A crise imigratória em Ceuta
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Tati
Filipe Figueiredo
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Olá, Tati, boa tarde a todos os nossos ouvintes. E eu endosso a sua sugestão de date com vacina, não é? Ah, quero deixar, deixar aqui o meu endosso para sua sugestão.
Date com vacina. Eu tava falando para os ouvintes de São Paulo que tá com uma campanha, a cidade de São Paulo e alguns municípios também, campanha contra o sarampo, né? E minha sugestão foi Convida alguém para ir se vacinar com você, um amigo, uma amiga, sua namorada, o seu namorado. Vai tomar um cafezinho depois. Muito bem, vamos falar sobre crise migratória do Marrocos para Espanha. Cerca de, essa estimativa, né, 50 mil pessoas.
A estimativa é de que 50 mil pessoas tenham cruzado do Marrocos para Ceuta na semana passada. Esse é o assunto do Felipe Figueiredo hoje. Eu quero começar te perguntando o que é que provocou essa crise migratória, Felipe? E para quem chegou de Marte hoje, conta rapidinho o que que aconteceu para o nosso ouvinte.
Então vamos lá, Tati. A sua pergunta inicial, ela é muito boa, porque a gente tem que registrar que além de serem, terem sido entre 50 e 60 mil pessoas, pelo menos 72 pessoas morreram nesse processo, tá? Essas pessoas, elas eram divididas basicamente em dois grupos principais: jovens marroquinos desiludidos com a economia do seu país, desiludidos com o autoritarismo do seu governo. O Marrocos tem um altíssimo índice de desemprego entre jovens.
E também pessoas, outras pessoas do continente africano, especialmente da África subsaariana, que são atraídas ao Marrocos muitas vezes por gangues de tráfico de pessoas, sobre a promessa de uma travessia fácil para a Espanha e consequentemente para o Eldorado da União Europeia. Mas nós precisamos destacar, né, Tati, que 50 mil pessoas se deslocarem em apenas um dia dificilmente é um evento orgânico, né? Para 50 mil pessoas se deslocarem em apenas um dia, apenas algumas horas, você tem que ter um evento catalisador disso, nem que seja um evento esportivo, por exemplo, até eventos trágicos.
E nesse caso, muito provavelmente, nós tivemos uma instrumentalização, infelizmente, do estado e do desespero dessas pessoas por agentes interessados nessa instrumentalização. Infelizmente, também não é algo inédito, nem nessa fronteira entre Marrocos e Ceuta, nem no mundo, né? Para ficar com alguns exemplos recentes, tivemos Bela utilizando migrantes contra os países vizinhos da OTAN. E temos a Turquia utilizando os sírios como arma de barganha ali em negociações e pressão contra a União Europeia.
A situação legal de Ceuta— Ceuta é uma cidade europeia— o que é que vai ser feito com essas pessoas? 50 mil pessoas chegando ali. E por que ela tem uma importância geopolítica a partir da sua localização geográfica?
Então, Tati, nós temos duas cidades autônomas da Espanha chamadas Ceuta e Melilla, que ficam no norte do continente africano. Ceuta inclusive tem um papel muito importante na história brasileira, né? O nosso ouvinte talvez se lembre de Ceuta de alguma aula de história, porque Ceuta é conquistada inicialmente pelos portugueses em 1415 e nesse processo de expansão que vai culminar nas chamadas Grandes Navegações, incluindo aí a colonização do Brasil.
Mas enfim, o ponto é: Ceuta e Melilla são duas cidades autônomas da Espanha. E um detalhe muito importante, Tati, que tem muita desinformação correndo por aí: nem Ceuta nem Melilla fazem parte completa do Espaço Schengen, aquele espaço unido da União Europeia. Isso significa que de Ceuta para o território espanhol, existem sim controles migratórios, controles fronteiriços. Então, uma pessoa chegar no território de Ceuta não significa necessariamente que ela entrou na Espanha continental ou que ela vai ter livre acesso ao restante do território europeu.
