Em busca do plot twist: por que estamos perdendo a capacidade de viver um amor tranquilo?
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
Carol Tilkian
Tati
- Firmeza vs. FrouxidãoLógica das séries e entretenimento · Gratificação imediata · Expectativa vs. realidade nas relações
- Implicações futuras para o RealAmor metonímico e idealização · Compulsão à repetição freudiana · Evitar o real e o ambíguo
- O perigo do consumo de conteúdo rápido e vicianteVelocidade 2.0 nas interações · Pular introduções e contextos · Gamificação do prazer
- Intimidade, desejo e contradições· SociedadeConfusão entre intensidade e intimidade · O valor do toque sutil · Trabalho do negativo em relações
— Anúncios inseridos dinamicamente —
CBN Amores Possíveis com Carol Tioquinha.
Carol, boa tarde!
Boa tarde, Tati! Boa tarde, ouvintes!
Carolina vem aqui se debruçar sobre a tese de que não conseguimos mais viver um amor tranquilo. Tanta gente buscando um amor tranquilo e você tá me dizendo aqui que as pessoas estão o quê, procurando plot twists na vida?
Exatamente. Adoraria fazer um feat com Patrícia Kogut, colunista de vocês, para a gente analisar as séries mesmo, né? Esse insight surgiu de uma conversa com Arthur Pires, que é jornalista, dramaturgo. Queria mandar um beijo para ele no ar. Ele tá fazendo um curso de desenvolvimento de roteiros e a gente começou a analisar o quanto a lógica das novelas verticais, e não só as novelas verticais, né, mas a lógica do entretenimento que a gente tem consumido essa lógica dos plot twists, das reviravoltas, né?
Então é uma mulher que de repente é traída, perde o emprego, aí ela reencontra o pai que ela achou que tava morto, aí ela percebe que o homem que ela se apaixonou é o tio dela e que esse tio é o dono da empresa que demitiu ela, e de repente ela tem uma irmã gêmea que está do outro lado do país. E a gente vai sempre atrás do gancho, do gancho, do gancho. As séries que a gente tá assistindo no streaming terminam com uma grande tensão.
E aí você vê o próximo episódio, o próximo episódio tem sempre um gancho pra te deixar naquele estado de tensão e consumir um pouco mais. O botão de pular a introdução, pra mim isso é muito simbólico das nossas relações, que a gente quer pular. Então, porque a gente não quer perder tempo, velocidade 2. Eu já contei essa história aqui, ó.
Mas eu não vejo nada em velocidade 2, não. Eu vou desfrutando aos poucos. Mas introdução não precisa, né?
Pula a abertura.
Vou ficar vendo abertura a cada episódio? Não precisa, né? Imagina a musiquinha do White Lotus a cada episódio. Pula.
Mas tem algo do criar o contexto, criar pensando no panorama da casa, tá abrindo a cortina. Exatamente. Criar atmosfera é o respirar, é o você chegou no encontro, desliga o celular. Talvez aquele começo, os primeiros minutos, a conversa seja meio truncada mesmo, seja a introdução do White Lotus. A gente já quer que seja a conversa que engate no profundo, que já seja, já me mostra logo o que vai acontecer, né? O que eu quero provocar é a gente pensar o quanto a gente tá tanto É isso.
Pulando a introdução, vendo as coisas velocidade 2, com episódios e séries que têm que ser cada vez— as novelas brasileiras estão ficando cada vez mais curtas, as comidas têm que ser mais crocantes, mais recheadas, agora com mais proteína, os títulos têm que prometer grandes revelações. A gente tá vivendo num mundo onde a gente consome o prazer com cada vez mais contraste e menos cérebro, né?
Porque tá tudo derretido.
Isso tá afetando a forma como a gente lida com o prazer das relações. Então até queria perguntar para os ouvintes o quanto muitas vezes eles já se desanimaram em relações amorosas ou em amizades porque parecia que tava morno. Eu tenho ouvido isso muito na clínica, de, putz, mas é que eu saí uma, duas vezes com essa pessoa e não foi tão legal, ou, ah, eu saí para jantar com as minhas amigas, mas senti que o papo não engrenou, como se todo encontro precisasse ser um acontecimento, como diz Marina Lima, eu espero acontecimentos.
