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Eleição na ONU expõe crise do multilateralismo e limites do Conselho de Segurança

31 de julho de 202620min
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Bruna Santos explica como funciona a escolha do próximo secretário-geral da ONU e afirma que a paralisia do Conselho de Segurança, agravada pelo poder de veto das grandes potências, evidencia a necessidade de reformar o sistema multilateral.

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Participantes neste episódio2
T

Tati

HostApresentadora
B

Bruna Santos

ReporterDiretora no Inter-American Dialogue
Assuntos4
  • Eleição para Secretaria-Geral da ONUConselho Seguranca ONU · Poder de veto · António Guterres · Representatividade feminina · Representatividade latino-americana
  • MultilateralismoMultilateralismo · Crise do Conselho de Segurança · Guerra na Ucrânia · Conflito em Gaza · Desgovernança global
  • Reforma Política e Sucessão no PTConselho Seguranca ONU · Brasil no Conselho de Segurança · Ordem internacional pós-guerra · Interesses das potências
  • Carreira de Nelson MottaRepresentatividade latino-americana · Equilíbrio e independência · Compromisso com o risco social · Futuro das novas gerações
Transcrição27 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
BSBruna Santos

CBN Pelo Mundo com Bruna Santos.

TTati

Diretamente de Washington, toda sexta-feira com a gente, Bruna Santos. Boa tarde.

BSBruna Santos

Boa tarde, Tati, tudo bom?

TTati

Tudo bom. Hoje a gente vai falar sobre eleição para escolher o próximo secretário-geral da ONU, que começou ontem com votações informais e secretas no Conselho de Segurança. E o que tá em jogo é a sucessão de António Guterres, que vai deixar o cargo em 31 de dezembro deste ano. 6 principais candidatos estão disputando o posto e pelo que eu vi até aqui tem uma mulher favorita, pelo menos agora nessa saidinha aí. Mas vamos começar do começo, Bruna.

Explica para a gente como é que na prática funciona a escolha do novo secretário-geral da ONU e por que isso importa.

BSBruna Santos

Claro. Bom, primeiro eu acho importante notar que não é uma eleição como o que a gente imagina, né? A ONU ela é composta por entre 3 países. Esses países, então, os candidatos são apresentados por estes estados-membro, eles divulgam ali os seus currículos, fazem as suas propostas, participam de uma série de conversas, de audiências. E depois dessa etapa, que é a etapa, vamos dizer assim, mais transparente, a decisão entra numa fase que é uma fase essencialmente política, que se dá dentro do chamado Conselho de Segurança da ONU.

E esse conselho, ele tem 15 membros que vão fazer as votações em relação à escolha desses, dentre esses candidatos. Qual é a questão? Para que o nome avance, ele precisa receber pelo menos 9 votos dentre, dentro desses 15, e principalmente não pode ser vetado por nenhum dos 5 membros permanentes. Então acho que essa é a grande questão política. E quem são esses membros permanentes? Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido.

Então, na prática, quem manda no processo são esses 5 membros permanentes, porque eles têm essa prerrogativa do veto. Se eles não quiserem um candidato, isso não avança. Aí, depois disso, o Conselho então recomenda esse nome para Assembleia Geral, que formalmente faz aí a nomeação. O que que eu acho que é interessante assim? O secretário-geral, ele não é só o líder, o secretário ou a secretária-geral não é só o líder que faz a gestão da ONU, ele opera também como um grande diplomata global, um diplomata que vai conduzir negociações, vai nomear os enviados especiais em determinadas circunstâncias, vai mobilizar respostas humanitárias, vai tentar construir pontes e diálogos, né?

A gente sabe que essa escolha esse ano vem com, acho que, uma pressão dupla, né? Uma, a vontade e o desejo, acho que, de muita gente de ter representatividade, de finalmente haver uma secretária-geral da ONU, uma mulher. E existe também a expectativa de que seja uma pessoa latino-americana. Porque essa é uma rotatividade regional, Tati, que acontece, que não tá escrita em lugar nenhum, mas existe em alguma medida uma expectativa de que esse candidato seja de alguns desses, dessa região, né?

