As tensões EUA-Irã e a visita do primeiro-ministro de Israel aos Emirados Árabes
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Cristina Pecequilo
- A rejeição dos EUA à proposta de cessar-fogo do Irãproposta iraniana de cessar-fogo·reabertura do Estreito de Ormuz·retomada das negociações nucleares·exigências iranianas aos EUA·postura agressiva de Trump
- A visita de Benjamin Netanyahu aos Emirados Árabes Unidos e seus motivosretomada de negociações diplomáticas·Acordos de Abraão e reconhecimento de Israel·equipe do governo de Israel na visita·pedido para não revelar ataques do Hamas·fornecimento de armas de defesa
- As narrativas e expectativas das reuniões diplomáticas entre EUA e Irãdeclarações de J.D. Vance sobre Khamenei·políticos iranianos sobre expulsão dos EUA·negativa sobre avanço dos Houthis no Iêmen·Trump sobre o fim rápido da guerra·benefício do Irã na situação atual
- O impacto das eleições de meio de mandato dos EUA nas negociaçõescandidatos republicanos perdendo terreno·aumento do preço de combustíveis·pressão para Trump encerrar a guerra·proximidade das eleições de novembro
- As investigações sobre o conhecimento de Netanyahu dos ataques do Hamasimprensa americana e israelense divulgando·dificuldades do partido nas eleições·aviso dos Emirados Árabes e Egito·prejuízo à imagem de Netanyahu·pressão interna e ataques ao Líbano
CBN Pelo Mundo com Cristina Pesquilo.
Oi, Cris, boa tarde!
Oi, Tati, Fê, boa tarde, ouvintes!
Boa tarde, Cris!
Hoje com a Cristina Pesquilo a gente aborda as tensões sem fim entre Estados Unidos e Irã, a visita do primeiro-ministro de Israel aos Emirados Árabes Unidos. Começando pelo primeiro assunto, Cris, a guerra completou 7 meses com a rejeição de mais uma proposta de cessar-fogo pelos Estados Unidos. Conta para o nosso ouvinte qual era essa proposta e por que dessa vez Donald Trump a rejeitou.
É, nós tivemos na semana passada, como nós acompanhamos, o encontro da Assembleia Geral das das Nações Unidas. E durante esse encontro, e paralelamente, as negociações entre os Estados e o Irã continuaram, porque ontem, né, como você falou, Tati, se completaram 7 meses desse conflito, que vai se juntando aos outros intermináveis que a gente tem hoje no sistema internacional. Então, qual que era a proposta do Irã? Um cessar-fogo.
Nesse cessar-fogo haveria a reabertura mais uma vez do Estreito de Ormuz, e a partir daí a gente teria um prazo de 7 dias para que as negociações nucleares fossem retomadas. Para isso, o que que os Estados Unidos teriam que dar ao Irã? Os Estados Unidos teriam que permitir a utilização dos recursos, né, do Irã, que continuam congelados, também permitir que o Irã continuasse vendendo petróleo, e a partir daí um respeito, um reconhecimento à soberania iraniana também em todos esses setores.
Então é mais ou menos aquilo, aquela estrutura que a gente vem acompanhando ao longo de todo esse tempo. A rejeição foi justamente da parte dos Estados Unidos, com o Trump dizendo que ele não acredita em nada que o Irã está falando, que o Irã está mentindo, que ele não tinha motivos para reabrir as negociações naquele momento. Então, mais uma vez, posturas agressivas de Trump, como nós vimos nas declarações dele durante a reunião da Assembleia Geral, o seu discurso, mas também pressões no sentido de indicar que ele não cederia novamente essas exigências iranianas.
E só para a gente contextualizar, eu tava lendo algumas reportagens que, embora com o Estreito de Ormuz fechado, nós estamos já observando algumas rotas alternativas no próprio Estreito de Ormuz funcionando, né? Ou seja, você tem uma rota iraniana que tem permitido a passagem de navios, uma rota também do Omã, e que aquele gargalo, né, que a gente sabe que é o mais perigoso da região, ele não tá sendo usado. Então é uma situação muito interessante, né, porque tem navios passando, mas ao mesmo tempo o Irã tá colocando na mesa essa possibilidade de reabrir o estreito.
