A importância das relações em dupla para o desenvolvimento humano
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- A força e a dinâmica das duplas no desenvolvimento humanodupla como grupo sem voto·relação de dupla com a mãe·eficiência da relação afetiva
- A perda de um parceiro e a sensação de perder um pedaço de sipartes cognitivas também contam·memória da dupla se perde·sinergia forte e sincronicidade cerebral
- A corrosão de uma parceria e o que a faz se desfazerproblema não é a briga·contabilidade de quem carrega mais·desbalanços vistos como individualidade
- O retorno a uma parceria desfeita e a identidade de duplarazões pragmáticas para o retorno·criação de uma identidade de dupla·menosprezo da força da identidade original
- O futuro das duplas em um mundo que prega a individualidadecrescimento de casas com uma pessoa·declínio de grupos maiores·mudanças no mundo das empresas
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Visões do Futuro com Álvaro Machado Dias.
Oi, Álvaro, boa tarde!
Olá!
A gente vai falar sobre duplas. Esse é um assunto que Fernando e eu entendemos bem, não é mesmo? Estamos aqui sendo uma há 9, quase 10, hein, Fê? 9 anos e meio. A gente perdeu ontem um cantor célebre, querido, com muitos, muitos fãs, um dos grandes nomes do sertanejo brasileiro, o cantor Rick da dupla Rick e Renner, que morreu num acidente de helicóptero. A dupla existia desde 1986, eles foram e voltaram algumas vezes. E a gente pode, a partir daí, pensar no Renner que ficou sem o parceiro de quase 40 anos.
Como é que segue uma carreira quando uma fatalidade estúpida dessa, como um acidente de helicóptero que mata o seu companheiro, acontece, né? E aí a gente pode pensar também em outros tipos de dupla, né, Álvaro? Pode ser um casal, pode ser um sócio, pode ser um irmão, pode ser um melhor amigo. Eu olho para trás e as melhores coisas que eu fiz na vida foi, foram, não foram só, eu não fiz sozinha, não necessariamente em dupla, mas também não raramente em dupla, mas sempre com alguém.
Sozinho tem gente que trava e em grupo desempenha muito melhor. Como é que você pode contar para gente, tentar traduzir em palavras essa força que tem uma dupla?
Pois é, primeiro queria dizer que vocês dois como dupla trazem uma felicidade imensa para o Brasil inteiro, tá? Eu falo isso como colunista aqui, mas eu falo isso como fã. Eu escuto a CBN, eu tenho certeza que todo mundo que escuta sente a mesma coisa que eu, porque todo mundo inclusive comunica isso fartamente nas redes sociais, onde for, que vocês são uma dupla muito amada, muito querida, muito bacana. Isso é demais, muito obrigado.
Então a gente tá falando de uma perda, mas eu acho que a gente também pode celebrar as duplas presentes no mundo, e vocês os dois, meu Deus, são a grande dupla. Olha só, eu tava pensando sobre isso e no fundo a grande questão, resumindo tudo para mim, é que o 2 é o único tamanho de grupo sem voto, sem esconderijo e sem panelinha. Vou explicar o que eu quero dizer, que eu sei que esse não é um papo ChatGPT, mas aqui não é, nunca será.
É o seguinte, pensa como é que rola a dinâmica do trio. Muitas vezes o trio está alinhado, mas muitas vezes existe o 2 contra 1. Pensa no 10, no 15, no grupo grande. Vários estudos mostram que esses tamanhos de grupo fazem com que as pessoas se impliquem menos, se esforcem menos, participem menos, percebam que a sua contribuição é menos essencial para o desfecho, para energia, para o que você quiser. Então o tamanho do grupo faz diferença na maneira como a gente representa o nosso papel nele e consequentemente naquilo que a gente faz.
A dupla é aquele tamanho de grupo, né? Engraçado pensar dupla como um grupo, né? Mas é isso, em que se um soltar a corda, ela cai. Não tem esse papo dos outros seguirem fazendo, né? Um time perde um jogador e continua jogando. A dupla, quando perde alguém, vira uma outra coisa, vira produção solo, vira, sei lá, ou viúva, viúvo, vira o que for, mas não é mais a mesma coisa. É uma mudança categórica. Então acho que esse é um negócio da dupla.
