O drama da crise habitacional na Europa
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Carlos Eduardo Éboli
Felipe Figueiredo
- A crise habitacional na Espanha e as manifestações populares em Madridespejo de senhora octogenária·déficit habitacional muito grande·fundos imobiliários especulando·questões legislativas e de construção
- A disputa política sobre a responsabilidade da crise habitacional na Espanhagoverno nacional vs governos locais·Isabel Díaz Ayuso e o Partido Popular·Pedro Sánchez e o PSOE·programa de campanha de Pedro Sánchez
- Os efeitos da mobilidade interna e da inflação na crise habitacional europeiachegada de imigrantes vulneráveis e qualificados·portugueses trabalhando em outros países·desequilíbrios econômicos pós-pandemia·inflação generalizada na Europa
- A crise habitacional em outros países europeus e suas causasproblemas em Portugal, Grécia e Itália·Amsterdã, Berlim e Viena·imigrantes com maior poder de compra·apartamentos transformados em locação de curta duração
CBN Pelo Mundo com Felipe Figueiredo.
Felipe Figueiredo, boa tarde.
Olá, Tati. Olá, Fernando. Olá a todos os nossos ouvintes aqui da CBN.
Boa tarde. Bom, nessa segunda-feira, alguns veículos espanhóis, alguns veículos portugueses até têm divulgado imagens de manifestações populares bastante numerosas no centro de Madri. E essa é uma manifestação que pode ser um símbolo de algo maior que acontece não só na Europa, não só na Espanha, mas em outros países da Europa. Que é uma crise habitacional que não começou agora, mas tem se agravado nos últimos tempos. Esse é o nosso assunto hoje com o Felipe Figueiredo.
Para quem eu quero começar pedindo um contexto mais global da situação na Espanha, já que eu usei o exemplo dessa manifestação que acontece lá na Puerta del Sol.
Felipe, então vamos lá, Tati. O estopim dessas manifestações foi o fato de que uma senhora octogenária que residia no mesmo imóvel há décadas, ela foi despejada com o uso da força pela polícia porque o aluguel dela subiu muito nos últimos anos. Ela não pôde pagar o aluguel e ela foi despejada. E isso gerou muita comoção na Espanha. Mas essa comoção, como você muito bem colocou, ela acabou acendendo um barril de pólvora de um assunto, de uma crise que está sendo gestada desde o ano de 2008. 2008, no caso espanhol.
E aqui eu vou citar brevemente as razões disso, tá? Mas o que acontece é, na Espanha nós temos um déficit habitacional muito grande, e isso é intensificado porque, primeiro, depois da crise de 2008, muitos fundos imobiliários entraram no mercado espanhol. Esses fundos são chamados na Espanha muitas vezes de fundos abutres, porque se aproveitaram da depreciação daquele momento de crise. A Espanha foi um dos países que mais sofreu com a crise na eurozona e compraram ativos no momento de muita desvalorização para especularem com ele.
Segundo, as questões legislativas e de construção na Espanha, né, as questões regulamentares para construção na Espanha são um pouco rígidas, e nós temos uma queda de braço em que a gente vai entrar daqui a pouco entre o governo nacional e os governos locais. E terceiro, como você mencionou, não afeta apenas a Espanha. Nós também temos visto um problema parecido em Portugal, na Grécia, na Itália. E o que esses países têm em comum, para o nosso ouvinte, são países mediterrâneos, são países que têm servido muitas vezes de destino turístico ou destino de aposentadoria de pessoas que construíram patrimônio, de pessoas que têm mais recursos financeiros, especialmente de outros países da Eurozona.
E nós ainda temos cidades como Amsterdã, Berlim, cidades alemãs em geral, Viena, também passando por um problema de habitação, mas isso ligado a algumas outras questões desses serem grandes centros de destinos profissionais, de atração de profissionais, inclusive de outros países da Eurozona. Né? Então, no caso espanhol, resumindo bem, nós temos uma crise de habitação. E agora essas manifestações tiveram esse gatilho, esse estopim desse símbolo dessa senhora que foi despejada, mas é um problema que vem de 2008 e tá ligado à especulação imobiliária, questões legislativas e também a atração desses destinos, né, para em relação a outras populações.
