Crise no STF ‘eclipsa’ debate sobre propostas na eleição
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Marco Ruediger
- A crise no STF e a necessidade de aprimoramento das instituições brasileirasimpacto da crise do STF na política·necessidade de aprimoramento do Judiciário·revisão das emendas parlamentares no Legislativo·foco do Executivo em empreendedorismo e inovação
- O eclipse do debate propositivo na campanha eleitoral por escândaloscampanha eleitoral focada em escândalos·tentativa de associar Lula a Alexandre de Moraes·Flávio Bolsonaro e o caso Vorcaro·estratégia eleitoral de desviar discussões
- Propostas americanas para o Brasil e a necessidade de posicionamento dos candidatospropostas americanas para contornar o tarifaço·aquisição de aeronaves dos EUA·estabilização do comércio mundial de soja·enfrentamento do excesso de capacidade na produção de aço·informar EUA sobre transferências de minerais críticos
- O anúncio do reajuste do Bolsa Família e a regulação das betsrepercussão positiva do reajuste do Bolsa Família·impacto do endividamento por bets·necessidade de regulação governamental das bets
- Sussurros sobre interferência eleitoral americana e técnicas de desinformaçãoindícios de interferência externa no Brasil·técnicas de desinformação nas campanhas·desvio de atenção dos fatos importantes·sofisticação do marketing eleitoral
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A Semana Política com Marco Rüdiger.
Marco Rüdiger, muito boa tarde.
Oi, Nadeja, tudo bem? Boa tarde, boa tarde aos ouvintes também que estão nos prestigiando aqui.
Marco, claro que a gente vai falar sobre mais revelações do caso Master e sobretudo sobre a crise no Supremo Tribunal Federal. Tivemos essa semana uma sessão sem precedentes e as repercussões continuam, não só dia a dia, hora a hora, né? A cada meia hora surge uma coisa nova.
É isso aí, se tornou uma pauta mandatória, não tem jeito a gente fugir dela, a gente não vai conseguir mesmo, né? Então vou dar logo uns números aqui interessantes para os nossos ouvintes antes de fazer alguns comentários. A gente teve 5, mais de 5 milhões de posts com 86 milhões de interações. Isso é coisa para burro. Então a gente mostra como é que isso aí mexeu com brasileiro. Eu diria para você que na terça-feira, né, foi quase que uma espécie de jogo de Copa do Mundo, né, tá todo mundo querendo saber.
Eu tava numa reunião fechada, eu tinha que o tempo todo olhando o celular para ver como é que o negócio tava andando. Então isso foi bastante importante. E eu tô falando aqui esse embate, a transmissão em si, mais de 3 milhões de visualizações aí no site, né, no YouTube, enfim, no próprio site do tribunal. Então assim, o que a gente tem é um impacto muito grande sem dúvida nenhuma na política também, porque não se trata só, como os eleitores já sabem, de uma questão institucional.
É claro que tem uma questão institucional. Então eu quero reafirmar o seguinte aos nossos, assim, ouvintes: as instituições são fundamentais. A questão, porque elas ficam, as pessoas passam, e as instituições é que cria uma nação. Então elas têm que ser preservadas. Isso não quer dizer que elas não possam ser criticadas, e isso não quer dizer que elas não possam evoluir. Elas têm que evoluir, elas têm que sofrer ajustes, elas têm que ser aprimoradas.
Então, aprimorar as instituições é algo fundamental. Eu acho que o Brasil tá no momento que eu diria que o Legislativo, Executivo, Judiciário, todos têm que passar por uma gigantesca, gigantesco processo de aprimoramento, né? Então, no caso do Judiciário, é mais do que óbvio, tá gritando assim a necessidade de ter um novo arranjo e um novo conjunto de regras que impeçam uma série de coisas, inclusive familiares de juízes advogarem em cortes em que esses juízes estão, né?
E agora, isso não se limita só à questão, por exemplo, do, do, de um ministro ou de outro. Isso acontece com vários. Então, o Judiciário brasileiro precisa de uma reformulação. Quando a gente vai para o Legislativo, a questão das emendas parlamentares, né, que gera uma distorção não só na aplicação de um recurso que tem que ser estruturado e é escasso, mas também na capacidade de renovação do Congresso. Fica muito difícil um deputado perder uma eleição quando ele tem tanto dinheiro na mão e tanta estrutura na mão em relação a novos que estão querendo disputar.
