Você já ouviu falar da ‘teoria do apego’?
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Beatriz Pacheco
Michel Alcoforado
- Teoria do Apego· SociedadeTeoria do apego·Teoria do Apego de John Bowlby e Fundamentos Científicos·Segurança emocional·Estilos de apego
- Desapego e rótulosRótulos·Astrologia·Narcisismo
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Pra Onde Vamos com Michel Alcoforado.
Fala, Michel, boa tarde.
Boa tarde, Tati, tudo bem?
Tudo bem, e com você?
Tudo bom? Tive que atrasar um pouquinho porque tava na Flipay. E aí, claro, muito legal, muito legal. Acho que vai até o final de semana. E aí participei de uma mesa agora com Chico Sá, foi muito divertido.
Chico é demais.
Quem tiver em São Paulo, vale a pena, hein? Vale a pena.
Flipay um dia aconteceu em Paraty, né? Aconteceu paralelamente. É, então acontecia paralelamente a Flip no Pontal ali na beira da praia. E era a festa, as festas mais legais eram lá. E acho que há uns 2 ou 3 anos ela acontece agora em São Paulo, né? Com mais ou menos o mesmo formato, né?
Debates, mesas, o mesmo formato, mesas, debates. E como funciona uma grande feira literária? Então as editoras estão lá oferecendo seus livros, alguns deles com desconto, mas é uma oportunidade de você encontrar seus autores preferidos. Aquele momento troca-troca Tati Bitati, que alegria te ver, aquela coisa. E aí você tem uma proximidade com quem você admira, né? Então eu sou fã desses eventos. E aí a Flipê me convidou, a gente falou tanto de Flip semana passada, falei que legal, vamos, vou pedir para Jana atrasar um pouquinho porque eu tenho que sair da mesa da Flipê.
Fez muito bem, fez muito bem. Festa literária pirata das editoras independentes. Frequentem a Flipê, a Flipê é demais. Mas vamos lá, você tá apegado a quê ultimamente, hein?
Olha, eu acho que se eu tivesse apegada a alguma coisa, minha vida ia estar mais tranquila. Eu tô desapegado demais, que eu tô apegado em tanta coisa que eu tô tendo que estar desapegado. Mas você, e você?
Eu tô, deixa eu ver aqui, que eu tô apegada. Aí não sei, Michel, acho que eu também tô numa fase de desapego, porque fiquei apegada muito a livros e ao meu trabalho e tal, e Agora que passou a Flip, eu tô apegada ao noticiário, né? Não tem como, eu fico apegada ao noticiário diariamente. Mas Michel vai partir da teoria, então, né? Sem dúvida, imagina, programação especial da CBN também já começando, de olho nas eleições. Tô apegada, tô apegada ao noticiário.
Mas a gente tá fazendo essa piadinha porque Michel vai partir da teoria do apego para explicar o nosso comportamento nas redes sociais. E quero começar te perguntando o que que é a teoria do apego e como é que ela foi parar no TikTok, Michel.
Então é mais uma dessas teorias que são produzidas e inventadas ou na universidade ou saem do mundo dos livros e chegam nas redes sociais, né? Pessoal aí que já deu umas apeadas, sei lá, uma brincada, sei lá qual é o verbo que usa para mexer no TikTok, já ouviu falar de capital cultural? Que é um desdobramento da teoria de um sociólogo francês chamado Pierre Bourdieu, que dá conta desse conjunto de experiências ou de saberes que você adquire ao longo da vida, que de algum modo vão te posicionar de um jeito melhor dentro da sociedade, dão ali algum estofo, reputação, alguma preponderância, protagonismo no jogo social.
Já falamos aqui tempos atrás da linguagem do amor, não sei se você pegou essa, que era Que tipo de amor você tá demonstrando pro outro? E aí fez um sucesso que é fruto de um livro, se eu não me engano, de um pastor americano dos anos 80. O livro flopou quando foi lançado, mas voltou agora nas redes sociais. E agora que tá bombando lá é o tal— Isso aí, bombou. Qual o amor você demonstra pro outro? Ah, eu demonstro cuidado, eu compro coisinha.
Fez um sucesso danado. E agora o que tá bombando é o da teoria do apego, que é uma teoria que foi inventada em 1950 por um psicólogo. Chamado John Bowlby. Esse psicólogo vai tentar partir do pressuposto de que nós humanos precisamos lidar com algum senso de segurança para fazer com que as nossas relações se desenvolvam ou evoluam, né? E ele parte do pressuposto, ou ele parte do princípio, de que se ele observasse a relação de crianças com seus cuidadores poderia ser um caminho interessante pra ele pensar nesses modelos de relação que os adultos vão levar ao longo da vida.
Ele diz que, olha, todo mundo precisa de um bocado de segurança, mas pra poder dar conta de acreditar na relação ou acreditar nas conexões emocionais que a gente faz com os outros. Tem gente que não consegue fazer isso de um jeito tranquilo. Então tem gente que é ansioso, que é aquele tipo de gente que precisa sempre de um viés de confirmação do outro. Para acreditar que tá sendo correspondido. E aí manda mensagem no Zap, te pergunta no DM.
É aquela coisa que certamente os ouvintes já enfrentaram, que é o fulano te manda um Zap, te manda um email e te liga para saber se tu recebeu o Zap e o email.
