A armadilha da exaustão: por que associamos sofrimento ao sucesso?
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
- A fetichização do sofrimento e a armadilha da exaustão no sucessoacreditar que sofrimento é esforço·exaustão como sinal de mérito·pressão para provar compromisso
- A armadura da vitória que se torna um peso após a conquistapromessa de não morrer de fome·escafandro como proteção·escafandro que destrói na superfície
- A mitologia da conquista e a necessidade de sofrer para mereceracordar antes de todos·abrir mão de tudo·viver no limite para o resultado
- A diferença entre disciplina e martírio na busca por objetivosdisciplina organiza a energia·martírio desperdiça energia·identidade construída na luta
- A importância de usufruir e relaxar após alcançar os resultadostomar café com quem ama·estourar champanhe com quem gosta·entender que a luta acabou
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Saúde Integral com Rossandro Klinger.
Oi, Rossandro, boa tarde!
Boa tarde, boa tarde, Nando! Vocês sofrem muito para alcançar as metas de vocês? Acha assim que é uma coisa glamourosa, bonita, assim, tipo, eu sofro, mas eu consigo. Ou tem alguma coisa errada nessa frase assim, meia clichê, sabe? Fetichização do sofrimento. Eu tenho dificuldade até de falar. Do sofrimento. O que que é isso? Me explica. Pois é. Então é que tem uma armadilha muito silenciosa, sabe? Que é a ideia que a gente pode levar os próprios sonhos, que você começa a acreditar que se não tiver sofrendo Talvez não esteja se esforçando o suficiente.
Nossa, isso eu preciso ouvir muita vez.
Pois é, é como se todo projeto importante precisasse vir acompanhado de uma profunda exaustão, sabe? E tá cansado, isso é sinal de mérito. E a pressão agora tá provando que de fato tem um compromisso. E não é, às vezes é só desgaste puro e simples, porque na verdade, Tati, a gente tem uma espécie de mitologia em torno conquista, que é reforçado por esse universo todo, coach e tal. A pessoa precisa acordar antes de todo mundo, dormir depois de todo mundo, abrir mão de tudo, viver no limite, quase destruir.
Aí sim você se acha merecedor do resultado. Isso vale muito para a gente que conseguiu algum tipo de crescimento na vida para além da nossa família. E aí a gente, talvez para se sentir menos culpado, disso tem que sofrer para pagar essa conta desse deslocamento. Pode ser intelectual, financeiro, emocional, espírito, qualquer que seja. Só que tem uma diferença enorme entre disciplina e martírio, né? Porque quando a gente olha para disciplina, ela de fato, inegavelmente, ela organiza, né, a energia com que você lida com o mundo.
Mas o martírio, ele desperdiça essa energia. E tem uma coisa ainda mais delicada nisso: quando você constrói sua identidade em torno da ideia de que eu eu sou alguém que luta muito, você começa a precisar da luta para manter a sua identidade funcionando. Então o caminho não pode ser simplesmente funcionar, precisa ser difícil, não pode fluir, precisa cobrar um preço. A vida não pode ser tranquila, tem que haver uma batalha acontecendo para que você continue se sentindo importante dentro da narrativa que você criou para explicar a sua própria vida.
É aí que o eguinho, aquele ego, aquele famoso ego, aquele companheiro, sim, que também é importante, mas que muitas vezes chega aí bagunçando o da vida, ele vai entrar em cena. Porque tem certo momento que o sofrimento deixa de ser consequência do caminho, que acontece muitas vezes inegavelmente, e passa a ser um personagem necessário para a história que a gente conta para a gente mesmo e para os outros fazer algum sentido. E aí você foi capturado pela sua própria narrativa.
E talvez esse seja o momento em que a gente faz uma pergunta desconfortável: quando o peso que você carrega realmente pertence ao seu trabalho, quando você foi acrescentando para você se sentir maior dentro da conquista, entende? Então nem todo cansaço é inevitável, ou nem toda pressão é necessária, e nem toda renúncia é nobre não, tá? É muita burrice às vezes. Às vezes a pessoa não está pagando o preço do sucesso, tá apenas administrando uma própria vida.