Lógico, é muito pouco ainda perto do que era o trânsito de navios, mas é uma notícia que mostra que os Estados Unidos talvez não estejam com todas as cartas na mão como acreditam.
Agora, Cris, há reuniões diplomáticas acontecendo nesse momento em meio a essas guerras de narrativas. Quais são as expectativas e quais são as narrativas?
Ah, Fê, tá te ouvindo. As narrativas, elas têm sido bastante presentes dos dois lados, né? Nós tivemos declarações recentes do presidente J.D. Vance que o líder Khamenei, ele estaria vivo e estaria escondido, né? O pai, não o filho, né? Ou seja, a gente nem sabe muito bem da onde que o J.D. Vance tirou isso. E aí ele confunde o pai com o filho, ou seja, tentando abalar as estruturas do regime iraniano, né, mostrando que o Irã estaria passando por um processo difícil de transição política.
Por outro lado, políticos e autoridades iranianas dizem que os Estados Unidos serão expulsos do Oriente Médio em algum momento porque eles não conseguem levar essas guerras a termo. E aí, para premiar, né, toda essa nossa situação de narrativas, também há uma postura dos Estados Unidos e do próprio Irã de negarem que os Houthis estão avançando no Iêmen e que os Estados Unidos estão perdendo posições e que a Arábia Saudita está tendo problemas com esse avanço.
Então essas seriam as narrativas. E por outro lado, o próprio Trump disse que embora a gente tenha negociações em andamento e são feitas por intermediários, a guerra ela pode terminar rapidamente. Rapidamente, e aí depois ele disse que ela não vai terminar rapidamente. Então é para confundir mesmo, tá, gente? É algo que as narrativas dos dois lados, elas têm esse objetivo de tentar mostrar que cada um está mais forte do que o outro.
Mas essa situação, no fundo, ela está mais beneficiando o Irã do que propriamente os Estados Unidos.
Como é que as eleições de meio de mandato podem impactar ou estão afetando as negociações, Cris?
Está afetando diretamente, tá, de ferrovindos. Por quê? Porque existem alguns candidatos republicanos, principalmente ao Senado, que estão perdendo terreno rapidamente para os seus oponentes democratas. E muito disso focado na questão econômica, o aumento do preço de combustíveis e também do custo de vida em geral. Então alguns desses candidatos republicanos ao Senado, e também alguns à Câmara dos Representantes, têm enviado declarações e feito declarações públicas para que o Trump encerre a guerra antes das eleições de meio de mandato.
E aqui a gente tem que lembrar para o nosso ouvinte que a gente tá chegando no limite de quase um mês para essas eleições, né? Nós estamos no fim de setembro, as eleições vão ser lá nos Estados Unidos de meio de mandato no início de novembro. Então há uma pressão para que o Trump vá aos palanques e diga, olha, a situação ela vai estar resolvida em breve.
Cris, agora a gente fala sobre o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Realizou uma visita aos Emirados Árabes Unidos. Qual o papel geopolítico dos Emirados Árabes Unidos? O que que ele foi fazer lá?
Aqui é bem interessante, viu? Algo que tanto Israel quanto Emirados Árabes Unidos têm negado é que essas conversações, elas têm sido cada vez mais frequentes. Primeiro, a gente tem que entender por que Israel está conversando tanto com os Emirados Árabes. Essa conversa, ela vem de uma retomada de negociações diplomáticas, né, por conta dos Acordos de Abraão, que foram fechados ainda no final do primeiro mandato do governo Trump.
Então houve naquele momento um reconhecimento de Emirados Árabes e Bahrein da existência de Israel. E esse acordo, esses acordos, eles foram tratados como um marco pelo governo Trump para reorganizar o mapa regional, com mais estados do Oriente Médio passando a reconhecer Israel. Ou seja, a gente tem alguns que já reconhecem desde o final dos anos 70, com os Acordos de Camp David, como Israel, como Egito. Mas esses eram novos marcos que foram trazidos.
