O resultados das eleições regionais da Alemanha
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Filipe Figueiredo
- O avanço da extrema-direita AfD em Mecklemburgo-Pomerânia OcidentalAfD foi o partido mais votado·dobrou sua bancada·não conseguiu maioria no parlamento
- Fatores que explicam o crescimento da AfD na antiga Alemanha Orientaldesmantelamento do aparato de Estado·pouca migração estrangeira·sofrimento econômico nos anos 90·xenofobia
- Impacto das eleições regionais na política nacional alemãderrota do Partido Conservador·possível substituição do primeiro-ministro·risco de imobilidade política
CBN Pelo Mundo com Felipe Figueiredo.
Felipe Figueiredo, boa tarde.
Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Boa tarde a todos os ouvintes aqui da CBN.
Revelar um bastidor aqui: às vezes complica para os apresentadores conseguir sustentar a conversa com Felipe. Tive que abrir o mapa aqui, por exemplo, porque não saberia apontar no mapa onde fica Mecklenburg-Pomerânia Ocidental, Felipe Figueiredo, já que a gente vai falar de eleições na Alemanha e um balanço da extrema-direita, porque nesta localidade foi o partido mais votado.
Exatamente, é a segunda vez que a gente fala desse assunto aqui em menos de um mês. E Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental é um estado da Federação Alemã que fazia parte da antiga Alemanha Oriental.
Perfeito.
E é um dos estados menos populosos da Alemanha. Acho que isso é importante para o nosso ouvinte ter noção, para dimensionar nacionalmente esse voto. Né, são menos de 1 milhão e 800 mil habitantes, mas o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha, conhecido pela sigla AfD, foi o melhor votado nesse estado, assim como foi na Saxônia-Anhalt recentemente. O partido ficou com 38% do voto popular, somando 32 cadeiras, tá, quase mais do que dobrou a sua bancada.
Porém, Tati, Fernando, é importante também a gente explicar para o nosso ouvinte que no parlamentarismo às vezes existe a situação do ganhou, mas não levou. Então a AFD foi o partido mais votado, ficou em primeiro, mas não conseguiu a maioria do parlamento. A maioria são 36 cadeiras, o AFD ficou com 32, e a soma dos partidos de esquerda e de centro-esquerda permite essa maioria, tá? Em segundo lugar ficou o Partido Social-Democrata, que é o mais tradicional dentro da centro-esquerda alemã.
Em terceiro lugar, o Partido à Esquerda, que é o partido de mais à esquerda, como o próprio nome diz. Não diria de centro-esquerda, um partido de esquerda propriamente dito. Em quarto lugar, o Partido Verde. E a principal notícia dessa eleição é o fato de que o Partido Conservador não conseguiu passar da cláusula de barreira pela primeira vez na história do pós-guerra, o Partido Conservador não terá cadeiras em um estado alemão. Foi completamente fagocitado pelo Alternativa para a Alemanha.
Agora, Felipe, o fato desses dois estados— nós já falamos aqui recentemente sobre a Saxônia-Anhalt e agora sobre a Pomerânia— os dois são estados que estão localizados na parte oriental da Alemanha. Isso tem alguma relação sobre como as pessoas que votam nessa parte da Alemanha preferirem, ou a extrema-direita tem um pouco mais de espaço nessas regiões?
Olha, tem vários, tem várias análises sobre isso, vários estudos acadêmicos alemães, porque como você apontou, Fernando, a AFD consegue proporcionalmente os seus melhores resultados na antiga Alemanha Oriental. Algumas pessoas dão algumas explicações que eu considero particularmente simplistas, né, dizendo assim: não, são que estão acostumadas com autoritarismo, que querem o autoritarismo, algo do tipo. Na verdade, muito provavelmente nós temos aqui uma mistura de 3 fatores, tá, Fernanda Itati?
A sua pergunta é muito boa. A primeira delas é: é uma população que viu o aparato de Estado onde elas viviam ser desmantelado e precisar ser reconstruído. Isso gerou um choque geracional e os mais jovens viram esse choque geracional e cresceram com um certo, digamos assim, ressentimento dessas instituições políticas tradicionais alemãs, como os grandes partidos. Então, para dar um exemplo disso, tá, a Alemanha Oriental era um dos países europeus em que proporcionalmente você tinha uma das maiores forças armadas da Europa, e essas forças armadas foram desmanteladas.
