Dia dos pais: conheça a história por trás da data
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- Honrar pai e mãeInstituição nos EUA·Recepção polêmica·Dia das Mães·Feriado nos EUA
- A Paternidade de São José· ReligiaoFunção vs. Relação·Pai presente·Industrialização·Conexão afetiva
- Realidade da paternidade e pressão masculina· SociedadeFardo da gravidez·Locação parental·Estigma social·Legitimidade social
- Maternidade e Paternidade· SociedadeAssimetria moral·Machismo·Origem romana·Casamento
- Povos Indigenas Saberes AncestraisPovos Bari·Formação do feto·Sistema aditivo
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Visões do Futuro com Álvaro Machado Dias.
Oi, Álvaro, boa tarde! Vamos falar de Dia dos Pais, quer dizer, vamos falar de paternidade, né, aproveitando o gancho do Dia dos Pais, domingo Dia dos Pais. Nos Estados Unidos, a homenagem ao pai foi proposta em 1910. Aqui no Brasil nasceu 1953. Porque, bom, nos Estados Unidos a homenagem foi proposta, passou 6 décadas apanhando jornal fazendo piada, homem achando aquilo coisa de mulher. Como pode, Álvaro? Por que que custou tanto juntar pai e amorosidade, cuidado, afeto?
Pois é, né? Que coisa. Custou justamente porque afeto não estava na descrição do cargo, por assim dizer, no job description. De maneira séria, pai sempre foi historicamente, né, durante o século 20, função e não relação. Era o papo de que o pai era aquele que sustentava, autorizava, e como a gente sabe muito bem, punia. Pai sempre foi isso daí. Então, quando a data foi proposta nos Estados Unidos, como você falou muito bem, em 1910, A imprensa americana ridicularizou aquilo totalmente, tá?
Tratou como um sentimentalismo copiado do Dia das Mães. Tem uma história interessante de um florista que chegou a registrar por escrito que esse papo de pai não tinha apelo emocional nenhum. Quer dizer, ele achou que não ia vender nenhuma flor nunca. Olha a ilusão! E os próprios homens naquele momento recusavam essa conversa toda, tá? E achavam que isso tudo, né, assumir a data, assumir receber flores, a simbologia toda era admitir um lugar que não era deles.
O negócio virou feriado, né, a data virou um feriado permanente nos Estados Unidos em 72, quer dizer, muito tempo depois. E tem um negócio, né, o que que acontece no meio do caminho? Qual que é a história desse contexto, desse conceito importado que depois também virou tão nosso? Tem um pesquisador que eu tava lendo para me preparar para hoje chamado Ralph LaRossa. E o que ele diz, que eu acho muito interessante, é o seguinte: a conduta, a lógica da paternidade vem do princípio do pai presente.
O ideal do pai presente, que é aquele que está com os filhos, já existia. Ele estava nas revistas, estava na boca das pessoas nas décadas de 1910, 1920, 1930. Quer dizer, antes do afeto ser ligado à figura paterna do ponto de vista da simbologia toda da data. Só que qual era a grande questão? Esses pais desse momento histórico passavam muito poucas horas com seus filhos. O número de horas dispendido no contato com os filhos na década de 1910 até 1970 é assim colossalmente mais alto, tá?
Houve uma expansão gigante, um aumento imenso nisso. Por quê? Uma razão, no fundo, no fundo, não é moral, ela é industrial. Olha só, Até o começo do século 20 havia uma lógica dos pais trabalharem muito ao lado dos filhos, mais filhos do que filhas, tá? Mas tinha essa história. Então o pai não era aquele que era carinhoso no sentido de hoje em dia, mas era aquele que estava presente. Só que a industrialização, a fábrica, tirou essa pessoa, esse homem, fisicamente de casa.
