O que é correto: ‘maestra’ ou ‘maestrina’?
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- Maestra vs MaestrinaMaestra·Maestrina·Regente de orquestra·Chiquinha Gonzaga
- Evolução do uso de termos femininosPoeta vs Poetisa·Piloto vs Pilota·Árbitro vs Árbitra·Sociedade e Linguagem
- Ironia em Caetano VelosoSuper Bacana·Caetano Veloso·Anos 60
- Programa Um Instante MaestroFlávio Bolsonaro·Rádio Boa Nova·Televisão Tupi
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A nossa língua de todo dia com o Professor Pasquale.
Oi, professor, boa tarde! Tatiana, boa tarde, ouvintes, boa Rogério Geraldo é o ouvinte que o professor Pasquale atende hoje com uma dúvida a respeito do uso das palavras maestra e maestrina. Rogério, que diz que faz parte de um coral amador, e conta: nossa regente é uma mulher e sempre ouvimos a chamarem de maestrina. No entanto, no último sábado estivemos em uma apresentação onde o anfitrião a chamou de maestra, dizendo que a designação maestrina estava errada.
Pois bem, fui pesquisar, percebi alguma polêmica sobre o uso das palavras, e ninguém melhor para desfazer polêmicas da língua portuguesa que o senhor, professor. Poderia ajudar o nosso ouvinte?
Ele está redondamente enganado, Rogério. A dúvida é ótima, e eu tenho aqui as minhas fontes linguísticas, mas tenho também as minhas fontes musicais. Daqui a pouco vou colocar no ar uma figura importantíssima importantíssima do meio musical. Vamos começar com o primeiro auxílio rapidinho, uma canção antológica de Caetano Veloso de 1968 chamada Super Bacana, que tem a ver com o que acontecia na época. Eu já toquei essa música aqui, a história do super, tudo era super, a publicidade falava em super, super, super, e o Caetano ironiza tudo isso num texto muito inteligente. Vamos ouvir.
Toda essa gente se engana, então finge que não vê que eu nasci pra ser o super bacana. Eu nasci pra ser o super bacana, super bacana, super bacana, super bacana. Super-homem, super fit, super vink, super iste, super bacana. Esse ilhaço sobre Copacabana, o mundo em Copacabana, tudo em Copacabana. Copacabana, o mundo explode longe, muito longe. O sol responde, o tempo esconde, o vento espalha e as migalhas caem todas sobre Copacabana.
Me engana, esconde o super amendoim, o espinafre biotônico, o comando do avião supersônico, do parque eletrônico, do poder atômico, do avanço econômico. A moeda número 1 do tio Patinhas não é minha. Um batalhão de cowboys barra entrada da Legião dos super-heróis, eu super bacana, vou sonhando até explodir colorido no sol, nos 5 sentidos, nada no bolso, nas mãos. Um instante maestro, supera um instante maestro.
O que ele diria se fosse uma mulher comandando a orquestra?
Ah, esse programa, Um Instante Maestro, foi criado na Rádio Nacional do Rio de Janeiro por Flávio viu Cavalcanti, figura contraditória, figura em 1952, e depois passou para televisão também, né? Então esse bordão aí, um instante maestro, foi criado por ele, né? E ele dizia mesmo isso. Você se lembra dele? Acho que não, né, Tati?
Eu me lembro porque a minha avó assistia, mas eu era muito, muito pequena, eu era muito criança.
Enfim, Um instante, maestro. Bom, se fosse uma mulher, não era o dedinho em risco assim? Isso, exatamente. Aquele cabelinho dele engomadinho, né, com brilhantina, sei lá o que era aquilo, Gumex, qualquer coisa assim. E ele quebrava discos no ar, né?
Disco porcaria.
Ele quebrou, ele quebrou muito disco excelente, né, maravilhoso. Quebrava dizendo que era ruim.
Eu tô vendo aqui que que o programa estreou na TV em 1970, na Tupi, ficou até 1980, depois foi exibido pelo SBT. E é dessa fase que eu lembro, claro, entre 1983 e 1986. Programação acabou quando ele morreu. Ah, mas espera, Um Instante Maestro estreou em 57. Esses que eu tô dizendo se chamavam Programa Flávio Cavalcanti.
É, é, estreou mesmo na rádio, na Rádio Nacional, em 52. E aí ele levou para TV, a TV Tupi do Rio de Janeiro, em 57. Bom, o fato é o seguinte, eu vou passar para o segundo auxílio, que é uma canção interessantíssima. A Joyce Moreno, grande cantora, grande violonista, grande compositora. A Joyce pegou uma canção da Chiquinha Gonzaga E pôs uma letra. E aí Chico Buarque e Olívia Jaime gravaram isso num disco chamado Serenata de uma Mulher.
Olívia Jaime canta Chiquinha Gonzaga, disco de 98. Vamos prestar atenção, vocês vão ter uma surpresa aí, porque o poeta e a maestrina, a gente vai descobrir no fim. A própria Olívia diz isso num vídeo, quem é esse poeta. Vamos ouvir. Ela veio no Tara e gentilmente ofereceu-lhe um violão e ensinou o corta-jaca e outras modas com sua vasta experiência em sedução.
Ele, encorajado, como resposta convidou-a pra dançar, otopiando no maxixe como de praxe, com todo o povo abrindo alas pra passar. Repare a dança da madura maestrina com o poeta adolescente pelo braço.
Quanto cansaço!
Que feminina!
Que adrenalina!
Que sensação entre os casais que não se deu bem, que podia ter se dado, e a parceria bem seria merecida quando Chiquinha, que gozava tanto a vida, dançasse com Vinícius de Moraes.