Então muitos jovens cresceram vendo seus pais, seus tios, que eram militares, agora em trabalho trabalhos precarizados, vivendo de pensões, sucumbindo a problemas e vícios como alcoolismo. A segunda questão é uma região que historicamente, né, nessas últimas décadas, viu poucos estrangeiros, teve pouca migração estrangeira. Então as pautas da FD contra o imigrante, contra o estrangeiro, contra o outro, acabam sendo muito sedutoras.
E terceiro, é uma região que sofreu economicamente nos anos 90, tá? Um baque ali do desmantelamento da estrutura econômica. Agora, antes eu falei mais estrutura socioeconômica, agora da estrutura econômica. Então ali também um ressentimento do tipo: olha só, a renda média aqui na antiga Alemanha Oriental ainda é menor do que na antiga Alemanha Ocidental, e o governo alemão fica gastando dinheiro, na visão dessas pessoas, né, com os imigrantes, com essas pessoas que chegam da Turquia, da Síria.
Então nós temos que estar em primeiro lugar porque nós somos, nós que somos os alemães. Então esse baque do choque liberal dos anos 90, o desmantelamento do antigo aparato de Estado, o fato de que era uma região muito mais fechada, sem circulação, em que você tinha menos estrangeiros. Isso hoje favorece também o crescimento de uma xenofobia. Tudo isso colabora para explicar essa força da AfD na antiga Alemanha Oriental.
Ascensão A ascensão do nacionalismo é algo que a gente pode observar em vários países do mundo, mas na Alemanha, por razões óbvias, é ainda mais assustador, né? O que é que essas duas eleições, Felipe, trazidas aqui por você, podem dizer da política nacional alemã?
Então, Tati, só para responder sua pergunta, um breve complemento, porque nesse fim de semana nós também tivemos as eleições de Berlim, a cidade de Berlim, que é como se fosse um estado. Inclusive, ela tem mais eleitores do que o estado de Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental. E em Berlim, quem venceu foi o partido da esquerda, tá? Foi a segunda vez que um partido da esquerda radical venceu uma eleição na Alemanha, ficou em primeiro, melhor dizendo, porque assim como a AFD ficou em primeiro, mas não foi, não vai ter maioria sozinho.
Provavelmente teremos um governo formado por esquerda, social-democratas e verdes. O grande derrotado em Berlim também foi o Partido Conservador, tá? E o que leva a sua pergunta sobre a política nacional: hoje nós temos um primeiro-ministro conservador na Alemanha, o Friedrich Merz, que tem um índice de aprovação baixíssimo. Ele não é uma pessoa carismática, para não usar outras expressões. Ele várias vezes já deu declarações ali, né, constrangedoras, etc.
E existe um movimento muito forte dentro do governo alemão de substituir o primeiro-ministro, pensando em tentar recuperar o tempo até a próxima eleição, provavelmente substituí-lo pelo ministro-presidente, que seria o governador da Baviera. Então, por quê? Porque o principal partido do governo federal alemão, que é o Partido Conservador, pela primeira vez ficou fora de um estado, foi o maior derrotado nas últimas 3 eleições estaduais.
As pesquisas indicam que hoje ele tomaria uma surra do AfD. E existe um outro risco, né, que é o Parlamento Nacional, Parlamento Federal alemão, ficar muito pulverizado e o país entrar numa situação ali de imobilidade numa eleição futura. Porque nas eleições estaduais o cenário está mais fácil de ser gerido, mas os partidos mantêm ali um boicote, um cordão sanitário contra AfD. Mas a CDU não senta à mesa com o partido da esquerda, por exemplo, a esquerda também não senta à mesa com CDU.
Então haveria esse risco de uma, de uma Alemanha conseguir apenas um governo de minoria. Então o Friedrich Merz cancelou a viagem dele à Assembleia Geral da ONU em Nova York, onde o presidente Lula já está, para dar atenção a essa crise política alemã que pode resultar no fim dele como primeiro-ministro, não no fim da coalizão de governo, mas ele ser substituído para tentar recuperar prestígio até a próxima eleição.
Muito bem. Felipe Figueiredo tá conosco às segundas-feiras. CBN Pelo Mundo às segundas-feiras é com Felipe Figueiredo. Obrigada, Felipe, um beijo para você, boa semana para gente.
Beijo, Tati, beijo, Fernando, um abraço a todos os nossos ouvintes. Até semana que vem.
Até lá, obrigado.