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Como o vício em bets está afetando o ambiente de trabalho

04 de agosto de 202613min
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Ana Leoni afirma que a ludopatia compromete a produtividade e defende que empresas adotem medidas de prevenção e acolhimento.

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Participantes neste episódio1
A

Ana Leoni

HostJornalista
Assuntos4
  • Impacto da IA no trabalho· TecnologiaProdutividade · Faltas no trabalho · Adiantamento salarial · Endividamento
  • Regulamentação de Apostas Online· NegociosLudopatia · OMS · Transtorno mental
  • Ações empresariais contra o vícioSaúde mental · Educação financeira · Apoio psicológico · Autoexclusão
  • Cobrança indevida de custos adicionaisViés do jogador · Aversão à perda
Transcrição12 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
ALAna Leoni

No fim das contas, hoje com a Ana Leone. Oi, Ana, boa tarde!

ALAna Leoni

Olá, tudo bem, Tati?

ALAna Leoni

Boa tarde, tudo joia! Bom, a gente volta a falar de apostas, volta a falar sobre bets, bets que movimentam cerca de R$30 bilhões por mês, tem um gasto médio mensal por apostador nos sites que são autorizados de aproximadamente R$164. Esses são dados do governo e do Banco Central. Mas bom, a gente já falou aqui em outros espaços sobre a armadilha que é você se meter num site de apostas, o alto potencial de vício que esses sites têm por causa da maneira como eles são configurados.

E um outro efeito cada vez mais visível começa a preocupar as empresas, os profissionais de saúde, os especialistas em finanças: o vício em jogos de azar e o prejuízo para funcionários. Como é que esse vício atinge a vida profissional das pessoas? Tem um levantamento novo, Ana?

ALAna Leoni

É isso, Tati. É até engraçado, até parece que a gente está vendo uma gravação dessa coluna, né? Total. Que a gente está gravando, que isso aqui vocês pegaram no arquivo e a gente está exatamente, mas não é verdade, infelizmente. A gente tem visto cada vez mais essa questão com tentáculos em todos os lugares e agora é o momento de falar como isso está afetando as empresas. Anos atrás eu escrevi uma coluna no Valor Invest que que o titular é o seguinte: educação financeira nas empresas não é filantropia.

E acho que é um pouco esse debate aqui, que as empresas estão vendo que além da baixa, do baixo letramento financeiro que pode afetar a vida financeira das pessoas e dos seus funcionários, né, porque todo funcionário por trás tem uma pessoa, a gente tá falando que agora os jogos estão afetando a produtividade das empresas. E é esse levantamento que foi feito pela Folha de São Paulo que mostra que essa dependência em apostas online tá deixando aí de ser apenas um problema problema individual e tá afetando também a produtividade das empresas.

Elas estão sentindo no bolso e também a saúde financeira dos seus funcionários, porque quando a gente fala em organizações, a gente tá falando de coisas que se complementam. Então a empresa precisa dos funcionários, funcionários precisam da empresa em alguma medida. Então uma coisa acaba afetando a outra. E o que que traz esse levantamento, né? Que há um aumento nas faltas no trabalho, quando a pessoa tem alguma, algum problema, algum vício, né, que é a tal ludopatia, que já tá até classificada e a OMS tá colocando isso como um transtorno mental, pedidos frequentes de adiantamento salarial, endividamento dos funcionários, em alguma medida as empresas conseguem observar isso, seja pela concessão do crédito consignado ou até mesmo por esses sinais, né, de pedir dinheiro emprestado, pedir dinheiro emprestado para algum colega, e a queda de produtividade devido ao uso compulsivo das bets.

Então esses aqui são alguns sinais que empresas estão começando a observar, que mostram aí essa dependência que tá afetando também a produtividade das empresas. Então tem dados do INSS que mostram que os afastamentos por transtornos relacionados a jogos cresceram aí 60% em 2025, passando de 425 para 679, que é um número muito baixo se você parar para pensar, mas o crescimento é imenso. Imenso. E há uma subnotificação também, Tati, porque esses dias eu tava conversando com uma especialista, uma psicóloga clínica que atende um centro de apoio ao apostador, e ela tava dizendo o quão constrangidas essas pessoas chegam, porque elas chegam nessa situação não querendo estar nelas.