Felipe, como é que, como é que isso afeta o governo de Pedro Sánchez? Tá tentando achar nesse contexto uma saída para apresentar um projeto? Então, Fernando, uma coisa que é muito importante da gente destacar agora para o nosso ouvinte é: a Espanha não é uma federação que nem o Brasil. A Espanha é um estado unitário em que você tem as comunidades, né, você tem um variado grau de autonomia, né, nas províncias, nas comunidades autônomas.
Então, no caso específico de Madrid, né, e aí para dar um exemplo mais fácil, né, para o nosso ouvinte lembrar disso, né, nós vamos ter algumas regiões com mais autonomia do que outras. Por exemplo, a Catalunya, você tem a questão do idioma catalão, a valorização do idioma catalão. O fato é, Espanha, ao contrário do Brasil, não é uma federação. Então nós temos a Comunidade Autônoma de Madrid, que é como se fosse o nosso governo estadual, que é governada pela Isabel Díaz Ayuso, que é uma das principais forças do Partido Popular, que é o partido conservador, que é o partido— e ela inclusive fez uma relação política, uma aliança política com Vox, que é o partido neofranquista espanhol.
E você tem a municipalidade de Madrid, que é governada pelo José Luis Martínez Almeida, que também é do Partido Popular. E o governo nacional é do Pedro Sánchez, que é o primeiro-ministro, né, que é o presidente de governo no título oficial, que é do PSOE, o partido de centro-esquerda e esquerda. Então nós temos aqui especialmente uma queda de braço entre dois modelos políticos, mas especialmente dois adversários políticos, com a Isabel Díaz Ayuso falando: olha só, não, o problema da habitação na Espanha é um problema nacional e a culpa é do governo Pedro Sánchez.
Enquanto Pedro Sánchez afirma, olha só, no meu programa de campanha estava a construção de moradias populares e de moradias com o aluguel regulado, na ideia da função social do imóvel, né, como ideia presente em Adam Smith. E a Isabel Dias Ayuso, que não aproveitou direito os recursos do governo nacional e na verdade priorizou as construtoras privadas que são ligadas aos fundos imobiliários. Então nós temos essa troca de acusações.
O Pedro Sánchez anunciou para amanhã, dia 29 de setembro, uma espécie de novo pacotão de moradia, de habitação. E o Pedro Sánchez, ele hoje, ele é uma figura que tem governado a Espanha já tem alguns anos e nos últimos meses, anos, sofreu alguns desgastes ligados a casos de corrupção envolvendo seu gabinete. Então ele tem se tornado um alvo político muito claro dos conservadores pensando nas próximas eleições. E junto com tudo isso, né, para encerrar essa questão, talvez não encerrar, né, mas essa relação entre o governo Pedro Sánchez e essa crise atual, o Pedro Sánchez ele também vai se defender falando: olha só, lugares que são governados, por exemplo, pela esquerda conseguiram se sair melhor.
E aí ele vai destacar, não necessariamente por uma aliança política, né, mas a gente, por exemplo, pode destacar o caso de Barcelona. Barcelona proibiu os apartamentos de aluguel de curto prazo, né, que são muitas vezes alugados via aplicativos. Alguns desses aplicativos são bem conhecidos no mercado brasileiro. Barcelona, sendo um grande destino turístico, Então o que Barcelona fez foi retornar ao pool imobiliário local milhares de imóveis que antes ficavam sujeitos a esses aluguéis de curta temporada.
Então você tem uma disputa, uma queda de braço política e uma queda de braço ligada a quem seria a responsabilidade sobre essa questão da moradia, pelo fato de na Espanha nós termos uma estrutura de poderes que às vezes é um pouco nebulosa, às vezes é um pouco complicada para nós entendermos, porque é uma, não é uma estrutura federal como o Brasil. Então fica esse jogo de empurra. Não que isso não ocorra no Brasil, né?
Você citou outros países, Felipe, no começo da nossa conversa. E enfim, eu acompanhei um pouco mais de perto essa transformação em Portugal, que como também você disse, não é de agora. Acho que não é tão antiga quanto a da Espanha, ou pelo menos o ápice da crise é que veio um pouco antes, um da pandemia para cá, o que aconteceu também em muitos outros países, porque chegou muitos estrangeiros, não só turistas, porque o governo de Portugal teve uma política de levar mais gente para lá, o que acabou levando imigrantes com maior poder de compra, por exemplo, elevando os preços dos aluguéis.
