A nostalgia do homem provedor
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Carlos Eduardo Éboli
Carol
Michel Alcoforado
- A nostalgia do homem provedor e a realidade histórica do modelo familiara imagem do homem provedor·o crescimento do movimento conservador·a pesquisa de Oxford e London School of Economics
- Os perigos da idealização do homem provedor e a precarização do trabalhomodelos falidos de homens·frustração e ressentimento·achatamento dos salários no Brasil
- A evolução do papel do homem provedor ao longo da história do capitalismoo trabalho de todos nas casas no século 19·o crescimento salarial e o papel dos sindicatos·a dissolução do modelo no século 20
- A realidade atual dos lares brasileiros chefiados por mulheres52% dos lares liderados por mulheres·mulheres bancam as contas da família·a importância da escolha individual
- A importância do salário familiar e a negociação nas relaçõesa ideia de salário familiar·decisões coletivas na família·diálogo e repensar sonhos
Pra Onde Vamos com Michel Alcoforado.
Fala, Michel, boa tarde!
Boa tarde, Tati! Boa tarde, Fernando!
Oi, Michel, boa tarde!
Bom, a gente às vezes tem um pouco a sensação de que tá de volta mesmo aos anos 50, né? Hoje vai ser o caso nessa conversa com o Michel. Acabei de ler aquele livro chamado Bons Tempos, uma publicação da Rocco. É um livro que tá fazendo um baita sucesso na gringa, aqui também. O dia que eu falei desse livro aqui na redação, umas 4 ou 5 mulheres jornalistas, ah, também tô lendo, também, também, de várias idades. Não tô lendo ainda, que basicamente é sobre uma tradwife que ganha a vida sendo influencer, e um belo dia ela acorda naquele cenário que ela propaga, naquele mundo que ela evoca. Ou seja, parece que ela tá no século 19 de volta.
E a gente pode citar nomes? Não, né?
A gente pode citar nomes de quem?
Porque dava para citar um bocado de gente que vive essa vida aí, né?
Não à toa foi escrito um livro de ficção sobre isso, que já teve os direitos cinematográficos comprados pela Anne Hathaway. Então quer dizer, já nasceu sucesso o livro, apesar de eu ter sentimentos contraditórios com o desfecho da história, mas tudo bem. Por que que eu tô falando isso? Porque essa é a mulher. Em geral, ela é casada com um homem, e esse homem, todo o valor dele tá em ganhar dinheiro e prover a família, né? Parece que a gente tá de volta evocando Esse homem, ah meu Deus, onde vamos parar? Para onde vamos? Me chocou.
É, eu quis trazer essa pauta aqui porque primeiro, né, vira e mexe essa ideia do homem provedor e da moça que fica em casa. E acredita-se, né, dentro desse conjunto de imagens, que cabe aos homens o papel de ir à rua trabalhar, conquistar o dinheiro e prover a família, e as mulheres devem se dedicar ao cuidado dos filhos e ao cuidado afetivo dessa família. Essa ideia vira e mexe volta. E nos últimos tempos, muito por conta do crescimento do movimento conservador no Brasil e no mundo, mas também por ondas conservadoras dentro da própria masculinidade, essa ideia do homem provedor volta com uma frequência grande, né?
Como se houvesse algo natural que atravessasse em homens e as mulheres, ou algo natural que alinhava-se a relação É que as relações que compõem uma família, que colocassem os homens nesse lugar e as mulheres no lugar do cuidado dos filhos e do marido, pra que a família funcione do mesmo jeito. Esse discurso volta às vezes com um caráter econômico, discutindo ali o salário de mulheres e o salário de homens, né? E aí dizendo, ah, fizemos as contas e fazia mais sentido a moça ficar em casa e o moço ir trabalhar.
Vez ou outra ele vem com uma ideia mais neomística, atrelada a um conjunto de energias, de que homens têm determinadas energias e mulheres têm outras energias, e por aí vai. Mas o que me fez trazer essa pauta aqui hoje é que saiu uma pesquisa superinteressante feita pela Universidade de Oxford junto com a London School of Economics, que é um grande centro de estudos sociais e econômicos no mundo, comparando essa ideia, né, de masculinidade ou desse modelo de família tradicional, mas muito atrelado ao crescimento salarial, a ideia de salário.
Ao longo do desenvolvimento do capitalismo. Eles fizeram uma pesquisa muito detalhada acompanhando 6 séculos de crescimento de salário na Inglaterra. E o que eles foram mostrando é que essa coisa de um homem que pode prover única e exclusivamente todas as necessidades econômicas dessa família com fruto do próprio salário aconteceu pouquíssimos momentos ao longo da história da humanidade. Ou sobretudo nesse período aí de 6 séculos.
Eles vão mostrar que no século 19, que é quando o capitalismo, né, 18, 19, que é quando o capitalismo começa a se consolidar desse jeito que a gente conhece, a lógica de todo mundo dentro das casas trabalhava era central, né? Não à toa a gente começa a discutir a consolidação das leis do trabalho na Europa e até mesmo no Brasil por conta do trabalho extenuante de homens e mulheres nas fábricas Mas também o trabalho infantil, né?
As crianças saíam da maternidade, brincavam um pouquinho no tapete da sala, daqui a pouco elas eram jogadas dentro das fábricas pra trabalhar. E a gente só começa a construir essa coisa de que homem que trabalha e mulher que não trabalha é no século 20, mas sobretudo na virada do 19 pro 20, dentro do capitalismo, que tava muito colado num contexto histórico muito específico. E aí eles vão explicar de um jeito bem interessante.
