A dificuldade de ter que escolher no mundo atual
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- A dificuldade de escolher em um mundo com excesso de informações e opçõescuradoria como valorização·paralisação por excesso de opções·escolhas diárias·influência da cultura nas escolhas
- A paralisia por excesso de oferta e a busca por curadoria externamundo digital e oferta absurda·dificuldade de escolher·pagar para outros escolherem·ficando mais parecidos
- O impacto da quantidade de escolhas diárias na vida das pessoas35 mil escolhas por dia·3 mil decisões na alimentação·cultura introjeta escolhas·socialização facilita decisões
- A proposta de redes sociais sem algoritmos e seus desafiosDigital Duty of Care·feed baseado em contas seguidas·algoritmos como curadores·impacto na transparência
- O poder dos algoritmos e a liberdade de expressão nas plataformas digitaisalgoritmos e produção de conteúdo·algoritmos viraram negócio·vídeo do Fábio Porchat·poder de organização da sociedade civil
- A influência de fatores não racionais nas decisões humanasatenção fundamental para decisão·informações imprecisas·cálculo de ganho nas escolhas·dimensão de tempo do retorno
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Pra Onde Vamos com Michel Alcoforado.
Fala, Michel!
Oi, Tati! Oi, Fernando! Tudo bem?
Tudo bem, boa tarde, bem-vindo!
Boa tarde.
Eu, quando eu e Fernando, né, e você também que é meio da nossa geração, quando éramos jovens e queríamos ir ao cinema, por exemplo, a gente sabia onde ir, né? Ia lá naquela revista de sexta-feira dos jornais, tinha lá uma curadoria de filmes que estavam em cartaz, em que lugares estavam em cartaz. Show, a mesma coisa. Teatro, a mesma coisa. E aqui eu tô usando um exemplo de produtos culturais. A gente tinha um cardápio claro e fazia ali as nossas escolhas.
Com a revolução tecnológica, essas informações ficaram muito espalhadas, né? Parece que tem mais informação e que elas estão mais espalhadas. Por isso o trabalho que hoje se convencionou chamar de curadoria é tão valorizado, né? Alguém que pega tudo isso e organiza para você fazer a sua escolha.
É bom e ruim, né?
É bom e ruim, porque o que que essas escolhas produzem?
Uma gente igual, uma gente parecida com todo mundo, né? Onde fica cada vez mais difícil a gente reparar como é que cada um tá preferindo tal viver ou escolhendo viver. Todo mundo tá com uma carinha igual a outra, e isso é bem interessante. Mas antes da gente entrar, vocês têm dificuldade de escolher? Como é que vocês lidam com esse negócio da escolha?
Um monte, um caos, você escolhe nada.
Não depende do quê, né?
Ó, por exemplo, música. Eu vou lá assim, vou ver alguém novo, alguém novo, alguém novo, alguém novo. Vou lá e ouço alguém que eu já conheço, que é bom, que eu sei que eu já conheço, tá? E aí fico nessa.
Então você sabe que eu fui buscar aqui várias pesquisas, é a quantidade de escolhas que a gente é obrigado a tomar por dia, e nem os especialistas sabem ao certo, porque tem várias metodologias para definir o que que é uma escolha. Mas o que é um retrato cada vez mais claro, que todo mundo concorda, é que cada vez mais, numa vida acelerada, onde você tem que decidir um bocado de coisa que antes já tava decidido por você, você tem que tomar uma quantidade infinita de escolhas maior do que as outras gerações tinham que fazer.
Então, só pra vocês terem uma ideia aqui do grau de complexidade da quantidade de escolha que a gente é obrigado a tomar por dia, algumas pesquisas, sobretudo pesquisas feitas pela Universidade Cornell, dizem que a gente toma em média, 35 mil escolhas por dia. Então é assim, a escolha do que você vai vestir, o que você vai comer, com quem você vai comer, a quantidade de comida que você vai comer, se você vai tomar mais um refrigerante, se você não vai tomar, se você tá de dieta.
Uma quantidade... Se o ônibus, você vai descer antes do ônibus, se você vai não descer no horário correto, se você vai chegar atrasado no trabalho. Uma quantidade infinita de escolhas. Mas diz que no campo, só no campo da alimentação, a gente chega a tomar, por exemplo, quase 3 mil decisões por dia. É um negócio absurdo. E por que a gente não fica cansado de tomar escolha, de tomar tanta decisão? É porque a cultura introjeta na gente um conjunto de escolhas que estão feitas pelos outros que vieram antes da gente.
Então, quando sua mãe diz, olha, não pode falar de boca cheia. Quando sua mãe diz, olha, vai pra uma reunião mais importantezinha, tem que botar uma roupinha melhor. Quando a escola fala pra você, olha, a gente usa português ou fala português de maneira formal de tal jeito. A gente aprende a introjetar uma série de escolhas ao longo do nosso processo de amadurecimento que vão ajudar você ao longo da vida ter que pensar menos antes de decidir.
