Trabalhar sem nunca se sentir protegido: a economia que transformou instabilidade em estilo de vida
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Michel Alcoforado
Fernando Andrade
- O crescimento do trabalho por aplicativos e a mudança na percepção do trabalho bom1,8 milhão de trabalhadores por aplicativo no Brasil·crescimento de 25% em um ano·trabalho da gig economy·fantasia de liberdade e autonomia
- A importância da proteção trabalhista e a visão do seletista como xingamentoonda de jovens que veem seletista como xingamento·garantia de direitos trabalhistas·proteção contra acidentes e intempéries
- Comparativo de ganhos e jornada de trabalho entre aplicativos e iniciativa privadatrabalhadores de aplicativo ganham 4% a mais·jornada de trabalho mais longa·hora paga menor em aplicativos
- A resistência à regulamentação do trabalho por aplicativos e a visão de liberdadetentativa de regulamentação do governo Lula·resistência de grupos organizados·trabalho sem cara de trabalho·liberdade de horário e dono do próprio destino
- A necessidade de novas regras para o trabalho em plataformas digitaismodelo de trabalho que não se enquadra nos moldes tradicionais·pressão da sociedade civil organizada·avanços na conversa com as plataformas
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Pra Onde Vamos com Michel Alcoforado.
Eis que temos um semifinalista do Prêmio Jabuti entre nós, Fernando Andrade. Se ajeita, se ajeita!
Pois é, rapaz, que loucura!
Cadê palminhas? Não vai ter, Dani? Vamos celebrar o nosso comentário.
Tá aí, o livro, para quem não sabe, é Coisa de Rico.
É. E aí, como é que você tá sentindo?
Eu não fiquei feliz porque a gente não escreve por isso, né? É óbvio que a sensação que eu tive, e que certamente já foi falado por outras pessoas antes de mim, é de que obviamente ninguém escreve um livro pensando em prêmio. O prêmio não resume nada, né? Porque tem tantos ótimos livros que não ganharam prêmios ou nem foram indicados. Mas ao mesmo tempo é um reconhecimento. Eu fiquei feliz só de ser indicado. A categoria tem gente gigante que eu sou fã, e aí fiquei feliz de estar junto deles, né?
Importante lembrar que nós temos duas figuras, aliás, várias figuras importantíssimas, mas dois grandes figurões do campo dos livros, né? O Rui Castro, que lançou um livro no passado, tá correndo também na mesma categoria, e o grande Lira Neto, né? Um dos maiores biógrafos do país, uma pessoa Dulcíssima, né, de quem eu sou fã. Eu nem sei se essa palavra existe, mas eu quis dizer que ele é doce.
Existe, existe, aplicada brilhantemente.
Muito legal.
Já ia ligar para o Rui Castro, que é imortal, para perguntar se tá liberado usar essa palavra.
Adorei, adorei, adorei. Bom, mudando completamente de assunto, ou não, vamos trabalhar, né, Michel? Vamos trabalhar, ainda que as pessoas não se sintam seguras, não se sintam protegidas. E talvez essa sensação seja causada por uma mudança estrutural do mercado de trabalho, da economia, né?
Isso, uma mudança estrutural do mercado de trabalho, da economia, uma mudança da nossa percepção do que que é trabalho bom também. Que eu acho que cada um de nós, e aí enquanto sociedade, não tô individualizando o problema, tem mudado a nossa percepção do que que é trabalhar, do que que é trabalho bom. Eu quis trazer essa pauta aqui porque sai um levantamento agora, fruto de uma análise dos dados do IBGE mostrando que hoje no Brasil a gente tem em torno de 1,8 milhões de trabalhadores que estão ganhando o próprio ganha-pão aí, né, dando conta de pagar os boletos e as próprias contas fazendo um tipo de serviço para essas plataformas digitais, aplicativos, né, seja ligado à mobilidade, a entrega ou a outros campos.
E o número pode parecer baixinho olhando para a realidade social brasileira, Mas vem em franco crescimento. Segundo essa análise feita por especialistas com base nos dados do IBGE, de 2024 para 2025 a gente teve um crescimento de 25% nesse número de trabalhadores que quando vão lá e os pesquisadores perguntam: e aí, você vive do quê? Você trabalha com o quê? Eles falam: olha, eu trabalho para um aplicativo, eu trabalho em um aplicativo.
E isso é interessante porque tá dando conta de uma transformação estrutural no mundo do trabalho. Esse tipo de trabalho antigamente era conhecido como trabalho da gig economy, tá? E se fosse pensar em inglês, traduzindo aqui de forma simples, era o bico, né? O bico era o quê? Você tinha lá um trabalhinho de segunda a sexta, você regulamentado com a tua, com teus direitos trabalhistas, com todo o sistema de assistência social provendo para você alguma segurança, regra para entrar, regra para sair.
