A busca por visibilidade nas redes sociais está deixando o mundo mais feio?
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Michel Alcoforado
Fernando
Tati
- A busca por visibilidade nas redes sociais e a padronização do belocarros todos iguais·influenciadores repetem padrões de imagem·reconhecimento como atributo valorizado
- A crise do contraditório e a transformação da concepção de belezao belo como algo fora do padrão·o bonito é aquilo que não foge do padrão·gosto ou não gosto como modelo de relação
- A falta de surpresa e a padronização das relações humanasnão dar brecha para ser surpreendido·todo mundo parecido·data Tinder e a busca por padrões
- O uso da inteligência artificial e a autenticidade da imagemInstagram como antigamente·corrigir imagem com IA·direito sobre a própria imagem
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Pra Onde Vamos com Michel Alcoforado.
Fala, Michel, boa tarde!
Boa tarde, Tati, tudo bem?
Tudo bem.
Boa tarde, Michel.
Ah, voltou! Achei que você tava dando a volta pelo mundo.
Não, não, só fui pegar uma aguinha.
Ah, entendi.
Eu falei, vou contar esse bastidor. Eu falei para ele, Fê, você quer que eu faça o repórter CBN? Ele falou, eu não, os ouvintes estão pedindo. Olha o xaveco do cara para poder pegar uma água, vai vendo. Mas tá bom, vamos lá. A gente já cometeu a ousadia de responder essa pergunta na abertura do Estúdio CBN, porque a pergunta que o Michel faz é O mundo está ficando mais feio com essa busca doida das pessoas por visibilidade? E sem combinar, sem olhar um para o outro, os dois fizeram.
Sim, sim. Olha, eu concordo com vocês, tá? E a gente vai ter um bocado de gente que tá concordando com a gente, vindo com a ciência, dizendo que a gente tá certo. Não é só achismo nosso, não. Foi engraçado porque eu não tenho carro, e aí quando preciso não uso transporte público quando deveria usar. Aí me meto nesses carros por aplicativos, né? E eu sempre erro, entro no carro errado. Obviamente tem um bocado aqui de falta de atenção minha, despreparo, coisa do tipo.
Mas não sei se vocês já repararam que os carros estão todos iguais. Sobretudo quando a gente olha pra duas categorias, assim. Se for baixinho, eles são todos iguais a todos os outros baixinhos. E se for daqueles autos modelo SUV, eles são todos iguais naquele mesmo modelo. E aí eu falei, ué, tem alguma coisa estranha acontecendo. E aí, dei a sorte de ler uma matéria que tinha o fruto de uma pesquisa superinteressante realizada por pesquisadores da Universidade de Amsterdã, olhando o movimento de influenciadores nas redes sociais.
E a pesquisa era simples. Eles olhavam ali pra quantidade de postagens dessas pessoas nas redes sociais e eles reparavam que esses influenciadores tinham o hábito de repetir o mesmo padrão de imagem. É quando estavam divulgando os produtos que estavam fazendo, querendo que os outros comprassem. E aí esses pesquisadores que são do marketing, né, eles começaram a reparar que essa era uma habilidade que era repetida não só na Itália, mas em outros países do mundo.
Por quê? Porque quando alguém tá divulgando alguma coisa, o principal atributo que é valorizado para capturar a tua atenção é o reconhecimento. Então é muito melhor, ou você fica muito mais preso a uma determinada conversa, uma determinada propaganda, quando você tem um reconhecimento, ou seja, quando você lida com alguma imagem que você já tá fazendo parte do teu panteão de memórias sobre aquele produto, do que quando te oferecem alguma coisa diferente.
Quando alguma coisa assim é muito fora da caixa, é muito diferente, a gente corre com o dedo mais rápido na tela do celular para passar para o próximo assunto. A gente fica mais preso a imagens que fazem parte de um conjunto de imagens que a gente já imagina. Aí eu falei, putz, faz sentido, porque quando eu tô zapeando, sei lá, não sei nem o verbo é esse, deve ser outro, mas passeando por esse aplicativo de aluguel de apartamento por temporada quando vai viajar, você fica mais preso naqueles apartamentos que você reconhece como apartamentos que tem cara de apartamento por temporada.
Quando você vai olhar um hotel no aplicativo de hotéis, sei lá, acontece a mesma coisa. A gente imagina um hotel, coloca lá o que cabe no teu bolso, as estrelas que você pode pagar, mas depois você fala: hotel bom é um hotel que confirma aquilo que eu acredito que é um hotel bom. Isso é um aspecto interessante, porque dialogo com aquele coreano que a gente faz tempo que não cita ele, o tio Han, né? O tio Han vai mostrar que A nossa concepção contemporânea sobre o belo, ela tem se transformado muito por conta da maneira como a gente tem se relacionado com o contraditório ou com aquilo que nos chama atenção.
O tio Rã vai dizer que antigamente a gente achava que alguma coisa era bonita demais, assim, excessivamente bonita, quando algo tava fora do padrão. Então, não sei, se você pensar, por exemplo, nos anos 50, a Brigitte Bardot, se você pensasse, por exemplo, no teto da Capela Sistina, se você pensasse, por exemplo, numa capa de revista, a gente achava que aquilo era bonito porque era muito diferente de tudo aquilo que era o comum, que era o banal.
