A política brasileira sob a marca da violência sexual
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Tudo é Política com Maria Cristina Fernandes.
Oi, Maria Cristina, boa tarde.
Boa tarde, boa tarde, ouvintes.
Maria Cristina, hoje, hoje não, quase sempre vai ligar os pontos aqui para a gente trazer fatos diferentes com alguma semelhança. Começando pelo mais recente, o STJ condenou agora pouquinho o ministro Marco Buzzi à perda do cargo depois de denúncias de assédio. Ontem a gente falava aqui da escolha, aí o segundo fato, né? Ontem a gente falava aqui da escolha do candidato à presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, do vice Alfredo Gaspar, que é alvo de um pedido de investigação sobre suspeita de estupro de vulnerável.
E por fim, o terceiro fato, uma entrevista dada ontem na sabatina da GloboNews Renan Santos se disse arrependido de uma piada que ele fez em 2017 envolvendo estupro. A gente está falando de 3 fatos diferentes, porém dentro da política, que se relacionam com violência sexual, Maria Cristina.
Pois é, Tati, uma violência que, ao contrário de outras como homicídio, não cai, só cresce no Brasil. Então, por isso que parece que há uma inflação de casos, é porque esse crime não tem sido combatido devidamente. E hoje tivemos esse caso no Superior Tribunal de Justiça que me parece uma virada de página, que é, primeiro, foi a primeira vez que se fez um processo administrativo disciplinar por assédio. E a Procuradoria-Geral da República havia se manifestado pela aposentadoria compulsória, mas aí mudou o seu entendimento durante a sustentação oral, porque o Conselho Nacional de Justiça publicou uma resolução regulamentando que a perda a pena máxima não é mais a aposentadoria compulsória, e sim a perda de cargo, em função de uma decisão do Supremo que estabeleceu esta pena máxima aí como perda de cargo.
Então a PGR mudou seu entendimento e pediu a perda de cargo, e o STJ, numa sessão fechada, decidiu pela perda do mandato de ministro do Tribunal de Justiça do Marco Buzzi, que foi acusado. São duas acusações. A primeira é da filha de amigos, de uma moça de 18 anos de idade, que disse ter sido abordada por ele num período em que a família estava na casa, hospedada numa casa de praia em Balneário Camboriú, em Santa Catarina. E a segunda é uma ex-funcionária do gabinete que relata ter sido vítima de assédio sexual durante o trabalho.
Ele até o fim negou as acusações, disse que é inocente, mas eis que ele perde o seu cargo de ministro da segunda maior corte, né, do país. E eu quis juntar os três casos, Tati, porque ontem a gente falou aqui do Alfredo Gaspar, essa aposta arriscada do senador Flávio Bolsonaro em função desta notícia-crime apresentada pelos, pelo deputado Lindbergh Farias e pelas senadoras Sônia e Tronique ao Supremo. E não apenas, né, em função de o Senado ter uma rejeição muito grande entre as mulheres e simplesmente deu as costas para a possibilidade de vir a chamar uma mulher, notadamente uma aliada da ex-primeira-dama Michele Bolsonaro, Bolsonaro, que as últimas pesquisas indicam, né, essa aparente conciliação que houve, reconciliação entre eles, porque eles ainda não se encontraram pessoalmente em público.
Isso teria sido responsável pela recuperação dele nas pesquisas. Pois bem, essa notícia clínica, ele deu as costas a tudo isso e escolheu Alfredo Gaspar. Essa notícia-crime foi parar no Supremo, nas mãos do Ministro Gilmar Mendes, que pediu um parecer à Procuradoria-Geral da República. A PGR, por sua vez, pediu diligências à Polícia Federal, e hoje, em função dessas diligências, a Polícia Federal abriu inquérito. Isso significa que o Alfredo Gaspar vai atravessar a campanha na condição de investigado.
Que é algo um tanto incômodo. E vamos lembrar que, a depender da repercussão aí ainda deste vice, da escolha deste vice nas pesquisas, a legislação eleitoral faculta ao candidato registrar a sua chapa em até 15 dias depois do prazo final das convenções. As convenções tiveram este prazo final ontem, dia 5. Contem-se aí 15 dias. Dia 20 de agosto é o prazo definitivo para as chapas que, registradas no TSE, virem a disputar o primeiro turno no primeiro domingo de outubro.
