Episódios de Comentaristas

Depressão: culpa e silêncio podem agravar crises nos relacionamentos

21 de setembro de 202618min
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No Amores Possíveis, Carol Tilkian explica como o sofrimento psíquico pode levar ao isolamento e fala sobre a importância da escuta.

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Participantes neste episódio3
C

Carol Tilkian

HostPsicanalista
Á

Álvaro Machado Dias

Co-hostEspecialista
B

Beatriz Pacheco

Co-hostJornalista
Assuntos6
  • A culpa e o silêncio agravam o quadro depressivo nos relacionamentosdistanciamento da família·looping de culpa·depressão como demérito·sensação de impotência
  • A depressão masculina se manifesta de forma diferente da femininairritação e impaciência·aumento do consumo de substâncias·excesso de trabalho·falta de diagnóstico
  • A anedonia e o distanciamento nos relacionamentos afetados pela depressãoperda da capacidade de sentir prazer·presença ausente·culpa por não desejar·tempos diferentes na relação
  • A depressão como doença crônica e a necessidade de tratamentodesequilíbrio químico·remédio para equilibrar·não é atestado de fracasso·espaços de escuta e elaboração
  • A importância da psicoterapia no tratamento da depressãotratamento conjunto com psiquiatra·espaço de fala e elaboração·silenciamento na relação familiar
  • A projeção da crítica do parceiro como sinal de depressão agudapesquisa de Dio Rowley e John Tesdale·parceiro crítico como previsor de recaída·medo de ser um estorvo
Transcrição26 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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?Voz B

CBN Amores Possíveis. Com Carol Tioquinha.

?Voz C

Carol Tioquinha, boa tarde!

CTCarol Tilkian

Boa tarde, Tati! Boa tarde, Nando! Boa tarde, ouvintes!

?Voz C

Bom, hoje Carol vai falar de depressão. A gente tá no Setembro Amarelo, é o mês em que a gente deve falar mais sobre como lidar, sobre como prevenir, se é que é possível prevenir uma doença psíquica, né? E como isso pode impactar um casal, uma dupla, uma família. É isso, Carol?

CTCarol Tilkian

Exatamente. Hoje eu quero trazer a perspectiva da pessoa que está doente e o quanto a culpa faz com que o distanciamento dessa pessoa com a família tenda a agravar até o quadro depressivo. Porque a gente fala muito sobre como prevenir, como ajudar, e eu queria trazer esse olhar da pessoa que muitas vezes silencia e se afasta porque ela entra num looping de Talvez uma questão familiar ou uma questão conjugal tenha aprofundado essa depressão, mas aí essa pessoa sente que por estar deprimida ela está piorando a crise conjugal.

Então ela entra num caminho sem saída porque ela se culpa pela própria depressão e trata a depressão como um demérito, seja a relação familiar, seja a relação conjugal. A relação com os amigos. Então até queria abrir para os ouvintes, se você já esteve num quadro depressivo, o quanto você se sentiu culpado por isso, o quanto você não quis ser um peso nas relações, o quanto você acabou se distanciando. E eu quero conversar e trazer esses movimentos para a gente poder se convidar a fazer movimentos contra-intuitivos, porque a sensação que eu percebo muito na clínica e nos meus estudos é essa culpa por estar mal, por não estar dando conta, por estar estragando o que era bom, uma sensação de impotência de eu sei que eu deveria, eu sei que eu deveria estar tomando banho, eu sei que eu deveria estar feliz, eu sei que eu deveria estar mais engajado brincando com os meus filhos, mas eu não consigo.

E eu sei que o outro está tentando me ajudar, mas eu não estou conseguindo sair daqui. Aí vem de novo uma dupla culpa, né? E muitas vezes a agressividade, principalmente na depressão masculina, ela se manifesta como irritação, impaciência, aspereza. E aí cada gesto de explosão vai gerando de novo mais culpa. Então, trazendo um pouco dos números, Brasil hoje, 16,3 milhões de brasileiros adultos têm diagnóstico de depressão, o que significa 10% da população com mais de 18 anos, segundo o IBGE.

Entre as mulheres, a gente tem 14,7%, e entre os homens 5,1%. Acho que aqui tem duas leituras. Primeiro, o diagnóstico, porque a gente tende a associar depressão com a melancolia, com uma sensação de apatia, hipersensibilidade. E a depressão masculina aparece de outra forma. Então é o excesso de irritação, o aumento de consumo de substâncias como álcool, drogas. O excesso de trabalho. E muitas vezes a gente não nomeia isso como depressão.

Então há muitos homens que não são diagnosticados porque eles nem acham que aquilo é um quadro de depressão e não vão procurar ajuda. E o segundo ponto é que a mulher, por ser a pessoa que é encarregada do cuidado na nossa cultura, realmente está mais sobrecarregada e essa sobrecarga adoece. O que que eu acho interessante também trazer de dado para a gente problematizar aqui: entre quem tem diagnóstico e quem faz terapia, hoje só 1 a cada 5 pessoas que são diagnosticadas com depressão fazem psicoterapia.