E a disputa eleitoral, e digamos assim, a renovação dos quadros políticos no Congresso é um fator importante, renovação do próprio Congresso. Então isso é uma coisa também que tem que ser revista, né? O próprio Executivo, quais são as pautas e agendas que o Executivo investe para futuro do país, né? Eu acho que de certa forma as bolsas, que ainda apesar de ser extremamente importante. Não sou em hipótese alguma contra as bolsas, enquanto os auxílios não, muito pelo contrário.
Mas eu acho que o governo tem que começar a pensar crescentemente incentivar empreendedorismo, a inovação, novas tecnologias, novas formas da economia girar e das oportunidades surgirem, a despeito do apoio direto do governo, né? Ainda que eu ressalte, eu acho que é muito importante e fundamental que em muitos aspectos continue. Então, basicamente, essa situação que a gente tem, a perplexidade total, é que o brasileiro quer essas mudanças, mas elas estão demorando a vir. São partes muito difíceis isso, e é o que a gente tá vivendo.
Marco, a gente tá vendo uma campanha eleitoral em que os debates propositivos estão basicamente interditados, né, porque no centro das conversas estão os escândalos, infelizmente. E aí isso acabou balizando muito as campanhas na última semana, né, tanto dos dois líderes quanto dos candidatos da chamada terceira via. É o conosco sempre fazer a ressalva aqui de que Flávio Bolsonaro do PL é investigado pelos pedidos de grana para bancar o filme, cinebiografia do pai, e o presidente Lula não é.
Mas o que os adversários fazem é tentar colar a imagem do governo à do ministro Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal. E com isso, a grande pauta da campanha eleitoral na última semana, nas últimas semanas, acabou sendo essa.
Não, sem dúvida, é perfeito esse teu posicionamento. E é isso mesmo, assim, o que tentam as outras campanhas é fazer uma, como se fosse assim, por reflexo, né, como um espelho, né, jogar aquela brincadeira de criança, pegar o espelho, jogar no outro espelho para o raio ir para outro lugar. Na verdade, vai em cima do Moraes. Assim, Lula não nomeou Alexandre de Moraes, quem nomeou foi o governo Temer, entendeu? E o Alexandre de Moraes teve sim uma participação muito importante na defesa da democracia no Brasil.
Então, o enquadramento que ele deu, as penas que houveram, né, os julgamentos que houveram foram muito importantes para o Brasil. E ele sofreu muito com a Lei Magnitsky, com uma perseguição internacional, inclusive inclusive. Ele tá diretamente no primeiro tarifaço mencionado ali. Quer dizer, então tem uma série de questões que são reflexivas, mas que não são diretamente, não tem a ver. O caso Vorcaro não tem diretamente a ver com Lula.
E essa é uma questão muito interessante para a gente observar, porque o único candidato que pediu dinheiro para o Vorcaro foi Flávio Bolsonaro. E isso tá na televisão, isso tá nos lugares por aí. Essa é a verdade. Assim, eu não vi nenhum outro falando, pedindo dinheiro. Não tô dizendo nem que foi legítimo, que foi legal. Eu não sei, nem sei para que foi, para o tal do Dark Horse, não foi para o Dark Horse. Mas o fato foi que teve uma gravação, todo mundo ouviu.
Então assim, como é que agora isso fica encoberto nisso? E eu acho que é uma estratégia eleitoral de você soterrar os fatos que incomodam a sua campanha com outros fatos ou com outras relações e com isso você vai desviando as discussões. Eu queria saber, por exemplo, quais são as propostas objetivas de campanha. Eu acho que isso é um negócio muito importante também, porque é disso que se trata. Quando eu olho aqui, por exemplo, fiz uma rápida— qualquer um pode fazer uma busca desse tipo— você pega, por exemplo, salário.
O salário, pega o salário nominal versus real. Pega o salário, por exemplo, em 2022, que era o período Bolsonaro, R$2.700 mais ou menos. 2025, R$3.500, governo Lula. Então isso tem uma diferença, tem impacto no bolso do eleitor e do cidadão. Se a gente for ver, por exemplo, desemprego, 9,3% era a média anual em 22, período Bolsonaro. Hoje tá 5,6%, período Lula. Então tem diferenças substantivas. A gente teve agora há pouco, eu achei muito interessante, a gente teve um grupo de propostas feitas pelo governo americano para se contornar o tarifaço.