E o que eu percebo é que a gente tá vivendo uma sociedade apaixonada pela expectativa. Muito se vem discutindo sobre a dopamina, né, A Nação Dopamina, que é o livro da Anne Lembke, mostra o quanto a própria lógica da gamificação faz com que a gente fique viciado nesse prazer constante. Mas acho que mais do que a dopamina, que é esse prazer imediato, Tem algo que acho que tem muito a ver com Freud, com a psicanálise, que é entender o quanto o nosso prazer é muito mobilizado pela antecipação.
O desejo, ele é sempre o desejo da falta, é o que ainda não está, né? E a nossa indústria do entretenimento tá aprendendo a fabricar essas faltas artificiais. É o que que vai acontecer Será que ela foi traída ou não foi? E a gente tá buscando essas grandes reviravoltas nas nossas relações. O que que eu percebo? É que as pessoas estão cada vez mais envolvidas com as promessas do que com os encontros. Então, as primeiras mensagens, e aí de repente o encontro, ah, não era bem isso que eu esperava, ou Você tem pessoas que têm, a gente até já falou aqui na coluna, esses namoros virtuais há anos, porque ali tem uma tensão, tem a troca dos nudes ou das mensagens sensuais, e você vai criando essa sua narrativa ficcional.
Mas a hora que você vê a pessoa, tem dias que vão ser intensos, dias que vão ser mais ou menos, que você chegou de um dia chato no trabalho, que você tá de mau humor. E eu vejo as pessoas mais envolvidas com: será que ele vai responder? Será que ela vai responder? O beijo que talvez aconteça? Será que ele vai me convidar para dormir aqui ou não? É muito mais o envolvimento com as possibilidades do que com as pessoas. E a gente tá ficando muito viciado nesses infinitos futuros imaginários.
Eu tô vendo pessoas cada vez mais eternos, serial first daters. A gente tá com eternos começos. Então começos de amizade, começos de relações conjugais. Porque no começo, o outro, como a gente ainda não conhece ele, é só um ideal. Ele é só um ideal, ele é só uma grande base de um amor metonímico, né? Que eu brinco que a gente toma parte pelo todo. Então eu pego pequenos traços e coloco ele nesse ideal.
Invento uma pessoa.
Exatamente. E o que eu quero provocar é o quanto esse vício desse plot twist externo, né, do não, mas eu já queria, eu tava, eu tô agora com uma nova analisanda que ela tava falando, acho que eu sempre fui, sempre busquei a próxima fase. Que é bom. Então quando a gente vai namorar? Mas quando a gente vai morar junto? Mas quando a gente vai ter filhos? Como se fosse isso, um eterno game de que você precisa passar para uma próxima fase. A gente tá assim também numa fase.
Até chegar onde, Carol?
Tem um lugar a chegar? É sempre essa insatisfação. E o que eu sinto é a gente nem tá chegando, porque você fala tá demorando demais. Vou buscar o próximo emprego. É a nossa era de estagiar os presidentes. Eu já quero ser promovido, promovido, promovido. Então, o que a mudança desses cenários externos em busca de pessoas que me deem mais frio na barriga, de amizades que mergulhem mais profundamente, de empregos e chefes que me valorizem e façam minha carreira crescer exponencialmente, estão escondendo uma compulsão à repetição, que é um conceito freudiano que eu trago muito aqui, que é: muda o parceiro, muda a cidade, muda o trabalho, mas a gente tá sempre evitando o real, o ambíguo, o morno, o que hesita, o tédio.
As relações são permeadas por tédio, são esticadas. Tem dias de introdução, Tati, que assim, ai, de novo para a gente chegar naquele assunto delicado? Essa minha amiga vai contar sobre o episódio da série que ela viu. Eu já sei que ela tá tateando ali para entrar no nosso assunto polêmico. Talvez a vida precise de introduções, porque a gente tem medo de falar sobre a crise conjugal ou trazer um assunto tenso para roda de amigas.
A vida comum é talvez na velocidade 0,5, é cheia de introdução, é sem plot twist. Eu acho que a gente tem que poder se perguntar o quanto a gente tá confundindo intensidade com intimidade e se cobrando também uma lógica performática. Porque se eu tô esperando que tudo seja um acontecimento, eu recebo as minhas amigas em casa e eu quero que seja um grande programa para eu abrir um grande vinho e cozinhar uma grande coisa, e o assunto tem que ser maravilhoso.
E todas têm que sair profundamente transformadas.
Exatamente.
Às vezes vai todo mundo de pijama, a gente vai comer um delivery do que der, vai tomar o vinho que tem e vai chorar as pitangas e se amar.