Você querendo fazer uma graninha extra no final de semana, pós-trabalho, antes do trabalho, Você fazia uma outra atividade que é complementar a sua renda. O que acontece é, a partir da disseminação dessa nova economia, dessas novas plataformas digitais, é que teve um bocado de gente que começou a achar que o bico era o trabalho. E aí, muito orientado por uma fantasia de liberdade, muito orientado por uma fantasia de você não ter chefe, muito orientado pela ideia de que você faz seu próprio horário, que você pode ganhar mais.
E aí a pesquisa do IBGE é super interessante pra mostrar Que é verdade, hein? É, aqui vou pedir os ouvintes, que os ouvintes prestem atenção. É verdade que o pessoal que trabalha para aplicativo ganha mais no mês, tá? A pesquisa mostra que quando a gente compara, por exemplo, os ganhos médios de um profissional que trabalha na iniciativa privada com os ganhos médios de um profissional que trabalha no aplicativo, os profissionais do aplicativo ganham mais.
Mas ganham quanto mais? 4% a mais, tá? 4% a mais. Então não é nenhum valor assim astronômico que dá pra você a sensação de que tua vida tá mudando. Os ganhos médios giram em torno de R$2.996, que é 4% a mais do que alguém que tá trabalhando na iniciativa privada com todos os direitos trabalhistas garantidos. Mas o que que é o mais interessante que essa pesquisa mostra? Que eles ganham mais, mas eles trabalham mais também. Então O fulano que trabalha na iniciativa privada, com direitos trabalhistas ali regulamentando, mediando a relação dele de trabalho, trabalham em média 39,3 horas por semana.
E os trabalhadores de aplicativo trabalham 44,8 horas por semana. Então eles ganham 4% a mais, mas eles trabalham muito mais, o que faz com que a hora paga seja menor do que a de um trabalhador que tá na iniciativa privada. Mas por que que a pessoa segue nisso? Por que que a pessoa tem tanto orgulho, né? Esse governo agora, né, o governo do presidente Lula tentou no começo levantar alguma pauta em torno da regulamentação desse tipo de trabalho e sofreu bastante resistência de alguns grupos organizados que negavam esse tipo de regulamentação.
E aí você se pergunta, por que isso, né? O que é interessante é que tem uma antropóloga que pesquisou esse negócio chamado Alex Rosenblatt. Ela ficou anos pesquisando os trabalhadores por aplicativo. E ela vai mostrar que esse modelo de trabalho, muito mais do que o trabalho, ele corresponde a uma expectativa que cada um de nós nos últimos anos, sobretudo na virada do século 20 para o século 21, fomos acreditando que era o trabalho bom.
E que que era um trabalho bom? Um trabalho bom não era aquele que você vendia o seu tempo para o empregador, como meu pai fez, ou a minha avó, meu avô fez, Quando trabalhava, acordava de manhã, chegava lá na baia, passava o crachá e a gente— eles trabalhavam 8 horas, levantavam da baia, esqueciam quem era um profissional e voltava só pra pensar no trabalho no outro dia. Esse tipo de trabalho que a gente começou a achar bom agora nesse século é um trabalho que compõe com o teu estilo de vida.
É mais ou menos a vida que eu e vocês dois aí levamos, tá? Que é uma vida que a gente acredita que era a vida das camadas médias. O que que é isso? A criança— Fernando deve dizer isso pros filhos dele. Quando tá lá pensando, pai, vou fazer tal coisa pra trabalhar, de faculdade, eu vou estudar tal coisa. Meu pai dizia muito pra mim, Fernando deve dizer pros filhos dele, filho, você tem que estudar ou tem que fazer alguma coisa que vai ser seu trabalho, mas que você goste.
Quando a gente começou a acreditar que trabalho tinha muito mais a ver com gosto do que com remuneração atrelada a uma hora trabalhada, uma hora vendida, a gente começou a atrelar trabalho com estilo de vida. Então, sei lá, fulano que se comunica muito bem, ele acha que precisa virar jornalista. O fulano que é muito fofoqueiro acha que precisa virar antropólogo, né? Tem uns que viram jornalista também, ou influencers, ou influencers.
O fulano que acha, sei lá, que gosta de desmontar carrinho, passa o dia desmontando carrinho, ele acha que tem que virar engenheiro. A gente começou a achar que o trabalho que a gente tinha que ter era um trabalho que combinava com a vida que a gente queria levar. E aí a gente esqueceu que esse é um privilégio que é ofertado a uma parcela muito pequenininha da sociedade, que é quem tem mais escolaridade. Então as camadas populares, quando entram dentro desses aplicativos, a Alex vai mostrar isso, ela vai dizer, olha, eu tenho um trabalho que não tem cara de trabalho, que tá atrelado a uma liberdade de horário, apesar de trabalharem mais, tá atrelado a uma ideia, né, de que você é o dono da tua própria vida, do próprio destino.
