Episódios de Comentaristas

A vida sob um holofote imaginário

03 de agosto de 202612min
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Você já deixou de usar uma roupa, publicar uma foto ou fazer uma pergunta porque imaginou que todos reparariam? A psicologia mostra que costumamos aumentar essa audiência, com o chamado efeito holofote, essa plateia imaginária que influencia escolhas concretas.

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Participantes neste episódio2
B

Beatriz Pacheco

HostJornalista
C

Carlos Eduardo Éboli

HostJornalista
Assuntos4
  • Efeito HolofoteEfeito Holofote · Universidade de Cornell · Bob Marley · Martin Luther King Jr.
  • Relação de audiência com ElisPercepção da audiência · Redes sociais · Big Brother Brasil
  • Plataformas Digitais· TecnologiaPlataformas digitais · Mobilidade urbana e acesso · Redes sociais
  • Morte e Luto· SociedadeLuto · Perda
Transcrição24 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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?Voz 1

Pra Onde Vamos com Michel Alcoforado. Fala, Michel, boa tarde!

?Voz 2

Boa tarde, Tati, tudo bem?

?Voz 1

Tudo joia, e com você?

?Voz 2

Tudo bom, tudo indo bem.

?Voz 1

Bom, Michel hoje vai falar sobre viver sob holofotes, e aqui tô pensando que todo mundo já achou que tava sob um ou mais de um em algum ou em alguns momentos da vida. A gente sempre tem que lembrar que a gente não é tão importante assim e que talvez as pessoas não estejam reparando na gente porque elas estão muito ocupadas cuidando da vida delas. Aliás, eu queria que isso fosse inclusive mais praticado, que as pessoas cuidassem mais da própria vida mesmo.

?Voz 2

Mas vamos lá, Michel, todo mundo, né?

?Voz 1

Que porta você abre a partir desse holofote?

?Voz 2

Então, todo mundo aqui já teve um momento na vida onde teve certeza que o mundo tinha parado só para observar o que que você tava fazendo. E a gente achava que isso era culpa da imaturidade, que isso era culpa da pouca idade, Porque ao longo do tempo, na medida em que você vai ganhando algum couro diante da vida, você vai se preocupando menos com a opinião dos outros. E o que é, de algum modo, verdade, mas todo mundo aqui sabe que mesmo com o passar do tempo a gente está sempre de olho no que os outros estão pensando ou imaginando o que que os outros estão pensando.

Isso parecia coisa da nossa cabeça, mas, ó, uma pesquisa feita pela Universidade de Cornell, que é considerada uma das melhores universidades americanas, mostrou que é verdade, boa parte dos jovens americanos passam por isso, mas ao mesmo tempo eles estão se preocupando com coisa que não deveriam estar se preocupando. Vou contar um pouquinho do experimento, tá? Esses pesquisadores da Universidade Cornell fizeram um seguinte experimento com os jovens lá, com os estudantes da universidade.

Eles botaram eles com uma camisa de um personagem assim de gosto duvidoso, O que certamente fariam eles passarem vergonha ou achar que estavam passando vergonha. E aí eles perguntaram para esses jovens, antes de botar eles numa sala com vários observadores, o quanto que, quantos, qual a porcentagem daquelas pessoas que estavam ali na sala iam reparar que eles estavam com aquela camisa vergonhosa, de gosto duvidoso. E metade deles falou: ó, eu acho que metade dessa sala aqui vai reparar no que a gente tá usando.

E o resultado final era que só 23% das pessoas que estavam na sala tinham reparado na camisa deles. Agora, o mais interessante é que quando eles estavam usando uma camisa que eles tinham muito orgulho, uma figura que eles admiravam muito, Bob Marley, ou mesmo Martin Luther King, que é uma figura fundamental, né, na defesa dos direitos civis americanos, eles entraram na sala dizendo: vai todo mundo olhar para mim Só 8% das pessoas prestaram atenção que tipo de camisa naquelas que tava usando.

Então olha, quando você acha que tá arrasando, não tem quase ninguém reparando que você tá arrasando. E quando você tá passando uma vergonha, é um pouquinho mais de gente que tá reparando em você. Então olha, você não é o alecrim dourado, você não é o último refrigerante do deserto. Você pode ficar em paz aí que não tem ninguém preocupando, é preocupado contigo. Esse efeito que eles repararam é o efeito que eles vão chamar de efeito holofote, que é justamente isso: a gente sempre acha que as pessoas estão reparando mais na gente do que elas estão.

