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Grupo Azzas une moda a consumo mais sustentável

20 de setembro de 202626min
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O CBN Sustentabilidade de hoje recebe Suelen Joner, diretora de sustentabilidade do Grupo Azzas, empresa que tem promovido uma maior conscientização no mundo da moda. No episódio, Joner detalha a trajetória do grupo, desde a fusão envolvendo a Arezzo&Co e o Grupo SOMA, e fala sobre os desafios de manter uma postura sustentável diante da necessidade de alcançar lucros financeiros.

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Participantes neste episódio2
A

Ana Leoni

HostJornalista
S

Suelen Joner

EntrevistadoDiretora de sustentabilidade do Grupo Azzas
Assuntos6
  • A trajetória e o crescimento do Grupo Azzas no mercado da modafusão Arezzo&Co e Grupo Soma·maior empresa de moda da América Latina·28 marcas e 22 mil colaboradores·jornada de sustentabilidade desde a fusão
  • Desafios e avanços na redução de emissões de gases de efeito estufaredução de 30% nos escopos 1 e 2·100% de energia renovável nas operações·engajamento da cadeia no escopo 3·metas aprovadas pelo Science Based Target
  • Rastreabilidade do couro e os desafios da cadeia de fornecedoresmeta de 100% de couro rastreado até 2030·uso de tecnologia blockchain·dificuldade com couro de pequenas fazendas·parceria com grandes frigoríficos
  • Estratégias ESG e a comunicação da sustentabilidade para o consumidorcriação de estratégia ESG para grupo diverso·temas materiais do setor da moda·adaptação da sustentabilidade por marca·importância da comunicação clara
  • Iniciativas de responsabilidade social e o projeto P5P da ReservaP5P: 5 pratos de comida por produto·parcerias com organizações sociais·mais de 175 milhões de pratos complementados·conexão com a vocação da marca
  • Circularidade na moda e as diversas abordagens das marcas do gruporecuperação de aparas têxteis na Hering·reparo e revenda de produtos na Farm·brechó Animal Vintage·coletores Reserva Circular
Transcrição43 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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SJSuelen Joner

CBN Sustentabilidade com Rosana Jatobá.

ALAna Leoni

Oi pessoal, tudo bem? O CBN Sustentabilidade de hoje aborda a agenda ESG no setor de moda. Eu converso com a Suelen Joner. Ela é diretora de sustentabilidade e DI do Grupo Asas. O Grupo Asas é o maior grupo de moda da América Latina e foi criado após a fusão entre a Arezzo Co. e o Grupo Soma. Suelen, que prazer te receber mais uma vez aqui no CBN Sustentabilidade. Tudo bem com você?

SJSuelen Joner

Tudo bem, Rosana. O prazer é todo meu e agradeço mais uma vez o convite aqui para falar um pouquinho da nossa trajetória e dos avanços em sustentabilidade dentro do grupo.

ALAna Leoni

Boa, Suelen! Eu queria que você começasse falando um pouco da trajetória do grupo. Eu sei que hoje ele reúne 28 marcas de vestuário, calçados e acessórios e foi criado recentemente, né? Coisa de 2 anos mais ou menos.

SJSuelen Joner

Exatamente. Bom, 24 foi o ano da fusão, né? E desde essa fusão dessas grandes potências da moda, né, nos tornamos a maior empresa de moda da América Latina. E como tu falou, com 28 marcas, mais de 22 mil colaboradores, mais de 2 mil pontos de lojas Espalhado pelo Brasil e fora, né, com uma rede de franqueados muito fortes e muitos clientes espalhados pelo Brasil, né. Então nossa jornada de sustentabilidade, ela nasce junto com a fusão, muito próximo à data da fusão, justamente por entender a necessidade, né, da gente ter um direcional único e estratégico, uma vez que a gente também é uma empresa de capital aberto, né, e a gente precisa, né, trabalhar numa visão única, integrada, de que são esses direcionais e quais são esses compromissos desse grande grupo de moda, porque existe uma expectativa do mercado, dos e até do consumidor com relação às nossas práticas, né, e estratégias de sustentabilidade.

E a gente tem uma responsabilidade muito grande sendo essa potência, né, e tendo essa representatividade dentro do setor.

