Ser compreendido ou ser confirmado? O que a busca por concordância está fazendo com os vínculos
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Carol Tilkian
- A busca por confirmação e o perigo nas relações humanasviés de confirmação·conforto no coração·incompreensão nas relações pessoais
- Inteligência Artificial compreende mais que pessoas próximaspesquisa Instituto Locomotiva e CNN·58% dos brasileiros·preferência por conversar com IA
- Compreender não é concordar e a dificuldade de aceitar opiniões diferentesWinnicott e o uso de um objeto·reconhecer a língua do outro·opiniões diferentes não invalidam
- IA afirma ações dos usuários mesmo quando estão erradosestudo de Stanford·máquinas afirmam 49% mais vezes·reduz disposição de assumir responsabilidade
- A psicanálise e a tolerância à frustração nas relaçõesFreud e funcionamento psíquico·suportar a espera e o intervalo·tolerar que o outro não responda ao desejo
- A busca por validação e o inferno do igual nas relaçõesquerer ser validado e acolhido·discordância como rejeição·Byung-Chul Han e o inferno do igual
CBN Amores Possíveis com Carol Tioquinha.
Fala, Carol, boa tarde!
Boa tarde, Tati! Boa tarde, Nando! Boa tarde, ouvintes!
Viés de confirmação, você tem uma Expressão que a gente ouviu muito com a evolução das redes sociais, da inteligência artificial, foi essa: viés de confirmação. As pessoas não querem exatamente a verdade, elas querem uma resposta que acalente os seus coraçõezinhos, o que é um perigo em todas as áreas, maior em algumas do que em outras. Qual é o perigo dessa busca por viés de confirmação e por um conforto no coração? Para as relações humanas, Carol?
Tati, acho que o perigo é que a gente já não tá mais chamando de viés de confirmação. A gente tá se sentindo incompreendido. Então eu queria já começar perguntando para quem tá ouvindo a gente: qual foi a última vez que você não se sentiu compreendido numa relação pessoal? Seja por um amigo, por um companheiro, companheira, um familiar. Alguém que trabalha com você, como a outra pessoa reagiu, o que que ela falou. Porque será que a gente não tá sendo compreendido ou não estamos sendo confirmados e estamos chamando isso de incompreensão?
Eu trago esse tema porque agora em agosto uma pesquisa do Instituto Locomotiva com a CNN, com mais de 2 mil brasileiros, mostrou que mais de metade dos brasileiros, então 58% dos brasileiros, sentem que a inteligência artificial os compreende mais do que as pessoas próximas. E 40% diz preferir conversar com a IA do que com uma pessoa. Quando a gente tá falando, ela me compreende, né? O chat me entende, ele diz que eu tô certo.
E será que a gente tá falando— e aqui eu quero trazer um outro estudo de Stanford que também foi feito esse ano, e ele mostra que nos 11 modelos de IA mais usados, as máquinas afirmaram as ações dos usuários 49% mais vezes do que pessoas afirmariam. Afirmaram inclusive quando as pessoas estavam erradas, estavam tendo condutas ilegais ou estavam causando danos a elas ou a outras pessoas. E dentro desse estudo, o que eles mostram é que uma única conversa com o IA que é mais complacente basta para reduzir a nossa disposição tanto de assumir responsabilidade quanto de reparar conflitos.
E passa a aumentar a nossa convicção de que a gente tá certo. E aí, o que que eu quero trazer? Porque pode ser que— e eu travei? Não, não, tá ok, Carol. Porque pode ser que você fale: não, mas eu não converso sobre as minhas relações pessoais com o IA. Mas se você usa o IA para reafirmar a sua pauta, a sua reunião de trabalho, O que esses estudos estão mostrando é que a gente tende a estar menos aberto a pedir desculpa para os amigos porque você cancelou pela terceira vez o jantar em cima da hora ou está menos disposto a ouvir uma opinião do seu irmão que fala: eu entendo o seu ponto, mas eu acho que você foi grosseira com a mamãe e você descontou a sua frustração Nela, o que que eu quero trazer daí a partir do olhar psicanalítico, né?
O Freud já coloca no Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Psíquico que quando a gente é pequeno, o bebê, ele alucina a satisfação. A gente nem se entende como um ser separado da mãe ou do cuidador primário. Então você tem fome e aquele seio aparece pra te alimentar automaticamente. Aí em algum momento a gente vai entender que esse seio não vai vir automaticamente, ele é de uma outra pessoa. E a gente vai ter que suportar a espera, a frustração, o intervalo, entender que as coisas não são automáticas, não são autoexplicáveis.
A mãe já entende que esse choro do bebê é cólica, esse é fome, esse é frio. A gente vai ter que pedir, vai ter que esperar, vai ter que tolerar o agora não posso. E assim como os bebezinhos não toleravam, a gente não tá tolerando. A gente não quer pedir para o outro que ele nos dê colo porque a gente teve um dia difícil no trabalho. A gente quer que ele entenda porque a gente chegou com a cara fechada. E aí a gente dá uma patada no marido ou na esposa, a pessoa não entende, fala: nossa, por que que você tá sendo grosseiro?