Então há uma subnotificação. Então, mesmo ainda assim, né, desse crescimento de 60%, como você mesmo pontuou, é muito alto. É, o INSS afirma aí que esses números tendem a crescer à medida que também aumenta o diagnóstico da doença, porque é uma doença, gente. Essa dependência é uma doença, é uma dependência assim como outras, né, que a gente tem, químicas, a gente tem essa dependência psíquica que afeta aí essa compulsão que nos traz para os jogos.

Então o diagnóstico ele acaba ocorrendo quando o jogo passa a ocupar um espaço importante em áreas fundamentais da vida da pessoa, Então, como a família, como os relacionamentos, a pessoa se isola. Então há sinais e principalmente as empresas estão começando a observar esses sinais também. Então a gente tá vendo mais um ponto de ajuda para essas pessoas que precisam sair desse problema. E tem também um outro ponto, só para trazer mais um dado aqui para a gente debater, que é o seguinte: 82% das pessoas com transtorno do jogo apresentam também algum outro problema de saúde mental, ou depressão, ansiedade, dependência química.

Isso se agrava ainda mais com os impactos quando isso sai só do âmbito pessoal e passa para o âmbito profissional também.

ALAna Leoni

Totalmente. E aí eu tô pensando aqui, qual é a responsabilidade, o papel das empresas? Porque há, porque também é papel das empresas zelar pela saúde dos funcionários. O que que as empresas podem fazer em relação a isso, Ana?

ALAna Leoni

Olha, as empresas elas podem também colocar à disposição dos seus funcionários ajuda. A gente vê também empresas que se preocupando com a saúde mental, com a saúde física, propõem treinamentos para segurança do trabalho, por exemplo. E aí isso pode também ser levado para essa esfera dos jogos, né, das apostas. Então eu acho que o que as empresas têm que fazer? Observar mesmo e fazer cruzamento de dados. Tempos atrás eu vi um dado de uma metalúrgica super interessante, me impactou muito, que foi o seguinte: 80% das pessoas que sofriam um acidente de trabalho, e ali o acidente de trabalho não era né, um alerta, não era uma, era uma coisa de integridade física completa, punha a vida das pessoas em risco. 80% dessas pessoas que sofreram algum acidente de trabalho tinham problemas financeiros.

Então muitas vezes o financeiro pode ser um indício de que existam outros problemas. Então cruzar esses dados, as empresas que conseguirem observar mais os seus funcionários e olhar, né, ausência, pedido de empréstimo, afastamento, como sinais de que pode haver alguma coisa, Esse é um primeiro ponto. O segundo é promover ambientes de conversa, ter especialistas por perto, porque é uma especialidade multi, é uma multiespecialidade, precisa cuidar da parte financeira, psicológica, dar apoio e mais.

A gente não tá falando de uma coisa individual, Tati, a gente tá falando algo que afeta as famílias também. Então as empresas elas tem outras iniciativas que elas podem inspirar trabalhos mais voltados para ajudar os seus funcionários a melhorar essa situação. E tem um ponto, Tati, que é o que eu comentei, Laila, as empresas elas têm que olhar isso também primeiro do lado humano, porque eu acho que as organizações elas precisam ter essa preocupação, mas também é uma questão de melhorar a produtividade da própria companhia, porque essas pessoas elas não vão dar o seu melhor, elas estão com problemas sérios e isso elas não deixam em casa, elas levam para o trabalho.

ALAna Leoni

É que se a gente fala só de produtividade, você sabe melhor do que eu que vai acontecer com essas pessoas, né? Elas vão ser substituídas, a empresa não vai estar preocupada com a saúde delas, vai apenas descartá-las para contratar pessoas mais saudáveis. Enfim, que eu nem vou continuar porque o ritmo tá enlouquecendo todo mundo, né? Se não é pelo jogo, é por burnout, enfim, outras questões.

