A palavra 'candidato' tem a ver com 'honestidade'?
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Professor Pasquale
Fernando Andrade
Tatiana
- A origem da palavra 'candidato' e sua relação com 'pureza' e 'brancura'dúvida de Edilson Ferreira Gomes·significado de 'cândido' como branco·candidatos na Roma antiga se vestiam de branco·extensão do termo para aspirantes a qualquer cargo
- A palavra 'cândido' e suas derivações em outras línguas e contextosmúsica 'Tintarella di Luna' de Mina·versão em português 'Banho de Lua' de Celi Campelo·relação com 'candle' e 'candela'·candeeiro e incandescente
- A canção 'Paixão Candeeira' de Celso Viáfora e o sentido de 'candeeira'homenagem a Celso Viáfora·significado de 'paixão candeeira' como paixão quente·relação com a raiz de 'cândido'
A nossa língua de todo dia com o Professor Pasquale.
Oi, professor, boa tarde!
Tatiana, boa tarde! Fernando, boa tarde! Ouvintes, Boa tarde.
Hoje, dúvida de Edilson Ferreira Gomes. Ele disse que durante um seminário de filosofia da educação do Instituto Federal de São Paulo, o professor explicou que o significado da palavra candidato vinha de pureza, brancura, de honestidade, e que o significado oposto de candidato é sujo, sórdido. É isso mesmo? Pergunta ele, professor.
Eu não sei se rio ou se choro. Não da pergunta dele, que é ótima, né? Mas se a gente levar em conta a tragédia que a gente vive no Brasil, meu Deus do céu. Bom, eu vou começar chutando o balde, pode ser? Agora vocês vão achar que eu enlouqueci de vez, que doido eu já sou faz tempo. Mas vamos soltar o primeiro auxílio. Eu não vou dizer nada, pode soltar.
Tintarela de Luna, tintarela do Norlante, toda noite está aí no teto, sobra teto comigatti. E se tiver a Luna Pira, tu te indicar dirá. Tintarela de Luna, tintarela do Norlante, que Tem um Cândida.
É, pois é, tu diverte, Cândida. Pois é, essa música pouca gente, bom, os mais velhos certamente reconheceram, né? Não com a mina a cantora que cantou esse trecho aqui para nós, mas pensaram numa outra cantora, numa cantora brasileira que já está no céu, Celi Campelo. Essa canção que a gente ouviu agora, o trechinho que a gente ouviu, foi composto por Bruno de Filippi e Franco Migliaccio. Quem cantou foi a Mina, gravação de 59.
Vamos agora para a versão da Celi Campelo. A versão para o português é do Fred Jorge, que fez muita versão de música estrangeira na década de 50, 60, e é compositor também. Grande Fred Jorge. Vamos ouvir em português com a Celi Campelo, disco Bruto Certinho, de 1960, um ano depois do lançamento na Itália. Vamos lá.
Fui à praia me bronzear, me queimei, escureci. Mamãe bronqueou, nada de sol. Hoje só quero a luz do luar. Toma um banho de lua, fico branca como a neve. Seu luar é meu amigo, se Ninguém se atreve. É tão bom sonhar contigo, ó, no ar tão quente, sob um banho de lua, numa noite de esplendor. Sinto a força da magia, da magia do amor. É tão bom sonhar contigo, ó, no ar tão quente.
E aí, professor?
Fernando Andrade, o que quer dizer luar tão cândido? O que é um lugar, um luar tão cândido?
Branco.
Essa palavra é danada, a palavra cândido. É porque o luar tão cândido é um luar branco, branco como a neve, absolutamente branco, né? E tão branco que chega a cegar, né? Você sabe que o pessoal que vai lá para aqueles lugares cheios de neve tem de usar óculos específicos, né, porque senão o bicho pega, né. Essa palavra cândido vem do latim e tem esse sentido inicial, o sentido de branco, absolutamente branco, branco como a neve.
E aí vem a história das velas. Não por acaso, em inglês, vela, como é que é? Candle. Em italiano, candela, né? E nós temos a palavra candelabro, não é? Até um filme famoso dos anos, muitos, não lembro se final de 50, 60, Candelabro Italiano, né? O candelabro que é aquele lugar em que se põe a vela e tal. E daí, por extensão de sentido, o que é o lugar para pôr a vela branca vira o quê? A coisa quente. O cândido pode ser, não nesse caso aí da música, né, mas o candeeiro, né, incandescer, incandescente, tudo isso pode ter a ver com a temperatura, justamente porque a vela esquenta, né, era feita para iluminar, para clarear, e por aí vai.