E tá atrelado à possibilidade de você achar que tá tendo uma vida que cabe na tua vida, né, um trabalho que cabe na tua vida, melhor dizendo. E aí a gente vem vendo esse crescimento grande de trabalhadores migrando para esse tipo de trabalho, achando que estão fazendo a melhor escolha. Sim, eu acho que toda escolha é legítima, né, mas só queria mostrar aqui que tem um bocado de sociedade nesse jogo.
E tem uma, fala, Fê.
Eu só fiquei preocupado no seguinte: tudo isso legal, ok, e a proteção?
Pois é, posso emendar? Porque tem uma onda entre, não sei se a geração Z ou a garotada mais jovem que tá ingressando agora no mercado de trabalho, que usa seletista como um xingamento, como se fosse uma coisa ruim você ser um trabalhador registrado na sua carteira de trabalho pela consolidação das leis do trabalho que garante uma série de direitos e que foram conquistados para o trabalhador. É, eu acho uma doideira assim.
Nas escolas agora, xingamento pior do que ser chamado de mulher do padre.
Pois é, pois é.
Com todo respeito aos padres, tô com os padres, mas era um xingamento comum, né, na nossa infância. Hoje virou xingamento mesmo de de entre as crianças, muito atrelado a essa transformação do mundo do trabalho, né? E quando você consegue fazer isso mantendo algum grau de retorno financeiro, né? O que eu quero dizer é, quando você consegue ter um trabalho que combina com teu estilo de vida e esse trabalho dá conta das suas ambições de sentido de projeto de vida, para além da remuneração— não tô dizendo que eu e vocês que tivemos a sorte e a possibilidade de escolher algo que a gente queria fazer, não estamos preocupados em pagar o boleto.
Mas não podemos esquecer que é um privilégio, né? É um privilégio eu poder fazer um trabalho que me constrói sentido para além de pagar as contas. A gente não pode esquecer que isso é um privilégio. Quando a gente começa a achar que alguém que só trabalha pelo trabalho, que só trabalha pelo salário, que só trabalha para poder pagar as próprias contas, tá valendo menos, A gente começa a entrar nessa loucura toda. E Fernando, o aspecto interessante que você traz aí, que é a proteção, isso é um debate que se esse movimento continuar crescendo, né, de número de trabalhadores dentro dessa economia, que é uma economia de outro jeito, de um outro tipo de trabalho, continuar crescendo desse jeito, a gente vai ter que pensar de alguma forma, né?
Porque a proteção ao trabalhador, a ideia— e aí não tô falando só de uma proteção diante de um acidente, eu não tô falando só de uma proteção diante de alguma intempérie que possa acontecer com esse profissional. Uma proteção inclusive sobre o que que acontecer se você, o que que vai acontecer se você não puder trabalhar, o que que vai acontecer se você for bloqueado, sofrer um acidente. É, então esse é um tema que avançamos à beça.
O trabalho desse livro, né, porque é fruto da pesquisa da Alex, chama, eu não sei se tá traduzido, eu acho que ainda não tá, tá, chama Uberland. Quem lê inglês, é um livraço, vale super a pena. E ela vai mostrar que Essas novas economias também não estão num campo de pessoas malévolas que sentam numa sala e falam, ai, vamos inventar aqui um novo jeito de explorar os trabalhadores. Não é assim desse modo. É que é um tipo de novo serviço ou um tipo de nova plataforma, um tipo de novo jeito de trabalhar que não se enquadra nos moldes tradicionais.
E aí, dentro desse ponto, eu acho que a sociedade civil organizada tá pressionando cada vez mais pra gente pensar, né? Que novas regras ou que novos parâmetros vão atuar nesse campo que não tá num trabalho completamente informal, mas ao mesmo tempo não tá no trabalho dentro das leis trabalhistas tradicionais. Então, que tipo de conversa é essa que vai balizar esses encontros entre prestadores de serviço dessas plataformas, as plataformas?
E aqui, para ser justo com as plataformas também, eu não tô defendendo ninguém aqui, elas têm avançado, pelo menos avançado na conversa. E isso já é um indício de que nós, enquanto sociedade, precisamos cada vez mais discutir esse assunto.
Muito bom, sem dúvida nenhuma, sem dúvida nenhuma. Michel Cofrado tá com a gente às segundas, quartas e sextas, ou a qualquer dia e horário, nas plataformas digitais da CBN, no, no, enfim, nas plataformas digitais da CBN. Acho que é o jeito mais fácil. Ou no Spotify, você procura Pra Onde Vamos. Obrigada, Michel. Beijão, até sexta.
Um beijo, um beijo, até sexta. Tchau, tchau.
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