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'A vizinhança tá on!': os condomínios-clube no subúrbio do Rio de Janeiro

18 de setembro de 202610min
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O subúrbio carioca passa por uma reconfiguração estrutural, porém, a relação de convívio em vizinhança tem conseguido atravessar essa mudança sem se dissolver por completo. Para tratar do assunto, Michel Alcoforado apresenta o livro 'A vizinhança tá on! Sociabilidade em um condomínio clube nos subúrbios cariocas', da antropóloga Caroline Bottino e publicado pela Editora Telha. Na obra, Bottino mostra que a suburbanidade não morreu com as mudanças na paisagem carioca. Na verdade, ela se adaptou.

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Participantes neste episódio3
M

Michel Alcoforado

HostAnalista
F

Fernando

Co-hostJornalista
T

Tati

Co-hostApresentadora
Assuntos4
  • A reconfiguração estrutural do subúrbio carioca e a sociabilidade em condomínios-clubepesquisa de Camila Bottino·condomínios em regiões periféricas·oposição entre vida de prédio e subúrbio
  • A importância da vizinhança e da comunidade para a segurança e assistênciasegurança em condomínios·experiência no Copan com Airbnb·crescimento de residências unipessoais
  • O papel das plataformas digitais na manutenção da comunidade em condomíniosgrupos de WhatsApp como rede de apoio·reforço de laços de solidariedade·criação de vínculos de vizinhança
  • A contribuição dos grupos de WhatsApp para a criação de novas relaçõesgrupos como redes de informação·produção de novas relações·vínculos que não aconteceriam face a face
Transcrição27 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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MAMichel Alcoforado

Para onde vamos com Michel Alcoforado.

?Voz C

Fala, Michel, boa tarde.

MAMichel Alcoforado

Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando.

?Voz D

Oi, Michel.

?Voz C

O antropólogo Taon, hein?

MAMichel Alcoforado

Não, tô, tô, mas eu quase fiquei off. Eu, vocês já ouviram falar do Sertão Negro?

?Voz C

Oi? Não, não, não.

MAMichel Alcoforado

Sertão Negro é um centro cultural e artístico aqui em Goiânia que foi criado pelo artista plástico Dalton Paula, e ele vem fomentando não só toda uma obra muito importante, mas também o surgimento de novos artistas. E aí eu vim para essa região e fica na cidade de Goiânia mesmo, mas o 5G tava aparecendo no celular. E aí eu comecei a falar, ué, deu 3:30, deu 3:35, deu 3:40, cadê Jana? Aí mandei uma mensagem para Jana, Jana, você morreu?

Aí Jana vivíssima, a mensagem chegou, a mensagem chegou, aí eu falei, tá sumido, o que que aconteceu? Mas é isso, tava aparecendo 5G no celular, mas eu não tava com o celular Aí agora resolveu, tô aqui, tô.

?Voz C

Agora tô muito bem, muito bem.

?Voz D

E a vizinhança?

?Voz C

E a vizinhança, como é que tá?

MAMichel Alcoforado

Tá um também, hein? Olha, isso vocês têm grupo de WhatsApp no prédio de vocês, no condomínio?

?Voz C

Não, eu não.

MAMichel Alcoforado

Tatiana é mais feliz que você, mas a gente vai chegar à conclusão aqui que nem tanto, nem tanto. Eu sou assunto em vários momentos, tenho dois filhos, cara. Posso imaginar. Olha, esse é um negócio muito interessante. Eu quis trazer esse livro que é fruto de uma tese de doutorado de uma antropóloga do Rio de Janeiro, a Camila Bottino. Ela começou a investigar os condomínios nas regiões periféricas, igual tem surgido condomínios dessas torres gigantescas com vários apartamentos fora das regiões centrais de São Paulo, de qualquer grande cidade.