Gostoso, né?
É maravilhoso. É, ou você tem um viés que é um viés mais presente, a gente que vai em nome do medo do risco, do tipo de relação vai tentar preservar a própria intimidade. E tem um tipo de gente que é segura, que em geral são pessoas que confiam em si mesmas, tem uma certa autoestima para topar o risco de se relacionar com os outros. Para além de porque, se isso é verdade ou não, qual é o tipo de relação que você tem, eu quis trazer essa pauta aqui porque, para mostrar ou para a gente pensar junto, por que que esse tipo de debate tem nos interessado?
O primeiro ponto é que esse tipo de teoria tem feito um sucesso grande nas redes sociais? Porque a gente tá com uma dificuldade grande de nomear o conjunto de relações que a gente tem no dia a dia. E as plataformas digitais têm um papel nisso. Na medida em que os rituais que inauguravam as relações estão se esfacelando, a gente não comemora mais tanto aniversário, você não pede mais o outro em namoro. E aí, como não pede mais o outro em namoro, você não sabe mais quando a relação acabou.
A gente tem relações cada vez mais fluidas e elas não cabem mais nessas caixinhas ou não são combinadas antes de começar. As redes sociais ou a teoria do apego tem ajudado muita gente a definir que tipo de relação tá tendo com o outro, ainda que não seja combinada. É, ainda que não seja combinada. Então fala, ah, o outro tá me mandando muita DM ou muita mensagem no celular porque é um ansioso. Ah, o fulano é confiante demais. O outro tá se preservando.
Então, como essas categoriazinhas, ou se a gente for falar aqui de um jeito bonito, essa taxonomia tem nos ajudado a dar conta de explicar aquilo que não tinha muita explicação, né? Então a gente se vale dessas palavrinhas para entender ou dar significado para o outro. Um outro ponto importante é que esse modelo é interessante Porque ele vai mostrando também como os muros que separavam os saberes se esfacelaram nos últimos tempos, né?
A gente tinha essa coisa muito separada entre a universidade, o território do livro, da alta cultura, do saber científico, e aquilo que acontecia nas conversas mais comezinhas do dia a dia. Um lado positivo desse jogo é que as redes sociais derrubaram essas barreiras, e aí derrubaram essas barreiras ao ponto de qualquer pessoa que tá lá brincando de dancinha no TikTok pode acionar um conceito para ajudar a entender a própria vida.
Então não é a primeira teoria que apareceu, não será a última que vai aparecer, mas isso tem mais a ver com o jeito que a gente tá vivendo do que com a teoria em si.
Sem dúvida. E tô aqui pensando o que é que vem antes, Michel, porque é muito, dá muito alívio quando a gente encontra conceitos ou explicações para algo que a gente experienciou na vida, né? Que a gente viveu. Que prejuízos pode, podem ter o processo contrário? Eu diria que tentar viver o conceito, sabe, o conceito vir antes da experiência.
Eu vou falar uma coisa bonita agora, hein, que hoje eu tô falando palavras difíceis, tô achando legal demais, vai. É para ter tentando convencer seus ouvintes que eu estudei, sou intelectual. O ponto, o ponto é que toda vez que a gente descreve alguma coisa a gente também tá prescrevendo essa coisa. Que que é isso? Toda vez que eu nomeio alguma coisa, eu tô fazendo com que a realidade de alguma forma vá ter que se encaixar dentro daquilo que eu descrevi.
O sucesso desse tipo de nomenclatura ou de palavrinhas que vão surgindo dá um pouco desse tom, né? É quase como outras palavrinhas que rondam o nosso dia a dia, sei lá, Astrologia, você descobre que você é canceriano. Aí daqui a pouco, eu sou canceriano, daqui a pouco você começa, caiu o copo da tua mão, você fala, caiu porque eu sou canceriano. Você tropeçou na rua, você diz, eu tropecei porque eu sou canceriano. Ou uma outra palavrinha que rondou aí também de um jeito muito forte foi a ideia de, como é que é, mãe, a mãe não era psicopata não, a mãe era o quê, hein?
Era narcisista.
É isso aí, mãe narcisista. A mãe, sei lá, acordou um dia chateada, demorou mais sair do banheiro para te atender, o garoto já tava dizendo, a minha mãe narcisista. Esse tipo de jogo é um jogo que é meio que o contragolpe mesmo desse mundo que a gente tá vivendo, que se as relações não se enquadram mais no modelo como a gente conhecia, a gente precisa produzir novos discursos para enquadrar aquilo que a gente tá sentindo. Aí, na medida que você enquadra, automaticamente você começa a ter gente que vai se orientar por esses parâmetros e vai tentar viver uma vida que seja inteligível, né, o que seja possível de ser lida a partir desses jogos todos.
Muito bem. Michel Coforado tá conosco às segundas, quartas e sextas em Pra Onde Vamos, falando o quê? As nossas tendências de comportamento, para onde estão nos levando. Tenho medo da resposta que a gente pode chegar, né, Michel? Sempre a pergunta é ótima.
Vamos seguindo com as perguntas, que já tá, já tá complexo. Depois a gente começa a se preocupar com as respostas.
Muito bem. Beijo, Michel. Obrigada. Até sexta.
Beijo. Até sexta.