E aí eu tava pensando sobre isso, mas de onde vem, né, existencialmente essa diferença da dupla em relação a todos os outros formatos? No fundo, no fundo, vem da relação com a mãe, porque a gente nasce numa relação de dupla. Claro que é de trio, porque o pai é parte fundamental e os genes vêm dos dois, mas naquele momento em que você nasce, naquele momento e nos meses seguintes, essa relação É uma relação de dupla e a gente vê isso na natureza, em todas as outras espécies de mamíferos existe essa conexão que é dada, por exemplo, pela atividade simultânea de áreas específicas do cérebro com liberação de neuro-hormônios específicos na relação entre o bebê e a mãe.
Então acho que a dupla nos forma como pessoas desde cedo, né? Eu gosto muito de uma dupla que é O Kahneman, é o Daniel Kahneman e o Amos Tversky. Os sujeitos inventaram uma parte fundamental da economia comportamental, que no fundo é um campo da psicologia e tal. E é uma coisa interessante porque eles descreveram um monte de vieses, um monte de ideias que assim parece que mostram como o ser humano ele sai da racionalidade. E a dupla, no fundo, no fundo, é o arranjo ao mesmo tempo menos racional que existe.
Ele é o mais afetivo, mas é também o mais eficiente. Então, curiosamente, a dupla de inventores do grande negócio sobre como pensar o comportamento humano de maneira contemporânea é justamente a dupla que traz essa transcendência da eficiência na relação afetiva, que é isso que a dupla traz.
Álvaro, no caso da dupla Rick e Renner, o Rick saiu da dupla em 2015, ele dizia que não tinha mais estrutura emocional para continuar. E olha, não faltava sucesso, não faltava público, provavelmente não faltava dinheiro. O que, o que corrói uma parceria por dentro a ponto de alguém abrir mão de tudo isso?
Olha, é claro que os casos variam, mas existem estudos sobre essa questão, né, de como a corrosão da relação entre duas pessoas ganha forma. E o curioso é que a gente intui que o grande problema seja a briga. As brigas se multiplicam, não dá mais. E não é. As duplas em geral aguentam brigas, elas toleram brigas, inclusive casais. O que realmente corrói é— sei lá, vou chamar de uma maneira— tô buscando sempre o simples, né, porque é um assunto complexo.
Então vamos dizer que a contabilidade É muito mais do que isso, mas é o lance assim: quem carrega mais? Eu estou fazendo mais que você? Eu trago isso, você só traz aquilo? É essa medida pragmática em que o resultado deixa de ser pensado dessa maneira simbiótica que eu tava comentando antes e passa a ser organizado de forma muito individual dentro da dupla. É muito mais, portanto, uma espécie de sei lá se visão mesquinha ou talvez a gente possa dizer divisão pragmática do que cada um faz.
A hora que a coisa ganha esse formato, a mágica da contribuição múltipla desaparece. Então acho que é isso aí que acaba acontecendo, né?
Fala, Álvaro, termina. Desculpa, achei que você tinha encerrado.
É assim, eu tinha comentado sobre como a dupla tem uma coisa que os grupos maiores não têm. Mas aqui eu acho que dá para a gente pensar o contrário também. Num grupo maior, esse tipo de assimetria, né, um pensa que tá contribuindo mais que outro, acaba sendo absorvido, esse fenômeno acaba sendo, vamos dizer assim, processado no todo, porque as pessoas contribuem de maneira assimétrica. Então não são só duas pessoas. Então a dupla, ao mesmo tempo que ela traz vantagens de conexão, ela também traz esse tipo de desvantagem.
É muito fácil que os desbalanços comecem a ser vistos como posicionamentos individuais e essa individualidade destrua a coisa coletiva.
