BRICS, ONU e Trump x Xi: o que os eventos revelam sobre a nova ordem mundial
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Bruna Santos
- A transição global entre a antiga ordem liderada pelos EUA e uma nova estruturafragmentação do poder mundial·velha ordem americana morrendo·nova ordem ainda em formação
- O contraste entre as visões de Lula e Trump na Assembleia Geral da ONULula defende multilateralismo e cooperação·Trump com visão transnacional e hiperpolítica·críticas de Trump aos organismos multilaterais
- O papel dos BRICS como alternativa ao unilateralismo americanomecanismos de proteção contra EUA·China e Índia com objetivos divergentes·BRICS não é bloco coeso anti-EUA
- A visão de Washington sobre a crise política e institucional brasileiraala ideológica confrontacional·pressões sobre o STF e sanções·grupo pragmático preocupado com previsibilidade
- Resultados pragmáticos da última cúpula dos BRICSincentivo ao comércio em moedas locais·integração do Pix indiano com o brasileiro
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Bruna Santos, diretamente de Washington, conosco às sextas-feiras no nosso CBN Pelo Mundo. Oi, Bruna, boa tarde!
Oi, gente, boa tarde!
Tudo bem por aí nessa semaninha bastante calma aqui no Brasil? Como tá aí?
Olha, aqui até que tá calmo. E aí, vocês?
Aqui a gente tá carregado para o fim de semana, segundo o Fernando.
Bruna, vamos lá, já adiantei aqui que a gente vai fazer uma relação entre 3 eventos importantes: cúpula dos BRICS, que aconteceu, a Assembleia Geral da ONU, as discussões já estão acontecendo, mas tem os discursos na semana que vem, e logo na sequência teremos uma visita de Xi Jinping a Donald Trump. O que que interliga tudo isso?
Bom, então eu acho que esses 3 eventos, eles contam partes diferentes de uma mesma história, porque o que conecta os 3 é, acho que, a tese de que sim, o mundo tem mais centros de poder, mas ele ainda não tem uma nova ordem que organize isso, né? A gente tá obviamente num contexto de fragmentação em que todo mundo já sabe que a velha ordem que tinha os Estados Unidos como principal centro de gravidade tá morrendo, mas o mundo ainda não criou uma nova concepção dessa nova, dessa ordem, e isso ainda está se formando, emergindo, né?
Os BRICS, que teve aí a cúpula em Nova Delhi na semana passada, é um espaço que tem cada vez mais se consolidado como um espaço para os países criarem alternativas e mecanismos de se protegerem do unilateralismo americano. Então cada vez mais esses países buscam criar instrumentos para isso. A ONU, que hoje se reúne na sua Assembleia Geral e na semana que vem tem o encontro dos líderes onde todos discursam, é ainda um espaço para definir essas regras e esses princípios e buscar alguma legitimidade de regras e e de princípios nessa ordem internacional.
E Washington, eu acho que na semana que vem também, no dia 24, vai ser palco do encontro entre o Trump e o Xi. Eu acho que é uma reunião que, acontecendo logo depois desses dois eventos, ela demonstra que, bom, essas duas potências, elas ainda de alguma forma condicionam uma boa parte do que acontece no mundo. Uma coisa que eu achei interessante, Fernando, olhando os BRICS, é que o que aconteceu e o que vem acontecendo que cada vez mais, especialmente depois da expansão, os BRICS eles não se mostram como um bloco coeso anti-Estados Unidos, e muito menos uma espécie de OTAN anti-ocidental, sobretudo porque a China e a Índia estão nesse grupo, mas elas têm objetivos divergentes.
A China quer, claro, projetar influência, mas a Índia evita que o grupo vire abertamente um grupo hostil ao Washington. Então esse grupo, ele é um grupo que não tem um projeto necessariamente, ele tem sim uma vontade de evitar riscos maiores do unilateralismo americano e criar uma infraestrutura financeira e econômica para isso. E aí eu acho que os resultados da última cúpula são interessantes de olhar, que são resultados muito pragmáticos.
Talvez até não tenha dado tanta, digamos, atenção na mídia, mas eles são coisas interessantes, como por exemplo incentivo ao comércio em moedas locais, que é uma coisa muito diferente de você criar uma moeda nova, uma moeda dos BRICS, ou fazer a integração entre o Pix indiano, que é chamado UPI, com o Pix brasileiro. Isso cria uma possibilidade de relacionamento entre os países que é muito interessante. Além disso, ela, a summit aconteceu, o Brasil não foi, foi na Índia.
Como eu falei, tinha ali a Índia e a China olhando para objetivos divergentes. E na semana seguinte, na ONU, o que a gente vai ver é muito provavelmente um momento em que o Brasil discursa, é quem abre a reunião. Logo em seguida, o Trump entra. E na sequência, com a reunião entre os dois presidentes, eu acho que a gente vê uma quase que um selamento aí do quanto a gente tá nesse momento, entre, nesse entre-lugar entre ordens internacionais.