ALAna Leoni

Aí é que eu te pergunto, como é que foi para criar uma estratégia ESG para um grupo tão grande com público tão diverso?

SJSuelen Joner

Olha, não foi difícil criar a estratégia porque quando a gente olha para o contexto da moda, os temas materiais que regem esse setor como um todo, eles são muito similares, né, independente do nível de maturidade da empresa, os temas que são de fato relevantes para o setor, eles transitam praticamente nas mesmas frentes, né, que é cadeia de fornecedores, que é consumo de matéria-prima, que é gestão de resíduos, que é circularidade.

Então, para que a gente chegasse num consenso, né, enquanto dois grandes grupos com duas estratégias diferentes de sustentabilidade, foi fácil, porque quando a gente fez a materialidade do Grupo Asas 2154 a gente percebeu que os temas materiais permaneciam os mesmos e construir essa estratégia a partir desses temas materiais que eram os mesmos se tornou muito mais fácil.

ALAna Leoni

Gente, só fazendo um adendo aqui na fala da Suelen, quando a gente fala de materialidade, matriz de materialidade, é quando a empresa faz uma verdadeira seleção daqueles temas que são mais materiais, os temas essenciais, os temas mais importantes. E aí a empresa trabalha exatamente em cima de criar uma estratégia para atacar esses temas, não é isso?

SJSuelen Joner

Exatamente.

ALAna Leoni

Pois é. Agora, Suelen, você olhando assim para o grupo como um todo, né, que de fato é essa potência, você tem, por exemplo, marcas como Arezzo, Sultz, Farm, Animale, Hering, Reserva. São marcas que têm posicionamentos diferentes. O consumidor, ele cobra o mesmo tom, o mesmo peso da sustentabilidade em cada uma dessas marcas ou não?

SJSuelen Joner

Não necessariamente, até porque Cada marca, apesar dela ser regida pelo mesmo direcionamento estratégico de sustentabilidade, ela adapta e desdobra isso de acordo com aquilo que faz sentido para ela, de acordo com a forma como ela dialoga com esse consumidor, né? Então o consumidor, ele se relaciona com a marca muito aliado àquilo que é a essência dela, que é a vocação dela. Então a gente vê um consumidor cobrando muito mais de uma farm porque é um consumidor muito mais engajado na agenda, porque ele também aprende com a farm, porque ele já é também engajado com a farm de uma certa forma, em função, né, da conexão dela com a natureza, com a biodiversidade, uma coisa com a reserva, né?

Exatamente, a reserva já tem uma outra conexão, tem um P5P, que é todo esse trabalho, né? Toda compra de produto, a cada produto comprado, 5 pratos de comida são complementados. Então isso existe já desde 2016. Na notinha fiscal do produto da reserva já vem ali quantos pratos foram complementados a partir da tua compra. Isso faz, isso integra, né, a história da reserva há muitos anos.

ALAna Leoni

Mas peraí, vamos explicar os pratos de comida? O que é que o prato de comida tem a ver com a marca de moda? Não tô entendendo.

SJSuelen Joner

Então, lá em 2016, quando o Roni ainda, né, estava à frente da marca, ele fez uma visita. Ele sempre conta essa história, né? Ele fez uma visita num projeto social no Nordeste onde ele conheceu crianças, né, nessa instituição. Ele perguntou para uma das crianças o que que era mais importante, o que que eles mais precisavam, né, ali dentro daquela estrutura. Para que eles, enfim, pudessem avançar e tal. E ele falou que a coisa mais importante para eles ali era comida.

Então ele percebeu nessa conversa, e eu tô resumindo aqui a história bastante, né, que não adiantava nenhum trabalho social que olhasse para educação, que olhasse para infraestrutura, para moradia, se o básico não tava sendo atendido, que era o alimento. Então ele fez daquilo um propósito da reserva. E criou um P5P, que inclusive esse ano faz 10 anos, né? Em 2016 foi criado um P5P, esse ano ela faz 10 anos com uma série de ações e ativações.

E ele fez disso, a cada produto que o cliente compra nas marcas Reserva, 5 pratos de comida são complementados. Então existem parcerias com várias organizações sociais, né, que conectam a comida que sobra em lugares que faltam, projetos, né, como o Banco de Alimentos. Então esse é um trabalho que já distribuiu, que já complementou mais de 175 milhões de pratos de comida desde a criação.