E aí pai começou a significar essa figura mais abstrata do ponto de vista prático, que manda, que isso, que aquilo, e foi se tornando uma figura mais ausente. Um grande movimento de conexão afetiva foi o movimento de mostrar na prática e fazer com que as pessoas incorporassem que estar presente é importante. Tá aí a explicação.
Muito bom. É bom. No Brasil, mais de 1 milhão de crianças não têm o nome do pai no seu registro, né? Só tem o nome da mãe. O Judiciário mantém um programa criado para preencher esse espaço no documento. Por que a paternidade, Álvaro, é o único parentesco que tem que ser declarado?
Por uma questão de assimetria moral, principalmente, tá? Existe uma falha. Se discute muito a questão dos, vamos dizer assim, das vantagens assimétricas e do machismo, né, masculinas, do machismo na sociedade. Você quer um exemplo prático de vantagem assimétrica do ponto de vista moral? Está aqui, tá? Então, de fato, historicamente a gente vê os homens assumindo essa, ou não assumir, nessa fuga de maneira mais tranquila. Espera um pouquinho, preciso espirrar, desculpa. Bom, passou. Do que as mulheres.
Ao vivo é assim mesmo, minha gente, vai.
É assim mesmo. Olha que nesses anos todos eu nunca tive vontade de espirrar, mas eu já engoli um mosquito dando manchete.
Então quer dizer, tá em casa, eu não, mosquito Eu não tinha ouvido, eu tava quieta trabalhando.
Pois é, então eu acho que tem uma questão de licença moral, tá? Isso é uma área muito importante estudada pelo pessoal da filosofia, da psicologia, moral license. A pessoa se permite as coisas. Mas não é só isso. Se a gente olhar do ponto de vista histórico, né, qual que é a história, né? Que que tá ali por trás de tudo? Que de fato esse é aquele que a sociedade não consegue ver de primeira, né? A mãe sempre é testemunhada, o pai sempre foi inferido, né?
Todo sistema jurídico teve que se basear nesse substituto da observação. E a base disso, pelo menos de acordo com o que eu tava revisando, a literatura que eu tava revisando para esse programa de hoje, é romana, tá? Então Roma resolveu isso por uma espécie de ficção declarada muito interessante, que é a ideia de que o pai é aquele que está registrado no casamento, tá? Tem uma expressão romana que eu não vou lembrar agora para dizer exatamente isso, que aquele sujeito que entrar na união nupcial, ele é o representante paterno.
E a fonte de certeza de que ele é o pai está ali, sabe? Sobrenome, herança, legitimidade, honra, todas essas coisas são peças de uma espécie de uma engenharia baseada no casamento. Então esse foi o princípio. E o que é curioso é que foram feitos vários estudos do cromossomo Y, né? Para quem não sabe, ele está só nos homens. Então ele permite um mapeamento de descendência. E o que se viu é que, na verdade, a paternidade extraconjugal, ela chegou, por exemplo, a 6% no século 19.
Então esse papo todo não é tão verdadeiro, mas foi assim que a coisa se estabeleceu. Eu acho que a gente consegue entender, portanto, que esse— por que que a paternidade precisa ser declarada. Por um lado, por uma questão da tradição, e por outra, por essa licença moral que é assimétrica na sociedade, mostra como ela é injusta.
Na transformação do feudalismo para o capitalismo que organizou o patriarcado, a linhagem de propriedade, de poder, de dinheiro era toda masculina, né? Então quer dizer, a gente vai encontrar isso na nossa, na história das sociedades, né, Álvaro?
É exatamente esse ponto, tá? E a história, como tradicionalmente havia essa concentração de poder, naturalmente também havia o licenciamento moral maior. Ou seja, esse cara ele se dava mais o direito de, enfim, negar as suas responsabilidades, inclusive as paternas.
Isso, se a gente olhar para os povos indígenas, para os povos originários do Brasil, por exemplo, existem grupos que fizeram diferente, né, onde uma criança pode ter mais de um pai, por exemplo. Como é isso?