Então, gente que socializou mais— e aí não tô falando só de escola não, tá, gente? Não tem nada a ver com isso. Eu tô falando de gente que teve mais contato com a sociedade, que pôde mais trocar com os outros, vai viver uma vida mais fácil, ou pelo menos teoricamente verá uma vida mais fácil. Porque vai ter introjetado dentro de si um conjunto de escolhas que a sociedade te ajudou a formar. E ao longo do processo você vai decidindo: olha, essa aqui eu vou bancar junto com a sociedade, essa aqui eu vou decidir seguir o meu caminho sem nenhum problema.
Qual que é a grande questão que os economistas, sobretudo os economistas da economia comportamental, têm chamado a atenção? Essas escolhas que a gente acha que são escolhas racionais, que você para para decidir se vai seguir por um caminho A ou por um caminho B, não são tão assim racionais ao ponto de você decidir sozinho no mero cálculo de custo-benefício. A gente toma qualquer decisão balizada em algumas premissas básicas. O primeiro deles é que a atenção, ela é fundamental para te ajudar a tomar decisão.
Então quem aqui, sei lá, chega num lugar, ou como o Tadinho tava falando antigamente, quando a gente abria a revistinha do jornal e tinha lá, olha, essa semana tem 3 filmes, vai assistir ou não vai assistir? Você tinha mais tempo para reparar qual filme você fazia mais o teu gosto, qual cinema era mais perto da sua casa. Você tinha mais tempo para devotar atenção a alguma coisa para decidir. Então, como você pensava mais antes, ou pelo menos você tinha menos opção, a tua chance de frustração também era menor.
Um outro aspecto interessante que eles vão chamar atenção é É que a gente sempre toma uma decisão a partir da informação que a gente tem. E essas informações num mundo onde tem cada vez mais gente falando na tua cabeça parecem cada vez mais imprecisas também. Tá sempre faltando uma parte. Então, sei lá, um grande influenciador diz que você tem que ouvir um determinado álbum de música, você ouve, mas aí aparece outro dizendo, olha, mas você não reparou que naquele clipe tinha algo que fazia referência, sei lá aonde, sei lá do quê.
Então a gente sempre lida com um conjunto de informações imprecisas. E um outro ponto importante também é que os economistas do comportamento vão chamar atenção que a gente faz sempre um cálculo nas escolhas que estão fazendo, do ganho que a gente vai ter fazendo aquela escolha. Só que isso tem uma dimensão de tempo fundamental, que é: o retorno se vai ter agora ou se esse retorno vai vir mais pra frente? O que que tá acontecendo agora, tá?
Que tá acontecendo é que esse mundo que a gente escolheu viver, como Tati colocou, atravessado pelas plataformas digitais e por uma oferta absurda de serviços e produtos, tá deixando a gente cada vez mais paralisado, com mais dificuldade de escolher. Que é tanta opção, é tanta atenção que tá cortadinha, é tanta interrupção, você não consegue nem pensar o que que você vai fazer. E aqui que a gente tá fazendo, a gente tá pagando para os outros escolher pela gente.
E como são poucos outros que têm legitimidade para dizer, olha, eu sou o sabichão aqui no campo do filme, no campo da música, no campo do esporte, em qualquer outro campo que você confia, e muita gente confia, a gente tá começando a confiar nas mesmas pessoas para escolher as mesmas coisas pela gente. E aí a gente tá ficando mais parecido. Então, é, a oferta é tão grande que ia te dar uma liberdade muito grande Pra você decidir o que você queria fazer.
No final das contas, a gente tá muito igual. Só pra passar pra vocês um dado que eu fiquei chocadíssimo aqui, que saiu no Financial Times, é fruto de um levantamento que foi feito por um pesquisador num livro chamado A Origem da Riqueza, que foi publicado em 2006. Ele vai dizer que numa grande cidade como Nova York, a gente tem, em média, 10 bilhões de produtos e serviços diferentes sendo oferecidos ao mesmo tempo. Então ele tá botando nesse pacote as escolhas mais simples e as mais complexas.
A gente se juntar tudo isso, você tem 10 bilhões de oportunidades ou de chances de escolher uma coisa vivendo numa grande economia, de uma grande cidade, no Brasil ou no mundo. E aí você acorda tendo que escolher, dorme tendo que escolher, sai de casa tendo que escolher, até o momento que você diz, olha, eu vou pagar alguém para escolher por mim.
Porque é realmente exaustivo.
