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Lula tenta 'virar o disco' e 'recolocar o debate eleitoral' durante discurso na ONU

22 de setembro de 20268min
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Durante a Conferência Geral da ONU, o presidente Lula criticou a perda de relevância da instituição e defendeu o multilateralismo. Além disso, disse que todos somos reféns de um “conselho de segurança que não cumpre seu papel”. Bernardo Mello Franco analisa o cenário na ONU e faz homenagem ao jornalista Zuenir Ventura, que faleceu nesta terça-feira (22). Ouça.

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Participantes neste episódio2
C

Carlos Alberto Sardenberg

HostJornalista
B

Bernardo Mello Franco

ComentaristaJornalista
Assuntos4
  • Homenagem a Zuenir Ventura e seu legado no jornalismo brasileiroZuenir como cronista do Rio de Janeiro·Livro 'Cidade Partida' e a realidade das favelas·Jornalista como testemunha crítica do tempo·Simplicidade e humildade de Zuenir
  • Discurso de Lula na ONU sobre multilateralismo e crítica à instituiçãoDefesa do multilateralismo e soluções negociadas·Crítica à perda de relevância da ONU·Conselho de Segurança que não cumpre seu papel·Crítica a intervenções militares de superpotências
  • Lula tenta reposicionar o debate eleitoral brasileiro na ONUBrasil não cabe no quintal de ninguém·Eleição como disputa entre democracia e extremismo·Acusação de interferência externa na campanha·Tentativa de virar o disco da eleição
  • Presidentes usam a tribuna da ONU como palanque eleitoralAssembleia Geral coincide com reta final das eleições·Bolsonaro e Dilma também usaram o palanque·Lula demarca posição contra americanos·Mensagem de defesa da soberania do Brasil
Transcrição30 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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?Voz C

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BMBernardo Mello Franco

Conversa de Bastidor com Bernardo Melo Franco.

CACarlos Alberto Sardenberg

Bernardo com a gente aqui no estúdio em São Paulo. Bernardo, boa tarde, tudo bem?

BMBernardo Mello Franco

Boa tarde, Sardenberg. Boa tarde, Cássia. É um prazer estar aqui pela primeira vez nesse estúdio da CBN.

?Voz D

É verdade, pela primeira vez ao vivo, in loco, né, no nosso estúdio.

CACarlos Alberto Sardenberg

Demorou. Boa tarde, Bernardo. Você trabalhou com Zuenir Ventura?

BMBernardo Mello Franco

Olha, Sardenberg, eu não tive a oportunidade de trabalhar na mesma redação fisicamente, mas eu fui colega de página dele na página 3 do jornal O Globo e tive uma correspondência com Zuenir muito frequente por email. E também eu encontrava bastante em eventos, enfim, coisas no Rio, né? Ele compartilhava comigo o amor pela cidade, né? Ele foi um grande cronista do Rio de Janeiro, além de um grande jornalista de cultura, um grande jornalista que cobriu todos os assuntos.

Ele também foi um grande cronista da cidade, como a Miriam lembrou, não só da cidade que sai no cartão postal, mas da cidade partida, né? Eu fiquei muito marcado ainda estudante, ainda na escola, pela leitura do livro Cidade Partida, que é um livro dos anos 90, para o qual o Zuenir passou um grande tempo ali visitando diariamente favela, vendo como é que os movimentos comunitários se articulavam depois de um período que o Rio ficou marcado por chacinas, né, por crimes, enfim, bárbaros cometidos por forças de segurança do Estado.

E o Zuenir foi ver quem eram aquelas pessoas no momento em que a imprensa dava pouca voz as vítimas desse tipo de situação. E eu separei aqui para ler rapidinho um trecho de um livro dele chamado Minhas Histórias dos Outros. Esse livro acho que diz muito sobre quem era o Zueni, né? Ele era uma pessoa muito simples no teatro, muito humilde para o tamanho que ele tinha na nossa profissão e até no cenário geral do Brasil. E ele escreveu um livro de memórias onde ele não era o protagonista, ele era aquele que contava as histórias dos outros, daí esse título.

E ele tem uma frase ali que eu acho que serve como ensinamento para nós no momento que às vezes as pessoas confundem o papel do jornalista, acha que o jornalista é notícia, né? E o nosso papel é outro, é dar a notícia e estar com as pessoas que são notícia. E ele dizia o seguinte: não viemos à Terra para julgar, nem para prender ou condenar. Viemos para olhar e depois contar. Não somos juízes, não somos promotores, somos jornalistas, somos testemunhas do nosso tempo, uma testemunha crítica, não necessariamente de oposição, mas implacavelmente crítica.

Acho que serve um pouco como farol para gente num dia triste que nossa profissão perde um dos maiores.