E aí, Renato Russo, porque sempre a pessoa Depois de ouvir o professor Pasquale, fica assim, meu Deus, esse homem tem um cabedal de músicas na cabeça, né? Porque o próprio Renato Russo falava que muitos temores nascem do cansaço da solidão. Então existe outra possibilidade muito menos celebrada: fazer bem aquilo que você faz e ao mesmo tempo gostar do processo, né? Trabalhar com intensidade sem transformar isso tudo em sofrimento.
Então acho que uma das ambições que eu tenho na vida hoje não é competir com você. Qual você tem ganhado de Rossano ano passado? Cara, eu tenho tentado sobreviver como do ano passado, já tá bom. Já tentar sobreviver, não surtar, sabe? Às vezes a gente leva os objetivos.
Eu não sei se é também um jeito de olhar uma trajetória, né? Porque tem tanta gente que teve que lutar tanto para conquistar as coisas, para conquistar Enfim, para fazer sua carreira ou para conquistar suas coisinhas, mesmo que esse é o jeito que conhece de fazer, né? Ainda que depois de um tempo não seja mais necessário sofrer tanto, lutar tanto, buscar tanto, trabalhar tanto. Mas essa é a narrativa da vida da pessoa às vezes.
Ah, lembra aquela palavrinha que vocês estavam falando da coluna sobre moda? Como é? É o fazer bem, como é o know-how, quer saber fazer, o know-how, né? O saber fazer. É como se você— em francês chama— já não hablo também. Mas veja só, é assim, você de fato, vamos imaginar o seguinte: imagina uma pessoa numa infância, uma infância difícil, um ambiente hostil, seja que seja emocionalmente ou seja financeiramente, ou seja tudo junto num combo, e ela olha para aquele lugar e diz assim, como e o vento levou, né?
Eu não vou passar por isso, eu não vou morrer de fome. Você faz uma promessa no espelho e para cumprir essa promessa você veste uma armadura para se mover daquele lugar e você move uma energia profunda e você consegue o resultado, você consegue sair de forma absolutamente inegável daquele lugar e você construiu uma armadura para essa vitória. O que acontece muito comumente nas pessoas é que elas vencem essa guerra Mas elas continuam armadas.
É como se assim, se eu fosse usar o escafandro, que é aquele equipamento que você usa para suportar a pressão do mar dentro, né? Você vai dentro do escafandro lá mergulhando em profundidade e toda a água acima de você vai pressionando. Então o escafandro te protege naquele momento da vida. O escafandro é protetor. Mas imagina que terminou, você conseguiu explorar o que você queria, seu resultado, cavar o seu tesouro. Você volta para superfície e vai caminhar em Copacabana de escafandro.
Aquilo que te protegeu agora te destrói, te pune, aquece tua vida, te torna inacessível para as pessoas. Então muitas vezes a narrativa cola na gente de modo que ela foi importante naquele movimento da vida, e é inegável o esforço, mas agora usufrui, relaxa, sabe? Toma um café com quem você ama, estoura uma champanhe com quem você gosta. Mas tem uma hora que você precisa entender, dá um tempo. A luta acabou agora, você conseguiu resultados, mas talvez você no processo tenha criado a identidade de que foi o foi o sofrimento que te fez chegar lá.
Não, foi o seu movimento, que inclusive incluiu suportar o sofrimento quando foi necessário, e não o resto da vida.
Ótimo, muito bom, muito bom, entendeu? Vou mandar para meia dúzia de pessoas ouvirem isso diariamente.
Rossandra, não, para muita gente, tira o escafandro, por favor, tira a armadura, vamos aqui tomar um café.
Um beijo, pessoal da Rádio Escafandro, inclusive. Beijão, Tomás, seu lindo.
É o mundo, viu? Tá bom, Rossandro.
Obrigada por hoje, um beijão para você, e que a gente siga sem os nossos escafandros por aí, tendo essa coragem e essa valentia.
É importante você tá fazendo só um adendo aí, é porque quando a gente não tem escafandro, a gente fere quem tá perto, sabe? Para tentar curar da dor do passado. E aí, em vez da gente se curando do outro, a gente sangra no presente para tentar curar o passado. Não funciona bem.
É. Beijo para você.
— Anúncios inseridos dinamicamente —