Episódios de Comentaristas

Por que o envelhecimento de Xuxa incomoda tanta gente?

01 de agosto de 202610min
0:00 / 10:50
Na turnê "O Último Voo da Nave", Xuxa Meneghel voltou aos palcos e reacendeu um debate sobre envelhecimento, memória afetiva e padrões de beleza. Rossandro Klinjey reflete sobre o desconforto que a passagem do tempo ainda provoca na sociedade, especialmente quando se trata de mulheres.

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Participantes neste episódio2
R

Rossandro Klinjey

HostPsicólogo
B

Beatriz Pacheco

Co-hostJornalista
Assuntos3
  • Envelhecimento e MedoTurnê de despedida da Xuxa · Padrões de beleza e juventude eterna · Julgamento social da mulher que envelhece · Diferença de tratamento entre homens e mulheres
  • Admiração por ídolosÍdolos como espelho da infância · Desconforto com a mudança da imagem do ídolo · O Pão como Símbolo
  • Crítica à cultura estética e consumistaBrasil como campeão de procedimentos estéticos · Busca pela eterna juventude · Perda da identidade em busca de padrões · Aceitação da finitude e do envelhecimento
Transcrição16 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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RKRossandro Klinjey

O divã de todos nós, com Rossandro Klinger. A hora de roçar o brilho aqui no Minuto CBN, roçando.

BPBeatriz Pacheco

Boa tarde, boa tarde, Téia!

RKRossandro Klinjey

Rossandro, hoje a gente vai falar sobre a nossa grande diva Xuxa, que está com uma turnê linda do Show da Xuxa. E é a polêmica, né? Porque nada hoje existe sem a polêmica, né? E qual foi a polêmica envolvendo Xuxa que a gente precisa refletir em cima e um pouquinho além.

BPBeatriz Pacheco

A polêmica que as pessoas fazem, né, eu não vou nem entrar nesse rame-rame que nem cabe no nível do Revista CBN, que é muito elevado. A gente vai fazer a leitura profunda e psicológica do que essa polêmica reflete sobre nós, porque no fundo, no fundo, a turnê que é Último Voo da Nave, que ela falou muito da ideia de que ela queria se permitir envelhecer, as pessoas estavam com a imagem colada dela ainda com aquela chuquinha na cabeça, um corpo de 20 e poucos anos.

E é como se uma mulher tivesse que pedir autorização para envelhecer, né? E aí, primeiro que eu chamo atenção é: Roberto Carlos não precisou disso. Porque para homem é tudo charmoso, né? Cabelo grisalho, charmoso, maturidade. Mulher, tudo cobrança em cima. Mas tem um componente que eu queria falar, Pétio, é o seguinte: é que o envelhecimento dela, ele lembra do nosso. Isso é o mais, é o que tá gerando um desconforto para muita gente.

Porque os ídolos, eles ficam meio que empacotados na imagem que a gente tem, né, deles. E aí a gente fica com aquela imagem ali, é como se a sua infância tivesse preservada. E no momento em que aquela mulher vai lá e diz, ah, eu tô envelhecendo, que bom! E na verdade envelhecer é uma vitória, porque se você não envelhecer é porque você morreu antes, né? Então envelhecer é uma vitória. E ela tá fazendo esse movimento de fechar o arquétipo da menininha de 20 e poucos anos de Chuquinha pra virar uma mulher de 63 anos, como ela é.

E as pessoas fazem muitas reações que falam sobre elas, né? O que eu projeto de mim no meu ídolo? O que eu projeto de mim no mundo das redes sociais? E que a gente pense sobre isso. E a marcação do tempo faz parte da vida. Cumprimos um papel, temos um momento de ápice, de apogeu, temos um momento de ocaso, de pôr do sol da alma. E tudo bem, que é bonito também esse momento, né? Desacelerar, conversar, ver um mundo mais interno, mais de propósito.

São as as 4 estações da alma, como no livro que eu fiz com Cortella, né? A gente tem que saber viver, usufruir e permitir que os outros vivam isso.

RKRossandro Klinjey

Totalmente. Bom, eu tenho muitas reflexões que eu também trago e faço em cima disso que você fala aqui pra gente, né, Rossandro, do tempo e também do envelhecimento. Você começou essa conversa me falando, né, um ídolo como Roberto Carlos ou outros homens jamais vão ser julgados homens por estarem envelhecendo em público, né, no palco, enquanto as mulheres ainda sofrem e muito com esse tipo de julgamento, né. E é o julgamento da aparência e dessa corrida, mas ao mesmo tempo é isso, essa cultura que nós temos, né.

E eu fico pensando o quão, o quanto nós mulheres também a gente precisa ser É como se fosse assim estar contra essa maré, né? E assumir mais o envelhecimento mesmo, dar a cara a tapa mesmo, sabe? Acho que assim, o Brasil é um país campeão de procedimento estético, né? E é o tipo de coisa que só aumenta. Isso também é sinal de uma cultura não só em relação às mulheres, mas há uma cultura extremamente plástica e consumista que não aceita o envelhecimento, não aceita que a gente vai morrer um dia, inclusive.

Tantas camadas, né, sobre como a gente pode e deve olhar para a realidade sem tantas máscaras, né. E nesse sentido é um caso muito interessante para a gente analisar.