Mas mais do que isso, a gente sempre acha que elas estão preocupadas com os detalhes da nossa performance de uma forma que elas não estão. Isso tem uma explicação. Toda vez que você faz alguma coisa, toda vez que você faz alguma coisa diante de um público maior, Você tem controle, pelo menos imagina, toda narrativa. Ou seja, você vai numa balada, sei lá, e você põe aquela camisa, você fala: vou chegar na balada, vai todo mundo olhar para mim, e aí um contatinho ou a contatinho vai olhar para mim, isso vai dar em tal coisa.

E quando algo foge do script, quando algo foge daquele roteiro que você imaginou, só você sabe o que que você tinha planejado e o que saiu fora do planejado. Só que só o fato de só você saber disso é que faz com que aquele erro, que é um pequeno desvio de percurso, ganha uma dimensão muito maior do que as pessoas estavam imaginando na hora que você, né, não, que as coisas não aconteceram como você tinha imaginado. Todo mundo que tá no teu entorno só tem um fragmento da tua performance, só sabe um pedacinho desse roteiro.

Então quando algo sai fora do imaginado, quase ninguém repara, porque ninguém sabe o que que você tava querendo fazer, ninguém sabe quais são as suas intenções, ninguém sabe o que que você tava desejando quando fez alguma coisa que você tava fazendo. Então, ó, abandona isso. Agora, por que que você tem que abandonar isso? Primeiro, isso dá um sofrimento danado, né? Você pensar que tem sempre um outro que você vai agradar, que é esse outro imaginado que não existe no real, mas quando você desagrada ele, você sofre porque você desagradou alguém que nem existe.

E nem sabe o que quer de você, diriam lá os psicanalistas. Mas tem um segundo ponto importante, é que isso cobra uma energia mental tão grande que você começa a se comportar imaginando que esse outro tá de olho em você, como se eu tivesse diante do Big Brother, sabe? Câmeras para todo lado. Nem quando a gente assiste reality show Big Brother aí da TV Globo a gente fica de olho 24 horas, que ninguém aguenta ver aquele programa 24 horas porque a vida da gente é desinteressante mesmo.

O que tá todo mundo preocupado é com a edição. E olha, ninguém tem controle sobre isso. Então, ó, aceita que mesmo em tempos de redes sociais, de câmeras pra todos os pedaços da tua casa, na sala, na rua quando você vai, no teu trabalho, é... Esse negócio tá mais dentro da tua cabeça do que na realidade, tá? Então vai vivendo, vai vivendo, vai vivendo.

?Voz 1

Eu tô pensando, Michel, se as pessoas... Se a gente já não tá tão doido que a gente já tá vivendo automaticamente nesse mood de tá todo mundo olhando para mim porque eu sou muito importante, porque afinal de contas eu digo coisas ótimas, ou porque eu sou muito lindo, sei lá, não sei. E sabe que no Réveillon teve uma— eu fui passar Réveillon na casa de amigos, amigos de amigos e tal, e uma das participantes ali da nossa celebração fez várias frases, jogou num pote e foi pedindo para as pessoas tirarem uma frase e tal.

?Voz 2

E eu tirei o ritual do novo místico, né?

?Voz 1

É meio isso. Ah, eu achei legal. Enfim, eu sou zero mística, mas eu achei legal mesmo. Eu falei, ah, vai que sai uma, né, uma mensagem inspiradora.

?Voz 2

Porque uns queimam, vocês queimaram?

?Voz 1

Eu não, vou te contar o que eu fiz. A mensagem era assim: não espere aplausos. A plateia está muito ocupada com as suas próprias questões. Alguma coisa assim. Eu colei no meu espelho do banheiro, eu leio isso todos os dias, que é para a gente não se dar mais importância do que a gente tem. Ou no meu caso, é para isso que serve. Mas eu acho que a gente vive numa era em que as pessoas se dão muito mais importância do que elas têm, não? Será que elas têm noção disso, do que você tá falando?

?Voz 2

Acho que tem dois aspectos super interessantes. Primeiro, desculpa a brincadeira, eu adorei a frase.