ALAna Leoni

Fico pensando se não fala, Ana, Mas se as empresas também não olharem disso de uma maneira muito séria, elas têm a perder, porque assim virão outras pessoas que também trarão essas questões. Então é claro que a gente tem que olhar de uma maneira muito mais holística, que é a palavra da moda, para essa situação, mas as empresas elas têm que se dar conta que é o papel delas sim, porque é papel delas operar no mercado, o papel delas é fazer tudo mais e cuidar de quem ajuda as empresas a crescer, né?

ALAna Leoni

Perfeito. Eu fico pensando se só, e aí só entre muitas aspas, porque a gente não tem nem isso, se só educação financeira é um antídoto suficiente para evitar o vício, para evitar dívida, para evitar cair no buraco das apostas?

ALAna Leoni

Não só, nenhuma. Acho que para uma questão tão complexa, Tati, não há uma solução simples, há soluções conjuntas, né, soluções somadas. Então aqui é claro que se a pessoa tem uma orientação profissionais para o aspecto financeiro é importante, mas o apoio psicológico e a busca por ajudas como centros de apoio aos apostadores, que para você ter uma ideia, né, a gente fala tanto, há tanto tempo dos Alcoólicos Anônimos, tem os Apostadores Anônimos, grupos que estão ali pessoas conjuntamente tentando resolver o problema.

E a educação financeira ela é uma parte disso, porque ela também cria guard-rails, né, proteções para que as pessoas consigam perceber os sinais. Mas até eu tava lendo hoje mesmo uma matéria que mostrou que a gente também acha que só acomete as pessoas de baixa renda ou aquelas pessoas que têm algum tipo de vulnerabilidade econômica, mas também não é por aí. Essa matéria que eu tava lendo é uma pessoa que perdeu R$4 milhões em jogos de aposta.

Então assim, era uma pessoa que tinha um recurso, tinha recursos, propriedades, mas precisou se desfazer de tudo. Porque tem um efeito também que aí, por isso ajuda, o apoio psicológico é importante. Tem um viés nosso que chama a falácia dos custos irrecuperáveis. Isso é bem interessante porque é o seguinte: é um erro que o nosso pensamento nos faz cometer, que é continuar um projeto ou uma situação ruim apenas porque a gente já gastou muito tempo naquilo, porque a gente já gastou muito dinheiro naquilo, energia.

Então, devido ao medo da gente admitir perdas e aversão que a gente tem muitas vezes ao desperdício e a perda, a gente fica ali colocando recursos adicionais para tentar recuperar. Então esse que é o conceito da falácia dos custos irrecuperáveis. Até alguns chamam que é o viés do jogador, que é aquela coisa: não, agora eu vou conseguir, agora eu vou recuperar. E aí quando você vê, você não perdeu só dinheiro, né? Você perdeu a sua saúde mental, você perdeu sua família.

A gente tem visto casos muito tristes. Então acho que o recado hoje aqui, Tati, é para a gente também chamar atenção das empresas que estão nos ouvindo. Observem os seus funcionários, Isso não é uma coisa trivial, é um diálogo que precisa ser aberto. As áreas de recursos humanos, elas são responsáveis por isso, mas não só. Acho que é uma consciência que todo mundo tem que ter. Inclusive, se você tá ali com uma pessoa que trabalha com você que tá mostrando esses sinais, aconselhe, indique essa pessoa a grupos de apoio, né?

A gente falou aqui já da autoexclusão, que é possível se colocar dos sites de aposta. Então, acho que É uma, é algo que do individual tá partindo para o coletivo e talvez seja o coletivo que vai ajudar a gente, né, a gente ajudar esses indivíduos. Então as empresas têm um papel muito legal e elas podem ajudar nessa luta.

ALAna Leoni

Ana Leone conosco hoje em No Fim das Contas. Obrigada, Ana, um beijo, até quinta.

ALAna Leoni

Até quinta, gente, um beijo.

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