Ceuta e Melilla têm um estado autônomo dentro da Espanha. Isso é utilizado pelos repetidos governos espanhóis, inclusive, como argumento para negar que seria um status colonial, que seriam cidades coloniais, que seria um resquício colonial. Algo do tipo. E você mencionou a importância geopolítica. Por que então, mesmo depois do franquismo, mesmo depois da descolonização, a Espanha manteve esses territórios e fez questão de manter esses territórios?
Isso é importantíssimo. Ceuta é a outra margem do Estreito de Gibraltar. A partir de Ceuta, um país consegue ter uma pressão enorme, uma ferramenta de controle sobre toda embarcação que entra e sai do Mar Mediterrâneo, tá? Isso torna Ceuta tão importante. E finalmente, você perguntou da questão do estado legal dessas pessoas, tá? A maioria das pessoas que entram nos territórios espanhóis localizados na África, elas são devolvidas imediatamente, tá?
É um processo que é chamado justamente de devolução expressa, né? Então, a ideia de que você tem um migrante tentando entrar pela cerca, você simplesmente o agente espanhol tem o direito, pelas leis espanholas, de simplesmente empurrar essa pessoa ou então prender essa pessoa e imediatamente colocá-la por lado de fora dessa cerca. Mas os que chegam pelo mar, e muitas dessas dezenas de milhares de pessoas foram para Ceuta a nado, tá, precisam ser recebidas e processadas pelo processo devido legal, especialmente se menores de idade desacompanhados.
Por isso que, embora a a maioria, a imensa maioria das pessoas já tenha retornado para o Marrocos. Algumas pessoas, um número que ainda está impreciso, está sim em Ceuta, sendo, tendo suas condições adequadas pelas autoridades espanholas, e expandir a barreira marítima para impedir um evento desse tipo no futuro.
Rapidamente para a gente se despedir, Felipe, voltando para o começo, os eventuais interesses por trás desse episódio, dessa crise migratória. Boa parte das pessoas que chegaram a Ceuta já voltaram ao Marrocos, né, graças à ação de autoridades espanholas e também marroquinas. O que é que tá por trás desse movimento? Porque, como você disse, não é— é muito difícil de achar orgânico um movimento de êxodo de 50 mil pessoas de um lugar para outro Sobretudo com essa importância geopolítica que você traz para gente?
Então, Tati, nos resta especular. Algumas especulações têm mais substância, outras menos, mas ao meu ver, tá, na minha visão de analista, o principal catalisador desse evento foi o fato de que na segunda-feira, dia 20, ou seja, 10 dias antes desse episódio, o primeiro-ministro da Espanha visitou a Argélia. Argélia é o maior fornecedor fornecedor de gás da Espanha. Argélia é um vizinho rival e adversário do Marrocos, e as relações entre Espanha e Argélia estavam estremecidas porque a Espanha passou a admitir o plano de autonomia do Marrocos do Saara Ocidental, completamente rejeitado pela Argélia.
E aí entramos nessa segunda camada, né, de interesses, que é Marrocos. O Marrocos reivindica o Saara Ocidental Essa reivindicação é apoiada pelo governo Donald Trump, que a reconheceu, e também por Israel, como parte da barganha para o reconhecimento de Israel pelo Marrocos durante os Acordos de Abraão. Então o Marrocos está no momento estremecido com a Espanha e tem apoio nesse momento dos Estados Unidos e de Israel, que são dois países que também estão em um momento negativo de relações com a Espanha.
E finalmente, nós não podemos deixar de destacar o fato de que essas imagens que nós vimos dia 30 de julho serão muito influentes nos debates migratórios dentro da União Europeia. Normalmente, esses debates anti-imigração conduzidos por partidos tanto conservadores clássicos, mas também partidos de extrema-direita, que hoje contam com a simpatia do governo Donald Trump, para uma tentativa de influência do debate político dentro da União Europeia.
No caso espanhol, esse papel é desempenhado pelo Vox, o partido neofranquista da Espanha.
Perfeitamente. Felipe Figueiredo conosco toda segunda-feira no nosso CBN Pelo Mundo, hoje explicando, contextualizando e analisando a crise migratória em Ceuta. Obrigada, Felipe, um beijo para você, até a semana que vem.
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