E essas propostas, eu gostaria que todos os candidatos a presidente se posicionassem, o que que eles acham em relação a essas propostas. Eu acho que esse é um negócio bastante importante de ser dito, porque são propostas bastante— eu vou pegar aqui uma para a gente ver. Assim, elas são, elas são bem bizarras. Por exemplo, a gente tem aqui aeronaves: companhias aéreas brasileiras comprometem-se a adquirir aeronaves comerciais fabricadas dos Estados Unidos.
Ué, a gente não pode comprar da Embraer? A gente tem que priorizar os americanos? A gente não pode comprar da Airbus da Europa? A gente tem que priorizar dos Estados Unidos? Uma outra aqui interessante: soja. Os Estados Unidos e o Brasil trabalharão para estabilizar o comércio mundial de soja. O que que isso quer dizer? Quer dizer que a gente vai vender menos para dar espaço no mercado para os competidores americanos venderem mais?
É isso que a gente vai fazer? Então o nosso agronegócio vai ficar feliz em vender menos? Essa é uma questão interessante também. Então, aço: Brasil e Estados Unidos trabalharão conjuntamente para enfrentar o excesso de capacidade global na produção de aço. O que que isso quer dizer? O Brasil vai vender menos aço também, ou o Brasil vai vender aço prioritariamente para os Estados Unidos, não para os outros? Quer dizer, cadê o mercado aí nesse negócio?
Então tem uma série de questões aqui. Eu gostaria muito, por exemplo, aqui minerais críticos. Esse é fantástico, essa exigência. O Brasil deverá estar no Estadão, né? O Brasil deverá informar os Estados Unidos antecipadamente sobre potenciais transferências de ativos de minerais, né, antes de uma venda do setor de mineração crítica, e proporcionar às empresas dos Estados Unidos oportunidade de participar de processo de licitação antes da concessão.
Ou seja, na verdade, esse conjunto de solicitações do governo americano, que eles podem fazer a solicitação que eles quiserem, é claro, não interessa ao Brasil necessariamente. Uma coisa ou outra pode ser razoável negociar, mas no conjunto é muito danoso, é muito ruim. Então eu gostaria que os candidatos, por exemplo, todos eles pegassem, falassem: eu não aceito esse documento. Não vou negociar com essas bases. E eu me pergunto se os candidatos farão isso e quais candidatos farão isso.
Eu acho que isso é uma coisa interessante para estar no debate. Vem cá, fulano, você é a favor disso? Você assina embaixo? Você vai fazer esse negócio? Se compromete com isso? Tá se comprometendo com o Brasil? Então eu acho que tem uma série de questões que são muito substantivas e que estão sendo eclipsadas por um debate que para mim não é artificial, ele é importantíssimo. A questão do STF é um negócio muito sério. Mas a gente tá num período eleitoral, há 2, 3 semanas já da eleição.
Depois tem o segundo turno, muito provavelmente, que a gente vai definir representante nosso por com mandato de 4 anos, legislativo, no Executivo, né, e no Senado um período de tempo ainda maior. Então olha a responsabilidade que a gente vai ter. Essas pessoas vão estar por 4 ou mais anos conduzindo a nossa vida, conduzindo as oportunidades que a gente tem, e a gente tá discutindo se ministro tava ali, não tava ali do STF. Francamente falando, eu tô preocupado com essa eleição agora.
E essa eleição agora tem coisas muito claras para mim, tem coisas muito claras que se tenta esconder. Então eu tenho preocupação como brasileiro, como cidadão. Evidentemente eu quero o Brasil independente, quero o Brasil autônomo, quero o Brasil crescendo dentro da democracia, dentro da liberdade, com proteção total. As pessoas possam falar o que quiserem, evidentemente, mas que a gente tenha realmente uma capacidade de fazer um debate público e o interesse do Brasil seja preservado e a vida das pessoas possa melhorar. Essa é minha preocupação.