Bom, o candidato tem a ver com isso, sabe por quê? Porque na Roma antiga, os fulanos que aspiravam a um lugar na magistratura— atenção, Brasil, meu Deus do céu!
Os candidatos, professor, olha só, olha só, o nosso ouvinte, o Alan, falou assim: gente do céu, tô aqui na porta da escola, preciso entrar Mas eu também quero terminar de ouvir esse esclarecimento a respeito dessa questão. Calma, ele tá preocupado. Aqui tudo é muito complicado. Calma, tá?
Então, na Roma antiga, aqueles que aspiravam a um lugar na magistratura se vestiam de branco. Era a regra, era a norma. Branco, cândido, porque cândido, como eu já disse, primeiro sentido é branco como a neve, né? E daí candidatus em latim, que tem a ver com a palavra branco, né? Os candidatos à magistratura se vestiam de branco, e daí o termo ganha extensão e candidato passa a ser não só aquele que aspirava a um lugar na magistratura romana, mas aquele que aspira a um lugar qualquer que seja, né, candidato a tal coisa. Então tem sim, como é que é?
Emprego, não precisa ser um cargo, né?
Pode ser um emprego, qualquer coisa. Tem sim o professor de filosofia, o seminário de filosofia que o nosso ouvinte presenciou, Edilson Ferreira Gomes. O professor não disse bobagem nenhuma, muito pelo contrário. Candidato, a origem é essa mesmo. Agora, como eu já disse aqui, a história da vela e tal, Vamos ouvir um trechinho de uma canção do aniversariante do dia, meu querido amigo, gênio da música brasileira, Celso Viáfora. Eu sempre digo para ele que ele só tem um defeito, é corintiano.
Coitado, parabéns para ele, muito bom. Parabéns, Celso, querido. Vamos ouvir uma canção cujo nome é— não vou dizer, vamos ouvir.
Risquei na pedra do destino uma paixão tão candeeira que me adoçou o Digno de tecer na perdigueira, feito licor de marrasquinho pra quem é de bagaceira. Me fez viver o repentino como coisa derradeira, feito um menino pondo os olhos a primeira vez no mar. O nosso amor é uma esquina num deserto de poeira, o látex que determina a cicatriz da seringueira. Uma jangada nordestina para uma vida ribeira.
A cangaceira, ele fala, é candeeira.
É, risquei na pedra do destino uma paixão tão candeeira. É o nome da música, Paixão Candeeira, que está num disco homônimo, né? O disco se chama Paixão Candeeira e o nosso querido Celso lançou há exatos 30 anos, 1996. A paixão candeeira, a palavra candeeira tem a ver com essa palavra cândido, da mesma raiz, né, de candidamente, de candidato e tal, aquela história da vela, do branco, a vela branca, não sei o quê, por extensão o calor, a paixão candeeira é uma paixão caliente, muy caliente.
Então é isso. Caliente, todo mundo sabe que é, né? Eu tô aqui brincando com espanhol, mas todo mundo sabe que caliente quer dizer quente, né? E aí tá aí mais uma palavra. Eu nem pesquisei se essa do espanhol tem a mesma raiz, mas enquanto a gente fala—
mas professor, sabe que eu me enganei? Porque eu pensei em candeeira com i, na verdade é candeeira com dois es, não é isso? Também existe o outro.
Candeeira.
Isso.
Bom, então é isso, meus queridos. O professor de filosofia lá que deu o curso acertou na mosca. É isso mesmo, candidato tem a ver com a ideia de brancura, né, tem a ver com a ideia de pureza. E tudo isso nasce lá na velha Roma. Os candidatos a magistratura se vestiam de branco, e por extensão candidato a qualquer coisa acaba tendo esse sentido.
É isso, professor. Obrigado e até amanhã.
Até amanhã, beijo para vocês e parabéns para o Celso Viáfora. Eu não disse Celso Adolfo sem querer em nenhum momento, né? Não.
Aí perguntou para os dois aqui que, bom, Um beijo para cada um, né? Um beijo para cada um.
Falou, né?
A Débora Freitas tá prestando atenção, disse que sim.
Não, é Celso Viáfaro, aniversário dele. Celso Adolfo é 9 de setembro, já foi, tá bom?
Beijo para os três, para os dois e para o senhor.
Obrigado.
Carta de distribuição de beijos aqui hoje.
Tragando o sol que ilumina na manhã da quarta-feira. É um moleque que rapina todo papel da lixeira pra reciclar a serpentina e eternizar a brincadeira.