Ela fez uma pesquisa em profundidade, né, uma pesquisa como os antropólogos fazem. Ela passou muito tempo perto desses condomínios observando como era viver numa torre como essa, num condomínio como esse, na periferia do Rio de Janeiro, nos subúrbios. Que boa parte das vezes as pessoas estão aí ouvindo a gente, frequentaram Ipanema, Copacabana, mas o Rio é muito maior do que isso. Então ela vai pra periferia, pro subúrbio do Rio de Janeiro, pra entender esses condomínios.

E olha que interessante, por que que eu quis trazer essa pauta aqui? Porque, em geral, quando a gente olha pra essas regiões que estão passando por processos de intensa edificação e verticalização, por conta do aparecimento dos prédios, há sempre uma visão nostálgica de que antes, ai, quando os meninos e as crianças brigavam, brincavam nas ruas, Ah, quando a vizinha acordava e podia bater na porta da casa da outra vizinha e pedir um pote de açúcar.

Ah, quando no final da tarde as senhoras sentavam com suas cadeiras no portão para poder observar a vida dos outros. Isso se perde quando a cidade avança e se verticaliza. O que é interessante, que a Camila vai colocar, é que apesar do intenso processo de verticalização, essa ideia ou essa oposição fácil entre vida de prédio é uma vida solitária, onde o individualismo reina, E a vida no subúrbio, com casa e todo mundo se conhecendo, conhecendo a vizinhança há muito tempo, é uma vida mais comunitária?

Não é tão assim. Porque quando as pessoas saem dessas casas e se mudam pra grandes prédios, elas vão inventar alguns caminhos pra continuar mantendo uma vida em comunidade. E isso é bom. Como é que é o caminho que elas fazem, né? Pra além do convívio e quando tem área de lazer, né, isso é importante também, porque possibilita esse encontro. Mas as plataformas digitais, que a gente vira e mexe fica falando mal delas aqui, que elas têm um papel importantíssimo na invenção dessa comunidade, né, dentro do prédio.

Então as pessoas não estão sentadas mais na porta de casa, é como fazia no passado, mas continuam mantendo as redes de apoio, assistência, fofoca, comunicação dentro desses grupos de WhatsApp. Então é ali que elas reforçam laços de solidariedade, é ali que troca açúcar, é ali que a gente pergunta se o gato fugiu da minha casa e para o teu apartamento. É ali que a gente vai conhecendo e construindo vínculos de vizinhança.

?Voz C

Dá uma segurança, não?

MAMichel Alcoforado

Uma segurança enorme, uma segurança enorme. Eu já contei aqui da vez, né, inclusive virou até uma coluna minha no Globo que teve alguma repercussão, é que eu morava no Copan durante muitos anos e o que aconteceu com o processo de entrada das plataformas de aluguel por temporada foi que eu deixei de conhecer todos os meus vizinhos. E aí, uma vez, uma figura tava caída no corredor. Eu não conhecia aquela figura, porque o andar inteiro era quase todo de Airbnb.

E eu corri pra dentro de casa e liguei pro porteiro e avisei que tinha uma figura caída no corredor. Num lugar onde existe vizinhança, você cai, você passa mal, o seu filho briga com não sei quem, alguma coisa acontece, o Fernando fica sabendo antes da criança contar pra ele, né? E é obrigado a tomar uma posição antes. Do filho, dá suas justificativas. Então cria-se uma rede de solidariedade, de um vínculo de comunidade que é importante, apesar de toda dor de cabeça que uma, que um grupo de WhatsApp às vezes pode trazer.

E a Camila estuda isso também, o que é muito legal, porque ela vai dizer que esses grupos não são só redes de informação, também produz coisa. Produz coisa como quando você fala alguma coisa lá, inventa-se É uma nova relação. Então, se eu digo no grupo do meu condomínio, ó, vai ter meu aniversário tal dia, ó, eu vou estrear no teatro, ó, eu vou lançar meu livro, ó, me ouve agora aí que eu tô entrando na rádio, a gente vai criando novos vínculos de relações que, se fosse depender só do encontro face a face, certamente isso não aconteceria.