BPBeatriz Pacheco

Sim, com certeza. E claro, e a gente, quando você tá falando isso, ninguém aqui tá falando contra o autocuidado, é contra o excesso, é quanto enlouquecimento que está dando, a ponto que muitas harmonizações sociais têm virado demonizações sociais, porque Pô, fica estranho às vezes, né? Perde a noção e começa a ficar exagerado, perdendo os contornos da própria identidade em busca dessa eterna juventude. E no fundo é um eterno aprisionamento a um padrão que é estabelecido como se precisasse assim comunicar-se.

A única coisa que você pode oferecer para o mundo é um corpo e você tem que cuidar dele, porque se você não oferecer isso, quem é você, né? E você é um ser humano, você é uma alma, você tem muitas coisas para além de um corpo que para todos nós, por mais que você use procedimento, em algum momento aquilo não vai fazer mais efeito, né? Tem um limite ali da gravidade que tá aí e a gente precisa entender. Então é desenvolver outras coisas nessa alma da gente para não ficar preso a esse padrão.

É uma das coisas que eu acho que é importante perceber, as muitas capacidades e muitas camadas que a alma tem para se manifestar no mundo, não somente fisicamente falando.

RKRossandro Klinjey

E aceitar o tempo, né? Aceitar que o tempo passa, aceitar que— outro dia eu tava falando sobre isso também numa entrevista Eu quero ver a minha cara quando eu envelhecer. Vamos ver, né? A gente vai ver. Mas eu quero ver a minha cara, quero saber quem eu vou ser quando eu envelhecer, né? E a gente ainda sente muito medo disso, não, Rossandro?

BPBeatriz Pacheco

É uma coisa que nos assusta, porque também isso nos lembra finitude. Mas enquanto a finitude não chega, eu fiquei sabendo que teve uma menina que sonhava em comprar o LP da Xuxa e de repente não foi como ela queria. Me conta a história dessa menina aí.

RKRossandro Klinjey

É muito forte. Ah, você tá dizendo da— você sabe que eu— olha só que danado! Você sabe que quando você me mandou a foto do disco da Xuxa com a música do Hilarié, eu fui buscar, né, lá no YouTube. Você falou, vamos colocar Hilarié no comecinho do nosso quadro. E aí eu fui buscar a música e apareceu a foto do disco da Xuxa. E eu na hora me lembrei, Rossandro, na hora eu me lembrei o meu desejo por esse disco da Xuxa, o terceiro disco da Xuxa.

E eu tinha pedido para minha mãe e ela falou que ia comprar no dia que lançava, era uma segunda-feira. E aí ela não conseguiu comprar porque ela trabalhava o dia inteiro. E aí a terça-feira não conseguiu comprar e a quarta-feira não conseguiu comprar. E eu lembro hoje, eu tive um revival na minha mente desse, entre aspas, trauma, porque minha mãe prometi, não conseguia comprar. E a gente comprou esse terceiro disco da Xuxa que tinha essa música do Hilariê numa sexta-feira.

BPBeatriz Pacheco

Aí eu trabalhei ansiedade, foi de propósito, ela tava quebrando o seu autocontrole.

RKRossandro Klinjey

Ô, Rossandro, mas o que eu fiquei pensando quando eu vi o disco da Xuxa, você me mandou, você falou essa história, né? Vamos pensar nesse envelhecimento, né, nesse curso natural da vida. E eu fiquei pensando, vendo aquele disco, viajando para minha infância, Como pessoas como ela, como a Xuxa. Eu falei aqui da Xuxa e veio um ouvinte: ah, ela não é minha ídola nada. Mas ela foi a minha, foi a minha certamente, de milhões, não é milhares, milhões de brasileiros.

Se ela não foi sua ídola, se você não gosta dela, se você não é fã dela, problema é seu, porque milhões de brasileiros são. E a gente precisa olhar para isso enquanto essas figuras, essas imagens que são importantes nas lições que davam para gente na infância ou pela, por qualquer razão, e que hoje continuam sendo esses símbolos, né, Rossandro? Mexe com a gente ali no inconsciente de uma forma importante. E acho que ainda mais importante ainda que você traz para gente nesse sentido, é o espelho sobre nossa própria vida, né?

BPBeatriz Pacheco

Sempre vai existir pessoas assim. A gente só substitui esses arquétipos de heróis que antigamente eram os heróis gregos míticos e agora são as celebridades. Que ocupam esse espaço, algumas que estão nesse lugar com uma responsabilidade e outras que nem tanto, né, que estão aí vendendo vícios para as pessoas. Mas essas pessoas sempre vão ocupar o nosso imaginário social coletivo, sempre vão nos inspirar para o bem, para o mal. E aí faz parte.

Então assim, a infância, Xuxa marcou muitas gerações, ela teve um programa muito longevo, é um fenômeno que inclusive é conhecido internacionalmente ela, né, não só no Brasil pelo impacto que ela teve, até na moda inclusive. 100 nomes da moda no mundo. Então assim, não dá para desconsiderar, mas então é normal que também seja meio angustiante ver que ela tá envelhecendo e a gente tá indo junto, né?

RKRossandro Klinjey

Tá no mesmo espelho, é o nosso espelho. Rossandro Klinger com a gente agora aos sábados aqui com você trazendo reflexões. E hoje a nossa reflexão sobre o tempo e a passagem do tempo, olhando para nossa grande rainha dos baixinhos, a Xuxa. Beijo querido, boa semana para você.

BPBeatriz Pacheco

Para ti também, Teca. Beijo, tchau.

RKRossandro Klinjey

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