Que pode acontecer também, sobretudo quando a gente fala de duplas longevas, né? As pessoas vão mudando ao longo do caminho, o mundo vai mudando e agindo de maneira diferente sobre elas também. Nem sempre manter uma dupla, como manter um casamento, manter uma sociedade, manter uma parceria, exige bastante empenho, né? Considerando todos esses ingredientes. E aí, ainda que isso aconteça, que o casal se separe, ou que a sociedade se desfaça, ou que a parceria acabe, ou que a amizade se distancie, Eu conheço duplas que se afastaram e voltaram a fazer negócios, voltaram a ser casados, voltaram a retomar a parceria, voltaram a ser amigos.
O que é que puxa uma pessoa de volta para uma parceria que ela mesma encerrou, rompeu?
Bom, a gente tem os casos assim de grande visibilidade, então, por exemplo, duplas de artistas que voltam simplesmente porque tentam uma carreira solo e ela não tem uma fração da abrangência e do impacto que a dupla em si tinha. Então aí existe uma razão pragmática. Mas eu diria que no mundo como um todo isso é muito, muito secundário. O grande lance é que a gente cria uma identidade de dupla. Isso eu posso dizer que toda grande amizade, uma dupla como vocês, todo casamento bem-sucedido tem essa coisa, né?
Há uma identidade da gente junto. Isso é muito valioso. No final das contas, a gente sempre projeta a alternativa a esse movimento da identidade como algo que também é uma identidade, que é a identidade própria, aquilo que a gente vai fazer, outras duplas e assim por diante. Mas na hora do vamos ver, muitas vezes essa identidade original, ela tinha uma força que a gente menosprezou no momento em que a gente decidiu ir embora, assim.
Ou seja, é fácil ignorar isso porque é um fenômeno sutil, mas é muito importante, né? Então, em casais, por exemplo, é comum que Existem os amigos que são de ambos, que são da relação da família, da dupla, e a gente sempre pensa, não, mas essas coisas vão fluindo naturalmente. Mas no final das contas, a dissolução traz muito essa falta dessas relações, de tudo que vinha junto. E aí bate, ou é reforçada, a intenção, sensação de que deveria, enfim, deveria se voltar atrás.
Álvaro Renner agora fica sem um parceiro que ele tinha 40 anos. E muita gente que perde uma pessoa com quem dividiu muito tempo da vida fala que perdeu um pedaço de si. Isso, isso é jeito de falar?
É um modo figurativo?
O que que é?
A mistura é muito misturada, né?
É muito. Não é tão figurativo assim não. Eu tenho um estudo bem bacana que traduz porque não é. E que assim, a gente tende a achar que as coisas que são assim partes, elas são simplesmente partes materiais. Mas partes cognitivas também contam. E olha só, nos anos 90, os pesquisadores testaram o seguinte: eles pegaram casais de namorados e pares de estranhos e deram listas de coisas para essas duplas memorizarem. Só isso, tá bom?
E depois simplesmente faziam a apuração. Os casais de namorados lembravam muito mais do que as duplas de estranhos. Olha que engraçado, parece que não tem nada a ver uma coisa com a outra, né? Parece que as lembranças vão ser simplesmente baseadas capacidade cognitiva, mas não lembrança de nome, data, números aleatórios, passagens com sentido, ou seja, semântica. Tudo isso era lembrado de maneira mais eficiente pela dupla que se conhecia, tinha uma química, porque essa dupla já aprendeu a dividir as tarefas, por assim dizer.
Então, se a gente olhar só desse ponto de vista, a memória da dupla é algo que se perde, que tem uma estrutura real, é uma, e até tem uma fisicalidade, porque tá implementada no hipocampo da gente, tem atividade identidade de gênero, inclusive funcionando como um pregador de roupa segurando essas memórias. E quando um dos dois morre ou vai embora, ou sei lá, a dupla se desfaz, os dois acabam perdendo acesso, né, ou a parte que ficou viva perde acesso a uma parte do passado, né.
E isso é muito comum assim, a gente vê que assim a pessoa sente que tinha na outra parte, na contraparte, também um apoio para a construção dessa história comum, para reconstrução dela. Estudos com neuroimagem, quer dizer, põe a pessoa na ressonância magnética, justamente mostra isso, tá? Então quando você põe pessoas que têm uma sinergia forte, a gente vê atividade no cérebro de maneira muito mais sincrônica do que quando você coloca pessoas que não se conhecem.