Quando você é diagnosticado com depressão, é importante que a gente tenha um tratamento conjunto do psiquiatra com a terapia. O remédio, ele é muito importante, mas você precisa de um espaço de fala, de elaboração. E a maior parte das pessoas não tem esse espaço de fala. A relação familiar ou amorosa acaba virando esse espaço. E é justamente o espaço que a pessoa tem medo de pesar. Então, no espaço que ela poderia desabafar, ela silencia, né?

Eu ouço muito na clínica: eu acho que a minha mulher poderia estar com alguém melhor, eu vou estragar, não vou pedir para jantar com as minhas amigas porque eu vou pesar o clima. Eu sei que eles estão cansados de mim, ou aposto que ela ainda não se separou porque ela está com pena, porque ela tá cuidando. Então é como se o próprio sofrimento e a própria doença fosse uma ofensa. Tem um dado que eu acho muito interessante, é uma pesquisa de 89 do Dio Rowley e do John Tesdale, que traz exatamente esse quadro de O quanto a gente projeta no outro o peso da nossa doença e o quanto isso é sinal de que a gente tá no estado mais agudo da depressão.

Então eles acompanharam pacientes deprimidos por 9 meses e aí ao longo desses 9 meses eles perguntavam para esses pacientes: o quanto você sente que o seu parceiro é crítico com você? E eles perceberam que a resposta era o melhor previsor de recaída. Quem deu nota abaixo de 2, então meu parceiro é pouco crítico ou não é crítico comigo, foram pacientes que não recaíram. Pacientes que deram nota 6 ou mais foram pacientes que tiveram quadros de recaída da depressão.

O que que isso quer dizer? Que muitas vezes, né, na maioria das vezes, a gente tá olhando o nosso marido, a nossa mulher, o nosso namorado, namorada, como mais críticos. E isso não tem a ver com eles, tem a ver com a nossa depressão e o nosso medo de estar sendo um estorvo. Para quem adoece, essa sensação de que eu sinto que você me critica, eu sinto que você tá sendo inadequado, é muito grande. Oi, Fê.

?Voz B

Ouvintes, sou casada há 22 anos. 6 anos depois do casamento, comecei a desenvolver os primeiros sintomas de depressão. Foi tão profundo que eu não conseguia perceber o peso que carregava. Meu cônjuge dizia constantemente que éramos duas cabeças e um corpo, e fui me sentindo cada vez mais anulada. Fui anulando, fui afundando até chegar à profunda vontade de dormir. Não havia paciência da parte dele para me escutar, nunca houve.

Graças a Deus consegui sair dessa situação. Hoje acredito que por estar profundamente enraizada nele, eu não conseguia perceber o que estava acontecendo comigo. Boa tarde, obrigado por me escutarem.

CTCarol Tilkian

Muito obrigada. Pelo seu relato. E olha que interessante, né, como ela termina: por estar profundamente enraizada nele, eu não conseguia perceber. Tem algo que eu vejo no consultório que é o que a gente chama de anedonia. A anedonia é a perda da capacidade de sentir prazer. E a gente vai vendo isso em pequenas coisas. Então, nossa, o almoço de família que antes era uma delícia Eu não tô conseguindo rir, eu perdi vontade de transar, eu não quero mais viajar de férias.

E aí a pessoa vai vivendo aquilo que já trouxe como uma presença ausente. Então você vai se desvinculando, né? Ela fala duas cabeças e um corpo. Você vai distanciando o seu próprio corpo. E você vai se culpando por não desejar, por não desejar transar, por não desejar viajar, por não desejar ter prazer. E aí, de novo, duas vezes, é ruim não desejar, e eu acho que a minha falta de desejo vai gerar a separação ou uma crise conjugal.

Quando ela fala de estar enraizada nele, quando a gente tem uma das pessoas deprimidas, a gente não vai ter mesmo esses prazeres compartilhados, desde o sexo até a conversa antes de dormir, o restaurante preferido. E tem um outro ponto que é: os tempos são diferentes. Então é como se o parceiro continuasse no tempo do mundo, agenda, os planos, o fim de semana, E a pessoa deprimida tá num tempo parado e ela precisa olhar para esse tempo sem se culpar.

A gente tem que lembrar também que tem muitas pessoas que são afastadas do trabalho por conta da depressão. A gente tem um dado do INSS que em 2025, 182.937 pessoas foram afastadas do trabalho por depressão.

?Voz C

Tem um exemplo aqui, Carol, o Paulo, nosso ouvinte, dizendo: eu sou Paulo, professor da rede pública, estou afastado por depressão e vivo isso diariamente, pois sou arrimo de família. Isso acontece tanto com colegas de escola como em casa.

CTCarol Tilkian

Paulo, numa cultura que mede o valor pela produtividade, e quando você é a pessoa que é a responsável por trazer parte considerável da receita para casa, fica doente, começa a ser vivido como dívida. E aí, de novo, a culpa, né? E eu acho que aqui, para o homem, isso também tem um agravante, porque a potência do homem tá muito ligada à potência do trabalho, da produtividade total. Exatamente. E aí esse homem vai se sentindo impotente, pequeno, frágil.