E o que acontece agora, sobretudo depois do impacto da digitalização nas nossas formas de ver e pensar o mundo, é que a gente acha que o bonito é aquilo que não foge do padrão. É porque na nossa cabeça hoje o que a gente está gostando de manter bem distante é tudo aquilo que vai de encontro à nossa ideia, tudo aquilo que a gente não entende facilmente, tudo aquilo que a gente não precisa ter alguma capacidade, alguma ação de reflexão para entender o que tá em jogo.
E aí ele faz uma brincadeira que eu gosto de pensar porque ela é muito do nosso tempo mesmo. Que ele vai dizer assim, olha, a tua relação dentro do digital, ou a tua relação com as coisas do mundo hoje, é basicamente no modelo gosto ou não gosto. É quase como se a gente tivesse fazendo o dedinho para cima para dar like, ou dedinho para baixo para dar dislike, né, que é não gostei de alguma coisa. Ele vai dizer, o modelo hoje é esse, né?
E quando é que a gente gosta de alguma coisa? A gente gosta de alguma coisa quando a gente reconhece alguma coisa. E aí a gente tá tirando do território da vida assim, né, dos nossos encontros cotidianos, Toda lógica do belo como sublime, toda lógica do belo como aquilo que é diferente daquilo que a gente tá acostumado, toda lógica do belo como diferente. E ele vai dizer, olha, isso aí não tem nada só a ver com estética não, tá?
Não tem nada a ver só com a carinha das coisas não. Isso tem a ver com a maneira como a gente tá entendendo o mundo. A gente tá vivendo uma crise que é uma crise onde tudo aquilo que foge da forma como a gente entende o mundo Tá ficando de fora. Então o mundo tá mais feio, sim, mas tá mais feio porque a gente tá gostando só de ver aquilo que a gente tá acostumado a ver.
Entendi. E eu fiquei pensando, sabe uma coisa? A gente não tá dando brecha para ser surpreendido. É alguma coisa assim, talvez eu não goste, mas se você, olha, insistir um pouquinho, talvez eu goste. A gente não tá dando nem brecha para essa possibilidade. Eu eu já dou dislike logo na sequência, o que também não é legal, né, cara?
Não, não, é ruim, né? É ruim porque vai ficar todo mundo parecido, né? E se eu fico parecido contigo e parecido com a Tatiana, as inteligências artificiais aí vão rapidamente identificar um padrão, e aí vão fazer o que a gente é capaz de fazer, né? Aí eu quero ver o que que eu, você e Tatiana vamos fazer. Então, o debate hoje no mundo, diante da entrada pesada da tecnologia, Tá basicamente no único ponto, né? Cada um de nós precisamos convencer ao teu chefe, a tua alma gêmea, ao teu filho, ao teu vizinho, que você é autêntico.
É autêntico, que você é único. E para salvar esse único, que você construiu um repertório diferente do vizinho. E aí, se tiver exposto a coisas que os outros não estão vendo e coisas que você não tá acostumado a ver, senão você só vai entregar mais do mesmo. Tem um outro tipo de pesquisa para além desses dados sérios que a gente trouxe aqui da Universidade de Amsterdã, que eu chamo de data Tinder. Todos os meus amigos e amigas que estão no Tinder dizem, Michel, é um inferno a primeira conversa, porque a primeira conversa se reduz a uma série de perguntas e respostas que é igual independente do perfil da pessoa.
É tipo uma entrevista de emprego, né?
É, mas o mais doido é que o que eu tenho ouvido É que as pessoas estão mais preocupadas em reforçar na hora que você conversa aquelas primeiras, primeiros contatos, primeira conversinha ali do primeiro contato, mais preocupadas em reforçar que elas se adequam a um padrão do que mostrar o que que elas têm de diferente. É fruto disso, né? É fruto disso. Aí desse jeito não vai ter borboleta no estômago, não vai ter surpresa, vai ficar difícil apaixonar, vai ficar bege a vida mesmo.
Você sabe que eu me lembrei agora da Daniela Reis, jornalista, sócia de uma agência muito legal chamada Content. Deve ser escritora, autora, uma mina ótima, que ela faz vira e mexe uma campanha no Instagram para a gente usar o Instagram como antigamente. Ela fala: usa o Instagram como antigamente, boba, põe lá a foto do prato que você tá comendo, a foto do, sabe, em vez de ficar tudo padronizado, pasteurizado, não joga na inteligência artificial para corrigir ou para fazer um um layout desse ou daquele.
Usa a internet, usa o Instagram como antigamente, como um site de fotos da vida, né?
É esse negócio de usar inteligência artificial, esse negócio de usar inteligência artificial para corrigir imagem, isso aí é muito grave. Vamos trazer isso um dia aqui, vamos, porque é sobre direito de imagem, né? Você tem um direito sobre a tua imagem, né? Você tem o dente torto, sei lá, você quer sair, ó, eu tenho estilinho, sei lá, Você gosta do dente torto, aí vai alguém tirar foto contigo, bota cabelo em mim, né, sei lá, coloca acessório nas pessoas que elas jamais usariam, essas coisas, né? É, mas eu acho que revela muito do nosso tempo.
Então tá bom.
Michel Coforado conosco às segundas, quartas e sextas, sempre nesse horário, ou a qualquer momento, a qualquer dia, qualquer hora que você queira, nas plataformas digitais da CBN. Beijão, Michel. Até quarta. Obrigada.
Tchau, tchau, Fernando. Tchau, Tati. Um beijo grande.
Tchau, Michel.