E tudo bem, né?
Que delícia!
É uma delícia. Eu acho que é isso, a gente tá de novo ficando viciado nos contrastes e daí tá achando O rotineiro sem sal. Tem algo do poder degustar o picante, mas também poder degustar o chá que é sem muito adoçante. A relação que é tocada e não capturada. Acho bonito a gente pensar como muitos casais estão buscando fazer cursos de Tantra e pensar na massagem tântrica como a volta do toque sutil. A gente tá se esquivando do toque sutil nas nossas relações.
É isso, o sexo precisa ser muito performático, a minha apresentação do trabalho precisa ser muito contundente. E aí a gente tá buscando contrastes, explosões, revelações. E acho que o amor, as relações se dão no café que é repetido, no toque sutil, na doença que a gente atravessa juntos, num episódio que se alonga, né, em momentos onde a gente é testemunha e não autor de reviravolta. A construção da confiança também se dá quando a gente para de exigir que o outro performe, performe, performe.
É, a gente pode ser É, fiz o que pude e pude pouco. A gente tem que poder pouco nas nossas relações, tem que poder voltar a dar temporalidade de elaboração. Às vezes a gente vai ficar em crise no casamento por 3 anos e a gente já quer ou resolver ou achar um novo amor e largar tudo e também superar esse casamento e nunca mais pensar no ex-marido. Não é assim, né? Eu quero que a gente possa— queria fechar a coluna com o conceito do André Green, que eu gosto muito, que é o trabalho do negativo.
Ele fala que a vida psíquica não se organiza só pelo que tá presente, mas exatamente pela nossa capacidade de suportar ausência, a espera, o silêncio, os intervalos. E a gente pensa o negativo como algo ruim, né? A conta bancária negativa, o saldo negativo. E o negativo não é sofrimento, é a condição. Exatamente, não necessariamente. A condição para que o desejo continue vivo é a capacidade da gente esperar sem saber, de não poder assistir o próximo episódio, de não terminar com uma grande frase de efeito.
Porque muitas vezes eu vejo isso também nos começos de relação. A gente já quer sair do segundo encontro marcando o próximo programa para você ficar menos ansiosa de será que vai ter ou não. Eu fazia isso na minha vida pessoal, eu já falava de um filme que ia lançar na semana que vem, porque aí eu tinha um gancho certo para puxar assunto com o cara. Talvez você vá sair do encontro sem um gancho de assunto e esse gancho vai surgir.
Menos planejamento e mais organicidade, né? A gente precisa é pensar menos e parar para se ouvir, o que a gente tá sentindo, né? Parar de agir de acordo com um ideal ou uma performance. Eu tenho um pouco a impressão de quando a gente pensa muito no que a gente vai fazer ou no que a gente gostaria de fazer, ou a metonímia que você citou, quer dizer, duas ou três coisas, você já constrói ali uma pessoa. Isso tudo também dificulta a gente de viver o que é.
De enxergar o que tá se apresentando na sua frente. Está tão preocupado idealizando aquilo que você não enxerga o que tá ali. E aí fica difícil, né?
E de poder descuidar, né? Eu penso de Guimarães Rosa, que a felicidade se dá nas horinhas de descuido. A gente precisa estar descuidado. Eu amo a intensidade, as cores de Almodóvar, mas que a gente também possa ver a beleza no mundano, no ordinário. No rotineiro, tedioso, que a gente baixe, é que a gente baixe o volume e as expectativas.
Muito bom. Carol Chuquiã tá conosco toda segunda-feira para a gente começar a semana falando de amor. Sabe quem tá na nossa escuta? Audiência qualificada é para quem tem. Jornalista, escritora, professora Bianca Santana ouvindo muito atentamente o que a senhorita está dizendo, Carolina.
Então, maravilhoso, Bianca, te admiro demais, um beijo enorme. E vou adorar. Vamos fazer esse date com Patrícia para a gente fazer uma análise do quanto as séries estão ficando cada vez mais intensas e que tipo de série pode—
Está lançado o desafio.
Vamos convidá-la para cá para a gente fazer um trizal ou um quadrizal ou um poliamor. Eu, você, ela e Fernando.
Meu Deus do céu, quanta gente! Não sei se eu dou conta. Tá bom. Um beijo, Carol. Obrigada por hoje. Boa semana para a gente. Bianca, um beijo. Obrigada pela companhia.