Marco, queria te ouvir ainda sobre um outro tema que acabou dominando as campanhas mais para o final da semana, que foi o anúncio do reajuste do Bolsa Família. Bom que se diga que o Supremo Tribunal Federal, através do Ministro Gilmar Mendes, já entendeu que não houve irregularidade, mas de qualquer forma a crítica foi mantida ali pelos adversários do presidente Lula.
É, eu acho assim, o Bolsa Família, houve uma crítica evidente, né? É claro que isso aí tem implicações eleitorais, não pode não ter, né, um anúncio como esse. Mas assim, não pode subestimar, porque estão dizendo, ah, foi pouquinho. Que pouquinho o quê? Olha o que que significa na vida das pessoas, olha o que significa na vida do trabalhador. Então, apesar de tudo, a repercussão foi boa e foi uma forma inteligente do governo trazer a pauta para política objetiva.
Né, que tem a ver com o nexo da coeleição. Como foi a questão das bets também, viu? A questão das bets tem uma repercussão muito grande nas redes. Ainda que os clubes reclamassem muito, ainda assim a repercussão foi muito grande, porque realmente boa parte do endividamento que o brasileiro tem hoje é por conta das bets. E não é porque o sujeito, ele se vicia e tal, a culpa é dele, nada disso. Ele, ela é uma estrutura feita para atrair a pessoa, e a pessoa vai, vai aos poucos se enredando e consegue mais sair dali.
É uma coisa muito séria. Um dos maiores problemas que o Brasil hoje tem é o endividamento do brasileiro, porque isso vai engolindo a renda que o sujeito tem. Não adianta ter um aumento de renda, como eu falei há pouco, e você gastar a maior parte daquilo, acaba gastando no jogo. E aí o jogo vai te levando a gastar mais, gastar mais, porque você vai assumindo dívidas e vai ficando com sérios problemas. Então a questão das bets é uma questão muito complicada.
Tem que ter uma regulação do governo, sim, isso tá correto. Eu espero que continue dessa forma. Eu achei que foi muito positivo, a repercussão foi muito positiva também. Então assim, o Brasil real precisa de política. O Brasil real precisa de uma política séria que olha as pessoas. Óbvio, o Estado não pode prover tudo, nem deve. Na verdade, deve-se aumentar a capacidade das pessoas buscarem a sua própria felicidade, investirem, irem atrás da vida delas, serem empreendedores.
Eu acho 100%, eu acho que muita coisa tem que mudar no Executivo, na estrutura tributária, na questão do Legislativo, do uso das emendas. Mas francamente falando, o Brasil tem que abrir o olho nessa eleição, porque pode se muito.
E um último ponto, Marcos: sussurros das redes desse fim de semana estão apontando para um tema que a gente vai tratar logo mais aqui no Revista CBN, que é a questão dos indícios de interferência eleitoral americana por aqui.
Pois é, isso daí é, isso são só sussurros, né? Isso é o que corre na rede. O que se diz crescentemente é que existe interferência externa no Brasil. Eu acho bastante razoável que isso esteja acontecendo, porque é sabe, assim, eu não vejo como um país com a importância do Brasil não vai se tentar em todo mundo. Há interferência externa, o Brasil não ficaria diferente, ainda mais porque é um Brasil, Brasil, país que tem uma potência, importância regional gigantesca também no mundo.
Hoje tem uma prevalência importante, décima economia do mundo. Agora, o fato é que o que eu vejo não é tanta desinformação nas redes, mas muito mais as técnicas de desinformação nas campanhas. Como é que você, por exemplo, soterra um assunto que é incômodo e joga coisas completamente alucinadas e que tira atenção das pessoas do foco do que acontece. É muito que aconteceu na campanha do Trump. Trump foi um mestre em fazer esse tipo de coisa, né?
Ele consegue nesses eventos, por exemplo, falar: eu vou acabar com a guerra da Ucrânia em um dia, uma semana. E não acabou até hoje, por exemplo, entendeu? Mas essas coisas desviam a atenção das pessoas, e as pessoas acabam se iludindo nas escolhas que fazem. Então eu acho que nesse sentido as técnicas de campanha e de venda do marketing eleitoral, elas sofisticaram muito. A impressão que eu tenho é essa, em geral.
Perfeito, Marco Rüdiger. Muito obrigada por hoje, sempre um prazer te ouvir. Até mais.
Obrigado, até mais. Beijo para todos.
Beijo.