De onde surgiu ‘simbora’ e ‘vambora’?
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- A origem da palavra 'embora' e suas variantes 'bora', 'simbora' e 'vambora'dicionários lentos para registrar expressões·fusão de 'em boa hora'·Gil Vicente e o sentido original
- A redução de 'embora' para 'bora' na linguagem cotidianaCaetano Veloso e 'Bora Macau'·uso comum na Bahia·soma de 'em', 'boa' e 'hora'
- A formação da expressão 'simbora' a partir de 'vamos-nos embora'uso do pronome 'se' no lugar de 'nos'·exemplo de 'vamos se encontrar'·combinação de 'vamos-se embora'
- A origem de 'vambora' como contração de 'vamos embora'Adriana Calcanhoto e a música 'Vambora'·escrita como uma palavra só·falta de registro em dicionários
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A nossa língua de todo dia com o Professor Pasquale.
Oi, professor, boa tarde!
Tatiana, boa tarde! Fernando, boa tarde! Ouvintes, boa tarde! Eu tô no lugar talvez barulhento, não sei se vai atrapalhar isso.
A gente ouve um begezinho, um burburinho, um buchichinho, mas a gente, a gente te ouve bem. Vamos lá para dúvida, mais uma do nosso ouvinte Cleber Dourado de Curitiba. A expressão bora é praticamente onipresente na nossa linguagem de todo dia. Ele pede para que o professor Pasquale fale um pouco mais sobre as origens dela, da palavra bora, e das variantes simbora e vambora?
Pois é, a pergunta do nosso Kleber Dourado de Curitiba é boa demais, é muito boa, e mostra bem a questão dos dicionários, como às vezes, nem sempre, mas às vezes os dicionários são lentos, são tartarugas para registrar alguma coisa, e muitas vezes nem registram. É o caso dessas três aí: bora, simbora, vambora. Que não há encanto nenhum, não há em dicionário nenhum, não há no vocabulário ortográfico da academia, e são formas usadas há séculos, há séculos, né?
Mas vamos começar pela mãe de tudo isso, que é a palavra embora. Nosso Fernando tá aí?
Não tá, foi ver o mundo.
Tá, então eu não vou pedir a ele que abra o dicionário, eu mesmo vou dizer. Você sabe qual é a origem da palavra embora? Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver. Essa palavra embora resulta, acredite se quiser, Tatiana, resulta da fusão de 3 palavras, das palavras em Boa hora. Você vai dizer, mas quando eu digo eu vou embora, eu quero dizer que vou em boa hora? Não mais, não mais. Mas eu vou ler para você aqui Gil Vicente. Você estudou na Escola Gil Vicente, né?
O Alto da Barca do Inferno.
Isso, perfeito. Grande aluna Tatiana Vasconcelos.
Boa nessa parte.
Então eu vou ler aqui um trecho de um alto do Gil Vicente. Né, que diz assim: vá-se embora ou uma hora e põe o teu em recado. Vá-se embora ou uma hora e põe o teu em recado.
Porque é má, ao contrário de boa hora.
Exatamente, porque embora tem aqui o sentido de em boa hora, né? Vá-se embora, ou seja, em boa hora ou uma hora Né? E de fato era assim, a palavra embora era usada com esse sentido resultante da fusão de em boa hora. Claro que com o tempo isso morreu. Se você disser hoje algo semelhante, você não será compreendida de jeito nenhum, porque não rola mais, né? Mas era isso. E desse embora surgem aí o bora, que nada mais é do que a redução de embora.
Aliás, vamos para o primeiro auxílio? Eu vou devagar, um por um. O primeiro auxílio é um trechinho de uma canção que o Caetano Veloso compôs no exílio, né, no início da década de 70, né. Uma canção chamada Nine Out of Ten, Nove Entre Dez. É uma música bonita e tal que tá num disco antológico. Caetano Veloso gravou dois discos lá na Inglaterra durante o exílio. Esse é o segundo disco, chama-se Transa, um disco bonito para burro.