E se ele não puder falar, ele tende a ser agressivo, ele se retira, ele afoga a própria depressão no álcool, nas drogas.

?Voz C

E tem um lugar até muitas vezes, né, porque esse também é um problema, um ingrediente que deveria entrar aí, né, Carol, a gente tem grande parte da nossa população viciada em jogo e endividada por causa disso. Quer dizer, quando você tem uma questão de saúde mental, também é um agravante, né?

CTCarol Tilkian

É um agravante que gera um looping negativo, né, Tati? Porque você pode estar, assim como o Paulo, afastado do seu trabalho ou não tendo sido promovido. Eu lembro que a gente fez uma coluna no ano passado sobre trabalho e afeto no trabalho, e teve um ouvinte que falou que o próprio chefe disse que não promoveu essa pessoa porque ela tinha dividido que estava com quadro de depressão. Quer dizer, e eu travei a imagem.

?Voz C

Voltou, voltou, voltou. O áudio tá rolando.

?Voz B

Vou te colocar mais uma vez.

CTCarol Tilkian

A gente trava e aí você tenta buscar a saída no jogo, só que quanto mais você perde, mais você se sente impotente. Mas você se sente culpado, deprimido, sem fundo, né?

?Voz B

Ó, mais um homem, uma questão que envolve outro homem. O companheiro está depressivo e não aceita estar depressivo, não aceita ir ao médico. Começou há 2 semanas com uma psicanalista, sem medicação. Tá triste, chora achando todo, todo tempo, está mais agressivo, desconfia de tudo. É lamentável não reconhecer a doença. Nossa relação já tem 24 anos de casados. Tenho sentido que nossa relação se tornou tóxica e perigosa.

?Voz C

Mais uma.

CTCarol Tilkian

Volto para o dado, né? 1 a cada 5 brasileiros não busca esse espaço de fala. Eu fiz recentemente uma palestra no HackTown, que é um evento de inovação, tecnologia, sobre relações em tempos de e a produtividade. E no final, uma das participantes falou, ela falou, eu quero fazer uma pergunta que também é um desabafo. Ela falou, perdi pessoas muito próximas na minha vida, tô passando por um momento delicado, fui diagnosticada com transtorno de ansiedade e eu me sinto culpada por precisar de remédio.

Eu vejo isso muito também, como se recorrer à medicação fosse ter falhado, um atestado de fracasso. Gente, gente, depressão é uma doença, muitas vezes crônica, assim como é diabetes, é desequilíbrio químico.

?Voz C

O remédio serve para equilibrar quimicamente.

CTCarol Tilkian

Exatamente, que vão precisar, né? Um diabético vai tomar insulina o resto da vida. Tem até, quero recomendar as pessoas a assistirem o Quebrando o Tabu da Depressão, bem bom, que tava no GNT e agora tá aberto no YouTube. E tem uma fala do Pedro Bial que diz exatamente isso. Ele fala: quando as pessoas quebram um braço, uma perna, ou quando tem gastrite, tudo bem você tomar o omeprazol a vida toda, mas dizer que você tá tomando remédio ou que talvez você tenha que tomar medicação para a vida toda é vista como uma impotência.

A gente não pode olhar isso como um fracasso, a gente precisa ter espaços de elaboração, ter tratamentos e poder ter outros espaços de escuta. Então vale ligar para o CVV, que é o 188, 24 horas, ligação gratuita, pelo SUS buscar essas medicações, pelo CAPS da sua cidade buscar terapia, psicoterapia para poder dar espaço para esse sofrimento, dar voz, dar contorno. A gente não dá conta de resolver isso sozinho. A gente tem que poder pesar para o nosso parceiro, para nossa parceira, parar de pedir desculpas.

Desculpa por estar assim, desculpa por não estar alegre. São questões de saúde. E quanto mais a gente silenciar para que isso não corroa o vínculo, mais isso tende não só a corroer o vínculo como a agravar o próprio quadro de saúde mental.

?Voz C

Carol Chuquian conosco às segundas falando de amor e tudo o que circunda este sentimento. Que, como sempre lembramos aqui, não se dá por combustão espontânea. Amor é o que a gente faz.

CTCarol Tilkian

Carol, queria falar, só falar que eu fiquei muito feliz com os relatos dos homens. Sim, isso é muito bonito ver quantos homens estão falando aqui.

?Voz B

Então eu propositalmente selecionei os homens também. Acho que é importante falar para eles.

CTCarol Tilkian

É, homens, falem, peçam ajuda. E teremos sempre espaço para vocês aqui no nosso Amores Possíveis no estúdio.

?Voz B

Um beijo, Carol.

?Voz C

Amor também é coisa de homem, é principalmente coisa de homem. Beijo, Carol. Boa semana para a gente. Amores Possíveis tem toda segunda, viu, aqui no Estúdio CBN, ou a hora que você quiser, o dia que você quiser, nas plataformas digitais desta central brasileira de notícias.

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