‘Individuação’: o processo de descobrir aquilo que só você é
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Victor Stirnemann
Nadeja
- A individuação como processo de descoberta da singularidade de cada pessoaorigem do conceito com Carl Jung·influência dos alquimistas na ideia·cada indivíduo é único na história
- O amadurecimento como processo de despir disfarces e ser quem realmente se ésair das máscaras e mentiras·expressar a combinação única que se é·viver a vida a partir do lugar único
- A dificuldade de reconhecer a própria singularidade em meio a generalizaçõescomparação constante com os outros·a ironia de ser único e se comparar·o mistério da pessoa amada
- A individuação como um olhar de amor e reconhecimento da completudeo jeito único de cada pessoa·reconhecer-se completo com virtudes e defeitos·buscar a melhor versão de si mesmo
- A jornada de vida como um caminho único a ser trilhado por cada indivíduoa beleza do indivíduo não deve ser perdida·abordagem espiritual da individuação·expressão miraculosa do eterno e infinito
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Cada semana uma conversa com uma palavra como ponto de partida, que pode surgir de uma notícia, de um livro, de uma frase, de uma experiência cotidiana ou da escuta de quem acompanha a gente, partindo de uma coisa concreta para a gente refletir mais sobre o nosso tempo, sobre nós mesmos. Victor Stirniman, bem-vindo, boa tarde, prazer falar com você.
Bom dia, tudo bom?
Tudo ótimo.
Vamos falar com você também, Vitor.
Hoje o pedido, a palavra vem de um pedido da nossa Pétrea Chaves, que tem um fim de semana de aniversários na família, né? Ontem foi aniversário do filho dela, hoje é aniversário da mãe dela, e ela queria te ouvir sobre individuação.
Tá ótimo. Então essa é uma boa encomenda da nossa querida Pétrea. E essa é uma palavrinha difícil porque ela na verdade ela não existe no nosso cotidiano. Ela é uma palavra que ficou muito famosa a partir do trabalho do Carl Jung, que é um cara que eu gosto muito, que eu estudei bastante, e que na verdade pegou essa palavra dos alquimistas. Porque o Jung, que era um grande psicólogo, ele também foi um grande responsável para trazer alquimia de volta para o nosso conhecimento.
Então ele colecionava textos da alquimia que estavam lá perdidos, e como colecionador ele começou a traduzir. E um dos alquimistas falava desse princípio de individuação. Que que é isso? É simplesmente aquilo que faz você ser exatamente único do jeito que você é. Então cada um de nós é parte de um coletivo. Então nós somos seres humanos, nós somos brasileiros, alguns são terapeutas, outros são jornalistas, uns são homens, mulheres.
Todos nós fazemos parte de grupos que em parte nos definem, mas na verdade todos nós somos completamente únicos. Uma coisa que eu gosto de dizer na igreja, que é muito central e que a gente para muito pouco para pensar, é que nunca, nunca na história do universo existiu ou existirá alguém exatamente igual a você. Você é absolutamente única na história. Eu também. Cada um de nós. E na verdade, nós nunca nos organizamos ou nos orientamos por esse processo, por essa realidade, que é a realidade que nós somos únicos.
Então a gente tá sempre fazendo o quê? A gente usa linguagem, a gente usa as palavras, e as palavras são generalizações. E as generalizações a gente usa para nos definir, quando na verdade, quando na verdade nós não somos as generalizações, nós somos essa coisa única. Sabe quando isso fica muito claro? Quando a gente se apaixona. Quando você se apaixona por uma pessoa, se eu viro para você e digo: olha, se eu arranjar uma outra pessoa que tem todas as características que você vê nessa pessoa que você ama, você topa trocar?
A resposta é não. Por quê? Porque a pessoa que você ama não é a soma das características dela que você consegue nomear. A pessoa que você ama é alguma coisa única, misteriosa, que para você tem muita força justamente nesse mistério e no fato de ser singular. O que o Jung, esse autor, esse psicólogo, trouxe à tona é que a gente passa tanto da vida preocupado em fazer parte de grupos, corresponder à expectativa das pessoas, ser alguém exatamente como os outros.
