A ausência da primeira pessoa do singular no modo imperativo
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
Professor Pasquale
Tatiana
- Ausência do imperativo na 1ª pessoaModo imperativo · Modo indicativo · Modo subjuntivo · Primeira pessoa do singular · Primeira pessoa do plural
- Poesia e Literatura· CulturaCaminhemos · Não se Mate · Caso Elisa Martins de Sousa · Marília Medalha · Carlos Drummond de Andrade
- Autocuidado e Acolhimento· SaudeAuto-organização individual · Autogerenciamento individual · Comunicação consigo mesmo
— Anúncios inseridos dinamicamente —
A nossa língua de todo dia com o Professor Pasquale.
Oi, professor, boa tarde.
Boa tarde, Tatiana. Boa tarde, ouvintes. Tatiana Boazinha, 20 anos, só 20.
Aqui eu tô aqui, né, no microfone. Mas vamos em frente, vamos para dúvida da nossa ouvinte de Curitiba.
Eu não sei, eu quero ver se você leu o nome dele.
Eu não sei se é Gertz, eu acho que é Gertz. Eu leria Gertz Vieira Goch.
Eu também, mas sem, com zero certeza.
É, eu também não tenho. E Gert, Gert, se você tiver ouvindo e eu tiver pronunciando seu nome errado, você me escreve, por favor, e me corrige, tá? Obrigada. Mas vamos lá. Ele gostaria de ouvi-lo, professor, sobre a ausência da primeira pessoa do singular no modo imperativo. Em especial, interessa-me as possíveis razões históricas dessa ausência, em suas consequências cognitivas num contexto contemporâneo em que a auto-organização e o autogerenciamento individuais são cada vez mais exigidos. Que texto é esse, gente? E ele tá dizendo aqui, o que ele diz é importante.
É, lembra o boletim de ontem do Alcoforado?
Ah, é verdade, é verdade. Ele diz que ele tem a percepção de que essa lacuna estrutural da língua acaba forçando o uso de alternativas linguísticas indiretas que atenuam a força expressiva e pragmática que o imperativo poderia oferecer? Vai, professor, pega que é sua.
É, a pergunta dele é excelente porque ele mistura, no bom sentido do verbo misturar, língua e realidade, né, que é o que tem que ser. É assim que a língua tem que ser vista, não é? E quando ele fala desse mundo de hoje, né, em que todo mundo precisa ser bom. Eu sugiro aos ouvintes que não ouviram o Alcoforado ontem que peguem lá o, como é que chama, o podcast, ou sei lá o quê.
Isso.
E isso, entrem lá e ouçam, porque é genial. Aliás, a nossa Carol também ontem teve um, o boletim dela foi magnífico também. Pode entrar um pouco nesse nesse território, né? A questão é a seguinte: eu fui até fazer uma pesquisa em outras línguas para ver como isso funciona. O imperativo, para quem não sabe, o modo imperativo, são 3 os modos verbais: o modo indicativo, o modo subjuntivo e o modo imperativo. Indicativo é quando o processo é posto no plano da realidade.
Eu faço, eu estudo, eu estudava, eu estudei, etc. e tal. O subjuntivo, que também se chama conjuntivo, em Portugal chamam mais de conjuntivo do que de subjuntivo, em italiano é congiuntivo. O subjuntivo é a hipótese. Ela quer que eu faça. O fato dela querer que eu faça não quer dizer que eu vá fazer, né? E o imperativo, como o nome já diz, né, imperativo é da mesma família de imperador, de imperar. O imperativo é a ordem, é o comando, é o pedido, né.
Então, teoricamente, eu dou ordem para quem? Para mim mesmo? Eu não preciso dizer, né, para mim mesmo que devo fazer tal coisa, né. Não mando, não me mando fazer.
Eu às vezes preciso, viu, professor, mas eu compreendo linguisticamente o que é que o senhor tá dizendo.