Eles vão dizer, olha, teve um crescimento dos salários que permitiu os homens, né, bancarem as contas da casa naquele momento, mas também isso foi fruto de um contexto econômico, mas um contexto social muito singular, muito atrelado ao trabalho dos sindicatos que estavam em formação, que começaram a reivindicar melhores condições de salário pros seus trabalhadores. Então isso deu um certo conforto pros homens pra se dedicarem ao assumir esse lugar de provedor.
E aí essa história logo ali no século 20 se dissolve e hoje não faz o menor sentido, né? A Fundação Getúlio Vargas lançou um estudo agora em 2025 que teve ampla repercussão mostrando que 52% dos lares no Brasil são chefiados, liderados por mulheres. São elas que bancam as contas, né? Isso aconteceu ao longo da história. O que que isso é importante assim? É cada um aqui, Tati, eu acho que é importante a gente dizer isso assim. Cada um pode ter o modelo de família que achar que deve, estabelecer o conjunto de relações com o seu par e com os filhos do jeito que acreditar.
Acho que é legítimo o direito das mulheres que decidem não trabalhar e devotar todo o cuidado à família. E acho que é legítimo também qualquer arranjo que os homens, se assim quiserem, junto com os pares, os parceiros e as parceiras, assumam ali o lugar de grandes provedores. O que a gente não pode achar é que isso é natural, né? De que esse é um assunto discutível, porque não é. Houve poucos momentos que isso aconteceu, e quando aconteceu foi algo que não foi majoritário.
Houve uma possibilidade de alguns grupos entrarem nessa onda, mas mesmo assim, quando os homens podiam discutir essa coisa de que sou eu que trabalho, sou eu que vou à rua, Tinha um bocado de mulher e criança tendo que trabalhar também. Mas essa discussão, juro que eu já vou devolver pra vocês, tá muito atrelada também a uma coisa que é interessante pra gente pensar a constituição da família, que é a ideia de salário. É, quando, ao longo da história do capitalismo, né, desde quando você começou ali a lidar com a coisa de salário de um jeito muito importante, a ideia de salário familiar é central na construção de qualquer família.
E o que é o salário familiar? É a gente entender que dentro dessa casa tem mais de uma figura que trabalha e aqueles ganhos da família são pensados pra subsistência dessa família, pra arcar com as custas dessa família, mas eles são pensados também de forma coletiva. Então, quando todo mundo trabalha, é importante que a gente lembre que essas decisões precisam ser coletivas, as escolhas da família são coletivas, E o assunto precisa ser debatido de forma coletiva também, porque a lógica do salário familiar é que vai inventando também a nossa concepção de família.
Então, coisa de um só trabalhando aconteceu rapidinho, foi no momento histórico muito específico e não serviu a todo mundo. Passou, passou, passou.
E que bom que o homem saiu desse lugar também, né? Acho que aprende mais.
Eu acho que constrói modelos falidos de homens e que pode levar muito homem à morte, né? Porque, ah, não alcancei esse ideal de homem bem-sucedido, rico, que provê o que quiser, o que a família quiser. Num país como o Brasil hoje em dia, por exemplo, quais são os homens que conseguem atingir? E aí ficam se achando frustrados, ressentidos, e não raramente vão à morte.
É isso, isso eu acho muito interessante você trazer esse ponto, que tanto para um lado quanto para o outro, a gente tem que tirar das escolhas individuais ou do peso individual É o sucesso daqueles que conseguem assumir esse papel de provedor, a falha daqueles que gostariam, mas não têm a chance de assumir esse lugar de provedor. Porque não tem nada a ver só com o lugar individual, com as potencialidades de cada um. Eu acho que a nossa conversa gira em torno disso, assim.
Olha o mercado de trabalho brasileiro, por exemplo.
É de uma precarização de trabalho, de um achatamento dos salários, né? Já falamos disso aqui ao longo desses últimos tempos inúmeras vezes, né? De quando se compara o poder de compra dos trabalhadores de anos atrás com hoje, o poder de compra diminuiu. E diminuiu porque os salários se transformaram, a lógica da remuneração no mundo do trabalho se transformou. Então, querer acreditar nisso de que é possível alguém sozinho na casa trabalhar pra bancar todas as contas de uma família, num mundo onde cada vez mais o custo de vida vem crescendo por conta da inflação, do preço dos salários, do preço do aluguel, da comida e por aí vai, É apostar num castelo, no moinho de vento, só meduseta um vento.
E que vai fazer muito mal para todo mundo, inclusive para os homens. Não caiam nessa, não caiam nessa, não caiam, não caiam, não caiam.
E que bom, né? Vamos, eu acho que família se faz também sobre negociação, né? Quando você tem o salário familiar, você precisa ter diálogo, refazer sonhos, repensar sonhos. E não a gente fica na mão de um que sonha sozinho, decide para onde tudo vai, né?
Todo mundo sai ganhando.
É muito bom. Michel Conforado com a gente toda segunda, quarta e sexta no Em Pra Onde Vamos. Pergunta em geral sem resposta, mas com muita coisa para a gente pensar sempre, como é bem do feitio do nosso comentarista. Um beijo, até quarta.
Um beijo, tchau, tchau. Beijo, Fernando. Beijo, Tati. Tchau, tchau. Boa semana para gente.