Eu tenho parte da solução. Eu não, Austrália tem parte da solução, sabe qual é? Uma discussão muito legal é ter a vida a me levar, é ter a rede social sem algoritmo. É você ter a rede social, você vai lá e clica: eu não quero algoritmo, eu quero colocar tudo que eu quero. É a proposta, discussão.
Eu nem sabia que existe.
A proposta é para que passe a existir.
Então você vai ter uma rede social sem ter algo, você vai optar por isso.
Ninguém vai te sugerir nada, é você que vai fazer o que você quer.
Eu quero seguir quem eu quero, não me venha com sugestões.
Uma expressão que se convencionou a usar mais recentemente, vale para tudo, né? Inclusive governança, busca ativa.
Exatamente.
Parece bom, mas não é tão fácil assim não, Fernando. Olha, por que que os algoritmos— é, por que que os algoritmos apareceram, né? Eu acho que é um ponto interessante aqui. É óbvio que as grandes empresas de tecnologia se apropriaram dos algoritmos e são pouco transparentes, né, de como é que eles funcionam, em como eles funcionam. Mas é interessante que os algoritmos apareceram justamente por conta da onda gigantesca de produção de conteúdo.
Se você desligar o algoritmo da tua rede social, você vai perder uma lógica daquilo que é ofertado pra você. Porque pensa, quantidade de vídeos que sobem no YouTube, a quantidade de posts que sobem no Instagram, a quantidade de músicas que entram no Spotify. No começo dessa história, o algoritmo existia pra dizer, olha, pra você não viver aí enfornado numa quantidade de informação que não faz né, com Crelco, que não tem uma ligação com nada, a gente vai criar aqui algum caminho que vai te oferecer uma certa curadoria.
O algoritmo talvez seja um dos primeiros curadores, né, dentro desse processo digital. E aí, o que que é o mais interessante? Era para te ajudar, mas virou negócio, né? Porque se a gente entende o impacto que uma oferta de um produto ou um serviço tem na tua escolha, essas grandes empresas começaram a vender O que que aparece na tua timeline? Então parece simples resolver, mas não é muito, porque ter uma rede social sem algoritmo é ter uma rede social que talvez não faça sentido, porque você vai ter acesso a tanta coisa que não tem nada a ver com nada.
Esse projeto lá se chama Digital Duty of Care, é dever de cuidado digital. Então hoje a gente tem o feed personalizado por algoritmo, e você poderia ter um feed baseado apenas nas contas que a pessoa escolheu seguir. Sem a recomendação personalizada do algoritmo. E pensa, eles são os primeiros a colocar rede social só para depois.
Eu acho bom, mas eu acho que não vão dar esse mole para gente não, hein?
Acho que também não, não vão.
E vocês viram hoje aí a informação do vídeo, né? Um vídeo do Fábio Porchat. Acho que, acho que não vão dar esse mole para gente não.
Já voltou o vídeo, né? Teve protesto e tal. É, a Meta tinha tirado do ar um vídeo do Do Calma Urgente, eu acho. Enfim, não vou lembrar. Chama Revelando, talvez também.
É um vídeo do Fábio Porchat, né, contando uma premissa fundamental da vida na democracia, é a liberdade de expressão. Ele fez um vídeo contando uma ligação de políticos com igrejas e outras coisas. E o mais interessante é que isso foi para o ar, se eu não me engano, uns 2 dias atrás, e hoje tinha caído. Sem nenhuma justificativa, né? Então agora voltou. E aí é muito interessante poder de organização da sociedade civil para dizer: ué, mas como assim você não vai me deixar ver esse negócio?
E aí a estratégia foi uma forma de burlar esses caminhos, que foram pessoas que não tinham tido seus vídeos banidos nas próprias contas decidindo repostar aquilo, né? E a chuva foi tão grande que eles tiveram que dar um passo para trás. É, mas é uma relação de poder mesmo, né, que vai influenciar a nossa escolha, que vai influenciar a nossa percepção de eu, que vai influenciar o jogo social como um todo. Acho o problema complexo demais, e todo problema complexo precisa de um debate social muito grande, né.
Os algoritmos, eles ajudam a gente a escolher, mas eles também— a gente precisa participar de que regras são essas que são fundamentais na construção dessas escolhas.
Vários ouvintes com uma outra camada aqui, que além do teu algoritmo ainda pede uma sugestão para inteligência artificial.
É, mas aí não é mesmo?
Você já tem um monte de opção. Aí não satisfeito, olha, você pode me dar uma opção? Quem ele vai? Ai, tá bom.
Que é o famoso pagar para alguém fazer isso para você, né? Você paga a inteligência artificial e ela faz essa curadoria aí. Tá bom, tá bom. Michel, obrigada por hoje, um beijo para você, até sexta.
Até sexta, viva o operante! Até lá, tchau, um beijo.