A gente se compara tanto, e a grande ironia é que a gente é o único e que nenhuma comparação realmente vai trazer à tona aquilo que é o mistério, que só nós somos. E ele, de um jeito muito bonito, ele falou o seguinte: com o tempo, à medida que a gente vai amadurecendo, o processo todo é o processo de você ir saindo dos disfarces, das mentiras, das máscaras que escondem quem você realmente é, e poder ser cada vez mais aquilo que só você é, como se isso fosse um grande segredo da tua felicidade, do teu equilíbrio, do teu desenvolvimento na vida.
Você é completamente única, uma combinação única da história. Então, o que que você, como uma combinação única, tem para expressar? Como é que é viver a vida a partir desse lugar único? Então você, por exemplo, a gente tá falando de palavras. Uma coisa que me chama atenção é o teu nome. Nunca vi alguém que se chama Nadeja como você, e talvez você seja a única pessoa que já se chamou assim. Eu nem sei, mas de qualquer maneira tem algo ali que é um convite, um convite para ser única, diferente e igual a você mesma ao mesmo tempo. Isso faz sentido para você, Nadeja?
Faz total sentido. Eu fui pesquisar sobre essa palavra a pedido a partir do pedido da Pétrea, porque fiquei me perguntando o que tem a ver a individuação com uma relação que ela claramente tava falando com afetos familiares ali da vida dela, né? E fazendo essa busca ficou muito claro. E vendo que era um conceito da psicanálise, fiquei me perguntando se a gente chega à individuação fora da análise, já que a gente tá explicando aqui a palavra num contexto mais geral.
Olha, eu acho que sim. Eu acho que é um exercício de um olhar Quando você olha para o outro e até para você mesmo sem esses critérios coletivos da cultura, das outras pessoas, a respeito de como é que as pessoas tinham que ser ou não ser, você descobre aquilo que tá lá, único e singular. Tem um termo da nossa linguagem que é perfeito para isso. O termo é jeito. Sabe o jeito único da pessoa? Eu gosto de dizer que a tua mãe, se ela tiver andando no viaduto do Chá, no meio de um monte de gente, a 300 metros de distância, ela sabe que é você.
Ela não vai dar para ver o teu rosto nitidamente, mas o teu jeito de andar já é o único e reconhecível para ela. Cada um de nós tem um jeito único. E isso é uma mágica, quase, o fato de que nós não nos repetimos. Nós falamos sempre em termos genéricos, universais, mas na verdade cada um de nós dá para ver exatamente o que que ele tem de diferente. Então esse olhar, esse olhar da individuação, de certa maneira também é o olhar do amor.
Quando você ama uma pessoa, você tem vontade de dizer: você é o único para mim, você é insubstituível para mim. E isso é muito do processo de individuação. Agora, o grande desafio que eu sempre observo em mim, nas outras pessoas, é como é difícil trazer esse olhar de uma forma não vaidosa, não narcisista, para si mesmo. Reconhecendo não que você é perfeito, mas que você é completo, que você é inteiro do jeito que você é, com as suas virtudes e seus defeitos, com as suas coisas boas, suas coisas não tão boas, mas num mix único que é você e que de certa maneira você sempre vai ser.
Porque esse é um outro ponto importante, tá? Claro que a gente tem que tentar se aperfeiçoar, mas muitas vezes a gente passa a vida numa, no auto-engano, numa fantasia de que a gente vai mudar radicalmente e ser completamente diferente do que a gente sempre foi. Não, o caminho é buscar a melhor versão daquilo que você é, aquilo que você traz. A melhor versão daquilo que é já o seu jeito. Você ser completa é você poder ser tudo aquilo que você é de uma maneira que faça sentido.
E aí você vai conseguir traçar um caminho, uma jornada na vida que é aquela que só você podia, podia traçar. Você vai trilhar o caminho que é o seu caminho. Isso é reconhecer que tem uma beleza no indivíduo e que essa beleza do indivíduo não devia ser perdida. E que de certa maneira é quase que uma abordagem espiritual das coisas. Não é só reconhecer o eterno, o infinito, mas é também reconhecer o eterno e infinito nessa expressão tão temporária e tão pequena que é cada um de nós.
Então poder cada um de nós ser também aquela forma de expressão quase miraculosa do eterno, do infinito, é muito lindo. Isso é o que tá por trás do princípio da individuação. Faz sentido?
Totalmente. Bela palavra, Vitor. Vou aproveitar aqui para mandar meus votos de saúde e sorte para a família da Petra, que tá num fim de semana especial. Vitor Schirnemann, prazer te ouvir. Obrigada pelo papo e até uma próxima.
Até uma próxima.
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