ALAna Leoni

Que maravilha, né?

SJSuelen Joner

Quando o Roni saiu da frente da companhia, o grupo manteve porque essa é uma essência da marca, é uma conexão muito forte do consumidor que já é engajado, já conhece o projeto.

ALAna Leoni

E o consumidor realmente reconhece e valoriza esse tipo de ação de responsabilidade social. Por mais que ele fuja do core da empresa, não necessariamente não é uma iniciativa de moda diretamente, mas ele repercute muito bem na questão da reputação, né? Então é algo que é bem estratégico.

SJSuelen Joner

E para o consumidor final ele poder entender o valor, ele precisa conhecer também, né? Acho que a comunicação nessa hora, Rosana, é fundamental, né? Porque para a gente poder fazer com que algo de fato seja entendido pelo consumidor final, a gente precisa fazer uma comunicação clara, a gente precisa mostrar o objetivo por trás da ação, que ela tá conectada a algo maior e que E que aquela iniciativa gera um impacto. E qual é o impacto que ela gera?

Então a Reserva faz isso muito bem, né? Ela comunica muito bem o projeto, ela conecta o projeto com moda, ela conecta o projeto com a vocação da Reserva, né? Então essa amarração, né, com a estratégia do negócio, com o produto, com o ponto de venda e com esse storytelling é o que faz com que o consumidor perceba esse valor e reconheça esse projeto como um projeto importante.

ALAna Leoni

Ou seja, o Grupo Asas hoje tem como um dos pilares a excelência da comunicação para o consumidor, porque não adianta ter uma plataforma de sustentabilidade robusta se isso realmente não alcança quem tá lá do outro lado do balcão.

SJSuelen Joner

Exatamente. Ao mesmo tempo que isso é uma chave para o sucesso, né, das ações de sustentabilidade, ela também se torna um desafio, né? Porque comunicar sempre é um desafio, né, Rosana? E a gente fazer com que pessoas, o consumidor final, perceba o valor de coisas que às vezes não estão no dia a dia é um desafio. A linguagem é um desafio geracional, um desafio de valores. Desafio do conhecimento. E às vezes, além de comunicar, a gente também precisa educar.

E aí entra a educomunicação também como um fator importante na construção dessa consciência para o consumo de uma moda cada vez mais responsável.

ALAna Leoni

Muito bem, Suelen. Eu vi no relatório de sustentabilidade de vocês, o mais recente, apontando uma redução de mais de 30% nas emissões de gases de efeito estufa nos escopos 1 e 2, que são a redução que diz respeito às emissões geradas pela própria empresa. Da empresa, diferentemente do 3, que foge ao controle direto da empresa, não é isso? Bem, além de vocês também terem batido 100% da meta de energia renovável aí nas próprias operações, na questão do Escopo 3, né, aí eu me refiro aos fornecedores e também alguns parceiros e tal, como é que vocês conseguem fazer com que todos eles estejam na mesma página acompanhando o bom ritmo de descarbonização da empresa?

SJSuelen Joner

Esse é um desafio ainda, né? Quando a gente olha para Escopo 3 e redução de emissões, ela é o maior desafio hoje, não só do setor da moda, eu acho que de todos esses setores que têm uma cadeia fragmentada, extensa, que presta serviço para essa grande companhia. E é um trabalho que a gente já iniciou quando a gente submeteu as metas baseadas na ciência e nós tivemos essas metas aprovadas pelo Science Based Target. Ficou como compromisso relacionado ao Escopo 3, o engajamento da cadeia para que ele também construísse metas baseadas na ciência, né?

E esse é um engajamento contínuo através dos programas que a gente tem de desenvolvimento de cadeia. A gente, dentro da área de sustentabilidade, esse ano a gente criou uma vertical dedicada à vertical focada em cadeia de fornecedores, onde um dos temas que vão ser trabalhados de fato é o trabalho de engajamento para questões climáticas, para questões de redução de gás de efeito estufa, para conhecimento, né? E poder dar as ferramentas para que ele possa atuar e de fato reduzir suas emissões e ao mesmo tempo tornar a operação dele eficiente.