CACarlos Alberto Sardenberg

Gostei desse final: não necessariamente de oposição, mas sempre muito crítico, né? É isso que é o ideal de jornalismo que a gente deve seguir. Bom, ainda temos tempo. Queria uma palavra sua sobre o discurso do Lula na ONU. Teve questões nacionais, eleitorais, e questões internacionais.

BMBernardo Mello Franco

Pois é, Sardenberg. Começando pelas internacionais, que foram as questões que abriram o discurso, o Lula repetiu algo que ele vem falando há bastante tempo e que é a linha tradicional da diplomacia brasileira, da defesa do multilateralismo. Quer dizer, é das soluções negociadas e da participação de todos os países, especialmente os países em desenvolvimento, que é o nosso caso. Então ele volta a criticar a perda de relevância da ONU, ele diz que todos hoje somos reféns de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel, e ele critica as intervenções militares apoiadas por superpotências, citando ali nominalmente o caso da guerra da Ucrânia e o caso do conflito Israel-Palestina.

Agora, me parece que o ponto principal para nós aqui, claro que é o ponto em que ele fala do Brasil. E aí o presidente Lula foi com um discurso muito ensaiado ali, muito pensado, de dizer que o Brasil não cabe no quintal de ninguém e de tentar circunscrever ou retratar a eleição presidencial de daqui a 2 semanas como não só uma disputa entre esquerda e direita, mas também uma disputa entre democracia e extremismo. Ele, claro, se colocando no lugar da democracia e passando a imagem de que o adversário principal dele, Flávio Bolsonaro, representaria uma ameaça a esse regime político, ao regime das liberdades.

O Lula tentou passar esse enquadramento da eleição brasileira para a comunidade internacional. Então ele diz que os brasileiros não vão só eleger um presidente, vão decidir entre democracia e negacionismo, e fala sobre interferência externa na campanha. Me pareceu ali, Sardenberg, que ele usou esse discurso na ONU para tentar virar o disco, mudar o assunto da eleição brasileira, que nas últimas semanas foi muito capturada, óbvio, pela crise no Supremo Tribunal Federal.

Não poderia ser diferente. E ele tenta recolocar o debate eleitoral em cima da discussão da soberania e da resistência à tentativa de interferência americana. Esse é o discurso do Lula, foi a mensagem que ele tentou passar na ONU. A ver como é que isso repercute aqui. Lembrando que é tradicional que os presidentes que disputam a reeleição acabem usando esse palanque, essa tribuna da ONU, como uma espécie de um palanque, né? Assembleia Geral é sempre em setembro, ela coincide com a reta final das eleições.

Foi feito isso pelo Bolsonaro, foi feito pela Dilma, tá sendo feito novamente pelo Lula agora.

CACarlos Alberto Sardenberg

Tá certo. Ele usou a expressão: é uma eleição, a democracia versus o negacionismo, né?

BMBernardo Mello Franco

A democracia versus o negacionismo. E antes ele falou também sobre o extremismo e sobre a ameaça à democracia no mundo todo, né? Ele fala que a democracia está novamente em xeque E que voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. Então, se no ano passado a ideia era se reaproximar do Trump, né, dizer que rolou uma química, né, que ficaram amigos, agora não. Agora é demarcar posição, acusar os americanos de tentarem interferir a favor do adversário dele, do Flávio Bolsonaro, e se colocar para o eleitor e para a comunidade internacional como aquele que vai defender a soberania do Brasil.

Foi esse um pouco o contorno desse discurso, né. Ele termina dizendo que o Brasil continuará a ser um país soberano. Mas dando a entender que se ele perder a eleição pode ser diferente.

CACarlos Alberto Sardenberg

Presta aqui, sabe, Cássia, que o Bernardo é um jornalista moderno.

?Voz D

Entretanto, olha como é que ele trabalha, ó, no bloquinho.

BMBernardo Mello Franco

Eu não saio de casa sem bloquinho e canetinha.

CACarlos Alberto Sardenberg

Aqui, ó, bloquinho de nota.

?Voz D

Cuidado com o que você tá mostrando aí nessas notas, hein?

CACarlos Alberto Sardenberg

E é aquele bloquinho, esse bloquinho aqui que os Os ouvintes estão vendo aqui pela nossa, nas nossas imagens, esse bloquinho é uma coisa mais típica do jornalismo, é sem pauta, um bloquinho que cabe no bolso do paletó e que dá para, que tem aquela capa mais firme que sustenta as páginas e você consegue anotar mesmo sem ter um suporte.

BMBernardo Mello Franco

E é papel de rotativa, né, o papel que sobra da impressão do jornal, eles botam aí uma espiralzinha e distribuem para gente.

CACarlos Alberto Sardenberg

Bernardo, olha, o Franco, muitíssimo obrigado, Bernardo, e até a próxima.

BMBernardo Mello Franco

Obrigado a vocês, prazer estar aqui. Até mais, Bernardo.

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