Aqui nos bastidores as coisas já estão esquentando, como você falou, né? Já está acontecendo ali essas rodadas informais, essas rodadas secretas. A favorita é a costarriquenha Rebecca Grispan, que é quem saiu na frente com 10 votos de apoio, seguida pela candidata da Guiana, Carolyn Rodríguez, e o argentino Rafael Grossi. Além disso, tem uma outra candidata com quem inclusive eu estive essa semana aqui em Washington, que é a ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet.

Que é a candidata que o México apoia, o Brasil apoia, o Chile também apoiava, pelo menos até o início, até março desse ano era candidata chilena, até que o atual presidente do CAST retirou esse apoio. Mas seria sem dúvida uma candidata excelente porque já é uma pessoa também da ONU, já foi ministra da Saúde, ministra de Defesa. Do Chile, é responsável, foi responsável, Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, tem uma ligação, é pediatra, tem uma ligação super forte com a atuação da UNICEF, já foi diretora executiva da ONU Mulheres.

Então seria, sem dúvida, uma grande candidata, mas o caminho até lá é turbulento.

TTati

A gente tem discutido de uns tempos para cá a crise do multilateralismo. A crise dos organismos multilaterais, né? Talvez na mesma medida em que a gente viu ascender no mundo figuras de extrema-direita, né, que não poupam esforços para minar o poder dos organismos multilaterais como a ONU. Mas não só, a Organização Mundial do Comércio tem voltado à baila também por causa das tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil. A própria Organização Mundial da Saúde foi muito atacada durante a pandemia.

Ou seja, essa é uma discussão que tá aí, né, que tá em torno da ONU, enfraquecimento desses organismos. Nesse contexto, eu te pergunto, e lembrando sempre que os organismos multilaterais, eles têm esse nome porque eles são formados por representantes dos países, né, que em alguma medida estabelecem as regras e o funcionamento dessas instituições. Bom, eu tô fazendo esse preâmbulo grande para dar um contexto a partir do qual te pergunto: por que a ONU tem sido tão impotente diante de guerras como a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a devastação que fizeram na Faixa de Gaza Estados Unidos e Israel, e agora na Cisjordânia?

A gente sabe que tem ali um mecanismo na ONU, no Conselho de Segurança, que é o poder de veto, que atrapalha muito as negociações. Tem a ver com isso?

BSBruna Santos

Tem, tem a ver com isso. E é muito bom você dar todo, fazer todo esse preâmbulo, porque a gente fala, a gente fala desses, dessas organizações de forma sempre muito abstrata, né? Elas, existe uma incompreensão muitas vezes da forma concreta como essas organizações atuam. Mas acho que para além do Conselho de Segurança da ONU, que teria essa prerrogativa de, né, construir ali um consenso entre os países-membro. A ONU tem também uma série de outros organismos, né?

Tem a própria Unicef, que é muito reconhecida na ponta. A própria OMS é do sistema ONU. Então eu acho que existe uma outra, uma grande, um grande arcabouço de ações humanitárias, de apoio a refugiados, de apoio à saúde, que muitas vezes não é vista por muita gente, né? Mas aí entrando na questão do do Conselho de Segurança e do quanto a ONU é percebida como impotente e tem sido realmente impotente em resolver e trazer a paz para o mundo, né?

Hoje é importante lembrar que a gente vive, o planeta conta hoje com cerca de 60 conflitos ativos. Isso é um índice muito alto, o maior registrado desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Isso não é trivial, né? E acho que diante dessa desgovernança global, a gente percebe a ONU impotente muito frequentemente porque a gente espera que ela funcione, que ela funcionasse como um governo. E na verdade ela é, como você disse, Paty, uma organização de estados soberanos.

Ela não possui exército, a ONU não tem exército, a ONU não controla forças policiais, não consegue obrigar uma grande potência a interromper uma guerra. Sem que os próprios países-membro lhe deem essa autoridade e esses meios, né, para isso. Eu acho que a escalada do conflito no Oriente Médio, a impotência da ONU diante do conflito na Ucrânia, ela reflete sim esse colapso estrutural de uma ordem internacional que foi criada no pós-guerra.

Eu acho que o sistema multilateral, ele precisa sim refletir esse mundo em que nós vivemos. Mas uma coisa que a gente percebe e fica muito óbvia é a paralisia do Conselho de Segurança e o quanto o Conselho de Segurança não tem conseguido concordar em nada substancial.

