Por que falar sobre a morte ficou cada vez mais necessário?
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
Michel Alcoforado
Camila Appel
- Morte e RessurreiçãoLegado como alívio para ansiedade · Impacto deixado no mundo · Aceitação da finitude
- Survivor no Brasil e "No Limite"Envelhecimento da população · Mudança nas causas de morte · Tabu social sobre a morte
- Planejamento vs deixar para última horaOrganização de bens · Facilitação para os que ficam · Informações financeiras e de bens
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Pra Onde Vamos com Michel Alcoforado. Fala, Michel, boa tarde.
Boa tarde, Tati.
Tudo bem?
Tudo, e com você?
Tudo bem também. Bom, às sextas-feiras já ficou convencionado que aqui em Pra Onde Vamos Michel Alcoforado traz uma discussão a partir de um livro. E o de hoje é o livro novo da Camila Appel chamado Enquanto Você Está Aqui, certo?
Adorei esse livro, adorei acompanhar lá na Flip uma conversa com ela. Esse livro foi publicado agora pela Editora Fósforo e trata desse drama que atravessa a sociedade brasileira, que é a maneira como a gente se relaciona com esse assunto central à vida de todos nós, que é a morte, né? Todos nós não sabemos muito bem como é que vai ser o dia de amanhã, o que que vai ser da gente ano que vem, nada disso. Mas uma coisa todo mundo é certo desde o dia que vem ao mundo: você sabe que uma hora tua hora vai chegar, né?
Você vai morrer. Por mais que a gente goste de esquecer esse assunto, faz o possível para não lembrar, a finitude é uma verdade que se apresenta para todos nós em algum momento. E o que é interessante é que a motivação da Camila para pensar esse assunto foi muito orientada pela finitude dos pais, que é um momento importante para cada um de nós começarmos a pensar sobre o nosso próprio momento de vida, né? Em que momento a nossa hora também vai chegar?
E ela traz essa ideia, né, muito a partir das reflexões que ela já tinha num blog, num jornal, sobre por que que na sociedade brasileira esse assunto é tão delicado e como a gente faz para fugir desse tema. E o que é interessante é que, de algum modo, pensar sobre a morte, falar sobre a morte, discutir a morte vai se colocar como uma questão central pra gente. Olha, o primeiro ponto aqui importante é sociodemográfico. Como a gente já falou em inúmeros momentos aqui, em vários comentários, o Brasil é um país que passa por um processo de envelhecimento muito acelerado.
Então, com mais gente próxima a você, com mais idade, de algum modo a ideia de morrer vai se colocando como uma questão central. O segundo ponto que é fundamental e a gente não pode deixar de lado é o tipo de morte que a gente vem lidando. Né, o tipo de morte, ou do quê, as causas, as causas, a causa mortis da boa parte das pessoas que agora, como é que eu posso falar isso de um jeito melhor, a causa da morte de boa parte dos brasileiros hoje, com o processo de avanço da medicina e com o processo de sofisticação dos cuidados, o que tem acontecido é que aquela morte por acaso, repentina, que do nada fulano morreu, ela vem diminuindo, né?
A gente vem diminuindo as mortes atreladas a acidente, vem diminuindo as mortes atreladas a eventos rotineiros. Ai, fulano infartou, não sei o quê, do nada a pessoa veio a falecer. E a gente vem fortalecer, vem aparecendo com mais força um tipo de morte que tá diretamente atrelado ao processo de envelhecimento, seja um câncer Ou seja, também mortes relacionadas à demência. Uma ambulância, tomara que as pessoas estejam tudo bem, tudo bem.
Seja atrelado à demência, seja atrelado ao processo de qualquer causa mental, ou seja atrelado mesmo os casos de câncer. Essas mortes que se apresentam lentamente para as pessoas, elas cobram daquele que tá passando por aquele momento alguma reflexão sobre o próprio momento. O que coloca, né, de forma geral, esse assunto como assunto central nos nossos papos. Então, gostando ou não do tema, sendo ou não tabu na sociedade brasileira, a gente vai cada vez mais discutir o que é a morte, o impacto dela nas nossas vidas, como a gente desejaria morrer e o que a gente gostaria que acontecesse com a gente depois da nossa morte.