Mas aí eu vou te fazer uma pergunta. Quando entrar o Drummond, eu vou te fazer uma pergunta que eu aposto que você vai dizer. Eu aposto qual será a sua resposta, né? Então vamos primeiro para o primeiro auxílio para ver uma coisa muito interessante: o imperativo na primeira do plural, né? Primeira do singular, eu, a gente acaba de ver. Eu disse Isso nas outras línguas também é assim, não há essa forma da primeira do singular eu do imperativo.
Em português não há, em espanhol não há, e por aí vai, tá? Agora vamos ver nessa música, cujo título eu não vou dizer, que senão dou spoiler, composição de Erivelto Martins, do grande compositor Erivelto Martins, interpretação de Marília Medalha. Eu adoro a Marília Medalha, um beijo para Amarilha Medalha, do disco Caminhada, de 1973. Vamos lá.
Não, eu não posso lembrar que te amei. Não, eu preciso esquecer que sofri. Faça de conta que o tempo passou e que tudo entre nós terminou, e que a vida não continuou para nós dois. Caminhemos, talvez nos vejamos.
Depois, tá, faça de conta, caminhemos, caminhemos.
Faça de conta, faça de conta você, né? Faça você, tô mandando você fazer de conta, ou tô pedindo a você que faça de conta. E depois caminhemos nós, você e eu, caminhemos. Isso é uma ordem, é um pedido. Então note que na primeira do plural o eu tá incluído, mas o eu sozinho não, né? Eu não dou essa ordem para mim mesmo. Caminhemos, talvez nos vejamos. Esse vejamos não é imperativo, esse vejamos é subjuntivo. Existe a possibilidade de nos vermos depois.
Por enquanto, caminhemos. Estou dando, senão uma ordem, uma sugestão. Esse é imperativo da primeira do plural. Agora vamos rapidamente para um texto de Carlos Drummond de Andrade chamado Não se Mate, um poema antológico dele, que a gente vai ouvir na voz de um português que eu não consegui saber quem é. É um site chamado Mundo dos Poemas, nem eles dizem quem são, né? Prestem atenção no texto do poema de Drummond. Vamos lá.
Sossegue.
O amor é isso que você está vendo. Hoje beija, amanhã não beija. Depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será. Inútil você resistir ou mesmo suicidar-se. Não se mate, oh, não se mate. Reserve-se todo Para as bodas que ninguém sabe quando virão, se é que virão. O amor, Carlos, você telúrico, a noite passou em você e os recalques se sublimando lá dentro, um barulho inefável, rezas, vitrolas, santos que se persignam, anúncios do melhor sabão, Barulho que ninguém sabe de quê, para quê.
Entretanto você caminha melancólico e vertical. Você é a palmeira, você é o grito que ninguém ouviu no teatro e as luzes todas se apagam. O amor no escuro, não, no claro, é sempre triste, meu filho. Carlos, mas não diga nada a ninguém. Ninguém sabe nem sabrá.
Isso é um primor de texto, é para a gente aprender a existir, né? Como é que o Drummond fez para falar dele mesmo, né? É o que você faz, Tati Apóstolo, quando você precisa dar ordem para você. Como é que você fala?
Como é que eu falo? Ah, eu acho que Tatiana, por favor, não vai esquecer, hein?
Então tá vendo? É uma imperatriz, é um jeito de você dar ordem para você mesma, mas na terceira pessoa você se distancia. É como o Drummond fazia, tá? Vários poemas dele em que ele usa Carlos para falar dele mesmo, ou seja, em vez de eu Né, Carlos, né? E por aí vai. Certamente é assim que a gente faz no dia a dia, né? Você deve dizer isso diante do espelho: Tatiana, não se esqueça de que hoje à tarde você tem de apresentar o quadro A Nossa Língua de Todo Dia. Pronto, é isso.
Muito bem, muito bem. Se você tem dúvidas sobre a língua portuguesa, você pode mandar a sua dúvida, o seu questionamento, sua pergunta por email para o professor Pasquale em anossalingua, tudo junto, sem acento, @cbn.com.br. Obrigada, professor, um beijo, até amanhã.
Beijo para você, querida Tati, beijo para os ouvintes.