A palavra "vício" e as armadilhas da busca pela felicidade
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Victor Stirnimann
- A palavra vício e sua relação com defeito e mau hábitovício como defeito·vício de linguagem·vício de comportamento·mau hábito difícil de controlar
- A repetição do vício diminui o prazer e aumenta o sofrimentoexpectativa de felicidade e prazer·satisfação diminui com a repetição·custos e consequências aumentam·exemplo das bets
- A armadilha da busca repetitiva pela felicidade e a liberdadecaminho da felicidade misterioso e fluido·repetição como anestesia da dor·compulsão à repetição·necessidade de liberdade
- A polaridade entre prazer e dor na formação do víciocapacidade de sentir coisas boas e ruins·ciclo entre polos·curto-circuito de satisfação e dor
- O vício como iniciação e a dificuldade de mudar comportamentosiniciação que modifica a compreensão de si·limites da autonomia·dificuldade de julgar os outros
- Miragens de felicidade e o anseio espiritual por trás dos víciosguiados por miragens de felicidade·verdadeira satisfação precisa mudar no tempo·anseio espiritual legítimo·vício como falsa redenção
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A cada semana uma palavra é o nosso ponto de partida dessa conversa maravilhosa que eu não vejo a hora de chegar. Uma palavra que pode surgir de uma notícia, de um livro, de uma frase, de uma experiência cotidiana. A origem dessa palavra sempre muda, mas o movimento dela permanece, que é partir de algo concreto do que acontece para abrir espaço numa reflexão maior sobre o nosso tempo, sobre nós mesmos. E para isso, semanalmente, eu conto com ele, nosso filósofo, analista, Podcaster, ele também tá lá no queridinho Elefantes da Neblina, e nosso colunista do Revista CBN, Vitor Stirniman. Vitor, boa tarde.
Oi, Petra, tudo bom com você? Saudades.
Eu também, eu fico com saudade, eu sou uma pessoa que sente saudade. E para essa semana eu falo aqui no quadro, né, que foram vários os estímulos que fizeram a gente escolher essa palavra. Primeiro, a questão das bets, que foi o assunto aqui. A gente até falou, né, Vitor, o Marco Rüdiger trouxe aqui mais de 30 milhões de menções a respeito dessa, desse assunto das bets. Eu também há pouco tempo li um livro da autora, da Elizabeth Gilbert, que foi aquela autora que escreveu Como É Rezar e Amar.
Eu gosto muito dela, né? E ela escreveu um livro muito profundo falando sobre o último relacionamento dela, Todo o Caminho Até o Rio. Me marcou muito aquele livro. Então, por conta aí desses vários estímulos, a nossa palavra de hoje para você, a palavra é vício.
E eu queria pegar uma carona no comentário da ouvinte e vamos tentar fazer uma leitura dessa palavra que seja terrivelmente humanista, por favor, que eu acho que ela tem toda razão. Nós estamos precisando exatamente disso. Bom, para começar, vício na origem está relacionado com a ideia de defeito e não significa necessariamente aquilo que a gente clinicamente entende como vício, que é adição, dependência química ou dependência neurológica, ou mesmo uma dependência psicológica.
O que está na origem do termo vício às vezes é simplesmente um vício de linguagem, às vezes é um vício de comportamento, Um vício, você pode ser viciado em livros, você pode ter o péssimo hábito de interromper os outros quando os outros falam. De qualquer modo, eu acho que o mais interessante da gente olhar quando a gente pensa em vício é no vício como um mau hábito que você tem muita dificuldade de controlar. Quando nós olhamos a coisa desse ângulo, fica mais próximo de todos nós.
E isso me parece a coisa mais útil e, portanto, mais terrivelmente humanista: entender que o vício é uma possibilidade do humano, em maior ou menor grau. Todos nós temos pequenos ou não tão pequenos vícios. E por que isso acontece? Eu acho que essa é a história mais interessante no começo. A gente tem falado muito de polaridades, né? Você gosta desse tema.
Gosto.
Para entender vício, a gente primeiro tem que lembrar do seguinte: a sua capacidade de sentir alguma coisa muito boa está sempre muito próxima da sua capacidade de sentir alguma coisa muito ruim. E quando você desenvolve um hábito que não é desejável e é difícil de controlar, essa experiência vai aumentando, vai ficando mais intensa. E vai criando esse ciclo entre um polo e outro cada vez mais rápido, até que chega uma hora que você vive literalmente um curto-circuito.
