Elon Musk não fascina o planeta, nós é que temos fome de futuro
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- Figuras Admiradas e Aspirações PessoaisElon Musk · Steve Jobs · Henry Ford · Invenções de Thomas Edison · Mito de Prometeu · Arquétipos junguianos
- Admiração por ídolos· SociedadeExpectativa e decepção · Inveja e admiração · Transgressão e liberdade
- Falta de autoria coletivaBusca por líderes · Órfãos de projeto coletivo · Responsabilidade individual
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Refletir para Viver com Rosandro Klinger.
Elon Musk, muito obrigado por se juntar a mim no Insider. Obrigado por nos receber aqui na Tesla Giga. É muito difícil te apresentar sem usar superlativos. Digo, você tá fazendo, eu acho, mais para construir o futuro do que qualquer pessoa viva agora. Eu construo muitas coisas. Você constrói muita coisa.
Construtor instintivo, eu suponho. Assisti semana passada a uma entrevista de Elon Musk num podcast da revista The Economist e fiquei com uma pergunta na cabeça: por que personagens assim fascinam tanto a humanidade? Ele é só o exemplar da vez. Antes dele foi Steve Jobs, tivemos Henry Ford, Thomas Edison, e por aí vai. A humanidade sempre elege um homem para carregar um mito antigo, e o mito que o Musk encena sem saber é o mais velho de todos: o mito de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses para entregar aos homens e foi castigado por isso.
Jung, O psiquiatra suíço que estudou os padrões que se repetem na alma humana há milênios chamava isso de arquétipo, uma forma antiga que fica esperando alguém de carne e osso para vestir. O mans que veste prometeu com desenvoltura: foguete, chip no cérebro, promessa de Marte, carros elétricos, robôs. Ele rouba o fogo e a plateia, que somos nós, fica dividida entre o aplauso e a espera da queda. O fascínio tem essas duas mãos.
O mesmo público que fez fila para comprar Tesla comemora quando um foguete explode. O ídolo carrega a nossa grandiosidade e carrega também a nossa inveja. A gente empresta a ele o sonho e cobra com juros o fracasso. Tem ainda o ingrediente da transgressão. Ele quebra protocolo, responde ministro, ri em audiência, Vários casamentos e filhos. E nossa sociedade cansada de regra termina por confundir transgressão com liberdade. O homem que não se comporta bem parece mais livre que a gente, mesmo quando é só mais impulsivo.
Agora, o detalhe que quase ninguém quer encarar: o fascínio diz pouco sobre o Musk e muito sobre a plateia. Um homem sozinho não fascina um planeta. Agora, um planeta órfão de projeto coletivo, assistindo a ordem mundial que conhecíamos se desfazer, procura desesperadamente por um pai que aponte para o céu, ou que ao menos pareça ter uma bússola na mão. E nesse rastro, populistas de todos os espectros políticos vão surgindo, cada um com sua promessa de salvação, todos cumprindo no fim a mesma função: nos decepcionar de novo.
O que falta não é líder, mas sim autoria. Mais responsabilidade de cada um sobre a própria vida e menos expectativa depositada em figuras externas que, por mais brilhantes que sejam em alguns aspectos, carregam no fundo um projeto que não é nosso, é de ego. E ego, minha gente, não divide trono com ninguém. Ninguém aponta para o céu por você. O caminho, no fim, sempre foi tarefa de quem caminha.