Bom, tem Assembleia Geral da ONU, como você disse, e Lula e Trump estarão por lá. Temos essa disputa sobre os rumos da ordem internacional, né, o multilateralismo e as organizações multilaterais enfraquecidas. Tá bom, mas o que que a gente põe no lugar então para regular a relação entre os países do mundo? E esse debate chega agora à Assembleia Geral. No dia 22, o presidente do Brasil abre o debate, o presidente dos Estados Unidos fala em seguida.
O que é que você acha que a gente deve prestar atenção nos discursos dos dois presidentes? E no caso, bom, nos dois, né, porque presidente Lula tá prestes a disputar uma eleição E o presidente dos Estados Unidos também tá prestes a ser reavaliado pela sua própria população, né? Isso deve aparecer nos discursos?
Eu acho que sim, Tati, eu acho que sim. Eu acho que sobretudo o que aparece nos discursos, com o Lula falando primeiro, é um choque de concepções do mundo. Assim, eu acho que o Lula ele traz uma visão muito tradicional da política externa brasileira, de defesa do multilateralismo, de defesa da cooperação, E o Trump vai trazer ali a visão dele, que é de um mundo mais transnacional.
Quem manda aqui sou eu.
É um mundo, a gente falou disso na semana passada, é um mundo de hiperpolítica, é um mundo de excesso de política e pouca instituição. Sim. E ele no ano passado, ele fez ali uma fala muito hostil aos organismos multilaterais, ele criticou as decisões da ONU como palavras vazias, ele criticou o financiamento climático como uma fraude. Então eu acho que a gente vai ver esse, esse contraste. No caso do Lula, eu não tenho nenhuma dúvida de que para ele é um espaço para ele defender o multilateralismo, defender os valores, né, que a política externa dele tem, que a tradição da política externa brasileira tem, mas também de definir, de mencionar uma linha vermelha contra a ingerência estrangeira E porque isso, o discurso dele acontece em meio a uma disputa eleitoral acirrada no Brasil e a tentativa explícita de influência americana na eleição brasileira.
Então ele não deve citar nomes, mas ele deve com certeza trazer isso para discussão.
Bruna, como é que o Washington tá olhando para a crise política e institucional brasileira? Como é que foi? O que que você viu nessa semana aí?
Bom, então, gente, eu acho que a primeira coisa é que, e eu já falei isso aqui, que não existe uma única visão de Washington sobre o que tá acontecendo no Brasil. Sempre falo que tem um loteamento de leituras sobre o país. De um lado, essa ala ideológica confrontacional que tá ali no Departamento de Estado e um ou dois na Casa Branca, tá com a crise que aconteceu essa semana sentindo cheiro de sangue na área. No desgaste do STF e quer acelerar pressões sobre o Brasil, pressões na corte, a possibilidade até de novas sanções.
Tudo isso movido, claro, por cálculos eleitorais deles, que ignoram as consequências disso para estabilidade brasileira. Isso não é abstrato. A gente viu semana passada aqui em Washington também, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tava aqui justamente naquela semana defendendo que os Estados Unidos voltem a impor sanções a membros da Suprema Corte brasileira. Então você vê uma crise interna e o STF direto colocado dentro da relação bilateral.
Por outro lado, tem um grupo ainda pequeno hoje, com bem menos poder, que é um grupo pragmático institucional que tá preocupado com a previsibilidade, com a segurança jurídica brasileira. E esse, só que esse grupo, como eu falei, ele não tá tão perto do núcleo de poder e ele é um grupo mais silencioso. Ele tá em compasso de espera para entender como as instituições brasileiras vão absorver esse choque, que a gente sabe que é um choque tremendo, e como vai entendendo que, bom, é uma questão brasileira, sobretudo uma questão da sociedade brasileira entender o que que vai ser de nós depois do nosso Supremo passar por uma demonstração tão explícita da sua, da sua crise de legitimidade, né?
Então eu acho que tem esses dois grupos, mas o primeiro grupo é hoje, claro, mais forte, sobretudo na sua influência, e é o que tá, como eu disse, sentindo ser de sangue na água. Mas há dúvidas, né, sobre como agir, porque não se sabe muito bem como o eleitorado brasileiro vai reagir. Mas acho que a pergunta dolorosa, Fê, é o que que acontece. O Brasil tá atravessando uma eleição muito disputada quando justamente a instituição que poderia moderar, arbitrar os conflitos eleitorais, chega nesse momento com uma credibilidade muito desgastada.
E a maior democracia da região, que normalmente faz o reconhecimento dos processos democráticos, e é importante o reconhecimento internacional dos processos democráticos, está tão hostil, né, a tudo que tá acontecendo. Acho que essa é a grande preocupação. Mas é isso, as crises acontecem e as crises também podem levar correções institucionais. Vamos esperar que esse seja só um sobressalto e nos leve a uma maior maturidade.
Tomara.
Bruna Santos conosco às sextas a partir de Washington. No nosso CBN pelo mundo. Obrigada, Brunão. Um beijão para você. Até a semana que vem. Tchau, tchau.
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