Viu quem é? Um poeta! Vinícius de Moraes, e você viu que a letra fala em maestrina, não é? Bom, aí a questão é a seguinte: nós, se você pesquisar em tudo quanto é dicionário, mas todos, todos, todos, todos, todos, eles vão dizer que o feminino de maestro é maestrina. A única exceção é a gramática do Bechara, do professor Bechara, que lá pelas tantas, no capítulo substantivo, né, ele fala lá de femininos, isso e aquilo, e pelas tantas ele cita casos de femininos que têm forma diferente da feminina: ator, atriz, né, e por aí vai.
E ele põe maestro, cujo feminino ele dá como maestrina, mas põe entre parênteses também maestra. E agora a gente vai ouvir um especialista musical, né? Eu tenho o prazer, a honra de ter a amizade do Roberto Minchuck. O Roberto Minchuck é simplesmente o titular da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, e ele e a querida Valéria, mulher dele, sempre me chamam para os concertos e tal. Eles são de uma gentileza absurda. E eu, claro, apelei, falei, maestro, falei, Valéria, peça ao maestro que me mande um áudio sobre essa questão.
E a gente vai ouvir agora o queridíssimo maestro Roberto Minchuck, que está nos ouvindo, né? E a Valéria também está nos ouvindo. Beijo para os dois e muito obrigado. Vamos ouvir o que diz o maestro.
Caro professor Pasquale, Roberto Mintiuc aqui. Eu atualmente uso o termo maestra quando me refiro a uma mulher maestra, né, regente de orquestra sinfônica ou de ópera, por maestrina de fato parecer algo diminutivo. Então eu atualmente eu utilizo o termo maestra e o meio musical aqui no Brasil tem usado mais também esse termo atualmente, apesar de maestrina não ser algo errado, equivocado, né? Alguns dicionários inclusive ainda têm esse termo como o termo feminino de maestro.
Porém, eu acho que hoje em dia, para ser mais justo, digamos assim, o termo maestra É o termo que vem se usando cada vez mais.
Você tá vendo como a gente é chique? Fala a verdade.
Eu mesma até me arrepiei que não tenho nem vestimenta.
Um depoimento do maestro Roberto Minchuk. Se você soubesse que orquestras ele já regeu mundo afora, né? Tá bom Nova York ou não? Assim, a Filarmônica de Nova York, tá bom, né? Londres e Oslo e por aí vai, né? E ele é o titular aqui da orquestra do Teatro Municipal de São Paulo. Como bem disse o maestro, a tendência no meio musical hoje é usar maestra. Tá acontecendo mais ou menos a mesma coisa que aconteceu com a palavra poeta. Poeta, né? Antigamente o homem era poeta e a mulher era poetisa.
Verdade.
Mas é de uns tempos para cá as poetas passaram a exigir que fossem poetas e não poetisas, né? E os dicionários continuam dando feminino de poeta, poetisa. O dicionário Aulette, por exemplo, eu acho que nesse caso é de uma simplicidade que dói, né? Você procura poetisa e a definição é mulher que escreve poesias, né? Achei isso de um sei lá, né? E no dicionário Wise, aí sim, a gente encontra quando procura poetiza, a gente encontra lá mulher que faz poesias também se diz poeta, sem inflexão, né?
Então é isso, acho que tá acontecendo o que já deveria ter acontecido, né? No caso de maestro, maestra, tá acontecendo isso com tantos termos, né? Piloto, pilota, né? E por aí vai. Então é a tendência natural da evolução não só da língua. A língua representa a evolução da sociedade, né? A gente sabe que a Chiquinha Gonzaga, por exemplo, no tempo dela, ela causava escândalos por ser uma mulher que mexia com música, que fazia isso e aquilo.
E como todos sabem, coisa de homem, né, música?
Francamente, coisa de homem. Imagine mulher se meter a fazer isso. Mulher tem que ir para, como é que é, não vou nem dizer que é tão vergonhoso. Exato, para onde quiser. Então é isso, querido ouvinte. Como, como ouvinte, como é que é? Rogério Geraldo. Como bem disse o maestro, não se trata de erro. Eu não diria, assim como o maestro disse, eu não diria que é errado dizer maestrina, assim como não é errado dizer poetisa. Mas já passou da hora de a gente incorporar isso, né, e dizer maestro, maestra, né, o poeta, a poeta, e o piloto, a pilota, né, e por aí vai, o árbitro, a árbitra, né.
Até outro dia a gente ouvia, quando começaram a aparecer as mulheres apitando jogos da primeira divisão do Campeonato Brasileiro, A gente até outro dia ouvia o árbitro, né, a árbitro, pelo amor de Deus, né, a árbitra, a juíza, são árbitra, a juíza, né. Se bem que não são juízes nem juízas rigorosamente falando, são árbitros e árbitras, né. Mas a gente popularmente chama de juiz e de juíza, né. Eu, dependendo do jogo, chamo de assoprador, assopradora, porque eu chamo de coisas que não podemos falar no rádio.
Tô brincando, era só para te provocar essa gargalhada boa de ouvir aí, professor.
Ótimo.
Então, mais uma vez, eu vou agradecer aqui a Valéria, ao maestro Roberto, agradecer pela gentileza, por toda essa gentileza, e agradecer ao ouvinte pela dúvida, e a você, querida Tati, Manda um beijo, manda um beijo para os ouvintes.
Beijo, beijo, obrigada por hoje.
A gente se fala amanhã.
Até amanhã, beijo.
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