?Voz 1

É, mas tem que queimar depois. Se tiver, você me avisa, quem sabe no fim do ano.

?Voz 2

A frase, a frase é ótima, mas é isso mesmo, né? Mas eu acho que a gente caiu nesse conto de achar que tá sempre no centro das atenções, o centro dos holofotes, por duas razões que são bem interessantes. A primeira delas é fruto mesmo da disseminação das plataformas digitais, sobretudo os aplicativos, que fazem a gente temporariamente acreditar que a gente é o centro do mundo. Eu gosto sempre de brincar com isso assim: se você abre o teu aplicativo de mobilidade aí Ele vai perguntar: quer ir pra onde?

Se você abre da rede social, ele vai perguntar: vai acontecer o quê? Se você abre de comida, ele vai perguntar: você quer comer o quê? E aí você acha que tem um mundo preocupado com o que você quer. E ninguém tá interessado em você, se não for, sei lá, sua mãe ou a sua alma gêmea, ou mesmo seu filho, sei lá. Eles de vez em quando vão lembrar que você pode estar precisando de alguma coisa. Mas na real, tá ninguém preocupado contigo.

Acho que a gente só ganha essa dimensão Quando você vive ou alguma situação muito difícil na tua vida, ou você vive um luto, né, muito grande assim. Eu já escutei essas histórias várias vezes de pessoas que viveram lutos muito profundos. Quando, sei lá, perde alguém, você perde alguém que é muito importante para você, o seu pai, a sua mãe, você vai para o enterro, o mundo tá igual, né? Você sai do seu prédio, o mundo tá igual, as pessoas estão indo fazer a vida delas igual, o dia tá bonito, né?

Tudo foge. Daquilo que você imaginava que seria aquele momento. Por conta disso mesmo, né? Na real, ninguém tá preocupado com você de forma muito clara e direta. Você nasce sozinho, você morre sozinho, você vai acompanhar essa jornada da vida junto de alguns outros, mas o problema e os B.O.s da tua vida são seus. Mas acho que tem um segundo aspecto interessante que coloca a gente nesse lugar, é a lógica das redes sociais, onde você posta alguma coisa imaginando a quantidade de curtidas, comentários, compartilhamentos, como se tudo aquilo que você postasse automaticamente tivesse que engajar o teu entorno, né?

O teu contatinho tivesse com vontade de saber que praia você tá, os teus amigos estivessem interessados em saber o que que você comeu. E a gente vai criando essa áurea que leva para a vida cotidiana. E aí, no final das contas, Pode dar um choquezinho de dopamina quando você posta, recebe uma curtida, mas a rebarba ou ressaca pós-rede social é muito maior, que você começa a acreditar que você é mais importante do que você é. Eu me lembro que agora eu lancei essa aula espetáculo aí, né, que eu vou levar para o teatro, Antropologia, e as pessoas ficaram me questionando no começo nos grupos, os amigos me mandavam, né, caramba, ele tá achando o quê, que tese de doutorado pode ir para o teatro?

?Voz 1

Pode.

?Voz 2

E a primeira coisa que eu ouvi de mim mesmo assim quando eu li aquilo era, gente, as pessoas estão me levando mais a sério do que eu mesmo. Que é isso, assim, a gente não tem que levar nada a sério, assim. Isso aqui é uma grande, uma grande brincadeira. Eu uma vez ouvi o Paulo Vieira, esse grande ator, né, e roteirista, o autor, né, de Pablo Luizão, essa série maravilhosa, ele dizendo que ele gostava de acreditar que depois que você morre, Deus chega lá no juízo final e fala para você, e fala e olha para você e fala, ó, era tudo brincadeira, por que que vocês levaram tudo tão a sério?

?Voz 1

Que vocês gostariam de imaginar isso?

?Voz 2

É, então a gente tá levando tudo muito a sério, né? Vai levando na brincadeira que talvez fique mais fácil viver.

?Voz 1

Muito bem. Michel Cofrado tá com a gente em Pra Onde Vamos aqui nesse Estúdio CBN, às segundas, quartas e sextas, para nossa alegria. Obrigada, Michel. Beijo para você. Até quarta-feira.

?Voz 2

Até quarta. Tchau, tchau.

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