E no hábito você começa a sentir que a satisfação que ele te dá e a dor que ele te provoca estão vindo juntas. E quando esse curto-circuito fica muito nítido, dá para dizer oficialmente que a gente tá falando na minha opinião, de um cenário de vício. Não importa de onde vem essa dependência, ela realmente pode começar só de um mau hábito, mas ela é extremamente difícil de controlar. E é por isso, Petra, que eu acho que essa experiência acaba sendo, para a maior parte das pessoas, uma espécie de iniciação.
E como tal é algo muito importante. O que é uma iniciação? Iniciação é toda experiência que modifica a compreensão que você tem de você mesmo. Então você começa a se entender de uma maneira mais complexa e mais profunda do que você se entendia antes. Então, que iniciação o vício nos traz? O vício nos traz a iniciação de que não basta você reconhecer que alguma coisa te faz mal, Ainda assim, muitas vezes é extremamente difícil você parar de fazer aquilo que te faz mal.
Então não basta você saber o que que é o certo e o que que é errado. Existem forças muitas vezes misteriosas dentro de você que te empurram na direção de você fazer alguma coisa que você preferiria não fazer, que você sabe que não te faz bem. Mas que estão lá atuando de uma maneira que quando você vê, você tá fazendo. Portanto, tem uma distância muito grande entre você saber de uma coisa, você querer mudar um comportamento e você conseguir mudar esse comportamento.
E essa experiência é uma iniciação porque ela traz humildade, ela coloca você um pouco diante dos limites, muitas vezes, da sua autonomia. E faz com que seja muito mais difícil julgar o comportamento dos outros, que eu acho uma coisa fundamental, porque nós temos um péssimo vício de julgar os outros muito superficialmente e muito impulsivamente. É muito fácil você falar do outro olhando de fora. Você nunca sabe que forças estão ali atuando para fazer com que ele aja do jeito que ele age.
Agora, por que o vício, em todas as suas formas, acaba sendo uma experiência tão difícil e tão melancólica? Porque, na verdade, tudo começa com o seguinte: o vício é uma repetição. E por trás dessa repetição, e olha, isso eu acho muito central, Existe uma expectativa de você sentir uma felicidade, um prazer, uma plenitude, um preenchimento que você no começo você sentia, mas que com a repetição você vai perdendo a capacidade de sentir.
Então tem um aspecto da vida que é bombástico: a satisfação e o prazer. Sofrem com a repetição. O sofrimento não, a dor não. Então aquilo que no começo dava muita satisfação e dava muito prazer, à medida que vai se repetindo, você vai desenvolvendo uma tolerância, uma acomodação, você vai sentindo aquilo cada vez menos. Mas o outro lado do mau hábito as consequências, os custos não diminuem, ao contrário, só aumentam. Então quando você vai vendo, o prazer que você tinha nas primeiras vezes já não é mais o mesmo, mas o custo da repetição daquele hábito aumentou muito.
Então falando em termos de bet, a primeira vez que você jogou, você gastou um pouquinho, E você teve muita satisfação. Você vai nesse hábito, quando você vê, você não joga mais por prazer, você já tá naquela competência, naquela compulsão angustiada de tentar recuperar um pouquinho do que você perdeu. E a cada vez a dívida só fica maior. Então a parte dolorosa do processo só aumenta e a parte prazerosa do processo vai diminuindo quase a zero.
Isso acontece com todos nós. Por quê? Porque nós nos guiamos muito por miragens de felicidade, miragens de satisfação. Então é quase como se a gente fizesse uma figura, uma imagem fixa na nossa cabeça, e a gente vai atrás disso. Ao mesmo tempo que a verdadeira satisfação, o verdadeiro prazer, eles precisam mudar no tempo. Isso é uma coisa extremamente importante e que muitas vezes a gente se perde nela. Aquilo que no futuro vai te dar satisfação é muito diferente daquilo que você imagina hoje.