E exatamente o mesmo problema que houve na Espanha em Portugal, que são muitos apartamentos transformados em imóveis de curta, de locação para curta duração. Então esses alguns ingredientes também do que compõe a crise habitacional, que teve um ápice em 23, num incêndio que matou gente ali no bairro onde moravam muitos imigrantes paquistaneses, indianos, o que foi um grande, um grande trunfo para extrema-direita xenofóbica. Como é que isso acontece em outros países além de Portugal e quais são as causas para além dessas que eu citei?
Então, Tati, você destacou o caso português e acaba sendo um exemplo curioso, né? Por quê? Porque nós temos uma espécie de efeito cascata, né? Nesses países mediterrâneos nós vamos ter a chegada especialmente de dois tipos de imigrantes, né? Os imigrantes em situação muito mais vulnerável, muito mais precária, que vão trabalhar em postos de trabalho precarizados, menos prestigiados, mais sujeitos a abusos de reduções de horas trabalhadas, como os paquistaneses em Portugal que você destacou, mas também os imigrantes, né, qualificados ou que têm um alto poder aquisitivo, que vão para esses lugares ou para veraneio ou então para adotarem como residência, já que você tem a mobilidade europeia, você tem trabalhar online.
Então você vai ter, por exemplo, muitos ingleses que vão para Portugal se aposentar ou passar temporadas, né, dependendo do período que você vá numa região altamente concentrada de renda em Portugal, como Cascais, Você vai ouvir mais inglês do que português, talvez. E os portugueses qualificados, eles muitas vezes estão indo trabalhar em países como França, Suíça, Alemanha, né? Empresas, por exemplo, de tecnologia de informação desses grandes centros europeus vão contratar profissionais portugueses, e esses profissionais portugueses são por sua vez substituídos muitas vezes por profissionais, por exemplo, brasileiros.
Então o que acontece, uma das questões que acontece nessa Europa pós-crise de 2008 é que essa mobilidade interna, que é uma conquista civilizacional da União Europeia, é muito importante deixar isso claro, ela tem causado um efeito cascata que os efeitos ainda estão tendo que ser administrados, estão começando a ser causados e foram intensificados com a questão da pandemia, como você mencionou, porque durante a pandemia muitos países adotaram políticas de um controle rígido de aluguéis, ou então de incentivos para que as pessoas não fossem despejadas, pensando no bem-estar social.
E a pandemia ainda causa desequilíbrios econômicos que são agravados até agora. E junto com isso, nós vamos ter uma inflação generalizada na Europa, causada inclusive por questões geopolíticas. Por exemplo, essa semana saiu a notícia de que o diesel Chegou ao preço mais caro da história dentro da eurozona. Por quê? Por causa da Europa? Por causa da pandemia? Por causa da migração? Não, por conta da guerra contra o Irã. Então a inflação europeia anda muito alta.
Os aluguéis muitas vezes puxam essa inflação. O poder aquisitivo das pessoas e a remuneração das pessoas não supre esse, esse gap, essa diferença. Isso vira uma bola de neve. E agora você tem um processo de gentrificação nas grandes cidades europeias. E o mecanismo da função social do imóvel precisando ser revisto. E isso está ligado, para encerrar minha resposta, ao que nós falamos semana passada. O fato de que a candidata de esquerda venceu as eleições em Berlim e uma das plataformas dela é o incentivo à moradia popular, o combate às moradias de aluguel curto e o combate a eventual subsídio ao preço dos aluguéis.
Perfeito. E assim vamos dando a volta, né, Felipe? Estamos, estamos dando a volta, estamos dando a volta. Vamos acompanhando. Felipe Figueiredo tá com a gente às segundas para nos ajudar a entender esse caminho. Obrigada, Felipe, um beijo para você, até semana que vem.
Obrigado, Tati, obrigado, Fernando, obrigado a todos os nossos ouvintes, até semana que vem, um abraço.