‘Tédio sempre foi matéria-prima’
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- A importância do tédio para o desenvolvimento da criatividade e identidadeo celular sequestrou o vazio·mente divagando ativa redes cerebrais·criação de brincadeiras e personagens·descoberta do que se sente
- Os efeitos positivos da restrição do celular nas escolas brasileirasaumento da participação em sala·melhora na concentração dos alunos·mais socialização presencial·redução da ansiedade dos alunos
- A geração atual e a dificuldade de lidar com o silêncio e a ausência de estímulosBrasil é o segundo país em tempo de tela·nunca experimentou ficar sozinha com a própria cabeça·pânico quando o silêncio chega·nenhuma fresta sobrou pra mente respirar
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Refletir para Viver com Rosandro Klinger. A lei que restringiu o celular nas escolas brasileiras completou um ano. E o MEC anunciou uma pesquisa nacional para medir os efeitos. Os primeiros números colhidos com gestores já contam uma história: 97% relatam mais participação em sala, 95% apontam melhora na concentração, 95% observam mais socialização presencial. E o dado que mais me interessa como psicólogo: 86% dos diretores associam a restrição à redução da ansiedade dos alunos.
Tiraram a tela e a ansiedade caiu. Veja que informação preciosa! O Brasil é o segundo país do mundo em tempo de tela: 9 horas e 13 minutos por dia, em média. Uma criança que cresce nesse regime nunca experimentou algo que toda a geração anterior conheceu de sobra: ficar sozinha com a própria cabeça, sem nada para fazer. O tédio, esse vilão que os pais correm para exterminar com mais uma atividade e mais um vídeo, sempre foi matéria-prima.
É no vazio que a criança inventa brincadeira, cria personagem, elabora o que viveu e, o mais importante, descobre o que sente. A pesquisa em psicologia mostra que a mente divagando ativa justamente as redes cerebrais ligadas à criatividade e à construção da identidade. Quem nunca se entedia também jamais se encontra. As melhores ideias que tive na minha vida aconteceram no tempo do tédio. Só que o celular sequestrou esse vazio.
Cada microsegundo de espera virou rolagem. A fila, o intervalo, o banheiro, na mesa de jantar, até no cinema quando a cena desagrada. Nenhuma fresta sobrou pra mente respirar. Formamos uma geração que nunca ficou desacompanhada de estímulo e que por isso entra em pânico quando o silêncio chega. O recreio voltou a ter barulho de gente, bola, conversa, riso, briga pequena de criança, queda, carrinhos e bonecas. Tudo aquilo que forma alguém.
A escola devolveu aos alunos algo que nenhum aplicativo oferece: a chance de se aborrecer. E do aborrecimento, quem diria, nasce gente mais inteira.
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