exemplo, 2018, tá, assim, eu acho que a greve dos caminhoneiros, aquela coisa toda, me marcou. Aquele momento foi um momento assim de alta turbulência, né, que então aquilo realmente pegou para mim. Eu lembro claramente do momento. E obviamente, né, 2022, né, tem também foi muito marcante a ideia da gente estar num pós-pandemia, né? Era um momento de alívio nesse sentido, do ponto de vista social, de tudo que a gente tinha vivido.

Então essas duas coisas me marcaram bastante. Eu lembro das duas eleições, assim, países distintos e experiências pessoais distintas também.

CCarol

Tem um final—

ÁMÁlvaro Machado Dias

Aliás, posso comentar uma coisa? Claro! Eu queria comentar uma coisa sobre 2018. Olha só que coisa curiosa, né? A gente Olha para trás e dentro dessa lógica dos marcos e tende a se colocar nas situações. Vocês já pararam para pensar que o eu de 2018 não tinha Pix, não pagava nada com Pix? O grande lance, eu não sei se vocês lembram desse momento pré-eleitoral, o grande lance era o WhatsApp, né, era praça pública, a palavra nova era fake news.

Lembram disso? Então a gente, essa era a grande questão do momento, fake news circulando em grupos de WhatsApp, não tinha Alexa ainda no Brasil. TikTok ninguém conhecia, tinha acabado de nascer, não existia. Inteligência artificial só para aquele 1% mais nerd. Eu já mexia com inteligência artificial na época, aliás, já tem empresa disso. Mas enfim, é uma coisa que não rolava por aí. E o nosso medo estava muito ligado a, né, assim, do ponto de vista simbólico, as preocupações com a verdade, muito com essas tipo correntes do Zap, né?

Era muito isso da coisa que circular, alguém escreveu e as outras pessoas acreditaram, e aí isso se tornou uma onda. Era esse o mundo de 2018. E uma das coisas mais marcantes para mim é: 2018 não tinha Pix, né? Não parece uma coisa assim, não, Pix sempre existiu, a gente sempre pagou tudo com Pix. Não, olha só como as coisas são curiosas.

CCarol

Você sabe que, bom, isso é algo que aconteceu com todos nós. Passamos um ano e meio, dois, muito com a vida muito restrita por causa da pandemia. Nós que sobrevivemos, né? Porque é sempre bom lembrar que 800 mil pessoas morreram nesse país durante a pandemia de COVID entre 2000 e 2022. Mas aí a gente saiu em 2022 um pouco atrapalhado das ideias com o tempo, não foi? Aí você fala, nossa, mas espera, isso foi em 2018, em 2008 ou em 98?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Boa, é total. A gente saiu muito atrapalhado das ideias. Isso é uma grande verdade, né? Houve uma atrapalhação que não tem graça nenhuma, que é um atraso escolar uma, assim, um problema econômico, um problema social, muito luto. Tudo isso aconteceu. Agora, olhando pelo lado da nossa relação com as coisas, tal como a gente pensa no Pix, não é curioso pensar que em 2022 o ChatGPT não existia? Olha só, a gente vive no mundo da inteligência artificial, mas na última eleição ele não existia.

Ele foi lançado em 30 de novembro daquele ano, quer dizer, um mês depois do segundo turno. Olha que coisa engraçada, a gente Não tinha esse papo de conversar com a máquina. A gente tá em outro mundo agora, de verdade. E as nossas lembranças às vezes não parecem dizer isso, né? Parece que a gente tá vivendo o período atual há muito tempo, né? E não, a gente tá assim, a gente tinha, claro, já Pix e tal. Mas outra coisa curiosa de 2022 era o momento em que o 5G estava chegando.

Ele era o 5G DSS, ele rodava dentro das antenas do 4G, era um momento de transição. Era isso. A gente não tinha sequer uma banda larga de— perdão, uma internet móvel de qualidade assim. Hoje a gente também muitas vezes não tem, sendo bem transparente, mas era bem pior. A gente, ela não existia para muita gente. E enfim, uma outra coisa que eu acho curioso, né, é que aquele foi o momento em que também nessa época em que o negócio do Telegram estourou. Não sei se vocês lembram disso.

CACarlos Alberto Sardenberg

Claro.

ÁMÁlvaro Machado Dias

Foi o momento que as pessoas migraram para o Telegram, tinha aquela coisa. 2022.

CCarol

Uau! Não, foi antes. Ah, teve uma outra onda que teve quando o Telegram chegou, que era anos 2000 e pouco, talvez.