Sim, sim, sim, pois é. Não é um assunto que eu conheça muito bem, tá? Então o que eu consegui decodificar desse tema, que é super intrincado, né, envolve gente muito dedicada na antropologia, etnografia, assim por diante, é que há povos como, por exemplo, os Bari, né. Tem um cara chamado Stephen Beckerman da Universidade da Pensilvânia, muito bom pesquisador, que levantou a história reprodutiva das mulheres, gravidez por gravidez, e foi comparando como é que essa coisa se estruturava nesse povo.
E o que ele coloca é que havia justamente uma crença diferente, tá. Então a tese de que a gente precisa naturalmente partir dessa biologia como estabelecida aqui no mundo da ciência, que eu diria que é assim a verdade do ponto de vista empírico, ou seja, aquela que se revela quando a gente testa as coisas de verdade, ela precisava ser relativizada ali, para dizer o mínimo, tá bom? Então, por exemplo, havia uma crença de que o feto se dá, ele se forma pelo acúmulo de sêmen ao longo da gestação.
Então, se assim, se a mulher já teve relação com outro homem no período, aquele contribuiu para fazer a criança, entendeu? Então você tem, no final das contas, a lógica de eventualmente dois pais ou uma espécie de um sistema aditivo, tá, de adição. Portanto, não é de adultério tolerado. Isso que é importante a gente pensar, tá bom? É uma outra coisa. É muito mais de não haver essa regra tão estabelecida e não haver um princípio tão bem determinado do ponto de vista científico do que acontece na fecundação.
É uma organização social diferente mesmo, né? Uma sociedade que se organiza de outra forma como são, sei lá, sociedades matriarcais, enfim, que funcionam de outro jeito. Vamos falar de padrasto e da escolha por ser pai para além dos laços de sangue, Álvaro.
Pois é, eu sou testemunho disso. Eu tive um padrasto maravilhoso que também foi pai, infelizmente faleceu. Eu acredito que sim, a paternidade como a maternidade são realidades que são bastante construídas. É difícil, por exemplo, eu sou pai, é difícil eu como pai projetar isso como construção, porque eu sinto lá dentro assim muito profundamente que não é algo que é inexorável, biológico. Mas o amor faz a gente sentir essas coisas mesmo, né?
O caráter absoluto do amor faz a gente achar que não existe nada que possa ser comparável àquilo. E aí naturalmente a gente atribui todas as nossas características constitucionais mais ao escopo dos determinantes daquela relação. Mas não é verdade. O fato é que esse é um grau de parentesco, essa é uma relação extremamente importante na sociedade. E o que acontece é algo parecido com o que a gente vê em acidentes aéreos. Aliás, o Daniel Kahneman, que é um dos meus grandes heróis acadêmicos, explicou muito bem essa questão no domínio dos acidentes viajar de aéreas.
É o seguinte: voar de avião é mais seguro do que andar de carro. Só que quando cai um avião, vira notícia. Essa notícia captura a nossa atenção, a nossa memória. E aí a gente, quando vai pensar no avião, sofre um viés, que é o viés da disponibilidade. Aquilo tá mais disponível e a gente pensa que é mais perigoso. É por isso que as nossas mães pedem para a gente ligar quando a gente chegar do outro lado, mas nunca fazem isso quando a gente pega estrada, que é muito mais perigoso.
Para que, sei lá, as nossas, né? Você tá entendendo a brincadeira? E E aí tá a história do padrasto, né? Essa relação, ela não é uma relação estatística, ela é uma relação baseada em disponibilidade do exemplo e bom funcionamento numa mitologia muito forte, muito bem constituída, que enfim, ela vem desde a Idade Média ganhando novos episódios, novas versões, em que sempre o padrasto, que é o correlato da madrasta, é essa pessoa que tá lá para, em última análise, tornar a vida daquela criança ou adolescente um inferno.
