O verbo 'custar' é unipessoal?
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Professor Pasquale
Carlos Eduardo Éboli
- A dúvida sobre o verbo 'custar' ser unipessoal na língua portuguesaMaria Lina Mendes Borges questiona o uso·Chico Buarque e o uso do verbo·verbo unipessoal vs impessoal
- O uso do verbo 'custar' no português brasileiro e suas variaçõesuso tradicional na terceira pessoa·inovação do português brasileiro·sentido de demorar
- Análise da letra de Chico Buarque na canção 'Pois É' de Elis ReginaElis Regina canta 'Pois É'·Chico Buarque como letrista·o verbo 'custar' na canção
- A canção 'Bala com Bala' de João Bosco e Aldir Blanc e o uso do verbo 'custar'João Bosco e Aldir Blanc·Aldir Blanc faria 80 anos·o verbo 'custar' na letra
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A nossa língua de todo dia com o Professor Pasquale.
Professor, oi professor, boa tarde!
Do que estão rindo vocês? Boa tarde aos dois.
Olha, às vezes a gente se diverte um pouco no meio do caos do nosso, do nosso estúdio CBN. Mas é que era isso. Cadê o tema? Qual é? Não sei o quê. Achamos essa nossa próxima.
São Paulo, ela conta o seguinte: eu aprendi que o verbo custar era unipessoal, portanto deveríamos dizer custa-me acreditar. Mas Chico Buarque escreveu E aí eu vou parar aqui. Muito bem, eu mandei um recadinho, isso foi ensaiado, viu? Nunca nada é ensaiado aqui neste boletim nosso, mas hoje isso foi ensaiado. Eu mandei uma mensagem para o Fernando e disse, ó, pare lá, não diga o que foi que o Chico escreveu, vamos deixar que a própria canção diga.
Antes eu quero dizer que ri muito quando vocês anunciaram a transmissão do jogo São Paulo e Corinthians, futebol feminino, porque você tá, te disse o Fernando, eu pensei o Fernando vai transmitir, vai narrar o jogo, vai narrar o jogo. Fiquei imaginando aqui o Fernando lá e só narrando, fazendo que nem o Ary Barroso. Você sabe que o Ary Barroso era, entre tantas coisas, narrador de futebol, torcedor do Flamengo. E um belo dia, num jogo do Flamengo contra não sei quem, o jogo foi 1 a 0 para não sei quem, mas ele se negou a narrar o gol.
E no rádio o jogo foi 0 a 0, né? Veja você a barbaridade. Vamos ouvir Elis Regina, a mãe do João. A mãe do João vai cantar uma obra-prima de Tom Jobim, que fez a melodia, e Chico Buarque, que escreveu a letra. Por isso a ouvinte diz: Chico Buarque escreveu. A música se chama Pois É e está no disco Elis e Tom, de 74. E o João Marcelo Boscoli estava lá nos States, esse disco antológico foi gravado lá, ele tinha 4 aninhos e tava lá, acompanhou a mamãe.
Vamos ouvir e ver o que diz Chico Buarque, o letrista, na voz de Elis Regina, Verbo Custar. Vamos lá.
Então disfarçar minha dor já não consigo. Dizer que nós somos bons amigos é muita mentira para mim.
Enfim.
Hoje na solidão ainda custa entender como o amor foi tão injusto para quem só lhe foi dedicação.
Pois é, então Que boniteza, meu Deus! Pois é. A nossa ouvinte escreveu na mensagem que ela aprendeu que o verbo era impessoal e eu corrigi para unipessoal, porque não é o caso de impessoal. Impessoal é o verbo que não tem sujeito, verbo haver quando significa existir e por aí vai. Verbo unipessoal é aquele verbo que só se usa na terceira pessoa. O verbo custar, tradicionalmente, no padrão formalíssimo, É usado na terceira pessoa quando se quer dizer que algo é difícil, como no caso que a gente vai ouvir no próximo auxílio, já já, né?
Custa-me crer, custa-me aceitar, né? Custa-me acreditar, como diz ela, a ouvinte aqui. Mas no português brasileiro existe uma, uma, um uso diferente, não só esse que a ouvinte cita, mas também o o uso de custar conjugado com o sujeito gente. Por isso que o Chico Buarque escreveu: e hoje na solidão ainda custou a entender como o amor foi tão injusto. No português ultra hiper mega formal clássico seria: e hoje na solidão ainda me custa entender como o amor foi tão injusto.
Mas essa inovação do português brasileiro é antiga, documentada fartamente e aparece nos nossos dicionários. Não aparece no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, dicionário da língua portuguesa, porque não é uso lá em Portugal, não se ouve isso, mas o português atravessou o oceano, veio pra cá E por aqui se estabeleceu e recebeu uma série de temperos, né? Esse é um dos temperos. Então também existe o verbo custar usado com sentido de demorar.
Ele custou, né, a fazer tal coisa, né? No sentido de que ele demorou muito, foi muito difícil e tal, barará barará. Tudo isso do português brasileiro. Agora a gente vai ouvir um brasileiro né, um compositor brasileiro, dois aliás, né, João Bosco, que fez a melodia, e o queridíssimo Aldir Blanc. Neste mês de setembro, Aldir teria feito 80 anos. A música é Bala com Bala, a gente vai ouvir com a mãe do João, né, e prestem atenção, vai aparecer o verbo custar, e aí a gente vai ver como é que fica isso.
A sala cala, o Jornal prepara, quem está na sala com pipoca e bala, e o urubu sai voando. Danço, o tempo corre, o suor escorre, vem alguém de porre, é um corre-corre, e o mocinho chegando, dando. Eu esqueço sempre nessa hora linda, loura, minha velha fuga em todo impasse. Eu esqueço Sempre nessa hora, linda loura, quanto me custa dar a outra face.
Vamos lá, professor. Quanto me custa dar a outra face. Exatamente, Fernando, atentíssimo. Você viu como escreveu o Aldir Blanc, que é o letrista, né? Quanto me custa dar a outra face. Ele usa o verbo na terceira pessoa, né, quanto me custa fazer tal coisa, dar a outra face custa-me muito, custa-me pouco, e por aí vai, né. Eu esqueço sempre nesta hora, linda loura, quanto dar a outra face me é custoso, quanto me custa. Em suma, no português do Brasil, mais do que usual, documentado, o verbo custar conjugado com sujeito gente.
Eu custo a aceitar essas coisas, como escreveu Chico Buarque, ainda custo a entender como o amor foi tão injusto, né? Não me custa nada fazer isso e tal. Perfeitamente possível usar de um jeito ou de outro na variedade brasileira do português. É isso. Obrigado, professor. Um beijo, até amanhã. Beijo para vocês, até amanhã.
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