Porque quando a gente fala hoje, né, principalmente quando a gente olha Escopo 2, que é o consumo de energia nas operações, a gente vê uma oportunidade muito grande de reduzir custo também, né. Então trabalhar as emissões de gás de efeito estufa, reduzir as emissões, ela também torna a empresa mais eficiente. Então é através dessa comunicação e dessa abordagem que a gente pretende engajar nossa cadeia, porque a gente sabe o desafio que é falar de emissões de gás de efeito estufa, temas complexos, né, CO2, por uma cadeia às vezes pouco profissionalizada, né, que não conhece esses termos técnicos, que nunca teve contato com esses temas técnicos.

Ela sabe da mudança climática, ela muitas vezes é atravessada pelos efeitos físicos, né, das mudanças climáticas, sejam elas enchentes, as secas, né, as ondas de calor. Mas quando a gente coloca isso no papel através, né, de compromissos e objetivos, se torna algo mais distante dele. Então Trabalhar a abordagem da mudança climática, da redução das emissões através da eficiência, torna mais atrativa a conversa.

ALAna Leoni

Agora, para você conseguir reduzir as próprias operações é muito mais fácil, da porteira para dentro, como dizem. Trabalhar a cadeia produtiva com foco no fornecedor, que muitas vezes não tem porte, não tem musculatura, aí é que está realmente o grande desafio. Mas por que vocês fazem isso? Por uma questão de compliance? Por uma questão de exigência? Dos investidores, pela cobrança também dos consumidores. O que que motiva a empresa a fazer com que a agenda ESG esteja em toda a cadeia, tanto nas operações internas quanto no Escopo 3?

SJSuelen Joner

É, quando a gente olha para a questão climática, né, não adianta a gente falar em reduzir emissões na moda se a gente não olhar para Escopo 3, porque é lá onde tá mais de 90% das emissões do setor, né. Então trabalhar Escopo 1 e 2 enxugar gelo praticamente, né? Se a gente quer de fato fazer a mudança, a gente precisa olhar para cadeia de fornecedores, que é onde se concentra a maior parte dessas emissões. E tem uma questão de responsabilidade mais do que cobrança.

A gente não é obrigado a reduzir emissões. A gente submeteu meta baseada na ciência por iniciativa própria, né? A gente tem um compromisso público de redução de emissões de gás de efeito estufa também por uma iniciativa, né, própria, por reconhecer a nossa responsabilidade diante desses desse setor, reconhecer a responsabilidade do setor diante desse desafio global que é mudanças climáticas. Então a atuação, ela quase que é por uma questão ética, né, acima de qualquer coisa, porque a gente sabe sim que o consumidor tá preocupado, que o investidor ele olha para algumas questões, mas a gente não é obrigado hoje, não existe regulação hoje que obrigue, né, a empresa do setor da moda ou qualquer outra a reduzir emissões 3, né?

O que ainda a gente vê o mercado se mobilizando ainda trabalhar escopo 1 e 2, e ainda para setores muito específicos, né? E essa é uma atuação muito mais ética, de responsabilidade, do que propriamente motivada por fatores externos.

ALAna Leoni

Vamos falar de matéria-prima. Vocês conseguem rastrear todas as matérias-primas na origem, as condições em que os produtos são fabricados, ou não?

SJSuelen Joner

Nem todas ainda, né? A gente começou em 2022 a fazer um trabalho relacionado à rastreabilidade do couro. O objetivo desse trabalho era garantir que a matéria-prima utilizada, né, na produção de calçados, bolsas e acessórios não tivesse relação com desmatamento, qualquer coisa relacionado à violação de direitos humanos nesse processo. Então, em 22, a gente buscou parceiros no mercado para desenvolver uma plataforma própria, né, de rastreabilidade que utiliza a tecnologia blockchain para fazer toda a validação desse processo, né, dessas, desse fluxo da cadeia até chegar à fazenda de cria.

Nossa meta enquanto companhia é chegar a 2030 a 100% do couro rastreado até as fazendas de cria, que é um desafio bastante grande no Brasil hoje. Quando a gente fala, né, em cadeia do couro, a gente tá na ponta, né, que é o varejo, mas os elos que chegam até chegar na fazenda de cria, que é onde o animal nasce, que é normalmente onde acontece, né, a violação de direitos humanos ou desmatamento, às vezes a gente tá falando de 17 elos.