O número de testamentos, de discussões sobre a partilha dos bens pós-morte só cresce, né? A quantidade de gente se preocupando como é que vai ser a vida depois que for só cresce, o que revela essa transformação. Agora, gostando ou não, sendo tabu ou não, pensar sobre a própria morte em geral tem causado ansiedade nas pessoas, né? Porque você imagina, é um assunto que a gente não pensa, não tá preparado para discutir com os outros, ninguém discute com você.
E aí você fica, meu Deus, como é que eu vou lidar com esse assunto? E uma saída interessantíssima que tem aliviado boa parte desse sofrimento de pensar e refletir sobre esse assunto é pensar sobre legado, que é que tipo de história você quer que as pessoas contem sobre você e que tipo de impacto você tá preocupado em deixar no mundo. Uma pesquisa feita nos Estados Unidos agora mostrou que as pessoas que têm mais clareza da marca que elas deixaram no mundo.
Pode ser um trabalho social, pode ser algo que elas inventaram, pode ser um livro que elas escreveram, pode ser algo muito legal que elas produziram na própria família, um novo laço, os netos que elas viram crescer. Sei lá, qualquer coisa que você tenha uma ideia de que você, de algum modo, vai continuar vivendo depois que você morre, por conta das marcas que você deixou no seu entorno, isso faz com que você aceite esse assunto e lide melhor com esse tema.
De um jeito que não te gere tanto sofrimento. Então, dado que a morte é inevitável, começar a pensar sobre legado, independente do momento que você tá, é uma boa saída.
E quando a gente fala de legado, eu sei que tipo de legado você tá dizendo, mas também o tabu da morte nos impede de falar de legados práticos, né? O que que a gente vai fazer com aquele carro? O que que a gente vai fazer com aquele apartamento? O que que a gente vai fazer com a conta bancária? Quanto mais organizado isso tiver, melhor para quem fica, né, Michel?
É, tem que pensar do mesmo modo que você se prepara quando alguém vai nascer. A gente também devia se preparar quando ou a gente ou alguém próximo vai falecer ou pode vir a falecer, dado que, como eu disse, cada vez mais tem diminuído o número de casos de morte repentina por conta do desenvolvimento da medicina. E aí é coisa fácil, né? Assim, é Se puder, se vier de uma família, se tiver alguma coisa mais complexa para deixar para os seus descendentes— ah, eu tenho 2 filhos, 3 filhos, um apartamento, sei lá, tem um netinho na faculdade, tem um dinheirinho que eu tenho de previdência, tem a poupança, sei lá do quê— anota no papel, né?
Se puder fazer com advogado, melhor. Mas senão, só já de você deixar anotado num caderninho o que que você gostaria já facilita a conversa. Ah, eu tenho conta no Banco X, conta no Banco Y, conta no banco sei lá o quê. Dado que agora a gente tem mais bancos do que tinha no passado, antigamente você tinha uma única conta e era mais fácil. Anota num papelzinho, deixa debaixo do armário, debaixo do colchão, em algum lugar que as pessoas em algum momento depois da missa de sétimo dia vão lá futucar suas coisas.
Deixa lá no caderninho quanto você tem, a sua senha, onde está o dinheiro. Cria uma pastinha de documento porque É isso, né? É do mesmo jeito. A gente precisa falar de morte porque a gente tá todo momento falando de vida, né?
Sem dúvida nenhuma. Michel Cofurato tá aqui para nos provocar esses debates às segundas, quartas e sextas em Pra Onde Vamos. Obrigada, Michel, um beijo para você, bom fim de semana.
Camila Apel, livrinho dela Saída pela Fósforo, agora publicado pela Fósforo, vale a pena, hein? Eu indico. Um beijo, até segunda.
Enquanto você está aqui É o título do livro.