Só que na grande realidade não é isso que a gente vê na prática. Muito pelo contrário, o mundo real mostra, os estudos sobre isso, o oposto: relações dedicadas e pessoas que estão amando por opção.
Sim, sim, a gente sabe que a experiência da paternidade, da maternidade, quando a gente olha para dados de realidade do Brasil, são muito diferentes, né? Mães são muito sobrecarregadas. E acabamos de dar o dado que mais de 1 milhão de crianças foram registradas sem o nome do pai na certidão. Então não são poucas as mulheres que são chefes de família, que criam seus filhos sozinhas. E quando a gente olha para maternidade, isso talvez ajude a explicar a diminuição da taxa de natalidade que a gente tá vendo no mundo inteiro, né?
Mais mulheres estão escolhendo não ser mães, mas também Mais homens estão deixando de ter filhos. O número de homens sem filhos também vem aumentando. O que é que acontece com um homem que não vai ser pai, Álvaro?
Essa pergunta altamente complexa, e o meu objetivo aqui é responder da maneira mais simples possível. Só que eu vou começar por um caminho que traz um pouquinho de complexidade. É o seguinte: você está absolutamente certa em dizer que existe um movimento feminino que em última análise determina, impacta as taxas de natalidade, destas mulheres que decidem não ser mães. Isso, assim, quando a gente compara as estatísticas, tá absolutamente correto, tá?
Esse é o dado, são muito mais mulheres que decidem isso do que homens. E a razão, no meu ponto de vista, aí a complexidade, ela remonta a uma questão que antecede a nossa própria espécie, que é a locação parental. O que acontece? O fardo da gravidez, né, eu sei lá se é um fardo ou um prazer, mas de todo modo é um investimento. E todo o processo de amamentação, todos os primeiros anos, o impacto disso na vida, vamos dizer assim, na sociedade, na capacidade de trabalhar, de gerar recurso, de se manter, de se manter autônomo, autônoma, tudo isso é bastante assimétrico.
Então é muito mais cômodo para o pai na média, exceto se esse pai tem uma responsabilidade internalizada, tá? Aí eu acho que o valor dos bons pais, porque se a gente olha nesse universo de pais por aí, nem todos têm essa internalização. Então eu acho que começando por esse ponto, tá bom, a gente tem uma diferença. E aí vem a grande questão que você trouxe, que pouco perguntada, né? Mas como é que essa história do cara sem filhos?
O meu ponto sobre isso volta à mesma questão da simetria, que é o seguinte: quando você vai medir as taxas de felicidade das mulheres sem filho e das mulheres com filhos, você vê que essas taxas são iguais quando elas estão separadas por faixas etárias. Não quer dizer que não tem ter filhos seja igualmente bom. Ou não, as coisas são diferentes, elas não são iguais. Algumas alegrias são perdidas, mas eventualmente um ganho em autonomia acaba tendo papel compensatório.
Tem uma longa literatura sobre isso. Mas no final das contas, um fator importante é: existe um estigma. Esse estigma é menor no caso do homem sem filhos, tá? E a grande diferença nos dois casos, e a gente tá tratando aqui tudo, né, tacitamente no universo heterossexual, e essa não é a realidade humana. Então a gente também tem pensar que existe estigmas assimétricos também entre homossexuais, bissexuais e assim por diante. Então o homem sem filho parece que encontra uma legitimidade social maior, é porque, vamos dizer assim, toda essa perspectiva da importância da espécie está na mulher, acaba sendo depositada como responsabilidade e peso. Tá aí a diferença.
Muito bem. Algo acrescentar, Álvaro?
Que eu adorei essa conversa.
Eu gostei também, gostei bastante. Conversas como essa com Álvaro você ouve toda quarta-feira aqui no Estúdio CBN, dentro do quadro Visões do Futuro. Obrigada, Álvaro, um beijão para você, até a semana que vem.
Obrigado, obrigado todo mundo que nos acompanhou, e um excelente Dia dos Pais.
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