E finalmente, este esta entrevista do Renan Santos ontem na GloboNews, em que ele foi abordado pelas duas entrevistadoras, Ana Tuzaneri e Andréa Sadi, sobre essa piada que ele fez num bar, e de que uma piada que ele fez no bar com um grupo de amigos, que estupraria uma uma pessoa. E ele disse que aquela piada foi— ele se arrepende desta piada e falou também do caso em que ele foi absolvido por acusação de estupro. E de fato ele foi absolvido e ele contou essa história durante a entrevista.
Uma namorada com quem ele havia rompido e fez essa acusação que não procede e ela acabou voltando atrás. O Ministério Público informou finalmente que ele havia sido absolvido pela justiça em um processo que era acusado de estupro. O que chama um pouco a atenção, lá no STJ a gente já viu ineditismo, e aqui um candidato a vice-presidente de uma chapa que está disputando a liderança E aqui um candidato que tem menor projeção, mas que tem tido bastante espaço no noticiário, Renan Santos.
Aí, seja por uma brincadeira, seja aí por essa acusação da qual ele foi absolvido, mais uma vez nessa seara do estupro. É algo que não sei, Tati, quantas eleições você cobre, mas essa é a minha décima eleição presidencial. Eu nunca tinha visto Algo do gênero. E a gente já viu muitos candidatos à presidência, a crônica política nos conta de muitos presidentes que foram adúlteros, mas estupro era algo que não pertencia a este glossário. E eis que entrou.
E é muito Não vou dizer revelador, mas vou dizer que é uma amostra de que esse tipo de crime não vem escrito na testa de nenhum homem, né? A gente tá falando de 3 homens poderosos, um ministro do Superior Tribunal de Justiça, um deputado, com a ressalva que no caso dele era assédio, né? Sim, sim. Assédio sexual, né, crimes sexuais. A gente tá falando de crime de gênero, né, porque enfim, pode ser cometido contra meninos, homens também, mas a maioria é cometido, a maioria é cometida contra mulheres.
São 3 homens poderosos envolvidos no sistema de justiça e no sistema político brasileiro. Enfim, acho que é uma amostra do que a gente vem falando tanto aqui, né? É um problema, um problema do nosso país, um problema do mundo. Tá aí, estão aí os documentos de Jeffrey Epstein que não nos deixam mentir. E tá sendo tirado do armário isso também, né, Maria Cristina? A gente tem falado disso, tá desnormalizando isso, problematizando, julgando e punindo, o que é sempre uma boa notícia, né?
Com certeza. E fazendo com que eu acho que o debate público, quando você fala em normalizar, né, deixar de normalizar esse tipo de crime, do assédio ao estupro, ele também acaba extrapolando para linguagem, para o debate público simplesmente pela linguagem, porque é na linguagem, na exposição de argumentos que acaba esse debate, acaba legitimando algumas práticas, né, como aquela sobre a qual nós falamos ontem, do preâmbulo que o candidato do PL fez ao apresentar o Gaspar, com a dedicação das mulheres a cuidar dos idosos, né.
É outro sexismo, né, que ele teve duas filhas justamente para ter quem cuidasse dele na velhice. É outro sexismo. Aí a gente tá falando de um amplo espectro, né?
Tudo ligado, né?
Pois é, mas é tudo na esfera da normalização, seja do discurso, seja das práticas, que estão vindo à tona. E talvez seja benéfico para o país os direitos das mulheres, para os costumes da civilização que aqui tentamos construir, que isso esteja acontecendo, né?
Sem dúvida nenhuma, sem dúvida nenhuma. E só lembrando, crime sexual tem a ver com poder, porque você subjuga a vítima. Crime sexual, estupro, tem a ver com poder. Maria Cristina Fernandes está conosco diariamente em Tudo É Política. Obrigada, Maria Cristina. Um beijo, até amanhã.
Eu que agradeço, Tati, por estar de você e aos ouvintes.
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