Então, é muito importante, é muito importante, e o livro dá uma aula para todo mundo que tá sofrendo aí com a vizinhança ou com essas plataformas, é para a gente repensar como essas coisas podem trazer segurança, pode dar para, podem dar para gente redes de assistência e podem criar vínculos de reciprocidade com quem tá morando em cima, do lado da gente.

?Voz C

Sabe o que eu tava pensando esses dias? É no condomínio onde eu moro, somos 4 mulheres que moram sozinhas no mesmo andar. Ninguém tem outra escolha. Não, não, não, não, não, mas não seria uma má ideia bloquear o andar, só desce ali quem a gente quer e tal. Mas teve recentemente, não tão recentemente, mas enfim, um incidente ali com uma delas e tal. Aí encontrei uma outra, uma chegando, outra saindo. Ah, você viu que a fulana não sei o quê?

Pô, tão importante a gente ficar atenta umas às outras, né? A gente tá aqui num andar em que somos 4 mulheres morando sozinhas, a gente precisa poder contar uma com a outra. E desde então, apesar de não ter trocado os telefones, fico muito atenta.

MAMichel Alcoforado

Uai, pede o telefone!

?Voz C

Fico muito atenta. Inclusive ontem uma amiga chegou em casa, tocou a campainha no apartamento errado. Aí saiu, falei: ai, desculpa, amiga. Essa amiga aqui muito desatenta e tal. Tá tudo bem aí com você? Tá tudo bem? Ah, então tá bom. Enfim, mas é para mulheres é muito importante isso, né? É.

MAMichel Alcoforado

E eu acho, Tati, que esse é um tema decisivo, porque como a gente já tratou em outros comentários, o Brasil vive um processo intenso de envelhecimento, né? Então cada vez mais a gente vai precisar de cuidado. E se seus vínculos mais próximos não podem te dar essa assistência, vai ser a comunidade que vai ter que ser responsável por isso, se você precisar, obviamente. Mas acho que também tem um outro dado que a gente já trouxe aqui, que é o crescimento dessas residências unipessoais, né?

Residência de gente que mora sozinho, cada vez mais. E quando acontece alguma coisa, você vai ter que contar com a comunidade mais próxima, não vai dar para ligar para o seu amigo preferido, para o seu best friend, esperando que ele vai chegar na sua casa para te socorrer. E aí a comunidade de novo é um centro. Eu comecei citando um exemplo ruim do Copan, mas eu acho que o Copan conseguiu inventar algum senso de comunidade, sobretudo com a presença dos funcionários.

E o grupo de WhatsApp tem esse lugar também. Vou contar rapidinho. Tempos atrás aconteceu, infelizmente, uma figura chegou num apartamento, conversou com porteiro, ele já tinha alugado esse apartamento numa plataforma dessas, com 2 meses ali, já tinha alguma relação com o porteiro, e ele subiu para o apartamento. E ele subiu e pediu uma entrega dessas de comida. O porteiro viu que a figura tinha subido, mas ele interfonava e ela não atendia, e a comida continuava lá.

Ele já notificou lá no caderno que tinha acontecido alguma coisa estranha. No outro dia de manhã não deu outra, né? A comida continuava lá, a figura não desceu. E esse, e o prédio se mobilizou para, junto com o dono do apartamento, para entrar lá para ver o que que tinha acontecido. Infelizmente, esse morador temporário tinha falecido, mas foi a comunidade que deu conta de organizar isso por conta desses vínculos que a gente vai construindo. Então, comunidade é tudo, e o digital ajuda besta nisso.

?Voz C

É isso aí, isso aí, Michel Koforá. Bom, então repete, porque toda essa conversa vem a partir de um livro da nossa editora.

MAMichel Alcoforado

É isso aí, Viziança On, Camila Botino, Editora Telha, onde publica a obra de Tatiana Vasconcelos.

?Voz C

E o primeiro livro de Michel Alcoforado antes dele ser um best-seller por aí, procure saber. Beijo, Michel, obrigada, bom fim de semana, até segunda.

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