ÁMÁlvaro Machado Dias

Não, a onda ideológica do Telegram.

CCarol

Tá, tá, foi 2022.

ÁMÁlvaro Machado Dias

É, então é assim, tipo outro dia, não tinha inteligência artificial, 5G pleno chegando no Brasil e o lance das pessoas ideologicamente ocuparem espaços no Telegram. Tá.

CACarlos Alberto Sardenberg

Agora, Álvaro, colocando então as três vésperas lado a lado, 18, 22, 26, o que deve ser algo constante, continuar? O que tende a mudar?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Uau, essa pergunta é difícil. Eu acho que uma coisa constante, uma coisa não óbvia constante, é que os nossos receios, sobretudo quem analisa criticamente esses períodos e quer um país melhor, são sempre os receios do momento anterior, do marco anterior. Ou seja, a gente está sempre preocupado, sempre olhando para os registros desse passado. Acho que esse é o grande negócio. Então, em 2022, a gente estava olhando para os registros, para a maneira das coisas poderem, enfim, se tornarem conturbadas no Brasil à luz de 2018.

E em 2026, Eu acho que é natural que a gente olhe à luz de 2022, mas a gente— e é claro que a gente teve um momento altamente problemático no Brasil, mas a verdade é que, a despeito desse viés de pensar os problemas do presente com o olhar do último marco parecido no passado, as coisas mudam e as dinâmicas são diferentes e os problemas são diferentes. Então eu acho que essa é uma constante, a gente sempre olhar o presente com esse viés do passado.

Ah, mas e afinal de contas, o que que muda, né? Se a gente parar para ver, o que muda sobretudo é a construção, é o que o hábito constrói. Você vê, não existia inteligência artificial em 2022 na prática para as pessoas. Em 2026, a gente está condicionado a ficar na frente do computador falando com uma máquina. A mudança é gigantesca e ela altera o comportamento, ela altera nossas projeções de verdade, nossas tomadas de decisão, nossas relações com as outras pessoas de de maneira dramática.

E a gente muitas vezes não capta isso na hora, porque é muito difícil você realmente perceber no tempo real como você mudou. Então acho que são duas formas antagônicas do tempo impactar nossa existência, tá?

CCarol

Se a gente tá olhando para um padrão de passado para tentar projetar alguma coisa, leve-nos para 2030, Álvaro Machado Dias. Véspera de eleição, Copa do Centenário. Como, como acordaremos naquele domingo?

?Voz B

Medo.

CCarol

Aliás, acordaremos?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Eu acho que em 2030.

CCarol

É, né?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Tem gente achando que não, né? Apocalipse. Eu acho difícil, tá? Espero que sim. E olha só, a minha visão é que a gente vai acordar em 2030 com a inteligência artificial fazendo um monte de coisa para gente. Então ela vai ler os programas, ela vai comparar, ela vai filtrar. Então a gente vai pensar nos candidatos, a gente vai discutir isso. Outra coisa, nessa eleição a gente quase não vê discussão sobre a IA. E tem uma coisa que eu já pensei que, enfim, vai ser um marco, que a próxima eleição presidencial nos Estados Unidos vai ser a eleição da IA.

Em última análise, vai ser uma espécie de referendo sobre a inteligência artificial. Por quê? Porque o Trump é o cara que, assim, é o total aceleracionista nesse assunto. E do outro lado, a gente tem forças que são contrárias a esse movimento. E eu acho que isso vai criar um marco. E o que a gente vai estar vendo em 2030 é também no Brasil uma espécie de veredito sobre o nosso posicionamento até aquele momento na inteligência artificial.

Então acho que vai ser tema central de campanha, de reflexão das pessoas, e a gente vai acessar isso olhando do ponto de vista das tecnologias presentes, mas também do olhar do passado, ou seja, do olhar de hoje, porque sempre assim como eu falei, a gente traz para o marco presente a experiência que a gente teve no anterior. Então minha visão vai ser essa, um olhar Deslocado no tempo, como sempre tem que ser, mas em cima de um de uma pauta em que a inteligência artificial vai ser o tema central.

CCarol

Muito bom. Visões do futuro hoje bastante literal com Álvaro Machado Dias toda quarta-feira aqui no nosso estúdio CBN. Obrigada, Álvaro. Um beijo para você. Até a semana que vem.

ÁMÁlvaro Machado Dias

Eu que agradeço, Fernando. Muito obrigado também.

CACarlos Alberto Sardenberg

Até lá. Um abraço.

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