Então a gente tá muito distante. Então o trabalho da rastreabilidade é um trabalho muito grande de engajamento e de descoberta, né, de rastrear, de encontrar esses caminhos até a gente chegar à origem da matéria-prima, que é isso que a gente faz através da tecnologia blockchain. A gente utiliza recursos como API com sistemas, né, conexão com notas fiscais, GTAs e outros dados, né, que são possíveis de fazerem conexão através de APIs.

E é um trabalho muito maior de engajamento, que é bater nas portinhas, né, de todos os elos dessa cadeia e falar: abre seus dados, conectem com a gente, é importante. A gente não quer saber a estratégia de negócio de vocês, a gente só quer de fato garantir que essa matéria-prima não veio de um lugar, né, que desmatou, um lugar que violou direitos humanos. Então é um trabalho que vem avançando a cada ano, né, e a gente pretende, né, e a gente tá trabalhando e já tem resultado, né, em 2025, que demonstra que muito provável a gente vai conseguir chegar ao 100% até 2030.

ALAna Leoni

Tomara, até porque a pressão internacional é enorme, né? União Europeia toda hora aí com uma norma diferente, exigindo rastreabilidade, exigindo que a gente saiba de fato a origem dos materiais. Com relação ao couro, eu tenho dados aqui interessantes, que vocês alcançaram quase 44% de rastreabilidade até o abate do animal, usando exatamente essa tecnologia do blockchain. É um avanço, mas significa também que mais da metade do couro de vocês não tem a origem totalmente transparente ainda.

E a maior barreira, me parece, para vocês conseguirem rastrear esses 56% que faltam pode estar onde? Nos frigoríficos menores, na falta mesmo de engajamento aí nas fazendas de cria. Onde é que você verifica de fato essa maior dificuldade?

SJSuelen Joner

É, a maior dificuldade é que o O couro que vai para moda, para o setor do calçado especialmente, ele não é necessariamente o couro produzido por grandes frigoríficos. Ele é aquele couro que a gente chama o couro da barraca, que é o couro recolhido das fazendas de pessoas físicas que vai para uma barraca salgado. E é lá naquela barraca onde se salga o couro é que se distribui então para os curtumes de ribeira que vão fazer todo esse processo de acabamento.

Então a gente chegar na barraca e descobrir de onde aquelas peles vieram, que veio da casa do seu João, da dona Maria, do seu Pedro, que tem uma produção familiar, né, de consumo, de subsistência, e que leva para essa barraca, é um desafio muito grande. Então esses animais normalmente eles são abatidos em frigoríficos de cooperativas, né, que é um coletivo de pessoas físicas e associações que abatem esse animal nesse frigorífico coletivo, né.

Então ou às vezes é em casa mesmo, né? E esse couro é revendido nas barracas. Então a maior parte do couro que a gente utiliza hoje enquanto setor de moda, enquanto empresa, vem dessas barracas. E é muito desafiador para a gente, quando chega nesse lugar, conseguir descobrir esse início da jornada, porque ele é uma jornada de pessoa física, uma pessoa— são muitas origens que se desdobram em muitas frentes. Até a gente encontrar.

ALAna Leoni

Muito capilarizado.

SJSuelen Joner

Quando a gente fala, né, de grandes frigoríficos, por exemplo, como JBS, a gente tem uma parceria. A gente identificou que é JBS, a gente já tem a parceria, a gente conecta diretamente com o projeto de rastreabilidade deles. E aí, do frigorífico para trás, a gente bebe das informações da JBS.

ALAna Leoni

Suelen, grande parte da produção de vocês tá lá no sul do país. E aí eu quero me referir um pouco à questão do Rio Grande do Sul, né, dessa, esse alerta que hoje o estado vive em relação aos eventos climáticos extremos. De que maneira essa preocupação com as mudanças climáticas já tá mobilizando a empresa em termos de prevenção e adaptação aos riscos no que diz respeito às fábricas, às lojas, aos centros de distribuição, aos escritórios, ou seja, toda a infraestrutura de vocês?