E essa sincronicidade tá justamente associada à capacidade de produzir essa memória da dupla.
Opa, Miki, eu vejo cada vez mais gente morando sozinha, abrindo empresa sozinha, viajando sozinha. Eu mesma moro sozinha, sou uma entusiasta de que a gente seja capaz e fique satisfeita em fazer coisas sozinha, morar sozinha, viajar sozinha. Acho que isso tem a ver com autonomia. Não tem nada a ver com viver isolado, até porque, né, Fernando, quem me conhece sabe que o que eu não faço é viver isolado, não é mesmo? A dupla ainda tem futuro num mundo tão que prega cada vez mais a individualidade, Álvaro?
Olha só, a dupla tem menos futuro do que a produção solo, tá? Então o grupo formado por uma única pessoa, por assim dizer, é o grupo que mais cresce, ponto final. Agora, a dupla tem mais futuro do que os grupos maiores, tá? Esses estão em declínio. Então, por exemplo, o censo de 2022 mostra isso claramente, tá? Então, se a gente pensar, por exemplo, em famílias com mais filhos, né, com número grande de filhos, esse é o grande grupo em declínio, tá?
Isso aí não tem nem dúvida. Casal sem filhos crescem bastante, então é a dupla. Agora, as casas com uma pessoa só crescem ainda mais. Então, por aí a gente vê que há uma mudança em que, do ponto de vista, vamos considerar que o grupo comece em duas pessoas, então essa unidade mínima é a que mais cresce, a dupla é a que mais cresce. Casais sem filho crescem mais do que casais com um filho, que crescem mais do que casais com dois filhos, na hora de que já estão em declínio.
E agora o sujeito sozinho tem uma ascensão muito maior do ponto de vista da sociedade. Então acho que a primeira coisa é isso que a gente tem que pensar. Segunda é a seguinte: No mundo mesmo da arte e da música, do showbiz, também é verdade que muitas duplas estão se desfazendo, muita produção solo está acontecendo, né? Eu levantei isso. Então, várias dessas pessoas, né, existe uma geração nova de solistas, Gusttavo Lima, Ana Castela e assim por diante, são pessoas que fazem o chamado feat, né, que é de feature, de trazer uma pessoa para ser dupla pontual em alguma coisa.
Mas essa lógica da dupla que já foi, enfim, a regra, não é mais, a coisa tá muito relativizada. E eu diria o seguinte, no mundo das empresas isso também tá em transformação, tá? Então sempre o modelo tradicional de startup foi a dupla, de um sujeito técnico, o outro mais negócios. E hoje em dia essa dinâmica também está em declínio, tá emergindo uma que só tem um fundador ou fundadora, que é uma pessoa que é menos técnica, até porque usa inteligência artificial e tem mais uma visão do negócio.
E pronto, talvez seja libertador. Mas fato é que a gente tem mudanças sim no domínio das duplas. Elas estão declinando em relação ao sujeito individual, mas os grupos maiores estão declinando mais ainda.
Álvaro, uma música para a gente encerrar?
Vamos embora, acho que merece. Eu acho que a gente deveria terminar com Nos Bares da Cidade, tá, do Rick Renner, porque eu acho que é uma música que traz o lance da saudade, traz enfim, afetivamente uma coisa muito importante para eles e para todos os fãs da dupla. Confesso que eu não sou parte dos que escutam a dupla sempre, mas eu fiz a pesquisa das músicas e eu recomendo muito essa.
Derrama cerveja, derrama, derrama a tristeza do meu coração, que essa angústia é uma bebida misturada, batida com a solidão. Derrama cerveja, derrama enquanto eu derramo toda essa saudade. Eu sou apenas um qualquer bebendo com mulher nos bares da cidade.
Álvaro Machado Dias conosco às quartas-feiras em Visões do Futuro. Obrigada, Álvaro, até a semana que vem.
Obrigado você, obrigado Fernando, um abraço, até semana que vem.