TTati

Sobretudo porque precisa de unanimidade, né, em alguns casos.

BSBruna Santos

Precisa de não haver veto. Eu acho que esse é o principal aspecto. Quando você tem ataques diretos vindos de dentro, como foi o caso da invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, em que você expôs objetivamente um ataque à Carta da ONU realizado por um membro permanente, ali parece que a coisa realmente descambou e desde então não surgiram alternativas que endereçassem essa fragilidade do modelo. E aí você tem uma crise um anacronismo, que é um Conselho de Segurança e um sistema que como um todo não consegue recuperar sua força porque continua a espelhar o mundo de 1945 e o mundo depois do fim da União Soviética, o mundo de 1991.

É muito anacrônico. Você precisa, acho que, pensar formas, e essa é uma das bandeiras do Brasil, de redesenhar essas instituições para que a gente não caminhe para uma uma desgovernança, para uma desordem, né? Porque é isso, a ONU acaba sendo seletivamente incapacitada por conta dos interesses das grandes potências, nesse caso principalmente Rússia e Estados Unidos.

TTati

Há quem defenda uma reforma profunda, sobretudo no Conselho de Segurança, e o Brasil há anos pleiteia um assento permanente. Eu, desde que eu sou foca do jornalismo, viu, Bruna? Desde que eu assumi esse microfone E não faz pouco tempo a gente fala que o Brasil pleiteia, sempre reivindica um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Qual é? Você disse que o Brasil tá apoiando a candidatura da chilena Michelle Bachelet.

Qual é o interesse do Brasil nessa eleição e qual é a possibilidade de, a partir dela, essa reforma de fato ser feita?

BSBruna Santos

Olha, eu Eu acho que, bom, primeiro eu acho que a Michelle Bachelet, ela seria uma secretária-geral latino-americana que obviamente fortaleceria a representação da região. Acho que isso para o Brasil é extremamente importante, além de ser uma liderança que demonstra equilíbrio, independência e demonstra assim entender o papel dessas potências médias que a gente chama, né, como Brasil, como Índia, México, Canadá, países que precisam ter uma maior representatividade dentro desse sistema.

E agora sobre a reforma, eu acho que tá tão óbvio, né, num mundo tão violento você ter uma, e uma que está cada vez mais correndo por fora buscando alternativas ao sistema, né, tanto ao sistema ONU quanto ao OMC, e tentando lidar com os problemas através de novas arquiteturas, tá tão óbvio que essa reforma é necessária, que uma liderança que conseguisse construir esse consenso em torno da necessidade dessa reforma seria o ideal para o caso brasileiro e para os demais países.

Agora, eu não tenho muita esperança Tati, de que isso venha acontecer no futuro próximo, especialmente diante da sabotagem mesmo que vem acontecendo sistematicamente por parte especialmente dos Estados Unidos com relação a essas organizações. Eu acho que é muito, é muito óbvio, mas é muito, é muito difícil você delegar, você ter poder e delegar esse poder, né? Não é trivial isso. Precisa haver um comprometimento com essa essa ordem que não é mais uma ordem unipolar, não é só os Estados Unidos, você tem uma série de outros países que têm força e que querem participar dessa tomada de decisão.

Agora, eu não tenho muita esperança diante das— olhando as lideranças que estão hoje no poder, especialmente nesses 3 países: China, Rússia e Estados Unidos. Você tem 3 grandes ali imperadores, assim, praticamente, né? Tanto Xi Jinping quanto o Putin quanto o Trump são lideranças de um perfil muito menos multilateral do que qualquer coisa. Então acho que a gente vai continuar nessa desordem. Mas assim, o ruim com a ONU, pior sem ela.

Eu acho que o papel, de novo, assim, eu acho que por mais que haja essas falhas do Conselho, o papel dessas outras organizações mundo afora é um papel muito importante. E essas organizações, elas estão sofrendo muito com falta de financiamento, com falta de recursos. Acho que é o melhor exemplo para todo mundo é a UNICEF, assim, o papel da UNICEF na promoção da vacinação, na promoção da saúde, na resposta a crises humanitárias é muito significativo. E essas organizações estão muito comprometidas, assim.