SJSuelen Joner

Então, Rio Grande do Sul, né, especificamente viveu um cenário muito desafiador em 2024, né, com aquelas enchentes, e aprendeu ao mesmo tempo muito também com esse cenário. A gente tá vivendo agora a iminência, né, de um super El Niño, que também mobiliza o setor como um todo, a região especificamente, porque é uma região que vai ser ainda mais afetada também pelas enchentes, pelas chuvas em excesso, por ventanias, enfim. E o que a gente vem trabalhando, a gente tem amadurecido o nosso protocolo, né, de lá de 2024, que foi o protocolo que a gente criou durante a crise, né, que a gente viveu.

Para a gente poder adaptar para fazer um trabalho preventivo agora, né? Então a gente tem medidas sendo tomadas, né, nas unidades fabris, né, com aquisição de equipamentos e bombas, né, de recalque, se for necessário fazer, né, retirada de água de dentro das unidades. A gente tem um protocolo que é o mais importante no meu ponto de vista, que é relacionado a pessoas. Lá em 2024, quando a gente viveu, né, a situação das enchentes, o maior impacto impacto para o negócio não foi as instalações físicas, mas foi a casa das pessoas que trabalhavam para gente, né?

A gente não teve pessoas para trabalhar na operação do Dia das Mães, que é a operação comercial que mais vende, mais importante, a segunda mais importante, né, para o setor. E não ter pessoas para trabalhar foi tão impactante quanto se a fábrica tivesse sido afetada diretamente. A gente teve uma unidade fabril que foi afetada, mas o maior impacto de fato foram as pessoas. A gente todo um desenvolvimento de um protocolo que olhou para as pessoas e focou nas pessoas para que elas tivessem as mínimas condições de retomarem o mais rápido possível suas vidas, né?

Então é nesse protocolo que a gente trabalha hoje para garantir a continuidade do negócio através do bem-estar, né, e da segurança das pessoas que trabalham no grupo.

ALAna Leoni

Maravilha! Circularidade, como é que o Grupo Axios está lidando com a questão da revenda, do reparo, da logística reversa, foco na reciclagem?

SJSuelen Joner

Então, quando a gente fala em circularidade, a gente tem iniciativas diferentes, né, nas diversas marcas. Quando a gente olha para marcas como Éring, né, que tem um parque fabril muito grande, né, e tem um processo de corte, um processo, né, de geração de resíduos têxteis dentro do processo, a gente tá trabalhando ali no início do processo, né, que é a recuperação dessas aparas têxteis. 100% delas são recuperadas com parceria com uma empresa que produz fios.

Ela recupera 100% dessas aparas, esses resíduos e transforma em fio que volta pra Hering de novo. Então é um trabalho de circularidade que já funciona muito bem há muitos anos. Quando a gente olha pras marcas específicas, a gente tem a Farm fazendo um trabalho incrível, né, de recuperação de produtos, produtos fora da qualidade ou produtos com pequenos defeitos que são reparados e voltam pra comercialização. Um trabalho com a Oficina Muda ali incrível, que traz muito recurso pra projetos sociais, que recupera mais, já recuperou mais de 70 mil peças Só no ano passado.

Então é um trabalho muito efetivo que trabalha a circularidade lá no final da vida útil do produto, praticamente. Tem a Animal Vintage que trabalha também a circularidade numa outra abordagem, abordagem que conecta mais com a sua cliente, com a cliente da Animal, que olha para essa devolução dos produtos que estão parados no guarda-roupa. Não necessariamente que não tem mais condição de uso, mas são aquelas peças que estão paradas lá, que a cliente não quer mais.

Então é feito todo um brechó a partir desses produtos para que eles sejam revendidos. E a receita disso reverte a projetos sociais e faz com que os produtos circulem e faz com que as clientes entendam e se conectem com o tema circularidade. Então cada marca tem a forma de abordar a circularidade de uma maneira diferente. A Reserva tem a Reserva Circular, que são aqueles coletores onde ela convida o cliente a depositar os produtos já no final de vida, aqueles produtos que não tem mais condição de uso.