E aí você fala, tá vendo? Não me compreende. A gente tem que, né, se desenvolver para psicanálise é tolerar que o outro não responda no formato exato do meu desejo. E isso também daí trazendo um outro olhar psicanalítico, né, trazendo o Winnicott, ele tem um texto que chama O Uso de um Objeto. E o que que ele coloca é que a gente, para que alguma pessoa se torne real para a gente, a gente precisa na nossa fantasia destruir essa pessoa com a nossa raiva, com a nossa decepção, e ver que ela sobrevive.
Então, voltando à criança, quando a gente fala eu odeio você, mãe, eu queria que você morresse, ou quando você tá brigando no casal e fala Quer saber? Eu nem sei por que que eu ainda tô com você, devia ir embora. E aí, no dia seguinte, você não faz as malas, o outro também não fala, então vamos ligar para um advogado. Ele fala, bom, acho que a gente tem que conversar sobre aquilo. Então a pessoa resiste num campo que não tá no nosso controle.
E aí a gente entende que o outro reconhece a minha língua sem que ele tenha que adotá-la, né? É que a gente possa contar com opiniões diferentes. Compreender não é concordar. Então é a amiga que fala: ó, eu entendo que você ficou brava porque você não foi promovida e a pessoa que acabou de entrar no seu trabalho foi, mas eu acho que mandar esse email vai te prejudicar. Ou o parceiro que fala: eu sei que você tá exausta, mas eu acho que desmarcar o jantar com a sua mãe agora não vai aliviar e vai te trazer mais dor de cabeça.
Então é reconhecer o que o outro sente, mas trazer um ponto de vista próprio que nem sempre confirma o seu. E a gente tá achando difícil chamar isso de compreensão. E acho que aí, assim como a Tati falou do viés de confirmação, a gente tem usado palavras como eu quero ser validado, eu quero ser acolhido, cada vez mais para invalidar quem discorda. E parece que quando a pessoa discorda, a opinião está fundida com a identidade. Então se ela discorda comigo, ela está me desmerecendo, ela não gosta de mim.
Ela me rejeita. Então a gente quer ter razão, a gente quer que o outro concorde e não que ele compreenda. E quanto menos a gente está sendo exposto a pessoas que nos compreendem, mas não nos concordam, menos a gente fica apto a reparar, a lidar com opiniões conflitantes. O Byung-Chul Han fala que o nosso tempo é o inferno do igual. Então a gente vai expulsando qualquer opinião ou qualquer outro que resiste a mim, vai patologizando, e aí fala: o outro é narcisista, essa pessoa é egoísta, é autocentrada.
Parece que qualquer discordância é hostil. E aí é interessante porque Isso não só faz com que a gente veja os outros como oponentes, como nessa mesma pesquisa, o mesmo número, 58% dos brasileiros já contaram algo para a IA que nunca contaram para ninguém próximo. Quer dizer, o segredo, né, ele só é segredo se você entende que tem alguém que tá guardando aquilo ali, que vai ouvir, talvez não concorde, mas vai te respeitar. Eu digo que as relações estão virando quase que um novo Prozac.
A gente quer que o outro aplaque a nossa angústia, mas sem efeitos colaterais, só conforto, só quentinho.
Se relacionar não é assim, né? Infelizmente, em nenhum aspecto da vida, sobretudo no amoroso.
Exatamente. E é interessante porque vale para a gente, mas não vale para o outro, né? Porque nessa mesma pesquisa, 59% das pessoas dizem que se sentiriam traídas se descobrissem que a mensagem foi escrita por um IA e não pelo companheiro, pela amiga.
Eu também me sentiria. O que que tem aí dentro da sua cabeça, pelo amor de Deus, que você precisa ir na inteligência artificial pedir uma resposta?
Então, mas é interessante, né? Porque você quer a escuta sem atrito Mas você quer que a pessoa que escreva para você fale ela mesma, uma pessoa. Então você tem que falar com essa pessoa e sustentar que essa pessoa te compreenda, mas não concorde. Isto ainda é compreensão.
Muito bom. Tem ouvintes? Ouvinte sempre, os ouvintes estão doidos com os fatos políticos, viu, Carol? Inclusive querendo trazer isso para política, mas eu não vou fazer isso não, porque nesse espaço a gente fala de amor. A Maria Cristina Fernandes já veio, a gente já discutiu política. Nossa reportagem em Brasília tá trabalhando demais com a repercussão dos fatos políticos do dia, pesquisa de opinião saindo hoje. Aqui com a Carol Tioquim a gente fala de amor toda segunda-feira, sempre lembrando que amor é o que a gente faz. Amor não se dá por combustão espontânea.
Esse gancho, tá, de que vocês possam ouvir o resto do programa e ouvir as opiniões das pessoas que não concordam com vocês politicamente, com compreensão, sem querer mudar a opinião do outro, invalidar a opinião do outro, mas que a gente possa discutir a política e os afetos.
É importante fazer isso com os fatos também, né? Exatamente, porque nem todos os fatos que estão dados, né, são do seu agrado, mas são fatos, não é mesmo?
A gente tem que lidar com eles, não compreendê-los só porque você não concorda com ele.
Exatamente. Carol Tchukian, segundas em Amores Possíveis aqui no nosso Estúdio CBN. Um beijo, Carol, boa semana para gente, boa semana para nós.