TTati

E desidratadas financeiramente também, intencionalmente por alguns países, né? Como os Estados Unidos, por exemplo.

BSBruna Santos

Exatamente, é a retirada dos Estados Unidos de apoio financeiro a estas instituições, é algo que realmente coloca elas, nossa, em uma crise generalizada. Bem com ela, pior sem ela.

TTati

É, sem dúvida nenhuma. Você quer contar mais alguma coisa sobre o seu encontro com Michele Bachelet essa semana?

BSBruna Santos

Sim, nossa, foi maravilhoso descobrir que ela é fã de Roberto Carlos.

TTati

Veja você!

BSBruna Santos

Achei tão legal. Mas eu até tomei nota aqui de algumas coisas que ela falou que eu acho que são interessantes, porque uma das perguntas que eu fiz para ela foi: como é que esses arranjos alternativos que estão acontecendo por conta, inclusive assim, de não haver na ONU muitas vezes o espaço para o consenso, podem se, podem apoiar a gestão dela, né, e de alguma forma ela, que isso sirva de inspiração até criativa para uma, para um novo multilateralismo.

E aí ela falou muito de uma, ela falou muito sobre a importância de sim haver esses novos arranjos, essas novas alianças, essas formas diferentes de trabalhar para além da ONU, mas você precisa ter um tecido conector assim para essas, para esses diferentes instrumentos. E a outra coisa que ela falou que me chamou muito a atenção foi o compromisso dela com o risco social e com o futuro dos jovens, assim, das futuras, das novas gerações.

Porque a gente que nasceu no Brasil democrático praticamente, ou viveu uma maior parte da vida no Brasil democrático, democrático, viveu maior parte da vida num mundo em que a ONU existe, a gente não conhece o mundo praticamente sem isso, né? A gente não, a gente desconhece essa desordem. E talvez seja esse o futuro dos nossos filhos, assim, das futuras gerações. Então isso que ela trouxe eu achei muito interessante. A gente toma como dado a existência de uma arquitetura global, de sistema que tudo bem foi desenhado para o mundo de 1945, não reflete a realidade atual, mas é o que é, o que tem, é o que temos, né, o que ainda temos para resolver alguns conflitos, sobretudo quando a gente tá falando dos conflitos que acontecem no continente africano, na Ásia, na América Latina, não só os grandes conflitos envolvendo as grandes potências, né, o quanto essas, essa população acaba ficando aí na franja do mundo, assim.

Achei bem interessante o que ela contou. Mas eu senti, Tati, uma— e todo mundo que eu converso aqui, uma— aquela esperança meio murcha, assim, né? Tipo, você ouve uma pessoa super inspiradora, uma pessoa com um comprometimento, com uma clareza, mas ao mesmo tempo você abre o jornal e tem uma história ali de talvez ter o presidente da FIFA como indicado à ONU, que é uma brincadeira jocosa, mas que demonstra um pouco a falta de respeito e apreciação pela instituição, né?

Então eu sinto uma esperança um pouco murcha assim nas pessoas que estavam ali ouvindo e realmente um desperdício de talento e de liderança.

TTati

Sim. Quando é que terminam as eleições, Bruna? Quando é que a gente vai conhecer o novo secretário-geral da ONU ou a nova secretária-geral da ONU?

BSBruna Santos

Pois eu não sei, Tati, não sei a data exata.

TTati

Ótima pergunta. A gente vai por aqui, mas é um preço.

BSBruna Santos

Apura e conta, porque eu não sei a data exata, mas até o, com certeza até o fim desse ano.

TTati

Sem dúvida, a posse é 1º de janeiro de 2027 e o mandato dura 5 anos, certo?

BSBruna Santos

Isso, isso, isso, normalmente renovado, né? Normalmente eles, o mandato é automaticamente renovado Então a gente pode esperar aí pelos próximos 10 anos, como foi o caso do atual secretário-geral Guterres. Exatamente.

TTati

Bruna Santos, diretamente de Washington, conosco toda sexta-feira no nosso CBN Pelo Mundo. Obrigada, Bruna.

BSBruna Santos

Legal, obrigada, Tati.

TTati

Até semana que vem.

BSBruna Santos

Tchau, tchau.