Com o governo Biden, isso ficou um pouco de lado, né? As questões, elas não foram sendo retomadas entre os dois países. Mas a gente, primeira vez que foi reconhecido que essas conversas existem, essas conversas bilaterais. E a partir daí, o Netanyahu, ele foi presencialmente com uma equipe do governo de Israel, incluindo o chefe da Mossad, pessoas relacionadas ao Departamento de Defesa, as relações diplomáticas, para uma conversa com as autoridades do Emirados Árabes. Então é até uma mudança, é uma mudança interessante aí, tá?
Ô Cris, para a gente se despedir, o que é que foi declarado de motivo oficial para essa viagem? Quais são os motivos não oficiais e qual é o impacto nas eleições parlamentares de Israel que essa viagem pode ter?
Então, Netanyahu, vamos começar pelos oficiais, né? O oficial é aquilo que a gente lê na pauta diplomática, né, Tati? Foi ouvindo, é aquilo assim: ah, eu fui lá para conversar sobre o Irã, eu fui lá para conversar sobre as nossas relações bilaterais, fui lá para tentar entender como é que a estabilidade regional do Oriente Médio está caminhando. Mas isso não interessa muito, né, porque aquilo que tá no papel, o que tá no papel e que é o motivo não oficial que Israel não admite, principalmente o primeiro-ministro não admite, o Benjamin Netanyahu, é que essa viagem ela teria como pano de fundo um pedido para as autoridades do Emirados Árabes Unidos não revelarem que o fato de que Israel, principalmente Bibi, estaria sabendo dos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 ao território israelense, que é uma suspeita bem antiga, né?
E é algo que sempre vem à baila, sempre vem à baila, principalmente num contexto eleitoral. Isso foi divulgado pela imprensa americana, foi divulgado pela imprensa israelense no momento no qual o partido do primeiro-ministro, ele tem tido dificuldades nas eleições. Ou seja, ele vem sendo atacado muito nas eleições parlamentares. Então esse seria o motivo não oficial. E aí a gente tem também o fornecimento por parte de Israel de armas, né?
De, na verdade, não é bem de armas, é aquele mecanismo de defesa contra mísseis para o Emirados Árabes Unidos. Mas eu apontaria, gente, que o principal problema do Netanyahu aqui é justamente essa questão de que ele estaria sabendo dos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023. E aí a gente tem também a questão que o próprio Emirados Árabes avisou e o Egito também teria avisado os serviços de inteligência israelenses, que por sua vez também teriam avisado o primeiro-ministro.
Então isso, para um período de campanha eleitoral, é muito ruim para o Netanyahu e para sua coalizão. Então a gente tem um motivo oficial e o não oficial, e eu diria que o não oficial é o que pesa mais mesmo.
Agora, Cris, como é que isso é investigado dentro de Israel? Porque a gente viu matérias de jornais dos de Israel, depois teve o político americano, teve New York Times, vários relataram isso. E dentro de Israel não tem uma investigação independente sobre isso?
É, eu acho que a gente tem uma investigação independente mais forte vindo da imprensa e de membros da oposição ao governo Netanyahu, né? Então é algo que o governo Netanyahu e a sua coalizão, ele quer colocar para baixo do pano, porque é algo muito sério, muito prejudicial para sua imagem, né? Qual que foi a imagem que Netanyahu sempre passou para o seu eleitorado, que ele seria um grande defensor dos interesses de Israel dentro daquele contexto de uma Israel forte, mas também respeitado dentro do Oriente Médio.
E esses ataques, eles detonaram uma série de crises e também uma série de confrontos, né, não só com os seus vizinhos, né, como a gente tá vendo as guerras em andamento. E aí um outro elemento que a gente tem acontecendo nessa semana são a volta dos ataques ao Líbano, né, nesse contexto. Ou seja, ele é pressionado dentro de casa por essas investigações, ele reage com novos ataques ao Líbano que também estavam na mesa da negociação Irã-Estados Unidos.
Então assim, eu diria que há, né, essas investigações independentes, mas o governo tem feito o possível para que elas não sejam divulgadas e não venham à baila dentro do contexto político israelense.
Muito bem. Cristina Pesecchillo conosco às terças-feiras no nosso CBN Pelo Mundo. Obrigada, Cris, um beijo para você, até a semana que vem.
Até a semana, beijão, Tati, Fê e ouvintes.