E a gente vai ouvir um pedacinho, vai ter um troço aí no meio que a gente vai explicar o que é. Vamos ouvir.
Quem que tá na mesa?
Eu dei uma rasteira, preciso pedir perdão de joelhos.
Ela tá dizendo tudo bem, professor.
Dani, querido, perdão, eu chamei primeiro o que era o segundo, mas tudo bem. Quer botar só o comecinho de novo? Só o comecinho, bota lá até o Caetano falar um troço lá. Vamos lá, rapidinho. Bora Macau! Macau, ninguém mais, ninguém mais, ninguém menos do que Macalé. O Caetano Veloso quis fazer esse disco lá, mas queria que o Macalé fosse o arranjador e que tocasse violão. Ele ameaçou o Macalé que tava no Brasil, ele disse: Macalé, se você não vier, não tem disco.
Aí o Macalé, claro, pegou o avião e foi para Londres. E o Macalé nunca tinha tocado guitarra. Isso é uma guitarra lindíssima. Macalé era um exímio violonista. E tocou guitarra nesse disco. E o Caetano diz: bora, Macau! Porque o Macalé era Macau. Bora, bora é uma coisa que se usa muito, ainda mais na Bahia, né? O pessoal diz: bora, bora lá para Ribeira, né? Bora comer acarajé lá em Itapuã. Bora, bora! Esse bora é a redução de embora, né, que por sua vez é a soma de em mais boa mais hora, tá?
E aí existe uma outra combinação que vai aparecer no auxílio, que deveria ter sido o primeiro, né, e que eu fiz bobagem. Então vamos para esse auxílio cujo nome eu não vou dizer, senão dou spoiler. Composição de avareza com o querido grupo Golden Boys.
Professor, é o primeiro, segundo ou terceiro?
O primeiro original meu.
O primeiro original seu, tá bom, que a gente tava em dúvida aqui. Vamos lá, vamos lá.
É Golden Boys, disco Fumacê. Você se lembra do Fumacê, do disco, da música? 1970. Vamos lá.
Vamos embora.
O que que é o simbora? A gente não usa na língua, na linguagem do dia a dia, a gente não usa o pronome se no lugar do pronome nos, né? Vamos se encontrar, vamos se ver, sim, vamos falar, não é? Vamos se falar, né? No padrão seria vamos nos falar, vamos nos ver, vamos nos encontrar. Então vamos-nos embora, vamos-se embora, simbora. Esse é o simbora, tá certo, né? Essa é a formação do simbora. E por fim O terceiro auxílio, que é o que tá na minha lista aí de terceiro, que você cantou na apresentação, porque eu ouvi a apresentação, o início do programa, né?
Tá, eu tenho um código com a Janaína, eu vou contar aqui, tomara que ela não fique brava comigo. Quando ela não me responde porque tá toda atarefada dizendo que deu tudo certo com boletim que ela recebeu e tal, eu recorro ao velho método, eu ligo para ouvir vocês para dizer, vamos ver o que que se vão me anunciar e se vão anunciar o assunto, né? E Janaína, beijo para você, viu? E aí eu ouvi a apresentação e tava lá você cantando Adriana Calcanhoto, que é autora.
Essa música é memorável, é dela, letra e música dela, que tá num disco dela chamado Marítimo. É um disco antológico para a gente ouvir de joelho, disco de 98. Vamos ouvir.
Entre por essa porta agora e diga que me adora. Você tem meia hora para mudar a minha vida. Vem, vambora, que o que você demora é o que o tempo leva. Vem, vambora!
Vem, vambora aqui. A Janaína já me deu cartão vermelho aqui. Vambora é vamos embora, vamos embora, vambora. E é o nome da música escrito numa palavra só, vambora, né? V-A-M de Maria, B de bola, O-R-A. Nada disso tem registro em canto nenhum, já deveria ter. E se aparecesse o registro com a marca, linguagem oral, gíria, etc. e tal.
É isso, muito bom. Obrigada, professor. Um beijo, bom fim de semana, até segunda-feira.
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