Quando você imagina a satisfação, o prazer sempre do mesmo jeito, Você na verdade está se deslocando do aqui e agora, está se deslocando daquilo que realmente te alimenta nessa hora. Então essa nossa capacidade de nos entregarmos tanto assim para essas miragens que nós mesmos criamos é um grande problema por trás dos vícios. E na verdade muita gente lucra com isso. Muita gente lucra porque vai vendendo para você a miragem, a fantasia de que se você conseguir isso agora, tudo vai mudar, tudo vai ser maravilhoso.
Você sabe, vou dizer um negócio, Petra, por trás dessa miragem às vezes tão dolorosa existe até um anseio espiritual legítimo. Tá, na espiritualidade, em todas as tradições, a gente aprende uma coisa. A gente aprende que existe a possibilidade de uma transformação quase instantânea, uma redenção, uma mudança. Aquilo que em algumas tradições a gente chama até de uma metanoia, que é mudar a sua visão sobre as coisas, mudar quase de identidade de uma hora para outra.
Isso Pode acontecer. O problema é quando isso acaba inoculado numa experiência de vício, como se o vício fosse em algum momento te levar para uma redenção, para uma liberdade, para uma salvação, para uma vida muito melhor. Quem falou disso com muita genialidade foi o Dostoiévski. Eu recomendo para quem gosta de ler um livro clássico dele, se chama Justamente o Jogador, né? E ele faz esse livro todo passar num lugar que chama Rolettenburg, a cidade da roleta.
E ele joga roleta e a história dele é o cassino. E o que o Dostoiévski coloca muito é como para ele o jogo era uma forma de disputar com Deus, como se ele estivesse obrigando ou tentando obrigar, desafiando Deus para que Deus o salvasse. Então era uma coisa para ele que não tinha nada a ver com o prazer mundano de jogar e não tinha nem nada a ver com quanto que ele tava ganhando, quanto que ele tava perdendo. É como se ele estivesse desafiando o mistério do destino e o mistério da sorte.
E aí você vê quanto que coisas magníficas, profundas, até transcendentais da natureza humana, às vezes são raptadas num processo que pode ser tão negativo, tão destrutivo. Então a gente tem que tomar muito cuidado com o quanto que, porque a nossa fantasia às vezes se prende no lugar errado, Nós pegamos o que nós temos de melhor e nós entramos num buraco por causa disso. Eu, onde que eu quero chegar com tudo isso? Eu quero chegar no seguinte, Petra: nós olharmos para nossa possibilidade de nos viciarmos é entender com muita humildade que o caminho que leva até a felicidade É muito mais misterioso, muito mais fluido, e muda momento a momento.
Tudo aquilo que você faz repetidamente, compulsivamente, para tentar ser mais feliz, provavelmente é uma armadilha, provavelmente é uma forma de você anestesiar alguma dor, alguma insatisfação, alguma frustração. Mas se você está fazendo isso de forma repetida, você só vai descobrir que com o tempo isso não vai te fazer mais tão bem. Você se sentir melhor, você crescer, você explorar os mistérios da vida é uma questão de você experimentar coisas novas, de você ser flexível, de você usar imaginação de verdade e você escapar daquilo que até o Freud chamou de uma compulsão à repetição.
Os nossos vícios sempre são uma prisão dessa repetição, e essa repetição ela sempre nos leva para o mesmo lugar, nos deixa mais humildes, mas menos livres. E nós precisamos justamente dessa liberdade, do contrário vai ficar muito difícil a gente ser terrivelmente humano, como a nossa ouvinte tão bem colocou. Acho que é isso.
Vitor Stidman, eu teria muita coisa para te perguntar, minha cabeça tá aqui fervendo, mas eu não quero fazer pergunta. Eu vou parar por aqui para deixar os nossos ouvintes meditarem sobre tudo isso que você trouxe de forma tão brilhante, tão profunda. Sobre a nossa palavra de hoje, que foi vício, algo assim terrivelmente humano. Querido, não é à toa a saudade que eu tava do quadro. Beijo para você, boa semana. Essa conversa ela fica sempre arquivada ali no podcast do Revista CBN, no Spotify, também sempre no YouTube.
Você pode não só reouvir a conversa com Vitor Stirnman mas também acompanhar, assistir, né, no YouTube da CBN. E o Vitor também sempre, né, já tem algumas pessoas adivinhando, né? Sim, o Vitor é também o podcast do Elefantes na Neblina. Agora, 1 hora 24 minutos.