Então esse produto, ele pode ter vários destinos finais, né, que pode ser reciclagem, que pode ser a desfibragem, transformação em novo produto, novo fio, mas também pode se transformar, por exemplo, que a gente já fez algumas vezes, que é cobertores para pessoas em situação de rua, né, através de um parceiro.

ALAna Leoni

Então seja um portfólio infinito aí de grandes possibilidades. Maravilha, Suelen. Para terminar nossa conversa, queria repercutir com você uma grande contradição que a gente vê hoje no mundo da moda. Por um lado, as empresas precisam crescer, crescer, precisam vender mais, ainda mais um grupo como o seu, que é essa vastidão. Mas a sustentabilidade exige exatamente menos recursos, menos resíduos. Como é que vocês lidam com essa equação? A conta fecha?

SJSuelen Joner

Então, Rosana, eu costumo falar, né, que a solução para os problemas da moda, ela é uma solução coletiva, em ecossistema. É claro que as grandes empresas, né, elas têm uma responsabilidade muito grande, mas eu acho que a gente, quanto CPF, enquanto pessoa que consome moda também tem um papel fundamental em fazer essas escolhas e exigir, exigir não digo, mas mudar esse comportamento de consumo também. Eu acho que o ponteiro só vai mudar de fato para um consumo mais sustentável quando todo mundo tiver esse objetivo na mesa.

E eu acho que sim, as empresas do setor da moda têm responsabilidade de puxar esse movimento, né, oferecendo produtos com maior durabilidade, produtos mais atemporais, menos coleções, mas o consumidor no final do dia tem seu papel fundamental. Porque ao mesmo tempo que a gente fala que a gente precisa consumir melhor, consumir menos, a gente vê um consumidor geração Z que quer uma blusinha diferente toda semana. E como que a gente faz essa conta fechar colocando todos os responsáveis na mesa e cada um fazendo o seu papel nessa jornada?

Então acho que a gente tem um trabalho muito grande ainda enquanto sociedade, de cultura, de construir essa cultura do consumo sustentável, da gente educar enquanto companhia, a gente educar enquanto sociedade nossos consumidores, para que a gente também consiga aliar uma intenção à prática. Porque a gente vê as pesquisas, por exemplo, recente que saiu no State of Fashion, né, agora de 2026, que a geração Z, a sustentabilidade é um fator decisivo para ela comprar.

Só que na hora de comprar, na hora de tomar decisão, na hora de agir, ela age de forma diferente. Ela compra o mais barato, ela quer mais quantidade, ela faz escolhas baseadas em outros fatores, né? Então, como que a gente consegue fazer com que a teoria se aplique à prática, né? E a intenção se torne verdadeiramente uma ação genuína? Genuína, exato. Então, acho que a gente tem um trabalho coletivo aqui para fazer. Mais do que responsabilizar as empresas, a gente tem que assumir nosso papel enquanto consumidor.

E eu me coloco no meio. A gente tem que se colocar dentro, né, desse contexto. A gente tem uma responsabilidade muito grande também.

ALAna Leoni

Muito bem. Eu acho que eu vou desobedecer o tempo para a gente continuar a fazer mais um programa com você.

SJSuelen Joner

Aí eu concordo.

ALAna Leoni

Eu adorei de novo te receber. Muito obrigada, viu? Pena que a gente de fato não tem mais tempo aqui para repercutir outros temas da moda, que é tão fascinante, tão desafiadora. Um beijo grande, volte numa próxima oportunidade.

SJSuelen Joner

Obrigada, Rosana. Obrigada pela oportunidade, gente.

ALAna Leoni

Eu conversei com a Suelen Joner, ela é Head Diretora, né, costumamos falar diretora de sustentabilidade e DI do Grupo Asas. Além de ter acesso ao conteúdo pelo YouTube, você também encontra essa entrevista no site, no aplicativo da CBN ou na sua plataforma de podcast preferida. Colaboraram comigo aqui no CBN Sustentabilidade minha linda produtora Ana Luísa Bessa, nos trabalhos técnicos meus lindos Juliano Fonseca e o Bruno Carvalho.

Na edição, Rafael Furugem e Luiz Fugliaggi. Um beijo para você, até semana que vem.

SJSuelen Joner

CBN Sustentabilidade com Rosana Jatobá.

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